Comunicação no veganismo: o problema e a promessa - Melanie Joy IARC2018
Temos de parar de reproduzir o perfeccionismo tóxico e a comunicação tóxica da cultura dominante.
O veganismo foi criado para contrabalançar estas atitudes e comportamentos tóxicos, que são normais na cultura dominante. E podemos fazer melhor.
Conferência Internacional de Direitos dos Animais Luxemburgo 2018
Obrigado.
Como estão?
Eu sei, é espantoso estar aqui num mar de veganos, um auditório grande completamente preenchido com pessoas que trabalham para tornar o mundo um sítio melhor para os animais.
Nada me inspira mais, portanto muito obrigado.
E adoro ter a oportunidade de falar para um grupo de veganos, que muitas vezes são tão dedicados e trabalham tão duro para tornarem o mundo um sítio melhor para os animais, e ser capaz de partilhar boas notícias, por exemplo que o movimento vegano está a crescer exponencialmente, por todo o mundo.
O que é um facto: o movimento expande-se por todo o mundo, e isso é espantoso.
Hoje vou na realidade falar sobre outra coisa que está a crescer, e que cresce dentro do movimento vegano; que é uma espécie de vírus, é um vírus contagioso, debilitante e potencialmente letal.
Mas também há boas notícias. Pois quando reconhecemos com consciência este vírus, ficamos numa posição de impedir que se espalhe, de reverter o seu curso, e de, em última instância, curar o nosso movimento.
E o vírus de que estou a falar hoje, é a comunicação tóxica entre veganos.
Antes de falar sobre isto e defini-lo, vou mostrar alguns exemplos.
Conseguem ler isto?
Será que lá atrás vêem num tamanho bom?
Ok.
Eu tinha montes de exemplos, infelizmente, e só escolhi 4 deles para vos dar uma ideia de alguns dos problemas de que falaremos hoje.
E estou curiosa, antes de avançar, quantos de vocês já observaram comunicação tóxica entre veganos ? De veganos para veganos...
Ok, nem terminei a questão, e todas as mãos se levantaram.
Portanto sabem do que estou a falar. E isto é um problema sério dentro do movimento.
Há inúmeros veganos que foram alvo de comunicação tóxica, incluindo eu.
Na verdade, tenho falado com inúmeros veganos, alguns dos quais são líderes brilhantes, líderes brilhantes de organizações, que partilharam comigo estas histórias profundamente dolorosas, de como foram alvo de comunicação tóxica, alguns dos quais sentiram mesmo que nem podiam continuar nas suas carreiras como veganos, e de facto, na minha experiência e observação, muitos veganos acabam por sair do movimento, não porque não aguentem a pressão da cultura carnista dominante, mas por causa do sentimento de traição e desmoralização que sentem quando são atacados pelos seus próprios pares.
Quantos já sentiram ou viram isto?
Este sentimento de ser traído, pelas pessoas que supostamente deveriam entender-nos mais.
Portanto, é um problema grave. E vou falar primeiro por uns minutos sobre o que quero dizer exactamente quando me refiro a "comunicação tóxica".
A comunicação tóxica é qualquer comunicação que viola a nossa integridade e prejudica a dignidade de outros.
Vou definir isto para vocês.
Integridade é a integração de valores morais básicos, como a compaixão e justiça, com a prática, portanto é praticar o que dizemos.
Violamos a nossa integridade quando comunicamos de uma forma que não reflecte a compaixão e a justiça.
Faz sentido?
Dignidade é um sentimento de valor pessoal intrínseco.
Sentimos dignidade quando sentimos que temos fundamentalmente valor, como seres neste planeta.
Quando sentimos que não somos menores, que não merecemos menos, a um nível fundamental, do que os outros.
Portanto violamos a dignidade de outro, sempre que comunicamos que eles são de alguma forma "menos que", particularmente quando os rebaixamos.
Quando humilhamos alguém, comunicamos que "valem menos que".
A humilhação é uma emoção incrívelmente tóxica.
Na verdade, pode-se argumentar que é uma das, ou a principal, emoção mais prejudicial e destrutiva que os humanos sentem.
Quero falar brevemente sobre esta emoção durante um minuto.
E quero começar por diferenciar entre "humilhação" e "culpa".
Muitas vezes as pessoas usam estas palavras de igual modo, mas há uma diferença entre elas. Alguém aqui sabe qual é?
Podem falar mais alto? Qual é a definição de "culpa"?
[inaudível]
Portanto "culpa" seria o que pensamos, e "humilhação" seria o que achamos que os outros pensam?
Bem, pode ser visto assim, mas não é essa exactamente a definição.
Mais alguém quer tentar?
"Culpa" vem de dentro, "humilhação" vem de fora ?
Mas podemos humilhar-nos a nós próprios, e outras pessoas podem fazer-nos sentir culpados, na realidade.
Portanto a diferença é que,
"culpa" é o que sentimos sobre o nosso comportamento, sentimo-nos culpados quando pensamos "fiz algo de errado".
A "humilhação" é o que sentimos sobre o quê?
Exacto, "nós próprios". Sentimo-nos humilhados quando pensamos "eu SOU mau".
Portanto a humilhação é o sentimento de "ser menos que", e especialmente, é a humilhação de "valer menos do que", e como disse, é uma das emoções mas lesivas e destrutivas de todas as emoções humanas.
Muitos de nós já carregam um grande fardo de humilhação.
Porque nascemos num mundo completamente disfuncional, com relações que não funcionam.
Isso humilha-nos continuamente.
Não aprendemos como relacionarmo-nos uns com os outros de uma forma basicamente compassiva, saudável e relacional.
E portanto muito da nossa comunicação e interação causa humilhação.
A maior parte de nós carrega muita humilhação e muitos de nós, compreensivelmente, temos defesas profundas contra sentir ainda mais humilhação.
Protegemo-nos de sentir mais humilhação de uma variedade de formas, e escondemos a nossa humilhação de outros e também de nós próprios.
Enterramos a nossa humilhação debaixo dos nossos muitos sucessos, escondemo-la quando queremos ser o melhor activista, o melhor empregado, a pessoa mais bonita que podemos ser, etc.
Fazemos coisas para esconder a nossa humilhação, de outros e de nós próprios.
Fingimos para nós próprios que não temos humilhação porque muitos de nós aprendemos a sentir humilhação de nos sentirmos humilhados.
Muitas vezes digo que a melhor forma de fazer com que alguém faça o oposto do que queremos que façam, é humilhá-los.
As pessoas humilhadas não são pessoas que sintam ser capazes de tomar acções positivas, em nome de outros ou de eles próprios.
As pessoas humilhadas estão em modo defensivo.
Agem para prevenir que se sintam ainda mais humilhadas.
Envolvem-se na armadura emocional para se manterem seguros.
As pessoas humilhadas tipicamente retiram-se ou atacam, em defesa própria.
Então temos esta epidemia de humilhação, e esta epidemia de comportamentos humilhantes, e esta epidemia de esconder a nossa humilhação de nós, e apesar disso, muitos de nós continuamos a usar a humilhação, pensando que irá realmente motivar as pessoas a mudar.
Muitas vezes, o oposto é mais provável.
Quando as pessoas sentem humilhação, quando sentem que a sua dignidade não está a ser honrada, ficam defensivas, exibem uma resposta de stress.
Estão quase em estado "foge ou luta". Por vezes é forte, por vezes é mais fraco, o que as pessoas fazem nesse modo é que se tornam menos racionais, têm menor acesso à sua racionalidade, e também se tornam menos empáticas.
Não se irão ligar com empatia a alguém que os está a humilhar.
E quando pensamos sobre muita da comunicação vegana, o que notamos? Na comunicação com não veganos?
Muitas das nossas tácticas são humilhantes.
E quando comunicamos uns com os outros, muita da nossa comunicação é humilhante.
Isto não é só improdutivo, mas profundamente contra-producente.
A humilhação também é contagiosa.
Quando humilhamos outros, aumentamos a probabilidade de que eles irão humilhar outros, por sua vez, como uma forma de gerir a sua humilhação.
Uma das formas como as pessoas gerem o sentirem-se "menos que" é procurarem outros a quem possam fazer sentir que são "menos que" eles.
Faz sentido?
A humilhação é contagiosa, e de facto a comunicação tóxica é contagiosa.
Estudos mostraram, por exemplo, que ser exposto a um único incidente de comportamento rude, como ler um email insultuoso, pode levar as pessoas a reproduzir estes comportamentos negativos.
Os estudos também mostraram que, por cada interação dolorosa que temos, são precisos pelo menos 5 interações positivas, para contrabalançar os danos ao nosso humor e o desgaste de energia. É um rácio de 1:5, é significativo.
Estudos também mostraram que as pessoas mimetizam automaticamente as expressões faciais, tom, e posturas de outros, tal como fazem os espectadores do encontro, por isso se alguém se comportar de forma tóxica, mesmo os espectadores irão imitar as suas expressões e comportamentos.
E quando vemos as pessoas expressando-se negativamente ou causando dor, como franzir as sobrancelhas ou olhar fixamente, sentimo-nos na realidade zangados ou piores.
A comunicação tóxica, que é a principal expressão de comportamentos tóxicos, é contagiosa.
Agora, imaginem só o impacto da comunicação tóxica quando é expresso, não apenas de pessoa para pessoa mas para centenas ou milhares de outros, quando alguém está num palco, ou alguém publica no facebook.
E imaginem o aumento desse impacto quando esse indivíduo está numa posição de liderança, ou autoridade.
Aqueles de nós em posições de liderança têm uma responsabilidade de usar a nossa influência para contrabalançar, e não reforçar, esta toxicidade. É incrivelmente importante que tenhamos cuidado com o nosso modelo e como comunicamos.
Esta comunicação tóxica no nosso movimento está a criar uma epidemia de sofrimento e está a causar um tremendo dano aos veganos, às suas organizações, e ao movimento.
Têm havido estudos interessantes feitos sobre comportamentos tóxicos no local de trabalho, e vou partilhar convosco alguns destes resultados.
Há mais que podia partilhar, mas não conseguia pô-los todos na apresentação.
Alguns dos custos da nossa comunicação tóxica, num local de trabalho, que podem ser facilmente extrapolados para uma organização vegana, ou claro, ao movimento no seu todo.
Estes são apenas alguns dos resultados, sobre comunicação tóxica em local de trabalho.
- elevado absentismo - mais erros - menos satisfação com a vida
- menos criatividade - menor participação na tomada de decisões
- colegas que retiram o seu apoio - menor satisfação com o trabalho
- sentir-se inútil - auto-proteção - medo - dificuldade em concentrar-se
- cultura de competição disfuncional - falta de confiança - depressão
- fadiga crónica - raiva - retaliação - doença cardíaca
Isto é familiar para alguém?
Em alguns dos vossos trabalhos, organizações, grupos?
As vossas interações?
E o que é interessante é que estes problemas não são sentidos apenas pelo receptor directo da comunicação tóxica, mas também pelas vítimas indirectas, as testemunhas em 1ª ou 2ª mão, que também são afectadas de uma forma semelhante.
Portanto as vítimas indirectas são os espectadores, que testemunham directamente a interacção, ou as pessoas que conversam com alguém magoado no fim do dia.
Podemos ter essa experiência no nosso grupo de voluntários, e vamos a casa e dizemos ao parceiro, e então ele também pode sofrer o impacto, de uma forma negativa, por ter ouvido isso.
Os estudos também mostraram que basta 1 pessoa com comportamentos tóxicos num grupo, para reduzir o desempenho do grupo em 30 a 40%.
Pensem sobre esse número por um momento.
Num movimento que precisa de toda a energia e recursos que conseguir, para abordar este problema global enorme, do sofrimento dos animais.
Os estudos mostraram, os pesquisadores estimaram que os custos financeiros, por si só, de um ambiente de trabalho tóxico
- que definiram como tendo 15% dos empregados com interações tóxicas - se tivermos uma equipa de 1000 pessoas e 15% tiverem interacções tóxicas, o custo é superior a 2 milhões de dólares.
Portanto vamos pensar sobre o que estes números podem querer dizer, quando os aplicamos a uma organização vegana, no movimento vegano.
Vamos partir do princípio de que falamos de uma organização de 100 pessoas.
O custo seria de cerca de 200.000 dólares, em produtividade perdida.
Vamos imaginar que falamos de uma organização com 10 pessoas, o que é ainda mais comum, o custo seria cerca de 20.000 dólares.
E vamos ver o que isto significa, em termos de danos aos animais, quando falamos de uma organização vegana eficiente, que se estima poder poupar 1 animal por cada dólar gasto.
Vamos ver o custo para os animais, numa organização vegana eficiente.
Numa organização de 10 pessoas, são 20.000 animais que não foram poupados mas que o podiam ter sido.
Numa organização maior, de 100 pessoas, isto seriam
200.000 animais que não foram poupados, mas que o podiam ter sido.
Mesmo que estas estimativas estejam muito erradas, mesmo que sejam 80% mais elevadas do que o correcto, seriam ainda assim 20% de animais a mais, do que a maioria dos veganos aceitaria.
Um analogia imperfeita mas talvez útil é de pensar nos animais de pecuária como estando num navio a afundar-se, e a sua principal esperança de sobrevivência, é um bote salva-vidas, cuja tripulação são veganos.
Cada comunicação tóxica é como dar um tiro no fundo do bote dos animais.
Este é um problema que não nos podemos dar ao luxo de deixar por resolver.
Vou falar sobre como podemos abordar isto. Que ações específicas podemos tomar, mas primeiro vou brevemente falar sobre o que causou esta epidemia de interacções tóxicas, para começar.
Há muitas razões, estou na realidade a escrever sobre elas separadamente, mas vou apenas nomear algumas das que acho serem mais importantes ter consciência, neste momento.
Uma razão é que a maior parte da comunicação hoje em dia é online, e é muito mais fácil ser mesquinho com alguém, se não estamos a olhá-los nos olhos, e sabemos isso.
Portanto, um passo simples que podemos tomar é comunicar com a pessoa olhos-nos-olhos, mesmo que seja uma pessoa que apenas conhecemos do facebook, podemos pedir-lhe para um encontro através de uma vídeo-chamada.
Em vez de ter uma batalha onde todos podem observar, uma batalha de comentários.
Outra razão é porque o cenário emocional e intelectual, o cenário intelectual e emocional da cultura dominante, tornou-se tóxico.
Portanto, as comunicações tóxicas tornaram-se tão normais que não se consideram estranhas.
Fico constantemente surpreendida como a comunicação do quotidiano, que muitas vezes é tão humilhante, e tão lesiva, que já nem se nota, para muitas pessoas.
Este é um problema que ultrapassa o movimento vegano, claro.
E a terceira razão de que falarei hoje, é porque em muitos movimentos, e particularmente no movimento vegano, há altas taxas de traumatização,
Vivemos no meio de uma atrocidade global, que é o carnismo.
Uma atrocidade global é um evento traumático em massa, e quando vivemos no meio de um evento traumático em massa, é muito difícil, ou mesmo impossível, não ficar um pouco traumatizado com isto, traumatizado pela realidade do que se passa no mundo, e que conhecemos, e muitas das imagens chocantes que muitos de nós testemunhámos.
Muitos do nós no movimento, têm STSD -
Transtorno do Stress Traumático Secundário.
Quantos de vocês já ouviram falar disto? Estou curiosa.
Fiz uma palestra sobre isto há alguns anos, talvez alguns tenham assistido, quantos de vocês conhecem a PTSD - Transtorno do Stress Pós-Traumático ?
Isso é o que os veteranos de guerra experienciam, por vezes.
A STSD é exactamente como a PTSD, excepto numa diferença fundamental, alguém sabe qual é?
Exactamente: a STSD tem impacto nas testemunhas da violência, ao invés das vítimas directas da violência, portanto muitos veganos têm STSD, e tenho um capítulo no meu livro
"Beyond Beliefs", específicamente sobre isto. É muito importante termos informação sobre isso, pois quando somos traumatizados, num nível maior ou menor, isso tem um impacto nas nossas percepções e sentimentos, e nos nossos comportamentos, e é um dos desencadeadores de alguns dos padrões comuns de comunicação tóxica, que vemos no nosso movimento.
Por exemplo, quando temos STSD, ou mesmo algum nível de traumatização, podemos desenvolver o que refiro como "uma narrativa de trauma", ou seja, começamos a olhar o mundo como se fosse um acontecimento traumático gigante, com apenas três papéis a desempenhar: ou somos vítimas, ou um agressor, ou um herói.
Uma testemunha é complicado, pois uma testemunha também pode ser uma vítima ou um agressor, ou um herói, dependendo de como age.
Vítima, agressor, e herói.
E quanto mais traumatizados ficamos, mais começamos a ver todos, incluindo nós próprios, num desses papéis, e a colocar fronteiras rígidas entre eles, como se não pudéssemos ser ambos, e tívessemos de ser um ou outro, e tanto mais forte quanto a nossa ligação emocional a eles.
Portanto achamos, que se não és um herói, se não és 100% vegano, 100% do tempo, deves ser o quê ? Um agressor.
Temos este tipo de perfecionismo, que começámos a desenvolver, e que se deve em grande parte, na minha opinião, ao nível de traumatização que muitos de nós sentiram.
Quando falo com veganos acerca do trauma, o que faço muitas vezes, falo sobre o problema de sobre-testemunhar.
O problema de tantos veganos que sentem uma obrigação de ver estes vídeos chocantes e imagens chocantes.
Têm essa experiência?
Muitos veganos se sentem assim.
E estes vídeos chocantes alimentam o trauma.
Se já sabemos o que se passa no mundo, não precisamos de continuar a vê-los.
Eles podem reforçar a nossa experiência traumática.
Mas muitos veganos dizem-me, "eu sinto-me culpado se não o vir, comparado com o que os animais passam, o mínimo que posso fazer é prestar testemunho, ver 2 minutos do seu sofrimento.
Os animais não precisam de um movimento composto por traumatizados.
Os animais precisam de um movimento de pessoas felizes e ligadas a si mesmas, que sejam capazes de estar neste movimento a longo prazo, e não ter um esgotamento, e o sobre-testemunhar, testemunhar mais do que o necessário, é um dos principais contribuintes para o esgotamento, dentro do movimento.
Os veganos muitas vezes dizem que temem que se deixarem de testemunhar, de ver estes vídeos chocantes, então vão deixar de se importar.
Param de querer prosseguir a luta justa.
Na minha carreira, nunca vi tal acontecer.
De facto, tenho visto o contrário mais frequentemente.
Em que os veganos se tornam mais motivados, mas não inseridos num local traumático, mas num local mais saudável dentro de si próprios.
Pode ser útil pensar no teu trauma como tendo um instinto de sobrevivência, como sendo uma entidade, um ser vivo, com um instinto de sobrevivência, que fixou residência no teu coração e mente.
E quer continuar vivo, o que faz através de te convencer a continuar a alimentá-lo, aceitando mais material traumático.
Eu sugiro que te coloques numa posição de abandonar o trauma, o que pode ser desconfortável, mas vê o que acontece quando te dás permissão para abandonar o teu trauma, o que diminuirá significativamente a probabilidade de agires com alguns destes comportamentos e comunicações tóxicos, de que falámos.
E terás uma vida mais sustentável, como activista e como pessoa.
Esta combinação deste contexto intelectual e emocional tóxico com a cultura online, e o Stress Traumático Secundário, levaram a uma cultura de uma espécie de "perfecionismo moral", em que nós exigimos aos outros, e muitas vezes a nós próprios, padrões impossíveis de alcançar.
Uma afirmação não examinada; ou uma escolha egoísta, subitamente rotulam alguém de "mau", subitamente ficamos "o inimigo", não temos espaço de manobra para falhar, não temos espaço de manobra para não sermos perfeitos, e isto é um estado muito perigoso para estarmos, no nosso movimento.
O ethos hoje (o ethos - o contexto de fundo) do movimento vegano, e de forma mais alargada na cultura em geral, de algumas formas, é um ethos em que, não só toleramos, como também celebramos este perfecionismo moral, e comunicação tóxica.
Aprendemos a reunir-nos à volta daqueles que fazem o grito de guerra da rectitude moral, e elevamo-los num pedestal e acreditamos que é justificado abusar dos outros, desde que tenhamos uma fúria moral, quando o fizermos.
Esta é uma atitude muito perigosa para abraçarmos.
E a pesquisa sobre a raiva, e as percepções de pessoas iradas, mostrou que somos menos racionais no que toca a avaliar os comportamentos de pessoas que estejam iradas.
Vemos as pessoas iradas como mais "acreditáveis", mais competentes e mais inteligentes do que realmente são.
Portanto quero falar um pouco sobre a raiva.
E alguns podem pensar: "mas claro que temos raiva, é suposto termos raiva, é suposto termos uma raiva moral, vejam o que acontece no mundo."
Quero diferenciar raiva saudável de raiva não saudável.
A raiva é uma emoção normal, saudável e legítima, que nasce como resposta à injustiça.
Precisamos da nossa raiva, ela é o que nos permite ter uma posição contra a injustiça.
A raiva torna-se pouco saudável ou problemática quando nos fundimos com ela, e quando vem carregada com desprezo.
E vou explicar ambos os conceitos.
Quando nos fundimos com a nossa raiva, significa que não vemos diferença entre a nossa raiva e nós próprios, expressamo-lo como "eu estou irado", como se a raiva e nós fôssemos unos.
Uma forma mais precisa de expressar a raiva seria "estou a sentir raiva com...." ou, melhor ainda,
"uma parte de mim está irada com isto", porque geralmente é uma parte de nós que sente raiva, não 100%.
Quando nos fundimos com a raiva, vemos o assunto e o mundo através dos olhos da raiva.
Quando não nos fundimos com a raiva, continuamos a conseguir ligar-nos com o nosso eu racional, empatia e compaixão, mesmo enquanto sentimos uma raiva saudável.
Isso faz sentido?
E a raiva problemática é raiva que vem carregada de desprezo.
O desprezo é a emoção, o julgar, adicionado a ódio.
Essencialmente. É julgamento, raiva, e ódio, tudo junto.
Quando sentimos desprezo, isto significa que nos colocámos numa posição de superioridade moral, percebemos o outro, ou nós próprios,
- às vezes sentimos desprezo por nós próprios também.
Tudo isto de que tenho falado aqui se aplica também a como tratamos e comunicamos com nós próprios.
Quando sentimos desprezo, percebemos outro - ou nós - como moralmente inferior, de alguma forma.
Se assumirmos que a nossa raiva, a nossa raiva pouco saudável, nos faz adoptar esta posição problemática, se assumirmos que a nossa raiva nos dá licença para não practicarmos a decência humana básica, para com outros, então podemos acabar a alimentar, em vez de corrigir, o próprio problema que a nossa raiva está a tentar transformar.
Precisamos de ter o cuidado de cultivar auto-consciência suficiente para reflectirmos em nós próprios, quando estamos irados, e perguntar-nos se estamos a sentir e a usar a nossa raiva produtivamente ou destrutivamente, porque a forma de usarmos e de nos relacionarmos com a raiva fará toda a diferença.
Deixem-me voltar atrás.
Também queria dizer para não se confundir a raiva saudável, não se confundir a expressão da raiva com o "policiamento de tom".
Já ouviram esta expressão, o "policiamento de tom"?
A ideia é...
O "policiamento de tom" é basicamente dizer às pessoas que não deveriam comunicar sobre um assunto, se estão a sentir ou exprimir emoções fortes sobre o assunto.
Isso é um problema, é normal, natural e necessário, e saudável, exprimir as nossas emoções sobre os assuntos.
O "policiamento de tom" não é o mesmo que pedir a alguém que comunique respeitosamente quando se sentem irados.
Não quero misturar os dois conceitos.
Quero falar brevemente sobre avançar além deste perfecionismo, antes de passarmos a como comunicar de forma menos tóxica ou não tóxica.
O primeiro passo é a nossa atitude.
Precisamos de avaliar o facto de termos herdado um mundo disfuncional, que nascemos num mundo completamente disfuncional.
E vocês não precisam que vos diga isto, já têm uma boa consciência disto.
Temos de aprender a relacionarmo-nos com o mundo da forma que é, ao invés da forma que desejaríamos que fosse.
Em vez de nos zangarmos com a chuva, peguemos num guarda-chuva.
Quando nos relacionamos com o mundo de forma diferente, temos de fazer escolhas, no mundo que herdámos, que são muito diferentes daquelas que faríamos num mundo ideal.
Temos de aprender a viver com contradições, porque não temos outra escolha.
Mesmo quando responsabilizamos as pessoas, quando trabalhamos para mudar atitudes e comportamentos problemáticos, precisamos de ter espaço de manobra para apreciar que muitas pessoas fazem o melhor que podem, num mundo muito problemático.
Talvez sejamos veganos e alimentemos com carne o nosso gato doente, porque ele não pode sobreviver com comida vegana. É uma contradição com que teremos de fazer pazes e conviver.
Não é uma contradição com que nos preocuparíamos se o mundo fosse ideal, provavelmente não teríamos gatos a viver connosco.
Precisamos de apreciar que, em 1º lugar, o perfecionismo é impossível de alcançar, tudo pode ser mais perfeito, tudo pode ser melhorado, e que estamos numa situação em que o perfecionismo ou mesmo tentar ser perfeito é muito difícil ou impossível.
Precisamos de parar de reproduzir o perfecionismo e comunicação tóxicos da cultura dominante.
E podemos fazer melhor.
O movimento vegano foi criado para contrabalançar estas atitudes e comportamentos tóxicos, que são normais na cultura dominante.
O nosso movimento baseia-se na compaixão e na justiça.
Fazemos melhor em muitos sentidos, e podemos fazer melhor, no que toca a isto, mudar os nossos padrões de comunicação.
Agora vou falar de...
Quando fiz esta apresentação, tinha umas 50 dicas para prevenir a comunicação tóxica, mas não temos tempo para 50 dicas, mas eu falo detalhadamente sobre a comunicação eficaz no meu novo livro "Beyond Beliefs".
Mas aqui vou falar sobre 8 dicas, dicas fundamentais para prevenir o avanço da comunicação tóxica.
A primeira é, examinarmo-nos a nós próprios, e aos nossos comportamentos, pois muitas pessoas, nem todas, têm crenças inflacionadas sobre quão bem tratam os outros e quão bem são vistos por outros.
Particularmente, examina se te relacionas com as pessoas baseado em quanto poder têm, na sua relação contigo.
Isto é algo a que muitos de nós não prestam atenção. É bom sermos um auto-observador.
Observa se quando alguém tem mais poder do que tu, tendes a tratá-los com mais respeito, do que as pessoas com menos poder do que tu.
Se for esse o caso, é importante para ti mudares a forma de te relacionares, em geral.
E presta atenção às tuas companhias, se estás rodeado de pessoas para quem a comunicação tóxica é normal, e normalizada, muito provavelmente vais cair nesse padrão de comunicação.
Se estiveres rodeado de pessoas que são mais conscienciosas, e não comunicam de forma tóxica, a tua tolerância para a comunicação tóxica será muito mais baixa.
E quando estiveres exposto a ela, e a notares, vais sentir quão tóxico ela realmente é, vais de certa forma limpar-te dela, e quando fores re-exposto sentirás a toxicidade ainda mais, e isto inclui estar online.
Tem cuidado como te expões à comunicação tóxica online para não ficar normalizada.
A segunda dica é seres um consumidor crítico relativamente ao que pões no coração e na mente, tal como és relativamente ao que pões no corpo, e ao que usas.
Por exemplo, nota os sinais de comunicação tóxica, e distancia-te deles e não os uses tu próprio.
Por exemplo, gritar, e isto pode ser representado escrevendo apenas em letras maiúsculas, ou com múltiplos pontos de exclamação, ou apenas só com um ponto de exclamação.
Ou usar absolutos, por exemplo, usar "homens" em vez de "alguns homens" ou "pessoas que comem carne" em vez de "algumas pessoas que comem carne", que usam linguagem sexista, ou comem animais, ou têm uma atitude negativa para com os veganos.
Observem o assalto à personalidade.
Isto ocorre quando as pessoas confundem um comportamento com uma personalidade.
Por exemplo, "ela é especista", porque diz algo especista, ou "ele é sexista", porque diz ou faz algo sexista, quando nascemos em sistemas dominantes, como o especismo, o sexismo, o carnismo, racismo, todos nós absorvemos estes sistemas na nossa mentalidade, de forma tão profunda, que provavelmente nunca estaremos totalmente livres deles.
O que precisamos de fazer é de estar empenhados em continuar em examinarmo-nos, tornarmo-nos auto-observadores, tornarmo-nos mais "letrados", para que possamos praticar os valores da compaixão e da justiça, de uma forma mais integral, mas se alguém diz algo sexista, isso é normal, podemos chamar-lhe a atenção, podemos criar consciência, mas quando rotulamos a personalidade de uma pessoa por causa de um comportamento, diminuímos a probabilidade de essa pessoa vir a estar interessada em qualquer informação nossa, essa pessoa provavelmente sentirá humilhação.
A hipérbole - fazer asserções exageradas em vez de nos restringirmos aos factos - dizer algo como "as afirmações maliciosas do Joe" em vez de dizer "afirmações que o Joe fez e que senti como ofensivas"
"Maliciosas" implica que sabemos as intenções de Joe, será que sabemos que tinha a intenção de ofender?
Não podemos saber isso.
Tudo o que podemos saber é o que observamos, e as nossas percepções daquilo que observamos.
Definir a realidade: isto é quando nos tornamos "peritos" da experiência interna do outro, quando agimos como leitores de mentes, quando sabemos o que outros pensam ou sentem ou precisam ou quais as suas motivações, o que não podemos verdadeiramente conhecer.
Quando definimos a realidade de outros, é fundamentalmente desrespeitoso, é muitas vezes humilhante, muitas vezes desencadeia ira na outra pessoa, compreensívelmente, e correctamente, e é um comportamento altamente desintegrador, portanto definir a realidade dizendo: "ele não se importa com os animais, está só a tentar alimentar o ego", o que por vezes é dito de veganos que praticam o veganismo de uma forma que outros veganos não gostam:
"ele não gosta mesmo de animais" "aquela organização não quer realmente ajudar os animais, eles só querem fazer montes de dinheiro".
Como é que seria possível alguém saber isso?
Como pode algum de nós conhecer o que está dentro do coração e mente de outra pessoa?
Permitir que os outros sejam os especialistas da sua própria experiência, é fundamentalmente respeitoso e é uma generosidade que todos nós merecemos, e é um comportamento que cria laços, cria ligação e abertura, ao invés de desintegração e mentes fechadas.
Então mais algumas sugestões:
Evitar alguma comunicação que sugere que o outro seja de alguma forma "menos que", que cause humilhação, o que pode ser difícil, especialmente no que toca a críticas intelectuais ou académicas, não sei quantos de vós notaram isto, mas muitas vezes, as críticas académicas ou intelectuais, que são comunicações muito eloquentes, que usam palavras muito importantes, são formas de astutamente comunicar algo que humilha, e que é tóxico.
Portanto tenham especial cuidado, quando lêem uma crítica intelectual, que critica o trabalho de alguém, até pode ser uma crítica pertinente, e também pode ser uma critíca feita de tal forma que humilha.
A dica 3 é criar um processo saudável, quando comunicamos.
Todas as comunicações têm estas duas partes - um conteúdo e um processo.
Quando comunicamos, o conteúdo é o assunto da comunicação.
O conteúdo desta minha comunicação é "comunicação".
Estamos a falar do conteúdo, e o processo será o quê? É o como. É como comunicamos.
O processo importa mais do que o conteúdo.
Se pensarem na vossa experiência de comunicação, ao longo da vossa vida, pensem numa conversa que tiveram na última semana ou no ano passado.
Há uma possibilidade de nem se lembrarem do conteúdo, no entanto provavelmente lembram-se de como se sentiram.
O processo determina como sentimos.
Quando o nosso processo é saudável, o nosso objectivo é compreensão mútua.
A comunicação é o que usamos simplesmente porque não lemos mentes, não somos telepatas, apesar de muitos de nós agirem como se assim fosse.
O nosso objectivo é a compreensão mútua, é de eu compreender os vossos pensamentos e sentimentos e de vocês compreenderem os meus pensamentos e sentimentos.
Esse é o nosso objectivo.
Quando o processo é saudável, podemos falar de qualquer coisa, sem discussões, e quando o processo não é saudável, não podemos falar de nada, sem discutirmos.
Portanto as diferenças raramente são o problema.
As diferenças no movimento vegano são a nossa beleza e riqueza, que criam uma diversidade de opiniões que é importante, para o tipo de trabalho que fazemos.
As diferenças raramente são o problema, o problema é como nos relacionamos com as diferenças que criam o problema.
Quando temos um processo saudável, estamos abertos a entender as nossas diferenças e comunicarmos sobre o conteúdo de uma forma que ajude a aumentar a consciência e aprofundar o entendimento.
A dica 4 é proteger os nossos limites, bem como os limites dos outros.
Por exemplo, precisamos de responsabilizar os comunicadores tóxicos, precisamos de não ser espectadores passivos, e validá-los.
A razão pela qual a comunicação tóxica se torna viral é porque tantos espectadores permitem que ela se multiplique.
Precisamos de assumir mais responsabilidade, especialmente nas nossas redes sociais.
Se alguém colocar comentários na vossa página, não os partilhem, não o permitam, afirmem que "não toleram comentários tóxicos", deixem a pessoa saber, e depois apaguem, se não pararem de comunicar de forma tóxica.
Não fujam disso.
Também precisamos de bloquear os comunicadores tóxicos, pessoas que se recusam a interagir de forma produtiva.
E temos de evitar que nós próprios tenhamos a tentação de ler comunicação que seja tóxica.
Os comentários tóxicos alimentam o ego, alimentam a parte de nós que quer sentir-se "melhor do que outro", alimentam a parte de nós que não se sente "suficientemente boa", e que se activa vendo os outros a serem humilhados, o que tem um impulso viciante, e não permitam serem controlados por isso.
Evitem a tentação de ler isso, porque quanto mais virem mais alimentam essa parte de vós, que se sente atraída, em vez de repelida, por este tipo de comunicação.
Se houver grupos que toleram ou encorajam comunicação tóxica, decidam se querem deixá-los ou não, e eu encorajo-os a deixarem-nos, e se organizarem encontros ou eventos, tenham a certeza que esses são espaços seguros para os espectadores e os palestrantes.
Podemos fazer muito, enquanto veganos, para criar uma comunidade mais segura para outros veganos.
E tomem o compromisso de se manterem ligados à vossa empatia, enquanto se sentirem seguros, pois algumas pessoas não se sentem seguras quando ligadas à empatia, e nesse caso talvez seja melhor não comunicar.
Mas se sentirem que é seguro manterem-se ligados à vossa empatia, façam-no.
A empatia é o antídoto para o "julgamento" e desprezo.
Se notarem que estão a sentir desprezo, pausam, dêem um passo atrás, e tentem ver o mundo pelos olhos da outra pessoa.
As pessoas têm razões muito boas para fazerem o que fazem.
Mesmo que não concordemos, ou mesmo que não os compreendamos.
E lembrem-se que são as ideias e não as pessoas que estão em conflicto.
Pausem antes de comunicar, especialmente quando estão chateados com algo.
E pode ser uma boa ideia ter uma etiqueta autocolante perto do computador, para vos lembrar que do outro lado da vossa comunicação está um ser vivo, um indivíduo com sentimentos, preferências e uma vida que é importante para ele, tal como a tua vida é importante para ti.
Sempre que possível, a ideia melhor é falar privadamente em vez de os chamar publicamente, e em alguns casos precisamos de falar do comportamento de alguém publicamente, mesmo nessa altura, podemos fazê-lo de uma forma que não os envergonhe.
Mas sempre que possível, tentem falar privadamente, para que não se sintam humilhados pelos comentários ou pela resposta que lhes possam dar.
E não assumam que ter poder torna alguém invulnerável aos efeitos tóxicos e debilitantes de humilhar.
Não vos consigo dizer o número de pessoas com que falei que têm muito poder social, alguns deles líderes no movimento vegano, e alguns muito bem conhecidos, mesmo fora do movimento, que se sentiram devastados por coisas ditas a eles ou sobre eles.
Não partam do princípio que só porque alguém tem poder, ou privilégio, isto os torna de algum modo invulneráveis à humilhação. De facto, muitas vezes, o oposto é verdade: as pessoas são ainda mais vulneráveis aos efeito tóxicos da humilhação.
E honrem a dignidade dos outros, mesmo enquanto os responsabilizam, mesmo enquanto lhes respondem, mesmo enquanto discordam, podemos fazê-lo de uma forma que honre a dignidade.
Sejam extremamente cépticos sobre alguém que argumente que alguma vez é apropriado comunicar sem compaixão e respeito.
Nunca vi um único estudo, ou uma única evidência, que sugira que isto seja verdade. Na verdade, o que entendo e vejo é o contrário.
A prática da compaixão não é fraqueza ou passividade, é força. É preciso muito mais coragem para podermos manter-nos empáticos e praticar a compaixão, perante desentendimentos e diferenças, do que simplesmente reagir e agredir.
E finalmente, é importante lembrarmo-nos da nossa ligação mútua.
A nossa ligação mútua enquanto veganos. É uma ligação e é sagrada.
De cada vez que comunicamos de uma forma tóxica, nós violamos essa ligação sagrada, que é tão importante para nós, tão importante para o nosso movimento, e tão importante para os animais.
Como veganos carregamos um fardo pesado.
Temos de viver com a consciência de que a todos os segundos de todos os dias há sofrimento horrível a acontecer à nossa volta.
E que podemos trabalhar toda a nossa vida para o eliminar e provavelmente não viveremos o dia em que acabe.
Isto é uma consciência que o resto do mundo não carrega. É uma consciência que apenas outros veganos entendem. É a nossa ligação sagrada.
O nosso conhecimento e preocupação partilhados são uma ligação que temos de honrar, para o nosso movimento ser o lugar seguro e inspirador de que precisamos, para continuar a trabalhar pela libertação.
Para muitos veganos, o mundo não parece seguro.
Saímos dos nossos círculos veganos e somos gozados por nos preocuparmos, somos julgados e humilhados porque acreditamos e praticamos os valores, que na realidade todos partilham.
Passamos as nossas vidas muitas vezes apanhando pedaços da confusão deixados por outros, e nunca recebemos um único "obrigado", e em vez disso muitas vezes somos ridicularizados, ou atacados por sermos quem somos e pelo que fazemos. É suficientemente difícil continuarmos a fazer o que fazemos, vivermos nesta cultura carnista. Como é possível continuarmos a fazer este trabalho da forma que é necessária, se nem podemos confiar que os outros veganos, as únicas outras pessoas que vêem o que vemos, estejam do nosso lado, e se até nos atacam.
Como podemos fazer este trabalho que precisamos de fazer?
Precisamos de sentir-nos apreciados.
Todos precisam de apreciação para se sentirem inspirados.
E nunca receberemos um "obrigado", pelos indivíduos cujas vidas salvamos.
Não podem agradecer-nos.
Não sabem quem somos, nem o que fazemos.
Portanto precisamos uns dos outros para vermos, para sermos vistos, porque o mundo não nos vê, e precisamos de ser apreciados uns pelos outros, porque as vítimas cujas vidas estamos a tentar salvar não podem apreciá-lo, e não podem partilhar connosco o seu apreço.
Precisamos de saber que os nossos esforços importam.
E eles importam.
Neste momento, somos a esperança principal dos animais.
E devemos-lhes, fazer o nosso melhor trabalho.
Devemos-lhes, sermos os melhores que podemos por eles.
E devemo-lo aos outros veganos à nossa volta, que precisam de nós, tal como precisamos deles.
Eu sei que quando recebi comunicação tóxica, foi devastador para mim, e diminuiu a minha capacidade de fazer o trabalho da forma que era preciso.
Mas não conseguia.
Estava tão consumida e magoada pelo que via e ouvia, pelo sentimento de que os meus irmãos e irmãs veganos comunicavam comigo desta forma.
Só quando comecei a ouvir dos veganos, que constituem a maior parte do movimento, e ser agradecida, e ouvir que o meu trabalho importa, e que faz uma diferença por eles, que comecei a sentir-me mais inspirada de novo.
Precisamos de conseguir fazer isto uns pelos outros.
E quero acabar partilhando convosco o meu apreço por vocês, vocês são a razão, os animais nunca poderão agradecer-me, vocês são a razão pela qual posso continuar a fazer o que faço.
Vocês são a razão porque me mantenho inspirada vocês são a razão porque quero sair da cama, e tentar trabalhar por este movimento, e trabalhar por um mundo melhor.
E vocês são a razão, são a esperança dos animais.
Quero agradecer-vos por tudo o que fazem, pelo que fazem por mim, o que fazem pelo movimento, e o que, em última análise, fazem pelos outros veganos, de modo a que juntos possamos finalmente atingir a libertação animal.
Obrigado!
[aplausos]
Obrigado pelo tempo que dispenderam a ouvir esta palestra.
Tenho uma pergunta para vocês, espero que partilhem os vossos comentários e respostas.
Se foram alvo de comunicação tóxica, o que resultou no vosso caso para se sentirem melhor?
Foi o desligarem-se completamente de quaisquer interações?
Foi comunicarem diretamente com a pessoa que comunicou convosco de uma forma tóxica?
Ou foi outra coisa que fizeram, e que sentiram que vos ajudou?
Obrigado por verem, por favor façam um "gosto" deste vídeo e subscrevam o canal.
