Construção de novos hábitos alimentares antes da cirurgia bariátrica
Olá, eu sou Rejane de Farias, psicóloga, e no vídeo de hoje eu quero te convidar a pensar sobre a mudança de hábitos alimentares e por que é tão importante que ela aconteça antes da cirurgia bariátrica. Algumas pessoas, quando a gente começa a conversar sobre essa questão da mudança de hábitos alimentares, podem se sentir um pouco desanimadas, porque já tiveram experiências negativas ao longo da vida, às vezes fizeram muitas dietas restritivas, difíceis, cujos resultados não duraram muito tempo, então esse é um assunto que costuma desanimar um pouco.
E a cirurgia bariátrica às vezes vem com aquela esperança de que, como a cirurgia vai ajudar a comer menos, quem sabe não seja necessário fazer mudanças tão profundas na alimentação.
Mas as pesquisas têm mostrado que as pessoas que conseguem manter os resultados da cirurgia bariátrica por muitos anos são aquelas que fazem sim mudanças importantes nos hábitos de vida, incluindo uma alimentação mais saudável e a prática de atividades físicas.
Mas então, como fazer parte desse grupo que consegue perder peso após a cirurgia bariátrica e não voltar mais a ganhar?
Não voltar mais a engordar, que é o desejo da maioria das pessoas que buscam esse procedimento.
A gente já conversou em vídeos anteriores sobre a importância de tratar as dificuldades que levam ao ganho de peso, sejam doenças físicas ou emocionais e a reformulação dos hábitos alimentares sempre vai entrar nesse processo de tratamento. O primeiro passo é eu conhecer como que eu me relaciono com a comida, como que eu estou funcionando em relação a isso. Essa é uma etapa que pode ser um pouco difícil, porque nesse processo de se perceber, às vezes a gente se dá conta que a gente não age como gostaria, mas é importante essa coragem, é importante a gente olhar de frente o que está acontecendo, porque a gente não tem como transformar aquilo que a gente não percebe.
E agora, para poder pensar um pouco melhor sobre como tem sido essa relação com tratamento, eu vou te convidar a imaginar que você vai para um país muito distante, com hábitos bem diferentes e que não fala nossa língua. Faria diferença se eu dissesse para você que você vai para lá passar algum tempo e depois você vai voltar para casa ou que você vai para lá morar definitivamente? É claro que quando a gente tem uma ideia de fazer uma mudança definitiva, a gente já se coloca numa atitude diferente, porque a gente sabe que vai fazer um processo de adaptação para algo que não vai ser provisório. Quando a gente conversa com pessoas que estão se preparando para fazer a cirurgia bariátrica, muitas vezes a gente observa essas duas posturas, assim.
Por um lado, pessoas que parecem estar se adaptando, estão seguindo aquela dieta proposta pela nutricionista, mas não dialogam muito, às vezes a dieta não tem nada a ver com elas, mas elas acabam não falando e depois da cirurgia, elas acabam meio que voltando para casa, ou seja, voltando a ter os mesmos hábitos alimentares que elas tinham antes de fazer o processo de pré-operatório. A gente percebe também um outro grupo que costuma ter uma atitude diferente, que se envolve muito mais, que dialoga muito mais com a equipe e que fala muito para a gente que está fazendo uma mudança de vida definitiva, que é assim que quer viver daqui por diante e a gente observa que essas pessoas vão fazendo mudanças mais aos poucos, vão dando tempo para se acostumar com isso e que elas acabam tendo resultados muito melhores depois da cirurgia. Por isso que a gente incentiva os pacientes a encarar a cirurgia bariátrica como uma grande mudança de vida e algo que precisa ser construído, esse novo hábito precisa ser construído desde já, do pré-operatório. Agora veja que eu falei construção de um novo hábito alimentar e não adoção. Será que tem diferença? Parece que quando a gente fala em adoção, já vem essa ideia de que alguém fez alguma coisa que deu certo e eu vou adotar para mim, eu vou copiar, vou imitar aquela pessoa. E construção, quando eu estou construindo alguma coisa, necessariamente eu estou participando, eu estou envolvida nesse processo, eu estou colocando algo de mim e esse resultado final também vai ter muito de mim. E por que que a gente fala que é importante que esse processo de mudança da alimentação seja uma construção que tem a participação do paciente?
Porque as pessoas têm realidades muito diferentes. Tem pessoas, por exemplo, muitos pacientes que a gente tem, que ficam em casa o dia inteiro, que às vezes são responsáveis pela alimentação da família, mas a gente também tem outros que trabalham fora o dia inteiro, que precisam comer em restaurantes.
Então são realidades diferentes. Em relação ao acesso também dos alimentos, tem pessoas que têm um acesso muito fácil à alimentação saudável, às vezes tem até horta na sua casa, mas tem outras pessoas, por exemplo, que dependem de familiares até para poder comprar os alimentos, que precisam se deslocar para as cidades vizinhas. Em relação ao convívio também com familiares, tem pessoas que convivem com poucas pessoas a semana toda, às vezes no final de semana também não muda muito, então tem mais facilidade em gerenciar essa rotina, outras não convivem com muita gente no trabalho ou nas relações familiares, então estão muito mais expostos a alimentos também que são tentações, que são alimentos não recomendados. Então todo esse contexto, essas diferentes realidades vai fazer com que cada pessoa tenha facilidades e dificuldades diferentes em construir esse processo de alimentação saudável. Bom, para te ajudar nesse processo de identificar suas facilidades, dificuldades, conhecer um pouco mais a sua rotina, aqui na Psicologia a gente pensou algumas perguntas que nós achamos que podem te ajudar nesse processo. Se você quiser, pode pegar lápis, papel, dar uma paradinha no vídeo conforme você for sentindo necessidade, tá bem?
Bom, a nossa primeira pergunta é: o que eu gosto de comer e beber? Veja, aqui a gente não vai entrar na questão se são saudáveis ou não. Mesmo que você saiba que não é um alimento saudável, a proposta aqui é ser franco e anotar tudo que realmente te dá prazer na alimentação, sem esquecer de registrar também as bebidas, ok?
A nossa segunda questão é: o que eu como ou bebo por praticidade ou hábito?
Muitas vezes, a gente acaba se acostumando a comer determinados alimentos, às vezes até se convence de que gosta muito daquilo, mas nem é realmente por uma questão de sabor e paladar, mas sim de praticidade, porque às vezes aquele é um alimento que está à mão, que é fácil de comprar, que eu não vou ter trabalho para preparar outra coisa, então queria te convidar a pensar sobre isso. O que que está hoje na tua vida, na tua rotina alimentar, que você mantém muito mais por praticidade, por costume do que realmente por paladar. E aí queria propor que você dessa uma olhadinha lá naquela sua primeira lista que você fez, os alimentos que você gosta de comer e pense se realmente todos os alimentos que estão ali você gosta de comer ou se tem algum alimento daquela lista que na verdade pertence a essa segunda lista, que são dos alimentos que eu como por praticidade e por hábito.
A nossa terceira pergunta é: o que eu não gosto de comer ou beber? Então, algumas comidas, alguns alimentos ou bebidas a gente não gosta nem da ideia de colocar na boca, né? Provoca um grande desagrado ao paladar e é importante a gente identificar também esses alimentos. Então vamos fazer agora essa lista daquilo que você não gosta de comer e nem de beber.
E agora, a última pergunta pensando nos seus hábitos alimentares, é: qual é a minha principal dificuldade com a alimentação?
"Ah, mas eu não tenho dificuldade com alimentação, a minha alimentação já é ótima". Às vezes, a gente escuta muito isso, né? Olha, o mais provável é que você não esteja conseguindo perceber as suas dificuldades ou que nesse momento, você não esteja tendo dificuldades. Isso às vezes acontece, as pessoas quando estão num momento mais tranquilo de vida, já fazendo um tratamento, comprometidas com a mudança, muitas vezes elas conseguem realmente ter uma alimentação mais adequada. Mas você pode também buscar ao longo da sua história aqueles períodos que você esteve submetido a estresse, que você esteve mais ansioso, o que que acontecia? Alguma dificuldade as pessoas sempre têm, então é importante também identificar isso, reconhecer, até para que a gente possa transformar e tratar.
Outra coisa que pode ajudar você a entender um pouco melhor essas dificuldades é pensar nas tentativas que você já fez de ter uma alimentação mais saudável. Se você já tentou isso ao longo da sua história, o que que aconteceu? Por que que não deu certo? O que que fazia você desistir? Então, pensar sobre isso também pode te dar algumas dicas sobre essas dificuldades. Mas para quem ainda estiver sentindo que está difícil, uma última dica é construir um diário alimentar. Como que funciona o diário alimentar?
Eu vou pegar um caderno e anotar tudo que eu como ou bebo, que não seja água, mas assim, tudo que eu comer, eu ingerir, eu vou anotar o horário, aquilo que eu comi ou bebi, e quanto que eu comi ou bebi. Então, por exemplo, às sete horas da manhã, eu tomei um café com adoçante, comi uma fatia de pão integral com ovo, então eu vou marcar lá. É importante que você registre tudo mesmo, então se por acaso chegou oito horas, eu dei uma beliscada ali, comi uma bolachinha, foi só uma bolachinha, mas não tem problema, eu vou marcar lá uma bolachinha que eu comi. Você vai perceber que se você se comprometer realmente em fazer esse registro, você vai começar a prestar mais atenção no que você tá ingerindo e talvez ao longo de algumas semanas, fique claro para você mesmo quais são as suas dificuldades. Essas sugestões são para te ajudar a ampliar sua percepção sobre o seu próprio comportamento alimentar e elas podem te ajudar muito na consulta com a nutricionista, porque se você já chega na consulta sabendo falar das suas preferências, das suas dificuldades, da sua rotina de vida, a profissional vai ter muito mais facilidade também em entender, enfim, as suas necessidades e também em poder lhe dar sugestões que se adequem melhor ao seu estilo de vida e que sejam mais fácil de ser mantidas a longo prazo.
Bom, eu espero que esse vídeo tenha te ajudado a perceber a importância de modificar os hábitos alimentares antes da cirurgia bariátrica para aumentar as chances de você ter sucesso depois desse procedimento, porque é um processo como se fosse a construção de uma casa, né? Ninguém começa construindo uma casa levantando as paredes. A gente começa fazendo a fundação, que é a base para tudo que vai vir depois. E o momento realmente ideal para a gente modificar os hábitos alimentares é o pré-operatório, porque mudança de hábitos é algo que leva tempo, que a gente precisa se acostumar, então espero que esse vídeo possa ter inspirado algumas ideias para que você já comece a modificar, a melhorar a qualidade da sua alimentação.
Fez sentido para você? Se quiser, pode deixar um comentário ou também sugestões sobre temas que você gostaria que a gente falasse aqui nesse espaço.
Tá bem? Grande abraço e até o próximo vídeo!
