FRUTO: Soledad Barruti - LA NATURALEZA NO ES CAPITALISTA
Bom dia, cheguei carregada.
Agradeço o convite. É muito bom estar aqui, para falar desses assuntos.
Vou falar de um tema que não foi abordado. É o maior problema da nossa alimentação, para mim.
A comida de verdade é que vem da terra.
A comida é natureza.
São plantas, animais, solos, insetos.
Expressada pela terra. É diversa e complexa assim como a terra
E como nós somos.
Não faz muito tempo que essa transformação de terra em cultura, que a domesticação de animais e plantas havia um profundo entendimento.
Eram corpos e terras sãs.
Mas, ultimamente, e no século passado, e com força nos últimos 20 anos, a alimentação sofreu mudanças.
Nessa região que estamos da América Latina
Foi essa região que trouxe ao mundo o milho, as batatas, os tomates, que traz uma variedade enorme para cada um deles.
Cada vez consome mais disso.
Isso é o que está enchendo hoje, as sacolas de compras das famílias, no Brasil, na Argentina, no México, na Colômbia.
Sou jornalista, nos últimos anos, me dediquei a investigar essa transformação.
Por que uma região de campos, de floresta, de montanhas, de rios, de riqueza de terras enorme, começou a proliferar nas esquinas, lanchonetes, supermercados lugares de fast food?
Começou a se afastar dos alimentos que nos faziam diferentes e traziam riqueza por isso.
Para comermos coisas muito iguais.
No início minha pesquisa tentava descobrir o que se passava na alimentação do meu filho.
Tenho um filho adolescente.
Aos 10 anos, percebi que não era o alimento e sim, as marcas dos produtos que ele queria.
Para satisfazer os seus desejos.
E eu, responsável por sua alimentação, comprava.
Nos entendíamos bem, ele queria os personagens e eu os nutrientes.
E para agradar aos dois, achávamos produtos que nos atendiam bem.
Eu não sabia, no entanto, que com essa alimentação.
Eu dava ao meu filho, todos os anos,
30 pacotes de açúcar por ano.
Somente o açúcar escondido nesses produtos que era a base de sua alimentação.
Eu também, não dava conta que ele comia o equivante ao seu peso em açúcar.
E essa é média de açúcar ingerido pelas crianças de 10 anos por aqui.
Sem ir às lanchonetes, sem exagerar na comida, comendo porcaria, não comida.
Estes produtos não eram considerados um problema.
Nessa época, há 15 anos atrás.
Mas, hoje mudou.
Vemos esses produtos com atenção
Como um problema.
Foram chamados de ultraprocessados.
Por um grupo de pesquisadores dirigido por Carlos Monteiro
Que foi aceito na Associação Panamerica da Saúde.
Que faz parte da Organização Mundial da Saúde.
Que dirige... as recomendações para nossa região.
Que fez uma recomendação simples: para ficarem bem e saudáveis não comam isso. É muito simples entender isso.
Porque esses produtos têm sempre os mesmos ingredientes.
Nós acreditamos que tem diferença nestes dois cereais.
Mas, eles são feitos iguais. Como toda a comida industrializada.
São feitos de açúcar, farinha branca e óleo.
E uma quantidade de aditivos e truques, que fazem eles parecerem diferente.
Corantes, saborizantes, aromatizantes.
Se vemos eles parecem diferentes.
Graças aos produtos químicos. Que fazem que pareçam o que não são.
Tudo isso é bom para vender e ruim para comer.
Minha apresentação foi chamada de A natureza não é capitalista.
Mas essa é a transformação capitalista do menu, da nossa comida.
A expressão da natureza é mais importante para nós e é a que mais ganhávamos.
Que abraçávamos e a trocamos.
Por um tempo compartilhei minhas preocupações familiares.
Com as pessoas que entrevistei e passei cinco anos pegando impressões em empresas.
Indo aos laboratórios e... a espaços onde diferentes pesquisadores que dentro das próprias empresas procuram melhorar a comida.
Existem pessoas nas indústrias que tentam fazer coisas mais saudáveis e comestíveis.
Sem prejudicar a saúde.
Não conseguem, porque as indústrias apenas processam elas não cozinham.
Não vão conseguir nunca.
Não importa quanto equilibrem ou reduzam o açúcar da Coca-cola, ela será sempre a Coca.
Nunca vai ser água ou suco, ou bebidas que temos aos montes aqui.
Para desfrutar e compartilhar.
Fui aos campos e aos currais, e em casas de famílias.
Muito diferente da minha, encontrei uma cultura muito mais rica e variada.
Do que a da minha casa.
Mas, que tinham os mesmos problemas.
Na Bolívia, fui ao Chaco boliviano em uma comunidade.
Próxima ao Pilcomayo É um rio que até pouco tempo tinha peixes em abundância.
Aconteceu grande depredação nesse rio e os peixes diminuíram.
Os montes também se partiram para aumentar a fronteira agro pecuária.
Nessa comunidade as crianças não tomam água.
Só bebem as bebidas açucaradas.
Tem uma taxa enorme de diabetes em crianças de 06 a 08 anos.
Fui aos camponeses da Colômbia.
E, mesmo com frutas e animais, eles faziam o impossível para ir a cidade mais perto, rapidamente, e conseguir saborizantes para comida.
E para comprar iogurtes como esses.
Porque disseram a eles assim como a mim que essa é a comida para criança. Eles comem como se fossem de outra espécie.
Nós os tratamos como de diferente espécie, e precisamos alimentá-los assim.
No México, fui às plantações de café, que produzem para as cafeteiras.
Lá, as famílias fazem o impossível para comprar Nescafé da Nestlé.
Que em geral... pagam preços injustos, sendo que elas que produzem o café.
Mas pagam caro nos mercados pelo produto ultraprocessado e instantâneo.
E é normal combinar com leite.
Que em nossa região se transformou numa praga.
Ainda com muito açúcar, pois colocam açúcar em tudo.
A indústria cresce assim.
Cresce afastando e competindo de maneira desleal.
Com os produtores e com as produções locais.
Nas regiões indígenas do México,
A separação do aleitamento materno é brutal.
Eu vi alimentarem os bebês com mamadeiras de Coca-cola.
Porque as famílias queria dar a seus filhos: "O melhor da vida".
O melhor da vida é o slogan de uma marca que avança dizendo mentiras, mas eu não sabia e eles também não.
Está na língua da comunidade.
Fazem comercial em todos os cartazes.
Avançam abrindo estradas onde não passam nem ambulâncias.
Os caminhões de Coca-cola entram nas florestas.
Mais rápido que médicos ou qualquer serviço de documentos.
No Brasil, fui ao Amazonas.
Acompanhada do Instituto Sócio Ambiental.
Conheci a comunidade Baniwa e seus projetos de soberania alimentar.
São extraordinários.
E muitos estão aqui no mercado que foi construido pelo FRUTO.
Entretanto, quando me reuni com as famílias da comunidade, compartilhamos os mesmos problemas, porque seus filhos pediam pão de farinha branca.
Numa comunidade que produz mandioca, e se come tapioca.
Que é saudável e é o que dá sentido a eles, é essa produção.
Diversa, rica e nutritiva.
Eles viam que esses produtos, quando permitiam que os filhos consumissem em casa, percebiam que pioravam a saúde, tinham dor de barriga e passavam mal.
E acabava com o compartilhar a comida.
Esses produtos acabam com o espaço de alimentação comum.
Eu vi num almoço, duas meninas com um pacote de salgadinhos.
Nesse almoço elas comeram sozinhas.
Essa alternativa alimentar.
Prejudica a sociedade, corta raízes.
Se persistem em dar aos seus filhos esses alimentos, não vão entender a importância da terra.
Porque isso não sai da terra.
E o que sai custa muito.
As pessoas dizem muito que faz tempo que estamos assim.
Que nos alimentamos com isso tudo.
Não é verdade.
A força do tratado de livre comércio, a força de publicidade inescrupulosa, a força de acordos com os governos que tiram a saúde das pessoas.
Sem nenhum cuidado.
Deixam que as marcas entrem em seus programas sociais.
Os ultraprocessados em nossa região se consomem cada vez mais.
Vou precisar ler. Nos últimos 20 anos, o Uruguai consumiu 145% mais deles que há 10 anos.
Peru 121%.
Bolívia 151%.
No México comem 214 kg deles por ano por pessoa.
Na Argentina 194 kg.
Enquanto tudo isso avança em nossa região, nos países mais educados, ao norte, com mais informações,
As vendas deles cai.
Vendem menos, não mais.
De 8 a 9 % diminuiu o consumo no Canadá.
E os Estados Unidos no mesmo período.
Esses alimentos avançaram aqui por falta de informações.
Porque também lhes dão um valor, oferecendo como algo melhor.
Oferecem uma nova identidade, como do Primeiro Mundo.
Que é publicidade de suas marcas.
Claro, que isso custa caro.
Nessa região temos 24 milhões de pessoas, com diabetes por comer assim. É como um país inteiro diabético.
Pessoas com má qualidade de vida.
No México é mais barato amputar do que tratar a diabete.
Do que remediar aos diabéticos, tem muitos amputados no país.
Um país que ao andar pelas ruas, vemos as pessoas dando "o melhor da vida" aos filhos, tem pessoas sem pernas e braços.
São os corpos mostrando que isso não funciona.
Esse sistema prejudica nossos corpos e nossos territórios.
Afinal, para produzir os alimentos precisaram mudar as formas de produção.
Temos um jeito de comer isso, de pensar nisso e de produzi-los.
Eles produzem grandes monocultivos.
Que se estendem aos poucos ingredientes dessa comida.
Isso é muito importante.
Pois, eles a apresentam como variada.
Nas gôndolas parecem ter opções variadas, mas estão somente cheios de açúcar, farinha e óleo barato.
Que se estendem em campos como esse.
Esses campos fazem a diversidade da terra e das fronteiras.
Desafios superados.
A indústria alimentar é um agronegócio.
As marcas são agronegócio.
Quando pensamos nisso, temos que pensar em Monsanto, Bayer, Syngenta.
E na Nestlé, na Coca-cola, na Pepsi.
Em todas as empresas que fazem produtos com aparência inofensiva, mas não são.
Claro, que esta alimentação produz...
Visitei uma escola em São Gabriel da Cachoeira que oferecia toda sua comida em latas, a salsicha, o frango.
No meio da floresta onde há cultura alimentar.
São produzido animais iguais.
Que usam como recheio de uma mono dieta, para parecer natural.
Trabalhando de uma forma artifcial ao tratar a natureza que nos envenena.
Como já disse, a natureza é variada.
Para que ela não varie, tem que isolá-la.
Isolar a natureza e fazer com que ela se comporte da acordo com seus desejos.
Como isola-la? com agroquímicos ou com produtos para matar outras plantas que não interessam.
Produtos para matar os insetos que comem plantas.
Produtos para matar fungos que vivem na natureza.
Também os para animais.
Antibióticos para os animais não morrerem ao viver nas condições que vimos.
Que se alimentam também dos produtos de seus monocultivos.
Que aumentam destruindo tudo.
Declaram guerra a qualquer forma de expressão da natureza.
Essa guerra também é contra nós.
Na Argentina, nos últimos anos, os agrotóxicos cresceram 1000%.
No Brasil, segundo o IDE, comem 7 kg de agroquímicos ao ano por pessoa.
Por conta da forma de produção e destruição da natureza.
A natureza se defende, claro, dessa guerra que declaramos contra ela.
Nos devolvendo as secas, as doenças, devolve inundações.
E outras tragédias que chamamos de naturais, mas não são.
A natureza não é capitalista.
Nossos corpos e terras também não.
Temos que usar a inteligência para fazer as coisas.
Antes que a natureza nos expulse do planeta.
Com certeza, fazer algo de maneira mais gentil, para nos reconciliarmos.
Numa visita ao Brasil.
Quero dizer, no México.
Estava com meu amigo, médico e antropólogo, visitando muitos lugares.
Fui conhecer os arredores e uma escolas faziam feiras,
Feiras para arrecadar fundos.
Pessoas humildes arrecadavam o dinheiro.
Fomos olhando o que faziam.
Tinha gente vendendo roupas, outras artesanato, e vendendo comida.
Tinha um lugar separado, com as crianças da escola.
Tinham uns 10 anos.
Ví que vendiam um pacote desse.
Vendíam isso. Mas dentro do pacote, as crianças colocavam coisas que pegaram dos quintais de casa.
Colocavam cebolas, temperos, também pimentas picantes, não tenho aqui. Mas elas colocavam até milho.
Perguntei o que era aquilo.
Elas me ofereceram como uma receita caseira.
E conseguiam vender bastante.
E o sabor era gostoso.
O interessante foi vê-las modificar uma comida que é considerada sagrada.
Que me mostra como algo finalizado.
E que tem uma entidade como as marcas.
Depois descobri que a Pepsico sabe disso que eles fazem.
E usa isso como marketing para que continuem.
No entanto, vejo algo interessante.
Porque essas crianças não cortaram laços com a comunidade.
Eles eram filhos de agricultores, como muitos na América Latina.
Sabia que havia plantas em casa, e decidiu, como os outros, criar uma receita nova que fizesse a diferença como algo melhor.
Podemos fazer o mundo sair do problema da mesma forma que entrou.
Que é através da alimentação.
Aqui na América Latina é possível que isso ocorra.
Temos os camponeses, os indígenas.
As culturas que sabem fazer isso, com experiência de mais de 10 mil anos.
E que não acabou, foi muito atacada, mas não acabou.
Tem força e sabedoria para nos dar o que comer.
Respeitando a terra. Fazendo a terra diversa e melhor.
Nós, consumidores, sem vínculos com o campo, precisamos aprender o que comer.
Precisamos rótulos mais claros, para identificar ingredientes que não fazem bem.
Que não completa a refeição.
Precisamos de limites na publicidade para os nossos filhos.
Necessitamos limitar essa comida na escola e seus entornos.
Que ela seja cara, para não competir como igual. à comida produzida em hortas, campos ou produzidas nas comunidades.
Temos que abrir comércios que seja justo para comida de verdade. É muito importante trabalhar com comida de verdade.
E que os cozinheiros também se manifestem para mostrar que isso não é de verdade. Pois as pessoas se confundem muito.
Porque pensamos que temos que comer de tudo, então comemos isso também.
Mas é um inimigo muito grande.
Essas empresas vem a cultura alimentar como um problema.
E estão decididas a acabar com ela.
Com seu propósito de ganhar território.
Para no final, ganhar mais terras para a expansão do monocultivo em nosso território
Infelizmente, nossos governos estão mais afim dessas políticas destrutivas.
Temos que nos impor e nos tornar politicamente ativos.
Para proteger as terras e a sabedoria dos povos tradicionais.
Para pedir demarcação de terras, liberdade produtiva, para que as sementes sejam um recurso de todos.
E que a comida seja um bom alimento não uma boa venda.
E que seja o que é: um direito humano. Muito obrigada.
