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Amor & Comida | Bianca Laufer | TEDxFortaleza

Tradutor: Luciana Costa Revisor: Cristina Bufi-Pöcksteiner

O tema central da minha vida tem sido a comida.

Eu vou explicar porque em três histórias.

A primeira história se passa às vésperas da Segunda Guerra Mundial, numa pequena cidade chamada Dombrowa, entre a Alemanha e a Polônia.

Lá vivia um menina loira, de cabelos encaracolados, de olhos azuis, com 14 anos, chamada Magda.

Ela era a terceira filha de uma família de judeus, que viviam numa casa grande de tijolos, com muitos quartos, muitos quadros e muitos empregados.

Um dos empregados da casa era um rapaz de 17 anos, olhos verdes, forte, chamado Michel.

Ele era o faz-tudo da casa.

E ele tinha uma paixão secreta, não correspondida, por Magda.

Magda nem sabia de sua existência.

Os alemães invadem a Polônia.

A família de Magda perde todos os seus bens.

Eles são presos e mandados para o gueto de Dombrowa, onde passam a morar em um quartinho apertado e escuro.

De lá, eles são transportados de trem para o campo de concentração de Auschwitz, onde começam a passar muito frio e muita fome.

A família de Magda, em Auschwitz, é exterminada, um a um, na câmara de gás.

Magda, por diversas vezes, vai para a fila da câmara de gás e, milagrosamente, ela sobrevive.

Magda passa a ser um número, 50950 tatuado em seu braço.

Magda fica presa em Auschwitz dos 14 aos 18 anos.

E quando acaba a guerra, ela está pesando 30 quilos.

Michel, por sua vez, foge para Sibéria com seu irmão mais novo, onde também passam muito frio e muita fome.

O irmão de Michel pega uma pneumonia e não sobrevive.

Michel, então, é preso e mandado para o campo de trabalho forçado, onde lá, algumas vezes, dão para ele batata para comer, todos os tipos de batata.

E uma família, que teve o filho morto na guerra, dá para ele um casaco.

Assim, por sorte, Michel sobrevive.

Quando acaba a guerra, Michel volta para Dombrowa, sua cidade natal, à procura de alguém que ele conhecesse.

Toda sua família morreu.

Em Dombrowa, ele escuta falar que Magda, seu antigo amor, tinha sobrevivido.

Mas ela foi mandada para Munique, para o campo de refugiados.

Rapidamente, Michel vai para Munique e procura nas listas de sobreviventes o nome de Magda.

Michel e Magda se reencontram.

Eles se casam e eles têm uma filha, chamada Eva.

Eles decidem que não querem ficar na Alemanha do pós-guerra.

Eles pensam em ir pra Israel, pros Estados Unidos, mas por terem parentes distantes no Brasil eles resolvem que vão pegar o navio, na terceira classe de um navio, passando fome, e vão para o Rio de Janeiro.

Eva é minha mãe.

Por que eu estou contando essa história?

E por que essa história, para mim, é tão importante?

Primeiro, porque ela é uma história real.

Ela é uma linda história de amor.

Para mostrar que o improvável pode acontecer.

E que a sorte pode estar do nosso lado.

Mas para que isso tudo aconteça, a gente tem que ter muita garra, muita coragem e confiança.

Esta foto é de uma família totalmente improvável de acontecer. É meu avô Michel, com a minha avó Magda,. os seis bisnetos, a minha mãe Eva com os seis netos.

E meu avô, Michel, antes de morrer, me disse que o que fez ele sobreviver não foram nem os casacos e nem a batata, e sim perceber que através da batata ainda existia amor, apesar de tudo que ele estava passando.

A segunda história começa na minha infância.

Eu sou a terceira filha de duas irmãs gêmeas.

E sempre fui conhecida como "a avulsa".

E nas brincadeiras com minhas irmãs eu tinha dois papéis fundamentais que sem eles a brincadeira não podia acontecer.

Ou eu era a árvore, ou eu era o sinal de trânsito.

(Risos)

E eu aprendi, durante toda a minha vida, que alimentar é dar amor, que o amor vem pela comida.

As lembranças mais remotas da minha infância são meus avós Michel e Magda trazendo amor e afeto, todos os dias, para minha casa, em forma de pão branco, de mortadela, de latões de sorvete, de filé mignon.

Meus avós me apanhavam na natação, e íamos direto comer uma coxinha de galinha.

Assim, nos conectávamos, eu me sentia amada e celebrávamos a vida.

Esta foto, sou eu, aos dez anos, pronta para o carnaval e sendo muito amada.

Até que, na minha adolescência, eu começo a questionar os valores da minha família, como uma boa adolescente.

O meu padrão de amor muda, e a minha autoestima começa a ser medida em gramas e eu começo então um processo de anorexia.

Eu fiquei mais de um ano anoréxica, emagrecendo a cada dia.

Foi um período muito doloroso e sofrido para mim. É como se eu estivesse competindo contra mim mesma.

E como se eu estivesse aprisionada dentro da minha própria mente.

Por mais que eu emagrecesse, eu nunca me sentia satisfeita com meu corpo.

E as minhas metas de emagrecimento mudavam diariamente.

Aquela era uma guerra minha sem vencedor e sem fim.

Eu tinha uma agenda onde eu anotava minhas estratégias de guerra, onde eu anotava como eu me sentia.

Eu tinha dores na barriga e eu não podia contar para os meus pais, eu não podia contar para ninguém, pois eu tinha que sair vitoriosa daquela guerra.

Eu anotava também nessa agenda os alimentos que eu pararia de comer.

Um dia, eu resolvia que não comeria mais pão e anotava na agenda e parava de comer pão.

No outro dia, eu parava de comer sorvete.

No outro, massa.

E assim foi durante um ano.

No final, eu só estava comendo cenoura, e minhas mãos são amarelas até hoje.

Eu fiquei esse período de um ano sem menstruar.

Até que um dia, eu estava em casa, com a minha mãe, toca o telefone.

A minha mãe me obrigava a fazer exame de sangue todos os meses.

E era do laboratório de sangue.

Minha mãe atendeu e perguntaram para ela se eu tinha sofrido algum acidente, ou se eu tinha perdido o baço, porque eu estava com uma anemia muito profunda.

Naquele momento, eu tive muito medo.

E tive certeza de que ia morrer por falta de comida, e não de amor.

E comecei, então, a "cura" da anorexia.

Aos 24 anos, formada em Economia, eu fui morar em Nova Iorque com meu namorado, que hoje é meu marido.

E lá comecei a trabalhar no mercado financeiro.

Eu substituí a competição contra mim mesma da anorexia por longas horas de trabalho, de um trabalho altamente competitivo.

Eu comecei a ter crises de pânico.

E meu chefe me mandava ir para o banheiro até que minha crise de pânico passasse, e eu voltasse a trabalhar.

Aquele não era o meu sonho, apesar de eu não saber qual ele seria.

E eu vivia como se eu estivesse no piloto automático, me sentindo um ratinho correndo dentro daqueles círculos.

Mas lá, trabalhando diretamente com americanos, eu percebi que eu tinha um espírito empreendedor.

Aos 32 anos, ainda trabalhando no mercado financeiro, eu tive meu primeiro filho, Felipe, e parei de trabalhar.

Logo depois, meu segundo filho, João, nasceu.

E foi o primeiro momento da minha vida em que eu fiquei oito anos sem trabalhar ou sem estudar, que eu resolvi que somente iria nutrir meus filhos.

E foi nesse período da maternidade que eu consegui elaborar toda minha história de vida.

Que meus avós passaram fome na guerra e não tiveram amor, que na minha infância eu tive muita comida e muito amor.

Na minha adolescência, eu tive, sim, comida, mas eu me privei dela, eu me privei do amor e me privei do prazer.

E agora, na maternidade, é quando eu entendi que amor, prazer, nutrição e comida podem sim, andar juntos.

Mas o meu pavor em ter que alimentar bem os meus filhos foi tamanho que eu fui estudar sobre alimentos.

E eu poderia ter parado por aí.

Mas foi nesse momento que eu percebi que tinha uma sementinha de um sonho, muito frágil, dentro do meu peito.

E entendi que amar é comer, sim.

Mas amar é comer bem, amar é alimentar a alma.

E que nós mulheres gastamos muito do nosso tempo e da nossa energia pensando se a gente está gorda, se a gente está magra, qual o nosso percentual de gordura,

Se a gente fez mais ginástica que as nossas amigas e usa a nutrição sempre para emagrecer e esquece que a nutrição mais importante é nutrir os nossos sonhos.

A terceira história é sobre sonhos.

Eu vou falar do meu sonho, mas eu queria que vocês pensassem nos sonhos de vocês.

Numa viagem de férias, no Havaí, com os meus filhos, eu conheci os sucos prensados a frio.

No primeiro gole do suco, eu senti um imenso prazer.

E não senti culpa, como uma ex-anoréxica.

Quando eu entendi que o método de prenssagem a frio preserva todas as enzimas, todos os nutrientes, sem conservantes, sem choque térmico, sem pausterização, eu decidi que eu faria a primeira empresa de suco prensado no Rio de Janeiro.

Eu encontrei naquele suco tudo o que eu achava de mais importante, que era o sabor, o prazer e a nutrição,

E naquele momento, também decidi que eu iria falar com o máximo de médicos de saúde, nutricionistas, para fazerem parte desse meu projeto, que eu procuraria as frutas brasileiras, procuraria os melhores ingredientes, faria as combinações com as melhores funcionalidades.

E a minha missão seria provar que apesar de saudáveis, os sucos podiam, sim, ser gostosos e prazerosos.

Da minha empresa, eu sou a cliente mais chata.

Eu coloco o melhor de mim na garrafa.

Só que isso tudo não aconteceu sem desafio.

A logística era resfriada num país tropical, a produção era diária, as compras eram diárias.

O suco só durava três dias porque ele não tinha conservantes.

Para ser sincera, eu não tinha a menor ideia em como fazer essa empresa funcionar.

A ignorância foi uma grande vantagem, para mim.

Há três anos, eu comecei a produzir os sucos na minha cozinha, com essa máquina que eu trouxe de viagem, embaixo do braço, com meu marido reclamando da bagagem.

E esses são os primeiros sucos que eu produzi e vendia para amigos.

Realmente, olhando a foto, não parecia nada promissor.

E isso tem três anos.

E nesse momento, eu aprendi que se a gente espera ter as condições ideais para começar o nosso sonho, a gente nunca começa.

E as pessoas me achavam maluca, me davam argumentos racionais de que meu negócio não iria funcionar.

Tentavam me convencer a congelar ou pasteurizar o suco, para que ele durasse mais tempo.

Mas aquele não era o meu sonho.

E eu não ia tomar atalho.

Aquele, não era o melhor de mim na garrafa.

E eu pensei em desistir, várias vezes.

Eu costumo dizer que empreender no Brasil é como um videogame: ou a gente morre, ou a gente passa de fase, todos os dias.

Mas eu não desisti, eu acreditei no improvável.

Eu tive a sorte de conhecer sócios com habilidades complementares à minha.

E junto com 103 funcionários que somos hoje, o melhor de mim na garrafa virou o melhor de nós na garrafa.

E o que me motiva é ver o sonho de cada uma dessas pessoas que trabalham comigo acontecer dentro do meu sonho inicial.

Como por exemplo é o caso da Rebeca.

A Rebeca é a primeira funcionária e é a primeira pessoa da família dela a fazer faculdade.

Ela começou no chão de fábrica, literalmente descascando abacaxi, depois ela foi cuidar dos motoboys.

Ela foi abrir nosso primeiro quiosque, e hoje ela é a gerente de vários quiosques.

Isso tudo em dois anos e meio.

E a cultura da oportunidade é o que me faz ter mais responsabilidade para que essa empresa dê certo.

E hoje, nós somos a única empresa de sucos no Brasil que tem uma máquina de alta pressão que mata as bactérias e preserva todos os nutrientes, todas as enzimas.

Fazendo com que a validade, que era de três dias, até quatro meses atrás, hoje os sucos duram 45 dias.

E hoje, nós somos a maior empresa de suco prensado no Brasil.

O improvável pode acontecer.

E nos momentos difíceis, eu busco na minha história familiar os ingredientes que me motivam, e motivaram a construção desse sonho.

E sempre lembro da história dos meus avós que o improvável pode acontecer, que a sorte pode estar do nosso lado, mas para que isso tudo aconteça, a gente tem que ter muita garra e muita coragem.

E da próxima vez que você vir essa garrafa, receba todo o meu amor e pense no seu sonho.

E eu te pergunto: onde você coloca o seu melhor?

(Aplausos)