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Como criar crianças doces num país ácido | Taís Araújo | TEDxSaoPaulo

Tradutor: Victória Ferraz Revisor: Leonardo Silva

Eu sou mãe de um menino de seis anos, chamado João Vicente, e de uma menina de dois anos e sete meses, chamada Maria Antônia.

E a pergunta que eu mais escuto, a pergunta que mais me fazem é:

"Qual a diferença entre criar um menino e criar uma menina?"

E a minha resposta, ela é sempre muito imediata, ela é sempre a mesma: eu sempre falo que não vejo diferença entre criar meninos e meninas.

Eu estou criando dois indivíduos; portanto, cada um tem sua característica.

Essa minha resposta, apesar de sempre a mesma, ela é uma mentira.

Eu vejo diferença entre criar meninos e meninas.

O gênero é uma questão, porque quando eu engravidei do meu filho, eu fiquei muito, mas muito aliviada, de saber que no meu ventre tinha um homem, porque eu tinha a certeza que ele estaria livre de passar por situações vivenciadas por nós, mulheres.

Teoricamente, ele está livre, certo?

Errado.

Errado porque o meu filho, ele é um menino negro, e liberdade não é um direito que ele vai poder usufruir.

Se ele andar pelas ruas descalço, sem camisa, sujo, saindo da aula de futebol, ele corre o risco de ser apontado como um infrator, mesmo com seis anos de idade.

Quando ele se tornar adolescente, ele não vai ter a liberdade de ir pra sua escola, pegar uma condução, pegar um ônibus, com a sua mochila, com o seu boné ou com o seu capuz, com o seu andar adolescente, sem correr o risco de levar uma investida violenta da polícia, ao ser confundido com um bandido.

Porque, no Brasil, a cor do meu filho é a cor que faz com que as pessoas mudem de calçada, escondam suas bolsas e que blindem seus carros.

A vida dele só não vai ser mais difícil do que a da minha filha.

Com a Maria Antônia, eu me pego pensando o tempo inteiro o quanto nós, mulheres, somos criadas pra agradar, o quanto nos silenciam, e o quanto nos desqualificam o tempo inteiro.

Quando eu penso o risco que ela corre, simplesmente por ter nascido mulher e negra, eu fico completamente apavorada.

E o meu pavor, ele tem uma razão.

Observando o mapa da violência no Brasil - esse mapa era de 2015, é o último que a gente tem - os números são muito alarmantes, mas nós temos algumas vitórias muito poucas, mas eu queria ressaltar uma.

O número de feminicídio contra mulheres brancas, ele caiu.

Ele caiu 9,8%. É muito pouco pro que a gente deseja para nossas irmãs brancas, mas caiu.

Já o número de feminicídio contra as mulheres negras aumentou 54,8%. É ou não pra eu ficar apavorada?

Preciso dizer mais alguma coisa?

Preciso.

Preciso dizer que, apesar do meu pavor, apesar do meu medo, apesar desses números alarmantes, eu não ouso perder a esperança e fico elaborando o tempo inteiro uma maneira de eu criar meus filhos aqui, no Brasil, no meu país.

Eu fico pensando em como criar crianças doces num país tão ácido; como criar crianças que acreditem que pluralidade e diversidade são riquezas, num país que é tão plural, que é tão diverso e que é tão desigual.

Como não jogar sobre elas uma vivência, experiência e até uma mágoa que é minha?

Mas também, como não permitir que elas enfrentem o mundo de maneira ingênua, pra que não sejam atropeladas pelo racismo que existe na estrutura do nosso país?

Eu assisti a um filme chamado "A 13ª Emenda", um documentário.

Ele fala sobre o sistema carcerário norte-americano, e a fala de um homem, de um homem branco, me chamou muito a atenção.

Ele disse:

"Eu sou fruto de uma escolha feita pelos meus antepassados.

Os negros são fruto de uma falta de possibilidade de escolha dos seus antepassados.

Eu, homem branco, tenho culpa dessas escolhas?

Os negros contemporâneos têm culpa dessas escolhas?

Não, nenhum de nós temos culpa, mas foi uma herança que a gente recebeu, então, a gente tem que ter a responsabilidade de lidar com essa herança, das quais somos fruto".

Fiquei pensando no que esse cara falou e eu falei: "Gente, o que ele está falando?"

Essa "herança" que esse cara tá falando, ela tem um nome, e ela se chama "nossa sociedade".

Sendo assim, a desigualdade social, a desigualdade entre gêneros e o racismo são, sim, problemas de todos nós.

E não é só problema de gênero, não, porque até a condição sexual importa muito nesse país.

O Brasil é o país que mais mata homossexual no mundo.

Os meus filhos, eles são crianças ainda, eu não sei qual será a condição sexual deles, mas o que desejo pros meus filhos é o que desejo pra toda e qualquer criança, seja branca, negra, indígena, heterossexual, homossexual, gay, trans: eu desejo que eles cresçam livres, cheios de amor, coragem, que sejam crianças potentes.

E eu também tenho um sonho.

Eu tenho um sonho de ver ricos trabalhando pra acabar com a pobreza, de ver homens se colocando no lugar de mulheres, de ver mulheres brancas entendendo que existe um abismo entre mulheres brancas e mulheres negras.

Eu tenho o sonho de... ver crianças heterossexuais aceitando crianças homossexuais e trans, de ver mulheres heterossexuais aceitando mulheres lésbicas, e todos nós, que a gente fique muito atentos pra garantir o direitos dos índios.

E, eu queria aqui hoje fazer um convite, um convite pra gente se ajudar mutuamente, se ajudar pra que todos possam ter, de fato, as mesmas possibilidades, porque perante a lei, somos todos iguais, mas na prática não somos.

E isso não é um problema.

As diferenças não são um problema, desde que elas não causem desigualdade.

Pra isso acontecer, eu tenho a sensação que a gente tem que começar a olhar pro outro, com humanidade, com afeto. É um exercício.

Olhar pro outro com afeto é um exercício, e entender que o outro é, sim, uma extensão da gente.

Olha, se a gente quiser andar tranquilamente pelas ruas, de dia e de noite; se a gente quiser ficar nas nossas casas sem aflição de saber como ou se os nossos filhos chegarão aos seus destinos; se a gente quer ligar a televisão, e não assistir a uma enxurrada de sangue; se a gente quer andar com nossos carros abertos, com os vidros abertos, não quiser ficar fazendo conta de quanto será blindar um carro; a gente vai ter que melhorar a vida das pessoas. É a única maneira.

E uma chance disso é a gente olhar pro outro com afeto, com atenção.

E aí, fica a pergunta né: como a gente pode melhorar a vida das pessoas?

Eu não sou o governo, eu não sou uma empresa... porque um governo sério, a gente sabe o que ele deve fazer pra acabar com a desigualdade.

Ele deve investir em políticas públicas, em ações afirmativas, em políticas educacionais inclusivas...

Uma empresa pode reavaliar o seu quadro de funcionários e fazer da diversidade um pilar real dessa companhia.

Mas e a sociedade civil?

O que a sociedade civil pode fazer?

Bom, nós somos a sociedade civil, e essa tem sido a questão da minha vida:

"Como eu posso melhorar a vida das pessoas?"

E aí eu fico pensando que talvez a gente tenha que transformar os nossos pensamentos, as nossas falas, em ação, e entender que as ações individuais, elas geram impacto diretamente no coletivo, e o coletivo somos nós, somos a nossa sociedade.

As pequenas ações, elas são valiosas e elas são capazes de mudar o mundo.

E onde começa o mundo, se não em nós mesmos?

Obrigada.

(Aplausos)

Obrigada.

(Aplausos)