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Maternidade obrigatória | Mariana Varella | Cabine #07

Será que a mulher nasce pra ser mãe?

Será que esse é um destino biológico do qual ela não pode escapar?

A idéia de que a mulher é dotada de um instinto maternal biológico já é introjetada desde a infância, quando a menina ganha a primeira boneca.

Ela aprende desde cedo a ser doce, bondosa, amável, acolhedora.

Características que serão requisitadas mais tarde, quando ela for mãe.

Tudo leva a menina pra maternidade: as histórias infantis, as novelas, a família.

Que menina nunca brincou de mamãe e filhinho?

Brincadeira odiada pelos meninos.

Já os meninos podem se arriscar, se aventurar, ousar, questionar.

Escolher!

Eu não consigo engolir que exista um instinto materno biológico, quando tudo o que vejo é uma sociedade que educa meninas para ser mães.

Por mais que as mulheres tenham características biológicas que as preparem para maternidade, ser mãe não é destino.

Deve ser escolha.

Ter filhos pode ser muito bom.

Mas como tudo na vida, tem um lado bem difícil em ser mãe.

O pior não é amamentar, trocar fralda ou aguentar malcriação. É ter de aguentar isso tudo sozinha.

E não há desculpa pra isso, porque tirando a amamentação, não há tarefa com os filhos que os homens não possam fazer.

Afinal não é preciso nenhuma característica biológica especial pra trocar fralda ou levar o filho ao pediatra.

São raros os pais que, de fato, compartilham os cuidados e responsabilidades diárias com os filhos.

E eu não tô falando em ajuda, mas sim divisão.

Quantos você conhece?

A mulher é quem abre mão da própria individualidade que faz concessões profissionais.

Mesmo assim, se ela ousar dizer dizer que não deseja ter filho, é vista como fria, pouco afetiva, problemática, até egoísta.

A mulher tem que ter o direito de pensar em si, de fazer escolhas.

E abrir mão da maternidade imposta é uma possibilidade, assim como ter filhos.

O importante é que essa escolha seja respeitada e que a mulher possa escolher se quer ter filhos, quando quer tê-los e quantos filhos deseja ter.

E isso não tem nada a ver com caráter, com egoísmo nem com sacrifício ou com bondade.

Tem a ver com liberdade.

Eu sou gay.

Então muitas vezes, eu me deparo com situações assim.

Quando eu sou apresentado pra alguém e a pessoa fala, achando que está arrasando:

Nossa, mas você é gay? Nem parece.

E ela fala isso como um elogio.

Pode perceber.

Pra começar, isso é péssimo.

Porque eu sou gay, sim.

E eu quero me parecer com uma pessoa gay.