Comprar é um voto. Sabemos usá-lo?
Sabemos de onde vem o que comemos?
Compramos o que é mais barato, o que está mais à mão ou o que é mais saudável?
Comemos a pensar na saúde, nos nossos valores, no ambiente ou no custo?
Todos somos consumidores.
Isso dá-nos algum poder?
Começámos pelo início.
Fomos às compras e tentámos perceber o que é que uma mesa cheia de frutas e legumes nos diz.
Eu acho que esta mesa nos diz que... que estamos a viver num cenário de produção em quantidade, de produção não feita no sentido de aumentar a resiliência do sistema mas de aumentar a eficácia do sistema.
Também, diz-nos que nós, os consumidores, temos cada vez menos controlo do sistema alimentar e dos produtos que estão na nossa mesa.
E a questão é: é isso que nós queremos para nós? É isso que queremos para as nossas gerações?
De um pequeno supermercado do centro de Lisboa trouxemos um pouco de tudo, vindo de uma mercado que é global: abóbora portuguesa, aipo espanhol, batata francesa.
Beringela espanhola, cenoura portuguesa, morangos espanhóis, melão do Brasil.
Tomates de Marrocos e de Espanha, cebolas da Holanda e do Peru.
Supostamente compramos os bilhetes de avião, e pagamos um contributo para reduzir a pegada ecológica.
E depois naquelas acções do dia-a-dia, de ida ao supermercado, obviamente não temos consciência daquilo que estamos a fazer.
Mas depois há o reverso da medalha, que é perceber se nós o fizermos conscientemente se nós nos conseguimos alimentar.
E aí também tenho algumas dúvidas de que isso fosse possível.
Em Azeitão, na Quintal do Poial,
Joana Macedo tenta com a produção de pequenos legumes biológicos respeitar a natureza.
Um projecto iniciado pela mãe, Maria José Macedo, na década de 80, quando ainda pouco se falava de biológico em Portugal.
As pessoas ainda acreditavam que as hortas eram biológicas, enquanto que não são.
Temos de ter a plena noção que em Portugal as hortinhas pessoais a maioria não são biológicas.
Aliás, agora as pessoas começam a ter mais consciência, mas durante muitos anos as pessoas punham muito produto nas suas hortas pessoais.
Porque houve o boom dos produtos nos anos 80.
Quer dizer, o pós 25 de Abril foi...
Abriu os mercados e "tudo o que vem de fora é bom", e os produtos faziam parte.
O produto fito-fármaco era a modernidade, não nos podemos esquecer disso.
Para eles era o futuro.
Hoje o biológico já conquistou um espaço e está a crescer.
Os produtos do Poial são vendidos não só para alguns dos principais restaurantes do país, mas também no mercado do Príncipe Real, em Lisboa.
Para Joana, contudo, falta ainda acontecer uma mudança fundamental: o consumidor perceber o poder que tem nas mãos.
- O poder de compra não é uma questão do poder que nós temos para comprar.
O poder de compra para mim é o poder que nós temos a comprar.
Isto quer dizer...
O comprar é uma escolha. É darmos dinheiro àquela pessoa ou àquela.
Isso é que é para mim o poder de compra.
Eu compro este em vez deste.
Isso é poder de compra.
- Boa!
Boa, filho.
- Viemos a Montomor-o-Novo, à Herdade do Freixo do Meio, ouvir Alfredo Cunhal Sendim, que recebe os compradores dos seus cabazes, que aqui são mais do que consumidores.
- Estes animais vocês sabem quanto tempo é que eles vivem?
- Dois anos, três anos?
- Dois anos.
Dois anos. Depois viram canja, também é uma coisa interessante.
Se há um distanciamento entre quem utiliza e quem promove, há um conjunto enorme de problemas, nomeadamente há uma desresponsabilização.
As pessoas só podem ser responsáveis, ou seja, só podem ser conscientes, só podem fazer um trabalho consciente desde que possam não só ter informação mas participar também nos processos de decisão dessa forma como se obtém o alimento.
- Por isso é que são chamadas de co-produtores.
- Co-produtores.
Elas são uma faceta diferente da produção, mas também são produtores.
Não são apenas consumidores, que é o lugar que nós lhes demos no sistema dominante.
- Um ou dois?
- Quero dois.
- Bom proveito.
- Tenho interesse em comer comida biológica, saudável, e acho que é mais interessante estar a adquirir os produtos numa organização da qual eu faço parte do que simplesmente ir à prateleira bio do supermercado.
Há uma proximidade maior.
E depois todo este processo também de juntar os associados, de fazer aqui estes almoços, de explicar como é que isto funciona.
- Eu acho que a palavra mais importante é responsabilização.
Um consumidor, em Lisboa, tem muita dificuldade em poder actuar.
O Agostinho da Silva dizia uma coisa muito interessante.
Que nós só comemos como sabemos e como podemos.
Nós podemos saber que estamos a causar um dano enorme, mas se não pudermos fazer de outra maneira, não fazemos.
-Vamos levar este.
-Oh, pensava que era este.
- Este é melhor porque é uma marca portuguesa.
- E este?
- Esse não sei de onde é que veio.
Deixa cá perceber.
- Quando escolhes aqui as coisas, tens ideia de onde é que elas vêm?
- Eu olho para a ficha técnica, que penso que seja obrigatório.
Vale o que vale, porque a pessoa pode pôr isto dentro de outra caixa.
Mas, normalmente, eu percebo de onde é que vêm de onde é que vêm a fruta e os legumes.
- Morangos.
- A vossa principal motivação acabou por ser a saúde, o ambiente…
- A primeira mudança começou…
- Eu acho que tudo começou na comida.
- Na saúde, mais pela questão da saúde.
Mas depois...
A questão do ambiente surgiu até noutras áreas, e depois expandiu-se também à cozinha e depois a tudo na nossa vida.
- Sim.
Depois torna-se uma forma de estar, de viver.
Consumir é um acto politico.
E isto é muito importante, porque as escolhas que fazemos em qualquer superfície comercial vão ajudar ou desajudar a que o mundo esteja melhor ou pior.
E quando falo do mundo não falo só em questões de natureza, de ecologia. Falo também das condições das pessoas.
E nós levamos isso mesmo à letra.
- Na porta do frigorífico há uma cábula que os ajuda a não perder o rumo.
Aqui, comer local, mais sustentável, é comer da época.
- Os meus pais agora mudaram-se, agora não, já há algum tempo que se mudaram para uma vila algarvia e quando vamos lá em determinadas alturas do ano eles dão-nos coisas, laranjas, couves, ou limões. Essas consigo decorar qual é a altura do ano, a maior parte delas nem pensar.
Aquela tabela está na porta do frigorífico e portanto é muito fácil, o que é que está nesta altura, e pronto, depois vou ao supermercado, e como já desenvolvi uma espécie de cegueira, sei aquilo que posso trazer e aquilo que não posso trazer.
Voltámos à longa mesa de frutas e legumes para perceber se é possível recuperar conhecimento perdido.
Se eu comprar um tomate que não é um tomate da estação o tomate não tem o mesmo sabor de um tomate da estação, e nós perdemos um bocadinho este sentido, o sentido do sabor dos alimentos, o sentido da nossa ligação à terra.
Nós temos que aprender e introduzir novamente a temática do que é que é sazonal, e quais são os produtos que eu devo comer.
Isso obviamente, por exemplo, podia ser trabalhado nas cantinas escolares.
Mas estarão as nossas crianças preparadas para comer feijão-verde só na época do feijão-verde?
Nós aqui no nosso país temos as estações todas certinhas, não é?
Quais é que são as estações todas?
Outono, Inverno, Primavera, Verão.
Consoante a estação do ano em que nós estamos vão existir frutos diferentes.
Existem frutos que gostam do frio e só aparecem no Inverno, e existem frutos que gostam do calor e só aparecem no Verão.
- Nós não podemos mudar se não tivermos conhecimento.
O conhecimento é para mim a base.
No Inverno o mercado está cheio de coisas cor-de-laranja.
Das laranjas, e dos primos das laranjas, as clementinas e também existem as tangerinas.
- Se eu sei que devo ter determinado comportamento, eu posso fazer uma escolha.
Eu escolho o comportamento, vamos-lhe chamar certo, ou mais adequado ou escolho o comportamento menos adequado.
Ensinar nutrição às crianças faz todo o sentido.
Se lhes ensinarmos quais são os alimentos de que precisam para ter bom desenvolvimento, a influência que esses nutrientes têm na sua saúde, vamos ter futuros cidadãos mais informados.
-Eu queria um kg…
Um?
-Ou dois.
Dois?
-Não, três.
(risos) -Oh, 40.
Essa é a grande mais valia da educação alimentar nas camadas mais jovens.
E começa-se cada vez mais cedo, portanto estes temas devem acompanhar sempre o cidadão, tenha ele 4 anos ou tenha ele 90. É numa antiga fábrica de conservas, no centro de Lisboa, que vamos ao encontro de António Galapito, o jovem chef do Prado, para perceber como se cozinha quase exclusivamente com o que a terra dá, na sua estação própria.
-Recebeste coisas foi?
Sim.
Chegaram hoje? Sim, chegaram hoje uns vegetais e uns cantarelos.
- Tens de usar os produtos que existem na estação, não podes…
Pois.
Estás fechado naquele círculo do que é que podes usar. Não podes decidir agora quero fazer uma coisa com tomates, não podes, não está na época.
O que é que os teus clientes diriam?
Não podes dizer uma coisa e fazer outra.
E também não acho que, não vale a pena, para que é que eu vou usar tomates se ele nunca vão estar bons?
Mais vale usar brócolos, mais vale usar couves, rábanos, rabanetes, nabos.
Trouxeram-nos estes rabanetes, de várias cores, este verde é um dos meus preferidos, é espectacular, super picante, trouxeram-me estes vermelhos também.
- E isso, tu combinaste com ele por telefone, e já sabes o que é que vais fazer, já sabes como é que os vais usar?
Não. (risos)
Para além de toda a lenga lenga é relativamente importante comprar local, ou comprar sazonal… eu acho que sazonal ainda é mais importante que o local.
Tu plantares as coisas na altura certa faz muito mais sentido do que não o fazer.
Isso foi uma coisa que tu despertaste para isso quando?
Foi em Londres?
- Em Londres.
Eu acho que sim.
E agora eu queria aprofundar mais essa parte de ser esse o teu único entrave enquanto cozinheiro e para a tua equipa toda o único entrave é: temos de cozinhar sazonal.
Portanto, venham ideias, venham, mas se falares de ideias com tomate, a não ser que seja fermentado, hoje, mais vale não falares.
Não fico chateado, de todo, é só mesmo fonix, já vou ter de pensar nisto, para além de tudo o resto é mais isto, outra vez… estávamos aqui há 3 semanas para mudar o prato vegetariano, conseguimos, pumba, temos de mudá-lo outra vez.
E tu, ah fogo... É aquele challenge, mas acho que até tem piada. Às vezes.
Não, tem sempre piada.
O desafio de saber de onde vem o que comemos anda de mãos dadas com um dos mais importantes projectos da FAO, a organização que a nível mundial discute o que se produz e o que comemos: apoiar os pequenos agricultores familiares, e, no caminho, recuperar o domínio da alimentação.
Nós entregámos a responsabilidade da alimentação a terceiras pessoas.
E não sabemos nada do que nós comemos.
Hoje a gente pensa em comida e a gente pensa na produção, no lado do produtor.
Tem de fazer um switch nisso, uma mudança de foco, para o lado do consumidor.
Organizar o consumo para ser um consumo responsável é realmente uma tarefa gigantesca.
O consumidor deixa de estar apenas focado em fazer a melhor escolha na compra e em utilizar bem, passa também a estar preocupado com a seca no Alentejo.
Porque a seca passa a ser um problema também seu, não só do outro.
Este sistema permite-nos aquilo que teríamos de fazer através da mudança de não sei quantas políticas, não sei quantas cabeças, ou seja quase impossível.
Permite-nos viabilizar directamente o que é um empoderamento extraordinário.
A gente diz assim: “Queríamos fazer uma coisa, mas não podemos."
"Queremos construir uma linha de comboio daqui para Lisboa."
"Não podemos."
O governo diz que não há dinheiro, ninguém acha que isso seja uma prioridade.
Arranjamos um grupo de pessoas que quer fazer a linha de comboio, cotizamo-nos e fazemos a linha de comboio, e quando a gente menos espera estamos no comboio em Lisboa.
Todos somos consumidores.
E a maior parte de nós vive em cidades, onde se debate agora a maneira mais sustentável de alimentar mais gente.
Em 2050, vamos ser 9 mil milhões de pessoas.
70% dessa população a viver em áreas urbanas.
Produtores e consumidores cada vez mais próximos, será esse o futuro?
E mais do que saber de onde vem o que comemos, poderemos saber quantos quilómetros percorre até nós?
Como funciona esse circuito?
Poderemos torná-lo mais curto?
