Embranquecimento e falta de representatividade na mídia | Paula Kim | Cabine #08
Aos nove anos, a atriz Whoopi Goldberg ficou eufórica quando viu no Star Trek uma moça negra que não era empregada.
Foi então que ela soube que podia ser o que ela quisesse.
Sabe com qual personagem da TV eu mais me identifiquei na infância?
Nenhum.
Eu me identifiquei com personagens de livro de ficção.
Sabe por quê?
Eles não tinham raça visível.
Eu podia ser qualquer coisa porque eu não sabia o que era raça.
A minha família não me tratava como a "asiática da casa", não tirava fotos comigo quando eu comia comida coreana, não me cumprimentava de maneira esquisita, não me achava "exótica" nem enfatizava com a minha cultura me definia e não me dizia o que oriental podia ou não fazer.
Mas o mundo da mídia é assim que os orientais são representados: sim, você leu certo: Kazuo Tanaka
Ou assim: Motoko Kusanagi
Com essa cara.
Colocar um ocidental branco para representar um oriental ou uma outra etnia tem nome:
Whitewashing
E às vezes, a gente se depara com bizarrices como essas:
"A gente não sabia como resolver, já que ele é descendente de coreanos, tem os traços orientais"
"Então uso duas fitas, uma de cada lado".
Isso é yellowface.
"Mas e daí, né, não importa...
Afinal, somos todos seres humanos, todos os seres humanos são iguais, podem se representar uns aos outros"
Imagina então fazer um filme que conta a história da Xuxa
Sei lá, com a Daniele Suzuki.
Parece absurdo?
Então por que fazer isso com personagens orientais é só mimimi?
Quando a mídia explica quem eu e todos os orientais do Brasil somos, ela nos representa assim:
"Eu não falo português e meu nome não é Paula."
Esses produtores de mídia me classificam como "minoria" e me dizem o que eu como, como eu gosto que se dirijam a mim, se eu sou comunicativa, se me cabe ou não falar português corretamente, se eu tenho criatividade, se sou boa com números, se eu sei me virar em situações que envolvam jogo de cintura, se eu tenho sentimentos, e, se sim, quais são eles.
Isso se chama falta de representatividade na mídia.
Se você quiser mostrar a diversidade no planeta, por que não deixa que as pessoas representem elas mesmas?
Do jeito que elas são.
Enquanto isso não acontecer, a sociedade continuará sendo separatista, fortalecendo o preconceito, a agressividade, e a marginalização.
Como resolver?
Apenas não queira protagonizar uma história que não é a sua.
Eu não consigo engolir que exista um extinto materno biológico, quando tudo que vejo é uma sociedade que educa meninas pra ser mães.
Por mais que as mulheres tenham características biológicas que as preparem para a maternidade, ser mãe não é destino, deve ser escolha.
