QUEM TÁ FORA DO PADRÃO? | Louie Ponto
Alô gente tudo bem com vocês? O vídeo de hoje talvez seja um pouco complexo, um pouco polêmico, não sei, eu tô nervosa enfim, eu vejo crescer principalmente na internet o debate sobre o que é estar dentro e o que é estar fora do padrão e esse debate é muito importante, mas eu acho que a gente está confundindo algumas coisas tipo o que é a pressão estética e o que a opressão. E a minha intenção com esse vídeo não é defender a minha opinião como se ela fosse uma verdade absoluta, mas propor uma reflexão que eu acho necessário. Então pegue seu chá, seu café, sua água e senta aí pra gente conversar
Primeiro, vamos pensar o que significa um padrão. Tá aqui na internet que padrão é uma base de comparação consagrada como modelo, ou seja, padrão é um modelo a ser seguido.
Peraí que eu vou desenhar um negócio
Dentro da sociedade exige um padrão estético que determina quais são as características físicas consideradas bonitas que cor de pele que tipo de cabelo que formato de corpo que traços do seu rosto que vão te colocar no patamar das mulheres bonitas existe um padrão estético para homens também, mas a gente vive numa sociedade machista por isso o peso dessas coisas vai ser diferente para homens e para mulheres e eu sou mulher então o foco desse vídeo vai ser esse existe também um padrão de feminilidade que é imposto que as mulheres desde que a gente nasce de acordo com esse padrão mulheres deveriam seguir certos comportamentos, usar determinadas roupas, passar maquiagem fazer a unha, tirar seus pêlos, se relacionar com homens e somente com homens e várias outras coisas esses dois padrões se interseccionam porque uma mulher ideal é aquela que corresponde tanto um padrão estético quanto um padrão de feminilidade e algumas mulheres estão aqui outras mulheres estão aqui por exemplo uma mulher gorda ou uma mulher negra que performa feminilidade se encaixa no padrão de feminilidade, mas não se encaixa no padrão estético outras mulheres estão aqui e eu vou dar o meu exemplo eu não sigo um padrão de feminilidade, mas eu correspondo ao padrão estético por ser magra e por ser branca e outras mulheres estão aqui e outras mulheres estão aqui e tem mulheres que estão aqui enfim tem mulheres em todos esses lugares
Como vocês podem perceber desenhar não é mesmo uma das minhas qualidades mas o que importa é a intenção e eu espero que vocês tenham entendido que o que dizer esse padrão aqui é sustentado pelas revistas, pelas novelas, pela televisão pelo cinema por todos os discursos em todos os lugares. Na família, na escola, na vida e ele é inalcançável porque modelos são coisas idealizadas e portanto inalcançáveis nenhuma mulher vai ter naturalmente aqui até porque o padrão de feminilidade não é uma coisa natural e muitas mulheres fazem cirurgias plásticas passam por vários tratamentos estéticos usam maquiagem para esconder mancha, ruga, espinha e foto de revista a gente sabe que é editada porque a mulher não pode ter ruga, a mulher não pode envelhecer, mulher não pode ter celulite, não pode ter estria, até a Bruna Marquezine que é super padrão de beleza foi alvo de críticas de gente babaca no carnaval que disse que o peito dela caído a gente acostumou tanto com silicone que não consegue mais reconhecer um peixe natural isso é muito bizarro e ninguém deveria fazer comentários sobre o corpo de alguém que mais uma vez a gente está sustentando esse padrão e as consequências da existência desses modelos são terríveis e afetam todas as mulheres muitas mulheres sofrem com a depressão ansiedade com transtornos alimentares passam por várias intervenções cirúrgicas tem problema de autoestima e nunca vão se sentir boas e bonitas o suficiente e a gente sofre com tudo isso desde muito cedo eu não sei se você se lembra do caso da menina irlandesa de 11 anos que cometeu suicídio em 2016 porque não estava feliz com o próprio corpo. Ela se cortou escreveu com sangue que meninas bonitas não comem então uma coisa dizer que todas as mulheres sofrem com a pressão estética e com o modelo de feminilidade e com a busca pelo padrão mas a gente precisa entender que nem todas as mulheres sofrem a opressão e preconceito por causa do seu corpo eu vou dar o meu exemplo para ficar mais fácil de entender eu não tô dentro do padrão de feminilidade e apesar de ser pequena de ser considerada a fofa pelas pessoas, que tem essa voz fina eu tenho cabelo curto e não uso maquiagem não pinto a unha eu me relaciono com mulheres e uso roupa da seção masculina então já passei por várias situações desagradáveis de por exemplo entrar no banheiro feminino e ouvir que eu tô no banheiro errado e que eu deveria ir no masculino e eu já passei por várias outras situações constrangedoras eu já sofri lesbofobia mas apesar de tudo isso eu tô dentro de um padrão estético porque eu sou branca eu sou magra eu sou considerada uma mulher delicada mais do que algumas mulheres que também tem cabelo curto e usam as mesmas roupas do que eu e aí não são tão aceitas nos espaços públicos quanto eu sou e por estar dentro desse padrão estético e nunca passei por situações que muitas mulheres passam eu não quero medir sofrimentos pessoais e dizer que essa mulher sofre menos do que essa todo o sofrimento é legítimo não deve ser diminuído mas esse não pode ser o foco do nosso debate quando a gente pensa em sociedade em estruturas em opressão quando a gente pensa em violências sociais esse debate individualizado não faz sentido porque a gente precisa sair do plano pessoal. Vamos pensar agora nessas bolinhas não mais como pessoas e sim como grupos esse grupo aqui vai passar por uma violência social muito maior e muito mais cruel do que esse grupo aqui eu estou nesse grupo aqui eu nunca vou perder uma oportunidade de emprego por ser branca eu posso comer o que quiser um restaurante que ninguém vai me olhar estranho eu nunca tive problema com cadeira de ônibus ou com cadeira de avião eu nunca vou receber um comentário ou sofrer uma violência racista porque não existe racismo contra pessoas brancas eu nunca vou sofrer uma opressão por causa do meu peso, a não ser que um dia eu engorde, mas eu já ouvi muitas vezes o discurso de que ser muito magro é ruim e que existe preconceito contra pessoa magra tipo "magrofobia" mais uma vez vou falar sobre minha experiência eu sou uma mulher magra e eu já fui mais magra do que eu sou principalmente naquela época eu ouvia comentários negativos sobre o meu corpo as pessoas se sentiam no direito de agarrar meu braço minha barriga e falar que eu estava muito magra que eu parecia doente que era feio que quem gosta de osso é cachorro e esse é muito desagradável eu tinha todo o direito de me sentir ofendida mas essa era uma parcela dos comentários porque eu também recebia elogios por causa da minha magreza eu ouvia que meu rosto era muito bonito porque era marcado que o cabelo curto ficava bem em mim porque eu não tinha bochecha, que nossa é muito lindo ter esse espaço entre as pernas e que qualquer roupa em mim ficava boa, e a pessoa gorda nunca vai escutar esse tipo de comentário porque o corpo exaltado e elogiado e desejado pela sociedade é o corpo magro por coincidência quando estava arrumando as coisas pra gravar esse vídeo eu encontrei esse tweet a Demi ta muito gorda cara que nojo estava mil vezes melhor quando ela tinha anorexia e era magra eu dei a minha opinião no meu twitter não sei de onde surgiu tanta gente desocupada e com energia negativa, pra mim a Demi está gorda sim estava melhor quando era magra pela própria saúde dela seria melhor emagrecer. É muito absurdo que a gente vive numa sociedade em que transtornos alimentares são incentivados, eu já vi muitas mulheres com anorexia e bulimia na internet postando foto falando sobre isso e as pessoas comendo coisas do tipo você é a minha inspiração eu queria muito ser assim favor me passa dicas e eu não sei quantos dias sem comer o que eu preciso fazer para ser igual a você e algo um pouco parecido aconteceu comigo também eu nunca tive transtornos alimentares mais em 2016 eu não estava bem eu estava passando por um momento difícil e eu parei de comer e eu estava dormindo e eu não cresci muito e eu acho que estava com dez quilos a menos do que eu tenho hoje eu tava fazendo as mesmas coisas eu postei vídeo e postou foto e eu não recebi nenhum comentário sobre o fato de estar muito magra o que é ótimo acho que ninguém tem que fazer comentários sobre o corpo de outra pessoa e se alguém ficar preocupado com a minha saúde não era fazer um comentário no instagram que as coisas a melhorar mas aí eu fui melhorando e voltei a comer olha só que bom consequentemente eu engordei e voltei a ser uma pessoa saudável e aí eu comecei a receber uns comentários nos meus vídeos e nas minhas fotos do tipo Louie você engordou você tá cheinha olha só como você tá bochuda tinha muito comentário também que era assim: nossa Louie você engordou mas continua linda
Mas continua linda? esse é mais um exemplo de como os valores da nossa sociedade tão invertidos e pensei que isso já foi meio pesado na minha cabeça imagina como é para uma pessoa que de fato está fora do padrão então existe uma diferença muito grande entre pressão estética e não estar completamente dentro do padrão e sofrer opressão e preconceito isso não quer dizer que a gente não pode falar sobre as nossas vivências muito pelo contrário todas as mulheres são afetadas pela existência desse padrão é fundamental que a gente fale sobre as consequências da imposição desses modelos até porque a gente tem que acabar com esses modelos mas é importante a gente ter cuidado na hora de falar sobre algumas violências específicas que talvez a gente não sofra a gente também tem que ter cuidado na hora de falar que tal pessoa não faz parte do padrão porque talvez ela faça e uma pessoa que não faz parte do padrão pode se sentir mal vendo isso e acaba sendo um desrespeito e um desserviço a gente fazer isso, você está entendendo? enfim não vamos parar de falar sobre isso só vamos analisar os nossos privilégios nesse mundo e pensar de que lugar a gente está falando. a gente vê no próximo vídeo abracinho em você, beijo, tchau
