Como ofender uma religião e ensinar libertarianismo ao mesmo tempo?
Aprendemos nas últimas semanas, aqui no Brasil, que um especial de natal ofendendo uma religião pode ser algo maravilhoso. Se você conseguir ser bem ofensivo, vai conseguir um alcance enorme: pessoas vão reclamar, fazer textões, criar abaixo assinados, entrar na justiça, jogar bombas na sua casa, enfim criticar dia e noite algo que não gostaram, mantendo o assunto na mídia por um tempo enorme. Tudo isso ao invés de simplesmente ignorar a besteira por completo e reconhecer o óbvio: sua fé não é afetada pelas besteiras faladas por outras pessoas. Porque, se sua fé depende da opinião de outras pessoas, vamos combinar, nem é tanta fé assim, né. Mas o melhor de tudo é para o cara que fez o vídeo ofensivo, o cara ganha menções infinitas, propaganda gratuita, semanas na mídia em lugar de destaque, chamando a atenção para seu vídeo. Olha que maravilha. Melhor negócio do mundo é ofender religiosos. Então, nesse espírito, resolvi fazer o vídeo mais ofensivo possível.
Homossexualismo entre figuras sagradas? Check. Incesto entre membros da família sagrada?
Check. Estórias sem pé nem cabeça sobre religião? Check Check Check. Espero que tenha sucesso, não se esqueça de ficar indignado.
Como ofender uma religião e ensinar libertarianismo ao mesmo tempo?
Estamos no natal, uma festa cristã comemorada por uma quantidade enorme de pessoas no mundo.
Hoje, em praticamente todo o mundo ocidental, famílias e amigos vão se encontrar, talvez trocar presentes, talvez apenas desejar feliz natal e bom ano novo. Mesmo pessoas que não são cristãs, entram na comemoração, porque o natal se tornou mais que um feriado cristão, se tornou uma data comemorativa mundial. Não é incrível que exista algo assim? Que, apesar de todas as nossas diferenças e crenças em deuses diferentes ou até ausência de crença, que todos possamos nos reunir nesse 25 de dezembro e reencontrar parentes e amigos, confraternizar e desejar coisas boas. Ninguém tem dúvidas que o natal é uma festa cristã.
Mas há quem diga que se trata de mera versão cristianizada da Saturnália, festa pagã que era comum no império romano antes do cristianismo. E a religião pagã politeísta do império romano é uma versão da religião politeísta dos gregos e assim por diante, apesar de ideias revolucionárias introduzidas em vários pontos, existe um grande conjunto de ideias que são tão antigas cuja origem se perdeu no tempo.
Essas histórias muito antigas, cujas origens foram perdidas no tempo, mas que marcam nossa vida ainda hoje são sempre muito interessantes. Vamos falar aqui de uma história dessas, o Épico de Gilgamesh. Trata-se de uma história muito, mas muito antiga mesmo, uma das mais antigas histórias que temos registrada por escrito. Foi registrada entre 2100 e 1800 BCE, em Akkadiano, uma língua morta falada na região da mesopotâmia então.
Foi escrita pelos sumérios, um povo que antecedeu os babilônios na região. Mas claramente, quando foi escrita, tratava-se de mero registro de poemas ainda mais antigos, uma história que era contada de pessoa a pessoa que remonta, provavelmente ao início da civilização humana, ao início da revolução da agricultura. A história foi encontrada em doze tábuas de argila com caracteres cuneiformes. Embora o Akkadiano seja uma língua morta, já foi traduzida, então hoje temos acesso ao conteúdo quase completo da história. Algumas partes foram perdidas devido a pedaços quebrados das tábuas, mas o significado pode ser deduzido do restante do texto. O mais incrível de tudo, existe uma reconstrução de como seria o som falado da língua na época, devido a interpolações de línguas faladas hoje na região. Então, se você procurar, vai encontrar no Youtube o épico de Gilgamesh contado em sua língua original que... ninguém fala hoje em dia. Sim, você não vai entender, eu não vou entender, tirando meia dúzia de pesquisadores e linguistas, ninguém entende.
Mas está lá no Youtube.
E, quem diria, a história religiosa mais antiga da humanidade é um Bromance. Sim, basicamente é a história de dois Brothers, Gilgamesh e Einkidu, que brigavam entre si, depois ficaram amigos, com várias pitadas de relações homossexuais aqui e ali, beijos, mãos dadas e etc. Não estou sendo irônico ou forçando a barra não. Procura uma tradução da história e você vai ver isso lá. Depois os Brothers saíram em várias aventuras por aí, lutando deuses e monstros. Eu gostaria muito de causar discórdia e discussões, gerar abaixo-assinados para ganhar o alcance que o porta dos fundos conseguiu dos cristãos indignados, mas, não creio que vou ter o mesmo grau de sucesso atacando o paganismo persa pré-diluviano. Quantos seguidores do Deus Enlil temos por aí hoje? Alguém? Alguém?
Pois bem, Gilgamesh é retratado na história como tendo sido rei da cidade de Uruk na região da mesopotamia. Muito antes dos babilônios, os sumérios dominavam a região da mesopotâmia, a partir da sua capital Uruk. Os sumérios tinham uma religião politeísta com um panteão de deuses que lembra muito os deuses gregos. Haviam algumas figuras ligadas a criação do mundo, Nammu, An e Ki. Depois esse povo teve um filho que se tornou um deus supremo,
Enlil, o deus principal, e daí seguiu-se vários deuses e divindades diversos. Existe uma deusa do amor, Inana. Ninurta é o deus da agricultura. Enki é o deus da fertilidade e inteligência. E por aí vai. Exatamente como os gregos, que tem os titãs e outros seres da criação, que dão origem a Zeus, que comanda um panteão de divindades ligadas a cada coisa. O sumérios também tem alguns filhos de deuses com homens e coisa e tal.
Muito similar a religião que os gregos iriam criar milênios depois, os romanos iriam copiar e os cristãos, bem... não deixam de copiar também, afinal, embora só reconheçam um deus, equivalente ao deus principal, Enlil ou Zeus. Só deram um downgrade nos demais deuses, reduzindo-os a santos. Temos o santo dos motoristas, o santo casamenteiro, a santa dos olhos, santos das causas perdidas, e por aí vai. Olha como, nessa coisa de religião, pelo menos, não tem muito esse papo de direito autoral não. Todo mundo copia de todo mundo.
Segundo a história, portanto, Gilgamesh teria sido uma pessoa real, um dos primeiros reis de Uruk. O mais provável é ser uma figura totalmente lendária, claro. Pode ser também que tenha sido uma pessoa real, porém com todos os causos sobre ele romantizados ao longo do tempo, a ponto que sobrou pouco da pessoa real.
Pois bem, Gilgamesh era filho de uma deusa com um homem mortal. Então, segundo os sumérios, ele tinha 2/3 de sangue divino e 1/3 de sangue mortal. Ok, deem um desconto, ninguém tinha descoberto genética nem nada, então é um valor aproximado bem razoável para a época.
Talvez melhor estimativa que a dos gregos muitos séculos depois. Os gregos achavam que o filho de um deus e um mortal era um semi-deus, ou seja, tinha 50% de sangue divino e 50% do sangue mortal. Mas com os conhecimentos que temos hoje de epigenética, sim, é bem razoável supor que nossa herança genética materna é sim maior que a paterna. Epigenética é o nome que se dá a características herdadas que não tem origem no DNA. Sim, existem características herdadas não ligadas ao DNA. Existem e são significativas. Todo o DNA mitocondrial herdamos da mãe, zero porcento dele vem do pai, bem como todas as demais organelas celulares.
O esperma só tem DNA mesmo, todas as nossas organelas celulares são divisão das organelas de nossa mãe que estavam no óvulo. Então, embora 2/3 mãe, 1/3 pai possa ser exagerado, certamente ½ mãe, ½ pai é subestimado. O valor real é alguma coisa no meio termo aí. Mas o interessante é entender a história.
Pois bem, Gilgamesh é um Chad. O cara é fera. Tem uma força descomunal, tem inteligência acima da média, então, logicamente, se torna rei de Uruk. Ou isso ou ele se tornou rei por outros meios e os puxa sacos reais não pouparam esforços em construir a imagem do cara nos 12 tabletes de argila onde a história foi encontrada.
Bom, no início da história Gilgamesh é um rei incontestável, mas oprime o seu povo.
Ele usa constantemente o direito de prima noctis, ou seja, o direito do rei de dormir a noite de núpcias, a primeira noite depois do casamento com a mulher. Então o cara come literalmente todas as mulheres do reino que ele quiser. Além disso, ele força seu povo a projetos extenuantes e severos, sem recompensa adequada para eles. Nesse ponto, igualzinho aos reis do gado de hoje em dia. O povo então ora para os deuses, para Enlil e outros deuses, pedindo que limitem Gilgamesh. Sim, os liberais já existiam naquela época.
Vamos diminuir o governo. Não queremos que Gilgamesh seja destruído totalmente, apenas que seja reduzido em seu poder para não oprimir tanto o povo. Adivinha se funcionou? Lógico que não, né... minarquismo já se sabe que é impossível desde a antiguidade.
Como os deuses resolvem essa parada? Resolvem fazer um outro ser tão poderoso quanto Gilgamesh.
O que poderia dar errado com essa estratégia, não é mesmo.
Então, Enlil pegou um pouco de barro e fez um ser a sua imagem e semelhança, tão forte e poderoso quanto Gilgamesh. Esse ser é Enkidu. Um ser primário que vivia em um paraíso terreno. Ele tinha tanta força quanto Gilgamesh, mas não precisava oprimir ninguém, porque a natureza provia tudo para ele no paraiso. Lógico, o cara era tipo o Adão, só que mais tosco, tinha pelos no corpo todo, andava nu. Quando sentia fome, caçava e colhia frutos no seu paraíso particular. Então, como isso não iria resolver o problema do povo oprimido por Gilgamesh, deus criou... uma mulher. Shamhat ao contrário da versão da bíblia, Eva, essa mulher não é criada da costela do Adão/Enkidu, mas é uma prostituta do templo. Sim, esse é o termo exato utilizado e para quem está chocado com isso, entenda que tal pratica sempre foi comum em religiões antigas. As sacerdotisas de templos religiosos se ofereciam sexualmente em troca de doações para o templo. Mas enfim, tudo isso era coisa que existiu por muito tempo, desde a antiguidade e até bem recentemente com gregos e romanos.
Olha, eu tenho que te falar que essa versão do paraíso, Enkidu/Shamhat me parece mais razoável que a versão posterior dela, que aparece na bíblia, do Adão/Eva.
Da mesma forma que a versão que você já conhece, Shamhat tenta Enkidu com a ajuda de uma serpente, Enkidu come o fruto proibido e ambos são expulsos do paraíso. Legal que aqui eles não tem papas na língua. Lembra aquele papo de fruto proibido que a eva dá para o adão comer? Pois é... aqui eles são claros. O nome do fruto não é maça, o nome do fruto é buceta. Você já desconfiava disso, fala a verdade.
Agora é importante notar que essa história aparece na criação do mundo segundo a bíblia.
Eu não sou um cara religioso, mas o pouco que sei é que mesmo cristãos entendem que muito dessas histórias da bíblia são, de fato, uma analogia uma forma de contar a história de maneira que as pessoas da época entendessem. Não são relatos factuais em si. Até porque, se só havia adão, eva e seus filhos e filhas, precisaria rolar um bocado de incesto até a humanidade atingir um tamanho razoável. Mas é interessante notar que ambas as histórias, tanto Adão/Eva quando Enkidu/Shamhat, claramente são analogias para algo muito importante de fato na história da humanidade: a revolução da agricultura. Isso é o início da sociedade humana de fato. O ser humano existiu muitos milhares de anos antes, de fato, a maior parte da história humana, fomos caçadores-coletores. Vivíamos em grupos semi-nomades, de 50 a 200 pessoas, que ficavam um tempo em uma região, montavam um acampamento, caçavam e colhiam frutas. Depois de um tempo, se mudavam para outro lugar. Em algum lugar em torno de 6000 BCE, portanto pelo menos 4000 anos antes do registro por escrito do épico de Gilgamesh, o ser humano passou a criar cidades, fazendas, plantar e manter animais. Lógico, isso não foi algo abrupto, levou milhares de anos e ainda hoje existem populações humanas que vivem de caça e coleta. Mas o fato é que nossa sociedade, como a conhecemos hoje surgiu nesse ponto. E note que, num primeiro momento, isso não foi uma decisão tão boa assim não. O homem caçador coletor dedicava apenas uma pequena fração do seu tempo a atividades para manter-se vivo. A maior parte do tempo ele podia fazer o que quisesse. Mesmo assim, era muito mais bem alimentado, saudável e vivia muito mais tempo que as gerações nascidas após a revolução da agricultura. A agricultura requeria muito mais esforço, muito mais horas de trabalho, a saúde geral decaiu, a longevidade diminuiu. Porque, ainda assim, o ser humano mudou para esse novo modelo de sociedade?
Mesmo tendo mais trabalho, tendo menos saúde, menos tempo de vida, todos acabaram migrando para a vida em cidades? Bom, saber com certeza nunca saberemos. Mas dá pra ver, pelos mitos de criação citados, que os homens da época culpam as mulheres da época.
Eles saíram do paraíso e acabaram criando cidades, mesmo isso sendo ruim porque, na palavra deles mesmos, foram seduzidos pelas mulheres.
Olha de forma fria, parece realmente que tal mudança se deu pela busca de segurança.
Embora caçadores coletores tenham uma vida boa na média, é algo arriscado. Entrar em conflito com outras tribos é sempre um risco. Outra coisa: quem fica andando de um lugar para outro, não tem como acumular alimentos, grãos. Se errar o caminho e acabar num deserto ou local inóspito, se vier uma seca, inundação, frio ou calor extremos, acaba sem comida.
A civilização não é isenta de riscos, mas é mais segura. E não é estranho que fossem as mulheres que fizeram a opção por essa segurança, mesmo significando mais trabalho e menor saúde. Homens, ainda hoje, são ainda mais propensos a aceitar riscos que mulheres. É só natural imaginar que foram as mulheres que forçaram todos ao modo de vida em sociedade.
E, embora claramente os homens da época não tenham gostado, acham que foram seduzidos e enganados por uma serpente, claramente foi uma aposta que rendeu frutos a longo prazo.
Aquelas poucas culturas que davam um trabalho enorme para gerar meia dúzia de grãos de pouco valor alimentício, acabaram gerando trigo, milho, batatas, arroz, e tantas outras culturas e, muitos milênios depois, temos um padrão de saúde maior que dos caçadores coletores, com menos risco, embora continuemos com um bocado de trabalho para sobreviver.
Mas vamos voltar a história do Einkidu. Então Shamhat depois do Einkidu comer o fruto proibido dela a exaustão, ensinou ele as coisas da civilização. Ensinou ele a se vestir, a falar, todas as coisas básicas para ele passar por um ser humano civilizado. Aqui tem um outro ponto interessante. Note que, quando surgiram as primeiras cidades, as primeiras civilizações, certamente houve conflito entre pessoas civilizadas e não-civilizadas.
Parte da população tinha fazendas, criava animais e, do nada, surgiam grupos de caçadores coletores que nem entendiam o que significava o conceito de fazenda. Certamente, por muito tempo, houve briga entre esses grupos. E como a história é sempre escrita pelos vencedores, hoje vemos os caçadores coletores como sujeitos meio burros, cheios de pelos, que não usam roupas, enfim, bárbaros toscos, como o pessoal de Uruk descreve no épico.
Logo após ser civilizado por Shamhat, Einkidu ouviu falar do costume de Gilgamesh de comer o fruto proibido de noivas na primeira noite e ficou furioso com isso. O cara era bravo e, lembra, foi criado pelos deuses com força equivalente de Gilgamesh. Então Einkidu vai para a cidade de Uruk onde está acontecendo um casamento. E, quando Gilgamesh já ia lá feliz da vida coletar o imposto em fruto proibido dele, Einkidu bloqueou sua passagem, ressaltando o absurdo do que ele estava fazendo. Ambos brigaram ferozmente. Mas Einkidu reconheceu a força superior de Gilgamesh e ambos se tornaram amigos. Muito amigos, verdadeiros
Brothers cheios de broderagem. Ok, pode ser que seja imprecisão da tradução do Akkadiano para línguas atuais, mas beijos e andar de mãos dadas virou padrão entre os dois depois da briga. Os pais de Gilgamesh adotam Einkidu como filho adotivo.
E então Gilgamesh convidou Einkidu para um passeio na floresta de cedros. Cedros são um tipo de árvore enorme muito comum na região do Líbano. Eles até tem o Cedro na sua bandeira.
Na antiguidade, a árvore era muito comum em toda a região da babilônia. Um passeio pela floresta pode parecer algo inocente, mas essa floresta de cedros em particular vivia um monstro chamado Humbaba. Humbaba também é filho de deuses com homens, é retratado como um ser meio macaco meio ser humano e dotado de enorme força. Ninguém havia detido ainda Humbaba. Todos que tentaram até então morreram.
Haviam maldições, sonhos e várias coisas que vocês reconheceriam dos 12 trabalhos de hércules. Sim, não tem propriedade intelectual nessa parada de religião. Mas, no final, com a ajuda de Einkidu, Gilgamesh mata Humbaba, corta a maior árvore de cedro da floresta e desce o rio Eufrates com uma canoa feita com a cabeça de Humbaba retornando para a civilização. Os Brothers fazem um portão de cedro para o templo de Enlil e, só após a derrota de Humbaba, os deuses passam a prestar atenção em Gilgamesh. A deusa Inana, a deusa do amor, dá em cima de Gilgamesh, mas ele não dá bola pra ela, feliz de todo jeito com seu brother Einkidu. Mas, sabe como é, Deusas do amor quando são recusadas, buscam vingaça. E ela conseguiu mandar o touro dos céus,
Gugalanna para se vingar. O touro era divino, enorme e muito forte e causa destruição em Uruk. Mata milhares de pessoas até que os super-brothers gritam “ativar” e brigam com o touro e matam ele, mandando o coração do touro de presente para a deusa. E quando a deusa Inana reclama, Einkidu, balança o traseiro do touro para ela.
Lógico, nunca é bom comprar briga de graça assim com deuses. No final Einkidu foi marcado para o morte pelos deuses tanto para punir sua arrogância com a deusa inana quanto para punir seu brother Gilgamesh. E Gilgamesh sofreu viu, foi um longo funeral. Ele se recusou a acreditar que Einkidu estava morto até o dia que uma mariposa saiu de um casulo no nariz do cadáver de Einkidu. Mas, o que mais abalou Gilgamesh foi o medo da própria morte. Veja: Gilgamesh até então se achava imortal. Nunca havia temido a morte, apenas a derrota. Ao ver seu amigo morrer ele percebe que é mortal também.
Gilgamesh resolve buscar a fonte da juventude. Sim, essa lenda tem aqui e junto com outra lenda. Quem conhece o segredo da juventude eterna é Utnapishtim, um dos poucos sobreviventes do dilúvio. Sim, Noé em pessoa. Depois de outra versão dos 12 trabalhos de hercules, em que ele mata leão, trabalha como ferreiro e mata escorpiões, dentre outras histórias,
Gilgamesh chega a Utnapishtim e pergunta a ele como ele se tornou imortal.
Utnapishtim/Noé responde que a muito tempo atrás, os deuses estavam insatisfeitos com a humanidade e resolveram mandar um dilúvio para acabar com tudo. Mas um dos deuses gostava de Utnapishtim/Noé e mandou ele construir uma arca. Esse deus deu as dimensões precisas da arca que estão lá no tablete de cerâmica, mas, infelizmente não sabemos as dimensões precisas. Seriam 300 côvados de comprimento, por 50 côvados de largura e 30 de altura?
Não sei. A arca deveria ser feita de madeira, selada com asfalto e betume, sim, Utnapishtim, deveria subir nela com sua família e tantos animais quantos pudessem levar. Choveu por
6 dias e 6 noites, então foi mais light que a versão da bíblia, mas foi suficiente para matar todos que não estavam na arca. Daí ele soltou um passarinho e o passarinho voltou.
Depois ele soltou outro passarinho e o passarinho voltou de novo. A terceira vez que Utnapishtim soltou o passarinho, o passarinho não voltou o que significava que havia terra e o dilúvio havia acabado. Mas o problema não acabou. Enlil o deus que queria destruir tudo ficou puto porque haviam sobreviventes. Seguiu-se uma guerra entre deuses e, no final, Enlil admitiu que sua punição havia sido dura demais e deu aos sobreviventes da arca, o dom da imortalidade. Esses então repovoaram toda a terra após o dilúvio. Mas, isso era má notícia para Gilgamesh, porque significava que foi uma coisa única. Não tinha como ele obter a imortalidade. Mas nesse tempo todo na terra
Utnapishtim/Noé tinha aprendido algumas coisas. Por exemplo, que existia uma planta no fundo do mar que, se você comer, ela retorna sua juventude. Não é imortalidade, mas quebra um galho. A planta, chamada de Ur-shanabi, é capaz de devolver o vigor da juventude para homens velhos. A Pfizer irá fazer fortuna no futuro com algo similar. Provavelmente tal planta seria chamada de Viagra hoje em dia. Só que, após sair do mar com a planta, uma serpente rouba a planta dele e destrói ela. Sinalizando, no final do Épico de Gilgamesh, que não tem jeito. A imortalidade humana é um fato.
Ok, uma história interessante, consegui ofender com sucesso qualquer adepto do deus Enlil que exista por aí. Talvez tenha ofendido outros. Aguardo os abaixo assinados e textos no facebook para aumentar o alcance desse vídeo. Quem sabe a netflix não me chama para ofender outras religiões ano que vem. Mas você deve estar se perguntando: onde está o libertarianismo aí? Qual lição libertária e anarcocapitalista podemos tirar dessa história? Qual a grande lição de moral do especial natalino do canal?
Muito simples: a busca da sociedade em toda a história humana tem dois únicos objetivos claros e cristalinos. Não, a sociedade não busca melhorar suas condições, isso é besteira.
Em inúmeras situações na história, fomos alegremente para a merda, optamos por soluções piores. Não buscamos riqueza ou saúde. Besteira, pode ser que, enquanto indivíduos busquemos isso, mas, enquanto sociedade, cagamos para saúde e riqueza. Só há duas coisas que constantemente queremos e são diferentes para homens e mulheres. Mulheres buscam estabilidade e segurança. Homens buscam o fruto proibido, a buceta das mulheres.
Você, meu amigo homem, pode se revoltar com essa simplificação. Como assim, tudo o que buscamos é o fruto proibido? Não é não. Temos vários outros interesses. Vários homens inclusive sequer gostam do fruto proibido. Outros explicitamente tomam seu próprio caminho para longe dele. Concordo: a ação humana e a praxeologia continuam válidas como sempre.
Veja: não estou dizendo que, enquanto indivíduos todos nós homens buscamos apenas isso. Apenas que como sociedade sim, buscamos apenas isso. E tem um motivo simples. O homem que segue seu caminho tem todo o direito de fazer isso. Mas precisa entender que a chance de deixar descendentes se torna menor. E a sociedade é algo muito mais longo do que a sua vida.
Como Gilgamesh todos somos oprimidos dentre outras coisas, por nossa mortalidade. E o fruto proibido é uma porta que se abre para o homem, para deixar descendência, para marcar o mundo por um período maior que a sua própria vida. Homens em geral, só buscam o fruto proibido por prazer mesmo, 99.99% das vezes só querem prazer. Mas a sociedade em si, busca a reprodução. Lógico que somos todos diferentes, cada um quer uma coisa, mas você, caro colega homem, não subestime a importância da sua busca pelo fruto proibido. É uma busca muito mais importante que muitos a tem em conta.
A coisa é diferente para mulheres. Da mesma forma que com os homens, cada uma delas tem interesses diferentes, querem coisas diferentes. De novo, não estamos falando de indivíduos.
Lógico que no nível individual, tem mulheres com todos os interesses possíveis. Mas, em termos de sociedade, são elas que decidem para onde vamos. Porque elas tipicamente têm todas as ferramentas para gerar descendência. Elas não precisam se preocupar com descendência.
Se uma mulher quer ser mãe solteira, geralmente pode resolver o problema em poucas semanas, se estiver no período fértil e não estiver tomando anticoncepcionais, pode resolver em poucas horas. O que é a busca de uma vida para um homem, é apenas uma decisão rápida para a maioria das mulheres. As mulheres então ficam livres para as grandes decisões. Não tenham dúvidas, são elas que guiam a sociedade humana. Não uma mulher em particular, não estamos falando de indivíduos aqui, mas da tendência geral da sociedade.
O que as mulheres querem em geral, é para onde a sociedade vai. Para de se fazer de
Einkidu/Adão revoltado, dizer que elas te enganaram, te enfeitiçaram com o fruto proibido delas, é muito além disso. Se você não for enfeitiçado pelo fruto proibido, você não deixa descendência. Sociedade vai muito além da vida individual. Então, as mulheres decidem para ondem vamos. Homens correm atrás antes de ficarem velhos demais para isso.
Bom, se você conhece o movimento libertário, pode estar ficando preocupado com esse papo.
Sim, é preciso reconhecer que mulheres são minoria no movimento libertário. Isso quer dizer que estamos atrás nisso e existe um motivo. Geralmente o sistema atual existente de organização social é percebido como mais seguro. E os próprios reis do gado sabem da importância de ganhar os favores das mulheres, não é à toa que vivemos cada vez mais promessas por políticos a favor das mulheres. Homens são vítimas de violência muito mais que as mulheres. Porque o governo pode se dar o luxo de penalizar mais a violência contra mulheres? Porque são elas que interessam. Homens, ao longo do tempo, virão atrás.
Também já explicamos aqui o truque comum com que o governo nos escraviza. Liberdade versus segurança. Toda vez que uma lei é parida para diminuir a sua liberdade, para roubar o seu dinheiro, essa lei é sempre justificada pelo aumento da segurança. Não importa o que os homens pensam, mulheres querem mais segurança, homens, no final das contas, irão atrás. É a história da nossa sociedade, desde Einkidu/Adão e, como vimos, não é uma forma ruim, no final, a escolha das mulheres se pagou bem.
Mas, para quem abraça o libertarianismo, muitas vezes pode parecer que estamos abrindo mão da nossa segurança para isso. Isso é um outro fator que pode afastar as mulheres do anarcocapitalismo. Mas é importante notar que a promessa de mais segurança do governo em troca da nossa liberdade é só isso. Uma promessa. Não é algo que ele cumpra. Essa ideia de que governo é algo mais seguro do que a organização do mercado é falsa, porque se baseia no alto custo de transação que manteve o governo de fato, como mais seguro por tanto tempo. O barateamento do custo da informação, mudou isso. Mas o que o pessoal não percebeu ainda é que a decisão das mulheres pela segurança não é pela aparente segurança, não é pela promessa de segurança, não é por elogios conservadores sobre como as coisas funcionam de forma segura. É pela segurança de fato. Se a segurança estivesse do lado conservador da organização social vigente, Eva/Shamhat ainda teriam achado mais seguro ficar do lado da segurança da caça e coleta e nunca teríamos abraçado a vida sedentária, fazendas e cidades.
Não são promessas de segurança que as mulheres buscam, é a segurança de fato. E, quando elas percebem que o modelo novo é mais seguro que o modelo antigo, é algo que será natural para elas migrar par ao novo modelo. Uber, 99, Cabify e similares é mais seguro que taxi. Não importa quantos burocratas governistas inventem que o taxi tem licenciamento, checagem de antecedentes, cadastro. Isso não importa, porque a gente sabe, na prática, que a corrida fica registrada, o nome do motorista está ali. Nada é absolutamente seguro e isento de riscos, lógico, mas é óbvio que entrar numa corrida em que tudo é registrado é muito mais seguro para a mulher, para qualquer um de fato. Conheço mulheres que simplesmente não pegam taxi em nenhuma hipótese, mesmo que seja mais rápido, em favor de aplicativos, por causa da segurança. Não importa quantas certificações e validações você faça.
Não importa a segurança que você prometa. O que importa é a segurança final observada. É isso que vai pegar os socialistas com as calças abaixadas. Não importa quantos milhões de promessas de segurança eles façam. O que importa é a segurança de fato. Lógico, a engrenagem da sociedade não se move rapidamente, leva um tempo, mas é inevitável que a economia descentralizada vai mostrar que é muito mais segura na prática, do que aceitar um líder que vai ditar regras aleatórias de segurança. Bitcoin e moedas criptográficas são muito mais seguras que papelzinho colorido lastreado em honestidade de político. Aplicativos descentralizados são mais seguros que qualquer função provida pelo governo e, principalmente, não existe segurança de fato fora da propriedade privada e trocas livres longe de um governo. Serão as mulheres que vão nos guiar para o ancapistão.
