A morte, a dor de cabeça e a dor de barriga - com Markito Alonso
Certa vez a Morte, a Dor de Cabeça e a Dor de Barriga se encontraram numa encruzilhada.
As três ficaram muito felizes, elas não se viam há muitos e muitos anos.
Decidiram que tinham que comemorar.
Foi quando a Dor de Cabeça se lembrou que ali pertinho vivia um velho pastor de ovelhas.
Elas poderiam pegar uma de suas ovelhas e, oh, fazer um churrasco.
A Morte sorriu e disse que era melhor ela ir lá.
Mas a Dor de Cabeça...
Ela sabia o endereço e foi na frente.
Bateu à porta do pastor.
- Em que posso lhe ajudar?
- Eu e umas amigas nos encontramos depois de muito e muito tempo e queremos comemorar.
Para isso, queremos uma de suas ovelhas!
- Pois bem, minha senhora, as ovelhas são meu sustento.
Basta pagar por uma delas e pode levá-la. -Não, não, não, não.
O senhor não está entendendo.
Nós não temos dinheiro para pagar.
Apenas queremos uma delas para comemorar.
- Minha senhora, quem não entende és tu.
As ovelhas são meu sustento.
Se queres uma, pague e leve.
- O senhor sabe com quem está falando?
- Não interessa, minha senhora.
E bum!
Bateu a porta na cara da Dor de Cabeça, que, furiosa, passou por debaixo e foi direto para a nuca do pastor de ovelhas.
E aquilo foi subindo, subindo, subindo, subindo, subindo, subindo...
E o pastor foi sentindo, sentindo, sentindo, sentindo...
E aquela bendita veia pulava, pulava, pulava, pulava...
E ele massageava, massageava, massageava...
Mas, cada vez que soltava, parecia ficar muito mais forte.
Foi tomando toda a sua testa.
Ele tomou dez analgésicos e nada de aquilo passar.
Foi quando o pastor teve uma ótima ideia.
Encheu um balde com água muito, mas muito gelada, e mergulhou a cabeça com tudo lá dentro...
A água estava tão gelada, mas tão gelada, que congelou a Dor de Cabeça, que saiu de lá, oh, com o rabinho entre as pernas.
Encontrou suas amigas e a Morte...
Mas a Dor de Barriga achou que era a vez dela, e lá foi ela...
- Em que posso lhe ajudar?
- Eu e uma amigas nos encontramos depois de muito tempo e queremos comemorar com um churrasco.
Para isso, queremos uma de suas ovelhas!
- Pois bem, as ovelhas são meu sustento.
Se queres uma, pague e pode levar.
- O senhor não está entendendo.
Nós não temos dinheiro.
Queremos apenas pegar uma e pronto.
- Minha senhora, você já é a segunda hoje.
Me desculpa, mas as ovelhas são meu sustento.
Se queres uma, pague e leve.
- O senhor sabe com quem está falando?
- Não me interessa com quem eu falo.
Se queres uma, pague e leve.
Tum!
Fechou a porta na cara da Dor de Barriga.
A Dor de Barriga ficou furiosa, e passou por debaixo da porta do pastor, e foi direto para uma singela, simples, leve maçã.
O pastor, sem sequer se dar conta, começou a comer a maçã.
Sentiu a barriga tremer, sentiu os pelinhos do braço arrepiarem e saiu correndo direto para o banheiro, sentou na privada e ficou ali por um bom tempo.
Mas nada de aquela dor passar.
E aquilo apertava, apertava, apertava, apertava, apertava...
Foi quando ele teve uma ideia.
Esquentou água e encheu uma bolsa de água quente.
Pegou aquela água fervendo, fervendo, fervendo e, oh, botou com tudo na barriga.
A água estava tão quente, mas tão quente que queimou a Dor de Barriga, que saiu de lá com o rabinho entre as pernas e encontrou suas amigas...
E então a morte lá foi.
- Em que... eu...eu conheço você...você... você levou minha mãe.
Digas o que queres, e pode levar, é tudo teu.
A Morte, vaidosa, sorriu.
- Eu...eu e umas amigas...
A gente se encontrou, e nós não nos vemos há muito tempo.
Queremos uma de suas ovelhas para comemorar e fazer um churrasco.
- Pois leve, leve uma, leve dez, leve quantas quiseres.
E lá foi a morte, toda pimpona pegar uma das ovelhas.
- Mas espere.
Por favor, me diga, quanto tempo eu ainda tenho?
A Morte, vaidosa, estendeu a mão para o pastor.
O pastor tocou seus dedos e os dois foram parar num mundo que o pastor nunca tinha visto.
Era um céu azul escuro, muitas nuvens, e eles pulavam de nuvem em nuvem.
Nas nuvens, velas.
Velas pequenas, velas médias, velas enormes, velas gigantes.
O pastor às vezes achava que ia cair da nuvem, mas ele não caía.
Quando finalmente chegaram a uma nuvenzinha pequenininha, e nela uma velinha pequenininha.
A morte apontou para a vela e disse: - Esta é a sua vida.
O pastor de ovelhas olhou para a vela, olhou para a morte, olhou para a vela, olhou para a morte, olhou para a vela...
- E dona Morte, essa vela tá muito pequenininha, será que a gente não pode.... negociar?
Você leva vinte ovelhas e a vela, oh, aumenta um pouco.
Mas a Morte... a Morte... a Morte disse: - Meu papel aqui é só observar e esperar a vela apagar para ir buscá-lo.
Eu nada posso fazer, a não ser observar e esperar.
O pastor: - Esta bem, podemos voltar então?
E os dois voltaram, e a Morte foi pegar a ovelha, quando...
- Minha senhora, as ovelhas são meu sustento.
Se queres uma, pague e pode levá-la.
- Mas o senhor sabe com quem está falando?
Eu sou a Morte!
- Eu sei.
E se nada você pode fazer para aumentar a minha vida, nada você pode fazer para diminuir também.
Se queres uma das ovelhas, pague e pode levá-la.
E bateu a porta com tudo na cara da Morte.
A Morte encontrou suas amigas com o rabo entre as pernas.
Naquela noite, as três dormiram com fome, mas felizes por terem se encontrado.
