Dr. Enilson Sabino - Cirurgião Pediátrico
Entrevista: Professor Enilson Sabino.
Cirurgião Pediátrico.
- Olá!
Aqui no Portal Educação Emocional, uma das coisas que nós queremos fazer é mostrar como as emoções influenciam a vida de todo o mundo, especialmente de carreiras que pretensamente não tem muita coisa de emocional, aquelas que a gente fala assim “não, aqui eu preciso ter somente um raciocínio lógico, eu preciso ser prático”.
Entre elas, a cirurgia pediátrica.
Então nós vamos conversar com o professor Enilson Sabino, que é cirurgião pediátrico em vários hospitais aqui em Recife: do Hospital Português, do Hospital Santa Joana, do Hospital
Memorial São José, também atende no serviço público, no Hospital da Polícia Militar e no Hospital Barão de Lucena.
Só de cirurgia pediátrica são quantos anos, doutor?
- Ah… são vinte e cinco anos… - Só de cirurgia pediátrica...?
Então já viu muita coisa… - Muita… Bastante coisa…
- Me diz uma coisa, pra gente começar:é possível deixar a emoção fora da sala de cirurgia?
- De modo algum!
- Por que não?
- Ela tem que estar presente o tempo todo, entendeu?
Então depende dos momentos, tem momentos que a gente está descontraído, tem momentos que a gente precisa estar muito focados na cirurgia, concentrados, realmente, pra poder o procedimento transcorrer sem problemas.
- Você percebe, às vezes, que o estado como você está, afeta o seu trabalho?
- Sim.
Se a gente tá muito ansioso, ou muito preocupado, se a gente não dorme bem à noite e você vai no outro dia começar o trabalho, ou tá com algum problema em casa… Então essas coisas do dia a dia, elas interferem na vida do médico e na performance também…
- Sim, sim… e no ambiente de uma cirurgia pediátrica?
Num ambiente cirúrgico já é estressante, ninguém gosta de chegar no hospital e receber a notícia de que vai fazer uma cirurgia, pediatria, então, pra tratar de crianças até dezesseis anos, a gente imagina a angústia dos adolescentes e dos pais principalmente.
- Sem dúvida.
A gente mexe… acho que a cirurgia pediátrica é envolvido... é um ambiente muito… com muita emoção por conta das crianças, então para os pais, avós, aquele é o maior tesouro que eles têm, é a criança, então imagine você, por exemplo, ou uma criança, ou uma gestante que tá esperando um filho e não teve um diagnóstico pré-natal ou não se desconfiou que teria uma má formação congênita, então vai se descobrir na hora em que a criança nasce, que é motivo de festa, de alegria, o momento mais esperado, e aí você recebe uma notícia que a criança nasceu com uma má formação congênita e precisa de uma cirurgia… Imagine como os pais, como aquela família se sente, reage?
Então aí nós precisamos ter carinho, ser humano, responder todas as perguntas, transmitir confiança aos pais, explicar todo o procedimento, o que é que no futuro a gente vai trabalhar é… a gente quer que uma criança, ela fique normal, uma expectativa de vida dela é setenta anos, então naquele momento a gente tem que dar o melhor da gente pra que aquela criança ali consiga viver bem com qualidade por seus anos todos.
- Então esse tratamento humanizado inclui a emoção, inclui o equilíbrio emocional…
- Inclui muito… Então assim… você tem que estar bem, né?
E muitas vezes nós nos emocionamos também junto com a família…
- Mesmo depois de tantos anos… - Mesmo depois de tantos anos!
Eu que tenho um lado espiritualizado… que eu sou da igreja, então de três anos pra cá… e foi um mecanismo que eu achei pra me transformar, pra ter mais calma e menos estresse no dia a dia, então muitas vezes a gente fala de Deus, a gente pede, a gente diz que é instrumento da vontade de Deus, então a gente tenta acalentar, transmitir essa calma e também ficar seguro do que fazendo.
- Além dessa busca espiritual, Enilson, o senhor tem alguma outra forma de buscar o equilíbrio emocional?
- Ah, sim!
Eu, por exemplo… acho que vários médicos… acho que todo o médico deveria ter e fazer… eu tenho uma psicóloga e a cada quinze dias eu vou lá, converso, passo uma hora conversando com ela… - Inclusive sobre os casos profissionais…
- Inclusive casos… Nem tudo são flores, então tem casos que são difíceis, que são cirurgias difíceis, são crianças que às vezes não evoluem bem e você se preocupa, você como um médico quer.. tem… diz que médico é frio mas só se for outro, porque eu não, eu sou muito, pelo contrário, eu sou muito ligado, eu desejo muito que meus pacientes fiquem bem,e às vezes, muitas vezes eu não durmo bem, principalmente pensando nos pacientes, entendeu?
O que é que eu poderia fazer… que às vezes eu me coloco no lugar dos pais, então isso é importante, se colocar no lugar dos pais, pra você também entender e saber agir e ter paciência, muitas vezes.
Imagine, muitas vezes um pai tá mais preocupado e às vezes eles lhe tratam mal e você tem que entender que aquele pai tá passando por um momento difícil, então você se coloca no lugar dele, e aí você tem que responder com boas respostas, com carinho, com segurança.
Então tudo isso são coisas que você tem que fazer pra manter um ambiente emocional saudável, o melhor possível, né?
- Eu imagino que não seja fácil… Obrigada doutor Enilson, você tem muita história pra contar, mas a gente quer ressaltar a importância disso em todas as carreiras, e estamos começando com a medicina principalmente por conta disso “não, médico tem que pensar só do lado racional”, e acho que não é bem assim… - Não… não é bem assim!
- Então muito obrigada… - Até mais!
Tchau, tchau!
