Coronavírus - Prof. Claudio Claudino
Olá! Eu me chamo Cláudio Claudino, sou enfermeiro e professor da Universidade
Federal da Fronteira Sul - Campus Chapecó, [atuo] nas áreas de Saúde
Coletiva e Gestão e Gerenciamento em Saúde e Enfermagem, dentre outras. A gente vai falar um pouquinho sobre a importância do SUS, Sistema Único de Saúde, neste contexto pandêmico do novo coronavírus e da COVID-19, que é a doença gerada por ele. O Sistema Único de Saúde é um sistema relativamente novo, que nasceu com a constituição cidadã de 1988, e que já trazia alguns pilares que são fundamentais para o enfrentamento dessa pandemia: a universalidade do acesso. Então, todos têm direito ao acesso, apesar de que existem estudos, por exemplo, a Pesquisa Nacional de Saúde de
2013, que trazem que, aproximadamente, 80% da população brasileira depende, exclusivamente, do Sistema Único de Saúde, e mesmo os 20% que têm acesso ao plano privado, à saúde suplementar, também usam o Sistema Único de Saúde. Então, ter plano de saúde e, aparentemente, não frequentar as unidades básicas de saúde, por exemplo, não isenta você de também ser um usuário do Sistema Único de Saúde. A partir do momento que você bebe água, que você usufrui de alimentos em sua residência está utilizando as diversas vigilâncias que o Sistema Único de Saúde dispõe para controle da qualidade de inúmeros produtos do nosso dia a dia. Além de que, por exemplo, a rede privada não disponibiliza a maior parte do calendário vacinal básico brasileiro que, no caso do Sistema Único de Saúde, é considerado o maior e melhor calendário vacinal básico do mundo. Então, nós temos essa grande vantagem para enfrentamento de uma pandemia. Lembrando que não existe ainda nenhum imunobiológico comprovadamente eficaz, específico para o novo coronavírus. O que se fala bastante e que é preciso se frisar é que a atual campanha de vacinação, antecipada pelo Ministério da Saúde, para a gripe, para influenza, evita que haja uma comorbidade, especialmente em grupos de risco, e também facilita o diagnóstico pela similaridade dos sintomas entre as influenzas que vêm nos assolando há anos e que, por isso, nós temos anualmente esse imunobiológicos à disposição. Além disso, outros pilares, princípios ou diretrizes do Sistema Único de Saúde que nós podemos citar que serão e são fundamentais para enfrentamento dessa pandemia são a integralidade, que é atender a todas as necessidades do usuário que necessita do sistema de saúde, desde as unidades básicas de saúde até os serviços que são considerados de alta densidade tecnológica, alta complexidade, que são os hospitais, as UTIs.
A participação popular e controle social também são muito importantes neste momento para que nós ajudemos e auxiliemos o próprio poder público, as fiscalizações, também necessárias neste momento, do bom uso dos recursos públicos, por exemplo, e também da não disseminação de fake news, que, hoje, neste momento, mais atrapalham do que ajudam o poder público e a sociedade de modo geral a enfrentar essa pandemia de forma menos traumática possível. E os princípios e diretrizes de descentralização e hierarquização são também muito caros ao sistema de saúde, já que, pela descentralização, o usuário do sistema de saúde e a usuária precisam ter acesso, o mais próximo possível de onde moram, a serviços que eles necessitem. E a equidade, que também é um princípio doutrinário do Sistema Único de Saúde, diz respeito a dar mais para quem precisa mais. Então, essa avaliação, essa classificação de risco tem sido feita pelo Sistema Único de Saúde, justamente, para conduzir as pessoas, por exemplo, as pessoas que precisam de UTI, primeiramente, em relação aos casos leves e moderados a da covid - 19, que é a doença gerada pelo novo coronavírus.
Do ponto de vista de limitações do Sistema Único de Saúde, que é claro que nós teríamos. Um sistema tão audacioso e para uma população que supera os 200 milhões de usuários, não necessariamente os exclusivos, as limitações são de ordem também geográfica. Nós temos um país com dimensões continentais, nós temos diversos estados da federação que não necessariamente adotam as mesmas políticas de enfrentamento da covid-19, então, o Ministério da Saúde tem esse papel de uniformizar, digamos assim, as políticas de enfrentamento da covid-19 para que a gente não tenha medidas não eficazes sendo tomadas em locais que precisariam delas.
Além disso, o que nós precisamos pensar é que o número de UTIs, de vagas de leito em UTI no país, além de não ser um número adequado para o que se espera de internações de casos graves da covid - 19, também não está totalmente disponível para esse momento pandêmico. Uma boa parte desses leitos já está ocupada com diversas outras condições tão graves quanto e que continuarão a acometer a população brasileira durante esse período, inclusive. Então, mesmo que alguns estudos e associações das classes de saúde tenham sinalizado que os percentuais de leitos per capta, pela população, sejam adequados, é fora de um período pandêmico, para este período eles não são. Então, há esse receio do poder público, isso mundo afora, de que os números de vagas e leitos em UTI não sejam necessários para os casos mais... eles não sejam suficientes, desculpa, para os casos mais graves e que necessitam dessa dessa internação. Além de que, é uma internação mais duradoura do que outras situações respiratórias, então, tem todo um agravante. Há esse receio de que nossas UTIs não deem conta e, por isso, o Brasil pode chegar ao ponto de países que já sofreram bastante como é o caso da Itália. Bom, e pensando em como a população pode auxiliar o Sistema Único de Saúde a dar conta de forma mais adequada nessa pandemia, é justamente não procurar o Sistema Único de Saúde, as unidades básicas de saúde e outros serviços do Sistema quando os sintomas forem leves, quando você não tiver nenhuma dificuldade importante respiratória, por exemplo. É porque esses sintomas leves vão, na verdade, tanto ocupar os serviços de saúde com casos que não, necessariamente, precisam estar ali, faltando, então, vagas para casos realmente graves que precisam, [quanto] também a ida ao serviço de saúde é uma cadeira de transmissibilidade, então, na ida, todo o trajeto e o trajeto da volta você pode estar contaminando, se você estiver, no caso, com o novo coronavírus, você pode estar contaminando uma série de pessoa desnecessariamente. então
Então, esse apelo é para que o Sistema Único de Saúde consiga dar conta dessa demanda que será considerável, substancial e exponencial nas próximas semanas e, quem sabe, até nos próximos meses, de acordo com as previsões do Ministério da Saúde. Além disso, a gente faz sempre uma apelo que não sejam divulgadas notícias sem que haja uma cuidadosa verificação das fontes dessa notícia ou desses dados, dessas evidências. Hoje em dia, nós vivemos um "boom" de informações que não são saudáveis para o Sistema Único
Ssaúde e nem para nós, que dependemos dele, mesmo que não seja exclusivamente.
Então, essa checagem é um compromisso ético, cidadão também com o nosso Sistema Único de Saúde, para que ele consiga dar conta realmente da demanda que precisa ser acolhida neste momento pandêmico.
Nós podemos citar como experiências anteriores, que o mundo passou em relação a situações "entre aspas" próximas, no século XIV, a peste negra, que foi, digamos assim, trouxe muitos aprendizados até para o nosso contexto, hoje, de fake news porque, naquela época, se acreditava que os ares eram responsáveis pela peste negra e na verdade não eram. As más condições de higiene, naquela época, faziam com que pulgas, carrapatos, enfim, outras espécies disseminassem essa doença, que gerou um quantitativo de morte estimado em 30% da população daquela época na região europeia, por exemplo. Então, temos essa experiência, que os historiadores lembram como uma experiência que nos ensinou muito, especialmente, em relação a fake news e também a experiência da gripe espanhola em 1918, que trouxe uma série de aprendizados também em relação a fake news. Tanto é que o nome gripe espanhola é uma injusta atribuição a
Espanha de uma gripe que não surgiu na Espanha. Na verdade, não se sabe ao certo onde, mas as poucas evidências que se tem não são relacionadas à Espanha e isso se disseminou de uma forma que o próprio nome da gripe é vinculado à Espanha. E também nós tivemos a gripe suína em 2009, muito recentemente, que também nos ensinou bastante. A gripe espanhola associada ao influenza, a h1 n1, e a gripe suína é também uma nova roupagem, digamos assim, mais agressiva do h1 n1. Então, nós temos algumas experiências anteriores com cuidados que, nessas épocas mencionadas, também eram não tão radicais quanto hoje em relação ao isolamento físico, a essa recomendação mundial que se faz pela Organização Mundial da Saúde, mas eram também semelhantes a suspensão de aglomerações, como em escolas, eventos etc. também foram cogitados nesses períodos. Sem contar que nós não contamos, atualmente, com um imunobiológico específico para o novo coronavírus e também nenhuma medicação específica para ele.
Há um tratamento sintomático muito importante, mas que não é específico para.
Então, esse é um fator desafiador dessa geração nossa que passa por essa pandemia, mas uma grande vantagem é que nós temos diversos avanços na medicina e em todas as outras áreas correlatas, desde a peste negra, por exemplo, até agora. Então, nós temos a informação e a ciência nosso favor, as universidades que vem dando um excelente exemplo de como nós podemos enfrentar com ciência, com tecnologia, com inovação, também, essa pandemia. Um exemplo é a Fundação Oswaldo Cruz , a Fiocruz, que tem, desde que SUS foi criado, na verdade, enfim, sido muito elogiada pela produção de imunobiológicos e, agora, também, tem tomado um papel de protagonista não só nas testagens, mas em estudos que versam sobre esse enfrentamento.
Do ponto de vista do Ministério da Saúde, a Lei nº 13979, de 6 fevereiro 2020, e a Portaria nº 356, de 11 março de 2020, são instrumentos que o Ministério tem utilizado para enfrentar, de forma muito urgente, esse fenômeno, essa pandemia, e também o regulamento sanitário internacional, que vale, obviamente, para todos os países, que o Ministério da Saúde tem recomendado. E nós sugerimos também que, sempre que houver qualquer dúvida em relação ao coronavírus, sejam consultadas as páginas oficiais, tanto do Ministério da Saúde, que tem uma página específica para o novo coronavírus, como também da Organização Mundial de Saúde, que tem liberado inúmeras dicas sobre isso, que são dados mais confiáveis para que a gente minimize as fake news e seu efeito deletério, inclusive no Sistema Único de Saúde.
