Planejar nossas comidas pode mudar o mundo | Patricia Quadri Coelho | TEDxSaoPauloSalon
Tradutor: Gabriela Frantz Revisor: Claudia Sander
Quem nunca precisou sair, na última hora, antes do jantar, pra comprar um ingrediente que estava faltando?
Eu já.
E uma vez, no supermercado, eu aproveitei, comprei algumas coisas que estava precisando em casa, comprei outras que eu imaginei que fosse vir a precisar...
Na verdade eu enchi o carrinho na esperança de não ter que voltar logo pro supermercado.
Cheguei em casa supersatisfeita, cheia de sacolas, e me dei conta que não comprei aquilo que eu fui no supermercado comprar.
Todos os dias, 25 milhões de brasileiros entram em um dos 84 mil supermercados espalhados pelo Brasil. É muita gente fazendo compras. É muita gente fazendo compras sem planejamento.
E a gente planeja tanta coisa na vida, a gente planeja carreira, a gente planeja aposentadoria, a gente planeja férias, mas a gente não planeja aquilo que faz pelo menos três vezes ao dia: refeição.
Quando a gente faz compras sem planejamento, a gente leva pra casa mais do que precisa.
E esse excesso de alimento que a gente leva só tem dois destinos possíveis: a nossa boca, ou a boca do lixo da cozinha.
O que acontece quando a gente consome calorias demais?
Hoje, no mundo, nós temos 500 milhões de obesos.
O Brasil está com mais de 50% da população acima do peso.
E todos os dias, milhares de pessoas morrem por erros de alimentação e doenças relacionadas à obesidade.
Uma pesquisa mostra que, numa família de classe média, de um país industrializado, de cada cinco sacolas de supermercado que entram em casa, pelo menos uma vai parar no lixo.
A gente acaba jogando fora 20% de todas as carnes,
20% de todos os laticínios,
35% dos peixes e frutos do mar são desperdiçados, e o pior: 45% de todas as frutas, legumes, verduras e leguminosas.
Na verdade, 1/3 de tudo o que é produzido no mundo, é perdido ou desperdiçado.
Isso, enquanto uma em cada nove pessoas sofre de desnutrição crônica.
São 800 milhões de pessoas que não sabem quando vão ter a próxima refeição.
Sofrem de insegurança alimentar.
Eu sei que ninguém gosta de jogar alimento no lixo, mas o que eu não sabia é que o alimento que a gente desperdiça tem um impacto na nossa economia, no nosso clima, na nossa água e na biodiversidade do planeta.
Na economia, mais de US$ 1 trilhão são desperdiçados junto com o alimento e poderiam ser melhor aproveitados.
Isso em preço de produção, não de consumo.
No clima, porque o alimento que a gente joga fora normalmente vai pra um aterro sanitário, onde ele passa a produzir gases de efeito estufa.
Se o desperdício de alimento fosse um país, ele seria o terceiro maior emissor de gás carbônico do mundo, só perdendo pra China e Estados Unidos.
O alimento que a gente joga fora também contém água.
A agricultura consome 70% da água potável utilizada pelo homem.
Só 11% vêm pros municípios e 19% vão pra indústria.
No alimento que nós desperdiçamos, quer dizer, 28% das terras cultiváveis do mundo produzem um alimento que não vai chegar no prato de ninguém, a gente perde 250 km³ de água. É o equivalente ao fluxo anual do rio Volga. É muita água, é 3,6 vezes mais do que os Estados Unidos inteiro gasta por ano.
E daí a gente chega na questão da Terra.
O desmatamento pra agricultura e pecuária já é hoje a maior ameaça que nós temos à biodiversidade.
Este gráfico mostra o que é preferível a gente fazer pra reduzir o desperdício, nós, consumidores finais.
Porque o desperdício acontece desde o começo da cadeia de produção e consumo, e lá ele chama-se perda de alimento, e não desperdício.
Ele não pode ser evitado, porque está relacionado a questões financeiras, e isso acontece em países em desenvolvimento, mas nos países industrializados, o desperdício acontece lá no final da cadeia.
E nós, consumidores finais, temos um papel muito grande nesse desperdício.
O que é preferível? É preferível reduzir.
E o menos preferível é que esse alimento vá parar num aterro.
Qual é a solução pra isso então? É fazer o planejamento.
Quando a gente faz uma lista de compras baseada num planejamento de refeições, a gente tem a possibilidade de comprar só o necessário pra contemplar o nosso planejamento.
Dessa maneira, não vai sobrar nada, mas também não vai faltar nada.
Mas quem é que tem tempo pra isso?
A gente não tem tempo, e parece que os recursos também estão "sobrepressionados".
Por isso, eu comecei a desenvolver uma plataforma digital e um aplicativo pra que o consumidor final possa fazer isso sem perder tempo, de uma maneira fácil, de uma maneira tranquila, que vá ajudar a saber, todo dia, o que a gente vai comer, não ter que sair correndo pra comprar alguma coisa, planejar refeições de acordo com o perfil de consumo da família.
Eu acredito que a tecnologia seja a melhor maneira de a gente responder a um problema que cresce exponencialmente.
Não dá pra ter uma resposta analógica pra um problema tão grande, sendo que a gente não tem tempo hábil no nosso dia a dia pra poder resolver isso.
E é tão importante, também, a gente passar a planejar refeições e reduzir o desperdício da nossa casa, porque essa é a única maneira que a gente tem de fazer aquela uma sacolinha, das cinco que a gente leva pra casa, deixar de existir.
Porque quando a gente consegue reduzir o desperdício de alimento em casa, a gente consegue mandar uma mensagem para os varejistas e produtores de alimento diminuírem a produção.
Hoje, nós produzimos, no mundo, 4,6 mil calorias por habitante, diariamente.
Só que a gente não precisa de 4,6 mil calorias pra viver, a gente precisa de menos da metade disso.
Tem alguma coisa muito errada.
Estamos produzindo demais, essa produção não chega em quem precisa, e ela acaba ocasionando aqueles dois problemas: obesidade e desperdício, que impacta negativamente no meio ambiente.
Há uns 500 anos, Copérnico tirou a Terra do centro do Universo, mas às vezes dá a impressão de que o homem ainda não saiu de lá.
O geocentrismo foi derrubado, mas o egocentrismo continua firme.
Nós precisamos começar a cuidar do nosso planeta e ter uma relação diferente com ele.
E talvez a gente possa fazer isso através da cozinha, porque talvez essa seja a maior rede social.
Obrigada.
