Abstract: The Art of Design | Ilse Crawford: Interior Design | FULL EPISODE | Netflix
Acham que design de interiores é sobre aparência.
UMA SÉRIE DOCUMENTAL ORIGINAL NETFLIX
"Deve ser divertido ficar comprando móveis", uma pessoa me disse uma vez.
Mas não penso assim.
Passamos 87% da nossa vida dentro de edifícios.
O design deles tem um impacto em como nos sentimos e comportamos.
Design não é apenas o aspecto visual, é um processo mental, uma habilidade.
Acima de tudo, é uma ferramenta para acentuar nossa humanidade. É uma moldura para a vida.
DESIGN DE INTERIORES ILSE CRAWFORD
LONDRES INGLATERRA
-Há uma qualidade forte de design. -Acrescentei o chão de pedra.
Nossos projetos começam com uma estratégia.
Priorizamos as pessoas e pensamos na experiência humana no início do processo de design.
Cada cadeira atendeu vários de nossos requisitos.
Acho que devemos selecionar só duas.
O que é positivo e negativo nesta cadeira?
O material é ótimo. Gostamos muito.
A textura é boa, a memória. É fácil de manusear.
No processo, analisamos o local, o cliente, e criamos empatia, porque a empatia é um dos alicerces do design.
O modelo é ótimo. É uma cadeira boa.
-É um desafio. -É. É para se sentir calmo e relaxado, vamos escolher uma destas duas.
Depois desse processo de análise e empatia é que entra o processo imaginativo.
O interior foi, por muito tempo, visto como um aspecto mais bobo do design, e agora está começando a ser levado a sério.
Observando as linhas artísticas dessa moderna casa, deixamos para trás a ideia de que casas devem ser conservadoras.
Tradicionalmente, o design de interiores tem sido um meio visual, supérfluo e extravagante.
O foco é no espetáculo e na teatralidade.
A abordagem de Ilse é mais sutil, mais sensual, leva em conta sensações e cheiros, tanto quanto o visual.
Ela quer transmitir uma sensação de bem-estar, empoderamento e certa alegria.
Para muitos, Ilse é um ícone, porque ela desenvolveu uma forma nova de encarar os interiores.
Uma das qualidades que diferencia o trabalho dela de outros designers de interiores é o foco na experiência que o cômodo transmite, como nos sentimentos em um cômodo, para satisfazer o subconsciente.
O forte de Ilse é ser humana e atenciosa.
Ela se importa com o bem-estar.
Tudo que nos rodeia é escolhido com cuidado e com amor, e isso nos faz sentir bem.
Além de ficar bonito.
Tenho muita automotivação.
Sempre trabalhei.
Literalmente, comecei a trabalhar com 13 anos, porque nunca quis depender de ninguém, sempre quis ser independente.
Fui garçonete no Pitt’s Cottage, o que com certeza era ilegal.
Servia café e biscoitos amanteigados com uma cereja no meio.
Pareciam um peito.
Lembro-me muito bem.
Na infância, eu me interessava pelos comportamentos em cada lugar.
Isso me fascinava.
Na universidade, estudei História e História da Arquitetura.
Depois da faculdade, fui gerente do estúdio de um arquiteto e, depois, fui para a equipe editorial de uma revista de arquitetura, porque entendia do assunto.
Então não teve segredo para criar a Elle Decoration, porque eu realmente queria criar uma revista contemporânea, mais acolhedora e que atingisse um público maior.
Ilse sempre tratou o design de interiores tanto como designer quanto como editora de revista, com uma seriedade e complexidade que não existiam antes.
Ao editar uma revista, é preciso ter uma ligação próxima com o público, e saber como alcançá-lo, como empolgá-lo e inspirá-lo. É, basicamente, uma conversa com os leitores.
Apresentamos espaços habitáveis. É uma jornada ver cinco mil designs diferentes, e como as pessoas utilizam os espaços.
Quais realmente funcionaram, quais emocionaram o público.
Minha educação no design foi assim, mas queria algo só meu, queria criar produtos, queria colocar a mão na massa e fazer algo por mim mesma.
Esta é minha última edição. Partirei para outros trabalhos.
BIBLIOTECA PÚBLICA DE ESTOCOLMO
Sou motivada pela curiosidade.
Aprendendo o que deixa as pessoas confortáveis nos lugares e pesquisando antropologia, ciência do comportamento e tudo mais, passei a entender como descobrimos o mundo.
Escrevi um livro chamado Sensual Home.
Nele, explorei os cinco sentidos, fascinada, porque é como nos relacionamos com o mundo.
Somos os nossos corpos.
Escrever Sensual Home foi um momento de revelação, porque não era o entendimento comum do design.
Eu soube que meus dias em duas dimensões haviam chegado ao fim, e quis me envolver com três para descobrir se conseguia trabalhar na área.
Meu primeiro projeto veio logo que saí da revista, quando Nick Jones, do Soho House, pediu ajuda com o Babington House, o primeiro hotel dele no interior.
Eu não tinha experiência prática, naquela época, então ele correu um risco me contratando.
Nick começou com a ideia de um hotel tradicional.
Era no interior, então seria um hotel de estilo rústico.
Deixei claro que não deveria ser nada disso.
Abrigaria publicitários, pessoas da mídia e do cinema, minha proposta foi um lugar bem informal, que as pessoas pudessem tratar como se fosse delas.
Como a casa de um amigo cujos pais foram viajar e esqueceram de trancar as bebidas.
QUEBRANDO AS REGRAS
Hoje não parece tão radical, mas, na época, era uma proposta inovadora.
E Nick me pediu para trabalhar no próximo Soho House, em Nova York.
2000, SOHO HOUSE NOVA YORK, EUA
E foi quando o estúdio surgiu, porque chamei uma equipe para me ajudar e foi crescendo a partir daí.
E temos feito um projeto atrás do outro, desde então.
Cecconi’s era um restaurante velho e quase falido, no centro de Londres.
Seguimos o estilo dos grandes bufês italianos.
Aqueles espaços lindos e democráticos, que servem como palco para quem trabalha lá.
E usamos só materiais da região de Veneza.
No hotel High Road House Chiswick, criamos um espaço público embaixo, e quartos refletindo a simplicidade das casas daquele bairro.
Remodelamos o Olde Bell, um pub bem fedorento, quando o conhecemos.
Pediram para definirmos como seria uma estalagem inglesa e usar esse estilo nos móveis, nos materiais, na comida, nos uniformes.
Também trabalhamos com Mathias Dahlgren em Estocolmo, para desenvolver dois restaurantes, que seriam a manifestação da filosofia e do amor dele pela gastronomia sueca.
Criamos a primeira loja Aesop do Reino Unido.
O proprietário disse que a diferença no tratamento de beleza não está apenas nos produtos, mas na manutenção diária.
Então colocamos uma pia no centro da loja.
2008, LOJA AESOP COPENHAGUE
Passamos a ideia de cuidados com a pele por meio do design.
O que realmente nos interessa é traduzir o cliente,
2010, SERGIO ROSSI ROMA, ITÁLIA e o futuro de uma construção em uma linguagem de design.
2011, ESCRITÓRIOS RAPIER INGLATERRA
Então é uma variedade grande.
O mais emocionante foi ver se nossa abordagem funcionava para pessoas e lugares muito diferentes.
2015, CHALET SUÍÇA
Conseguimos criar identidades especiais.
Apesar de não terem a mesma aparência, tinham a mesma atmosfera.
Criamos espaços que ativam os cinco sentidos, era uma conexão verdadeira, que não era comum, na época.
A MULHER DOS SENTIDOS
Embora eu saiba o que funciona visualmente para mim, preciso organizar as ideias escrevendo, para fazer o que faço.
Preciso que as duas coisas dialoguem.
No segundo livro, tentei descobrir como estruturar meus pensamentos em um manifesto de design.
LAR É ONDE O CORAÇÃO ESTÁ ILSE CRAWFORD
Ilse facilita a compreensão, porque ela expõe as ideias de forma básica.
Vinte anos atrás, Ilse tinha ideias muito inovadoras e leva muito tempo até uma nova ideia se tornar uma ideia estabelecida, então tem sido um processo.
Cresci em uma família bem progressista.
Meus pais eram muito liberais.
Minha mãe era artista, e meu pai era jornalista investigativo do Sunday Times e economista.
Ele era muito exigente com os estudos. Aprendi cedo a defender minhas ideias, porque ele acreditava que as pessoas não questionam a realidade, antes de formar uma opinião.
Quando você questiona uma situação, respostas vão surgindo.
Minha mãe era aventureira.
Ela nos deu liberdade de expressão total no nosso ambiente.
Mas, quando eu era adolescente, ela ficou muito doente.
Ela tinha trinta e poucos anos.
Passei muito tempo em hospitais, para ficar com ela.
Aqueles corredores compridos reduziam pessoas a pacientes, esperando os médicos de jaleco branco marcharem por lá.
Eram desumanos.
Vi o quanto uma construção pode impactar nas sensações e na interação.
E tive a revelação de que os valores humanos são inegociáveis.
Essa combinação de questionamento e empatia é algo que carrego desde o início.
Quando assumimos um projeto,
QUESTIONAMENTO sempre guardamos nossas opiniões.
Questionamos,
EMPATIA observamos muito, ouvimos.
Sempre falo para minha equipe que temos dois olhos e ouvidos e uma boca, e temos que usá-los nessa proporção.
Por esse processo de questionamento e empatia, conseguimos entender o que estamos vendo.
Nosso conhecimento do processo é relevante quando trabalhamos em um projeto como o da IKEA.
Eles viram nossa abordagem humana, que também faz parte da ideologia da empresa.
Eles queriam ver como incluiríamos valores humanos nos restaurantes.
Precisa ser uma visão bem robusta, porque será difundida por todo o mundo. É algo enorme.
Os restaurantes sempre ficaram em segundo plano, pois as lojas já são um projeto enorme.
E já falamos que são o fim do processo, onde as pessoas gastam o restante do dinheiro e o restante do tempo, então será bem interessante reverter esse processo.
Eu nem sabia que era restaurante. É muito interessante. É uma lanchonete.
Eles podem usar esse espaço para encorajar e passar dicas de alimentação, principalmente às crianças.
Embora não dê para se livrar dos cachorros-quentes.
Mas tudo bem. É só transmitir de outra forma, sem tentar vender.
Mas, pelo visto, a porção de salada é um sucesso. É mesmo?
O próximo passo será uma observação rigorosa das IKEAs que já existem.
Mudanças dessa proporção podem causar um impacto enorme.
IMAGINAÇÃO
BIBLIOTECA DE MATERIAIS
Este é o lugar preferido de quase todos os clientes.
Cada projeto tem uma linguagem material específica, em termos de disposição, de acabamentos.
Os materiais sempre transmitem a verdade.
Então, analisamos minuciosamente.
Somos naturalmente atraídos por eles.
Descobrimos o mundo através dos sentidos.
O que nos interessa é como os materiais falam.
O que entra em contato com a pele, o que cria uma memória.
Nos concentramos muito nisso.
Os materiais atraem e convencem mais dentro de um contexto, pelo menos, com a iluminação que será usada e, se possível, junto com os outros materiais.
Essa combinação de materiais que se conversam cria um ambiente tátil, acolhedor e muito físico.
2015 LOUNGES DA CATHAY PACIFIC
Por exemplo, nos lounges de aeroporto da Cathay Pacific, tivemos que escolher materiais funcionais, mas também luxuosos.
As pessoas chegam cansadas, sofrendo com jet lag, e o lounge é onde podem se sentir humanas.
Um lounge típico tem fileiras de cadeiras, bem impessoais, e não queríamos fazer isso.
Queríamos que tivesse a atmosfera de um espaço caseiro, mas prático.
Foi um desafio.
Precisava exigir o mínimo de manutenção, comportar muitas pessoas todos os dias, levando malas de rodinha que raspam nas paredes.
Pintura, por exemplo, não era uma opção.
Precisava de um visual que expressasse a Cathay e não outra companhia aérea.
Então, nos materiais para o lounge da primeira classe, selecionamos ônix para o corredor.
Um material natural da região, vem da Ásia, e é robusto.
Não é um material barato, então tivemos que equilibrar com algo mais simples.
Escolhemos calcário.
Mas faltava o aspecto acolhedor.
A melhor forma de entender os materiais é por contraste, nossos sentidos sentem o áspero ainda mais áspero em contraste com o liso.
Para aproveitar ao máximo, precisávamos dos opostos.
Usamos veludo mohair, que é bem robusto e muito durável, mas há um aspecto luxuoso, contrapondo à dureza e frieza do ônix e do calcário.
Depois quisemos algo natural, em aparência e forma.
E, para dar um toque de luxo, havia uma base de metal.
O foco não era na estética e na aparência, embora tenham sido levadas em conta, mas muito mais na ideia de criar um ambiente de onde as pessoas saíssem se sentindo melhor do que antes.
O importante é o bem-estar.
As pessoas entram em um espaço e não sabem por que se sentem daquele jeito, mas na verdade foi tudo planejado.
A execução dos nossos projetos fica com as ferramentas.
Algo tangível, como materiais, rascunhos, e todas as ferramentas técnicas, CAD, Vectorworks etc.
E a melhor ferramenta de medição: a fita métrica.
Uma ferramenta simples e essencial.
No nosso estúdio, as dimensões são muito importantes.
Na produção de móveis, por exemplo, oito centímetros fazem muita diferença no conforto, ou na adequação para se ter uma conversa.
Prefiro mesas com dimensões que propiciem conversas e aproximem as pessoas.
O interessante sobre as mesas é que podem ser metáfora de poder e confronto.
Uma mesa de conferência é tipicamente larga e comprida, e a pessoa na ponta é quem toma as decisões.
Para mim, uma mesa informal é mais delicada.
A mesa Together é um ótimo exemplo. É estreita o suficiente para uma conversa confortável, tem 75 centímetros, e pontas ovais.
Isso abre a possibilidade de acolher mais pessoas.
Os designs que incentivam a proximidade são muito bons.
No início, eu não achava que nós podíamos, nem devíamos criar peças.
Mas, projetando alguns interiores, tivemos que produzir peças específicas, pois não conseguíamos achar.
O armário Brass foi uma peça original para a loja Aesop.
E aproveitamos este design para outros clientes.
Criar um produto bom é muito mais complicado do que simplesmente mandar um rascunho ou uma imagem CAD para um fabricante.
O design é um relacionamento com o fabricante.
COLEÇÃO DE ILSE PARA GEORG JENSEN
Os melhores resultados sempre refletem essa colaboração.
Precisamos testar e refinar os produtos.
São várias tentativas até uma peça ganhar vida própria.
Por exemplo, quando produzimos a linha Sinnerlig para a IKEA, achamos muito importante produzir móveis que alcançassem o mundo todo.
No projeto para a IKEA, tentamos entender a produção em massa e, em vez de falar: "Isso é horrível", questionamos e tentamos mostrar que a produção em massa pode ser muito vantajosa, porque dá acesso a produtos para todo mundo.
Para muitos, a IKEA é uma loja de móveis ruins e baratos.
Mas o interessante foi fazer uma análise estratégica do que poderia ser aproveitado positivamente usando design para aprimorar.
A base desse relacionamento foi incorporar emoção nesse sistema, para desenvolver produtos sustentáveis, mas que as pessoas adorassem.
Não queríamos apenas criar produtos, queríamos criar uma experiência.
Como o Studioilse trabalha com produtos e design de interiores, foi a melhor combinação.
Faz um ano que começou e continua aqui. É bem legal. É muito bom ver na loja.
Procurando materiais possíveis, começamos a adorar a cortiça.
Porque é muito abundante, sustentável, não gera desperdício.
Eles removem a cortiça do tronco do jeito tradicional.
São pessoas que sabem fazer, sem prejudicar as árvores.
E, para dar textura, investigamos muito até achar uma cobertura nova.
O design tira proveito das restrições.
Encaro como um incentivo. Precisamos de restrições severas para depois nos livrarmos delas.
Analisamos a fabricação de cerâmica no Vietnã e descobrimos uma forma de criar imperfeições e diferenças.
Era muito óbvio. Eles fazem pintura dip-dye, então nunca há duas peças iguais.
O processo durou quase três anos.
As pessoas não percebem o quanto demora para fazer um produto a este preço, nestas quantidades.
Oferecer design de qualidade em uma escala destas, para nós, é um resultado muito interessante.
Agora é a etapa do restaurante, aproveitando os aprendizados do que é possível fazer com os restaurantes.
E será muito divertido.
SENSO DE LUGAR
Cresci em uma parte de Londres repleta de casas abandonadas, que estavam sendo demolidas, mas com azulejos lindos, do século 19.
Ninguém via a beleza desses itens.
Eu saía com minha mãe à noite, com martelo e cinzel, para salvá-los, para não serem destroçados por um guindaste, no dia seguinte.
Desde criança, sempre fui fascinada por essas atmosferas.
E ainda sou. Acredito que as casas carregam a atmosfera do passado.
De certa forma, um designer cria uma visão de raios X e consegue ver além do estado atual da construção, como ponto de partida.
ESTOCOLMO SUÉCIA
Para trabalhar no Ett Hem, conversamos por quatro anos e meio, devido à complexidade do planejamento e das autorizações históricas.
Antes da colaboração com Ilse, eu a procurei no Google e vi que... nossa! Ela é uma estrela.
Passamos oito meses juntas.
Eles dedicaram tempo para me entender.
Fui mostrando as casas e os lugares de que gosto, aqui na Escandinávia, e apontando o importante na vida, os valores, as comidas, os rituais que valorizo.
O Ett Hem fica em um edifício construído em 1913, uma época muito importante na história da arquitetura sueca, porque os lares se tornaram o foco das artes e da vida.
O cotidiano era algo celebrado e prazeroso.
Um dos princípios fundamentais foi fugir do luxo opulento e mostrar que luxo é atenção, é cuidado. É transformar o ordinário em extraordinário.
Uma colaboração com Ilse, em primeiro lugar, é confiança total. Sentimos isso.
Eles são muito minuciosos.
Tipicamente, um processo de construção traz uma sequência de decisões.
E as decisões que chamo de "suaves" são feitas ao final, se ainda houver dinheiro e tempo.
Mas, nesse caso, quisemos reverter o processo.
Quisemos integrar a experiência do local com o design, desde o começo.
E construir um lugar onde, ao entrar, a pessoa se sente relaxada e à vontade.
Um lar.
Ett Hem significa "um lar".
Quando escolhemos o nome Ett Hem, tudo se encaixou.
Em relação ao design, para qualquer decisão pensávamos: "Qual é a sensação e como funciona em uma casa normal?"
Retiramos muitas coisas da casa, a formalidade, as limitações.
Além de ocuparem espaço, fazem as pessoas se comportarem de maneira diferente.
O mais importante era a interação, não o visual dos cômodos, e demos um foco apropriado para isso.
São estes momentos que fazem tudo valer a pena.
Na Dinamarca, chama-se hygge, se concentrar no momento, transformar o ordinário em extraordinário e o normal, em especial.
Quando fazemos isso, as pessoas ficam muito mais abertas, muito mais próximas. É uma forma muito interessante de criar comunidades.
Por exemplo, na cozinha, criamos um clima convidativo com uma mesa grande e incluímos objetos que parecessem memoráveis, táteis.
Ao darmos atenção aos detalhes e pensarmos em como interagirão com o espaço, todos percebem o carinho com que o projeto foi feito.
Claro que o Ett Hem é um hotel sofisticado e relativamente pequeno, mas é possível aplicar isso em uma escala maior.
IKEA KUNGENS KURVA ESTOCOLMO, SUÉCIA
Quando você integra design em uma empresa como a IKEA, o impacto pode ser enorme.
O interessante neste projeto é que a IKEA é uma loja para famílias.
Vemos famílias enormes aqui e é difícil levar uma família grande para comer fora, sem contar que é caro, então é uma contribuição valiosa.
O restaurante não mudou com o tempo, eles queriam que cuidássemos disso.
Essa é a área que reformaremos,
-e mudaremos totalmente, espero. -Sim.
Somos uma das lojas mais antigas e a maior.
Temos 375 lojas, em 48 países do mundo.
Criamos uma nova forma de servir comida boa.
Mas não importa o quanto nosso salmão assado é bom.
Se for apresentado da forma errada, terão a impressão errada. É, parece uma fila de aeroporto.
Digamos que há como melhorar.
Atendemos 640 milhões de pessoas por ano.
E, neste único restaurante, passam 3.500, 4.000 pessoas por dia.
-Isso. -São números enormes.
O que queremos fazer é ajudar pessoas com uma vida mais saudável e sustentável, a partir do que comem.
Faz sentido, porque se conseguir mudar a visão das crianças sobre o alimento, você muda o futuro delas.
Com certeza.
Acho que o design precisa trabalhar isso.
Se pensarmos na proporção do projeto,
640 milhões de consumidores por ano, é até difícil de entender, é para durar dez anos, e estamos apenas começando.
LONDRES INGLATERRA
Dizem que por trás de todo grande homem há uma grande mulher.
Aqui é o oposto.
OSCAR PEÑA MARIDO DE ILSE
Atrás de uma grande mulher talvez haja um homem muito bom.
Eu morava em Nova York e ele em Milão, trabalhando para a Academia de Design de Eindhoven, que eu não conhecia.
Eu estava em uma reunião de departamento e me perguntaram se conhecia alguém para um departamento novo que se chamaria Bem-Estar.
Falei: "Há uma mulher chamada Ilse Crawford."
Eu só sabia quem era por causa da Elle Decoration.
Ela escreveu Sensual Home, que, por alguma razão, nunca comprei.
Mas me casei com a autora, então não precisei comprar.
O Oscar trabalha com design de produtos industriais há décadas e entrou para a empresa.
Ele é colombiano, então trouxe personalidade e um coração enorme.
Este aqui, o último detalhe verde.
Conta como verdura para você, não é?
Não era no século 14, na Turquia, que...
Era motivo de divórcio se o marido não fizesse café para a esposa.
Normalmente levanto e faço café para você.
Exatamente.
Mas acho que os momentos simples são os que lembramos.
Todo mundo se lembra dessas conexões.
Na Academia de Design, somos chefes de departamento.
Sou chefe do Dep. de Homem e Atividade, que é mais sobre produtos, serviços e experiências.
O de Ilse é o Bem-Estar, que cuida de engenharia humana e do lado emocional das coisas.
EINDHOVEN HOLANDA
Realmente quero que o bem-estar, no sentido de saúde física e emocional, atinja o máximo possível de pessoas.
Por isso escrevo livros e leciono.
Espero que seja contagioso.
ACADEMIA DE DESIGN DE EINDHOVEN
A estrutura da escola é baseada em pessoas que são profissionais.
Consegui unir minha vontade de trabalhar com a próxima geração e de ter meu próprio estúdio.
CASE-SE COM UM ARTESÃO EXPOSIÇÃO DE NÍVEL SÊNIOR
Quando você procurou os produtores de vassoura, primeiro eles disseram não.
Exato.
No começo, acho que ele pensou:
"Ele vai embora e não voltará mais", mas fui lá de novo e ele ficou muito surpreso. Ganhei a confiança dele.
Tem o cabo velho, que ele fez há 23 anos, e pus minha vassoura nova.
Isso resume nossa relação, de como o novo e o velho se uniram em uma vassoura.
Relações podem ser complicadas.
Precisamos enfrentar os problemas.
A ideia é criar diálogos com esses jovens e fornecer as ferramentas para desenvolverem a própria voz.
O objetivo é exaltar a preparação dos alimentos.
Isso funciona como uma lente de aumento, cria uma relação diferente com a comida que está preparando.
O que adoro em seu projeto é que, quando olhamos, vemos utensílios de cozinha, mas também um material que nunca foi usado
-com esse propósito. -Exatamente.
Este trimestre foi excelente.
O que foi desafiador nos projetos foram as colaborações, que envolvem a criação de um relacionamento. É uma boa representação do que acontecerá na vida de vocês, seja trabalhando em pequena ou grande escala.
Para ser um designer concentrado em bem-estar, precisam começar com a produção dos materiais.
Podem ficar orgulhosos dos trabalhos deste trimestre.
Então, obrigada.
Estar na escola é fazer parte de um processo mágico de criação, de ver como, do nada, surge algo concreto.
Na verdade, o que tem acontecido em Eindhoven é que muita gente de outras cidades está indo morar lá, pela oportunidade de participar de workshops e de desenvolver diversas habilidades, quase uma mini-Berlim.
Acho que o design tem um bom futuro.
O bem-estar agora é uma filosofia que permeia muitos designs.
Minha grande esperança é que todo mundo coloque as pessoas em primeiro lugar, e isso pode ser feito de forma individual.
Ou seja, é uma missão bem simples, e estamos realizando um cômodo por vez, um projeto por vez.
Quando priorizamos as necessidades humanas em um espaço, o design pode causar um impacto profundo.
Espero contribuir para a felicidade humana.
Para fazer um mundo melhor.
Legendas: Karina Salomão Ferrari
