Arte no mundo sem chão com Paulo Sérgio Duarte
Eu queria agradecer ao SESC, especialmente ao
Centro de Pesquisa e Formação, por esse convite de estar aqui com vocês.
E foi ótimo não só mediar as palestras que eu assisti hoje, mas particularmente ser antecedido pelo Fabbrini, que me liberou, porque já apresentou uma série de alternativas à produção contemporânea... o objetivo da minha fala.
Ele mencionou o texto “O Que É o Contemporâneo?”, do Giorgio Agamben, e eu gostaria de citar uma passagem desse texto,
“O Que É o Contemporâneo?”, do Giorgio Agamben, porque... à guisa de epígrafe da minha fala.
Esse texto, para mim, é muito marcante porque “O Que É o Contemporâneo?” em nenhum momento fala dessas coisas de aceleração da vida cotidiana, de mudanças tecnológicas.
Não há uma linha sobre mudanças tecnológicas, aceleração da vida cotidiana.
Nada disso!
O que é o contemporâneo é o que é o contemporâneo em qualquer momento da história humana, o que é ser contemporâneo em qualquer momento da história humana, não é somente agora, certo?
E tem uma passagem que ele diz interessante:
“Neste ponto, eu gostaria de lhes propor uma segunda definição da contemporaneidade: contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro.
Todos os tempos são, para quem deles experimenta a contemporaneidade, obscuros.
Contemporâneo é justamente aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente.
Mas o que significa ‘ver as trevas’, ‘perceber o escuro’?”
E aí ele então discorre sobre essa questão. É muito importante que aquele que sabe onde está não é contemporâneo, porque, se ele sabe, já é passado.
Ser contemporâneo é propriamente não saber, isso em qualquer época e em qualquer momento.
Se sabe, já não é contemporâneo, porque, se ele verbaliza o que ele está percebendo, isso já é passado, porque você já foi tomado pelas palavras, pela morada do ser, pela habitação na linguagem, que é o próprio do ser, segundo Heidegger.
O ser é aquele que habita a linguagem.
Então, se eu formulo, já não é contemporâneo.
Perceber a escuridão e não saber onde está é o que é ser contemporâneo.
Isso, para o Agamben, em qualquer época e em qualquer momento.
Não é por causa de Facebook, por causa de celular, não!
Isso é em qualquer época.
Só que eu quero falar de uma questão mais ampla do que esse presente.
Algumas transformações que ocorreram e que nos levam a essa nossa contemporaneidade, porque, para o Agamben, é muito importante que você esteja ligado no seu tempo para ser contemporâneo.
Se ser contemporâneo é não saber e ver a obscuridade em qualquer momento em que se está, mas, sobretudo, para ser contemporâneo, você tem que estar ligado no seu presente.
E eu começaria dizendo: “Estamos em um mundo sem chão”.
O que significa essa afirmação?
Significa que não existe nenhum sistema de pensamento que, com os seus conceitos e ideias, axiomas e paradigmas responda ao que estamos vivendo.
Essa afirmação merece contestação.
Fora dos sistemas míticos, seja dos gregos antigos, seja dos nossos indígenas, na chamada civilização ocidental, sempre vivemos com pensamentos contraditórios que viveram desde a Antiguidade até hoje.
Essas filosofias e sistemas diziam o que éramos e, às vezes, o nosso destino.
Da existência de pensamento desde Heráclito e os eleatas até Kant e Hegel, vivemos com pensamentos que se opõem para não chamar a atenção ou posições mais contemporâneas, como entre os neopositivistas ou positivistas lógicos e os hermeneutas, e para não falar do pensamento francês pós-estruturalista.
Qual desses pensamentos responde onde nós estamos?
Foucault? Deleuze?
O que deveríamos pensar não é essa longa história.
Os nossos índios não vivem esses problemas, vivem outros bem mais graves, mas em seu pensamento mítico não vivem um mundo sem chão.
Devemos pensar que, se experimentamos um mundo sem chão, um mundo que não nos aponta nenhuma direção, é porque mais uma vez nós, ocidentais, fundados no pensamento filosófico, atravessamos muitas mudanças, e os conceitos e, sobretudo, as certezas com que pensávamos o mundo não respondem mais ao que vivemos e ao que assistimos.
Isso é bom!
Diria mesmo muito bom não saber onde estamos pisando.
Não saber onde estamos pisando é antes de tudo não saber que não conhecemos o chão que pisamos, e, como não podemos nomeá-lo, a sensação é de que estamos sem chão.
Um chão sem nome é um chão que não existe, por isso, as designações que não dizem nada: pós-moderno, hipermoderno, pós-humano e, agora, pós-verdade etc.
Experimentar a falta de chão é, antes de tudo, uma provocação ao pensamento.
Temos que refletir sobre as nossas dúvidas, derrubar as nossas certezas.
No mundo de hoje, há um certo conforto em ser cético.
O cético é aquele que, diante do desconforto da ausência de ideias adequadas a pensar o presente, abdica do esforço da reflexão.
Os marxistas diriam: “É um burguês.
Ao não pensar a mudança, escolhe o status quo.”
Isto resulta da banalização do termo “cético”, da perda do papel que teve no pensamento ocidental, mas o ceticismo com a sua história tem uma tarefa intelectual a cumprir durante grandes mudanças, como essas que atravessamos.
A suspensão das certezas foi uma grande lição do ceticismo quando combatia os dogmas. É preciso lembrar que a origem da palavra grega “skeptomai” no seu uso comum quer dizer “pensar”.
Portanto, ser cético não é abdicar da reflexão, é, antes de tudo, o contrário: pensar.
Algo muito diferente dos que dizem ser céticos nos dias de hoje.
O desafio de pensar o mundo sem chão é pensar o mundo sem certezas. É preciso logo lembrar que certeza e verdade não são a mesma coisa.
Afirmar o mundo sem certezas não significa afirmar o mundo sem verdades.
Temos muitas verdades à nossa disposição, desde verdades filosóficas, como verdades científicas e até mesmo verdades artísticas.
O problema se encontra em saber o que essa coleção de verdades que conhecemos nos ensina a saber onde nós estamos.
Trata-se, evidentemente, de início de um problema aristotélico; conhecermos o lugar das coisas, a começar de nós próprios.
Mas, na complexidade em que vivemos, tanto do ponto de vista do pensamento como daquele histórico onde o real se desenvolve, não existe mais, como na física de Aristóteles, um lugar natural das coisas.
O que pesa não vai mais para o chão, o que é leve não vai mais para o ar, para cima.
O topos aristotélico tinha um sentido, foi herdado da noção do cosmos pré-socrático, no qual ainda não havia o conceito platônico de espaço.
No cosmos pré-socrático, todas as coisas tinham uma natureza determinada pelo lugar que ocupavam.
Uma vez alterado esse lugar, sua própria natureza e a do próprio lugar eram modificadas, porque mudavam suas relações com o cosmos.
Com o conceito platônico de espaço vazio, neutro e o mesmo em todos os seus pontos, o lugar da noção de cosmos se esvazia, e, ao emergir o conceito de lugar natural das coisas de Aristóteles, discípulo de Platão, e incorporando o conceito de espaço, o lugar natural das coisas só pode ser modificado por ação exterior.
O lugar é fundado por Aristóteles a partir da simbiose do conceito de lugar pré-socrático com o conceito platônico de espaço, um sistema onde não há mais lugar para a noção pré-socrática de cosmos.
O lugar passa a ser um novo conceito em Aristóteles, e conhecer o lugar significa saber onde estamos.
Hoje, mais de 2.400 anos depois de Aristóteles, o conceito de lugar tornou-se extremamente complexo; pode-se mesmo dizer que não existe um conceito de lugar, porque estes são tantos, dependendo do ponto de vista, que temos apenas uma vaga noção de lugar.
Começa aí a dificuldade de sabermos onde estamos.
Eu quero lembrar uma palestra de hoje de manhã que lembrava que minha identidade está acoplada ao meu endereço, mas esse endereço a lugar nenhum.
Ou seja, quando dou o meu e-mail, o meu endereço de e-mail, eu estou dando a minha identidade, e, ao mesmo tempo que dou a identidade, dou o meu endereço, mas o meu endereço não está em rua nenhuma, está em qualquer lugar.
Tanto faz eu estar em Tóquio quanto em Ribeirão Preto, meu endereço e minha identidade são os mesmos.
Então, eles são um novo lugar.
Por isso que eu quero dizer que se multiplicam as noções de lugar no mundo contemporâneo. É um lugar que não é lugar nenhum, literalmente!
E, no entanto, é um lugar com o qual se entra em contato comigo.
Começa aí a dificuldade de saber onde estamos.
Até mesmo do ponto de vista do sujeito empírico, do indivíduo, não é fácil a tarefa.
Estou andando em torno da lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, em um final de tarde de um dia de semana.
Do ponto de vista puramente geográfico, é simples dizer onde estou, só que o lugar não é mais somente este.
Esse indivíduo que anda na lagoa no final de tarde tem um lugar social e este lugar não é meramente físico.
Mais que isso, durante a minha caminhada, não apenas observo a paisagem, as pessoas que passam, as capivaras que habitam as margens, os pássaros, as montanhas, como viajo na minha imaginação, e um outro lugar se justapõe ao lugar físico que percorro: a subjetividade.
Ela já estava em ação na contemplação da paisagem, mas agora divago, e nessa viagem subjetiva que acompanha os meus passos físicos ritmados, penso:
“Às vezes, tenho mesmo ideias.
A maioria ou todas não merecem esse nome.”
Mas tenho que admitir que, durante toda a minha existência, não somente quando estou caminhando na lagoa, outro lugar está presente que não o governo: o inconsciente.
Somente aqui o indivíduo que anda no mero exercício de lazer, ou físico, admitimos a existência de quatro lugares: o geográfico, o social, o consciente e o inconsciente.
Não é complicado sabermos onde estamos nesse simples ponto de vista?
Pense somente nas pessoas que andam em volta da lagoa, para simplificar muito o problema.
Agora imagine se ampliarmos isso para multidões no mundo.
As pessoas pensam que sabem onde estão, mas se iludem.
Se parassem um minuto para pensar, não importa onde, todas teriam legítimas dúvidas para saber onde estão no caminho de sua existência.
Vamos sair da experiência individual para uma dimensão, digamos, histórica.
O lugar histórico ocidental nem sempre foi preciso.
Houve longos períodos de “verdades e certezas” que se mantiveram estáveis por muitos séculos.
A Grécia mítica, relatada pelos poemas homéricos, por Hesíodo e pelas tragédias, durou muitos séculos, e isso é muito importante. Faz parte de períodos estáveis experimentados pela cultura que incorporamos.
Quero dizer que sabemos, quer queiramos, quer não, de longos períodos estáveis. Sabíamos onde estávamos.
Já o período helênico, do século IV antes da Era Comum ao início do predomínio romano, é um período de grandes transformações, sobretudo no pensamento e nas consequências materiais da vida cotidiana daquelas populações afetadas. É uma experiência histórica inédita no Ocidente de introdução de uma maneira de pensar, e tira todo um solo anterior, o puramente mítico permeado pelo recente pensamento pré-socrático, para introduzir um novo chão, aquele do pensamento filosófico sistemático de Platão e Aristóteles.
Esse seria um lugar de transição.
Essa substituição de solo deveria ter sido muito dolorosa, sobretudo para aqueles que chamados, mais tarde, pagãos continuaram a acreditar nos mitos.
Eles viveriam um mundo cujo chão haveria desaparecido ao menos nas sociedades chamadas ocidentais, mas essa falta de chão, de fato, nunca existiu, a não ser para quem vivia exclusivamente na esfera filosófica, e esses, tenho certeza, eram muito poucos.
Em substituição ao pensamento mítico, surge uma poderosa religião: o monoteísmo hebraico, e sob o regime romano será derivado um cristianismo. É bom lembrar que este último negocia com a tradição politeísta do mundo mítico, ao inventar, no segundo século da Era Comum, o dispositivo da Santíssima Trindade.
Deus não é um, mas são três.
Segundo um neto meu, são quatro: o pai, o filho, o espírito e o santo.
Aí a prima dele, que é agnóstica aos 5 anos de idade, diz:
“Se ele existir, se ele existir”.
Deus não é um, mas são três.
Giorgio Agamben apresenta com clareza a astúcia cristã, da qual eu já desconfiava desde a infância, em um texto que é um dispositivo onde ele expõe sobre o conceito de Foucault... dispositivo que está nessa mesma coletânea que tem
“O Que É o Contemporâneo?”.
Ora, nessa passagem, não houve um mundo sem chão!
Substituiu-se o chão mítico pelo chão religioso.
Os pagãos, como eram chamados todos os que não aderiam cegamente à fé, eram vistos como o outro dessa civilização: negociavam, fingiam acreditar para sobreviver, mas viviam como marginais, suas crenças e seus cultos.
Nisso, o chamado Ocidente, havia um mundo com dois chãos: os seguros e os instáveis.
Aqueles da religião dominante, e aqueles dos herdeiros da Antiguidade politeísta, com os seus ritos e os seus deuses, cultuados clandestinamente nos bosques e nas florestas.
Como lembra Georges Duby, esse mundo plano, cercado de oceano por todos os lados, tinha deslocado, por volta do ano 1000, seu centro de Roma para Jerusalém; ali estava o objeto da conquista em nome do chão cristão.
O mundo pagão sobrevivia e logo seria objeto da Inquisição, com suas fogueiras nas quais queimavam seres humanos, que duraria muitos séculos e chegaria até nós, brasileiros.
A Inquisição foi a ação consciente da Igreja para destruir um mundo com dois chãos.
Era necessário pisar em um único chão: aquele da fé cristã.
A busca dos solos não implica em um retrospecto do pensamento.
Ao se perguntar sobre o chão do mundo, implica, sobretudo, o que foi dito no início, saber onde estamos pisando.
Isto quer dizer que caminhamos, estamos andando, estamos em movimento, mas, mesmo para os eleatas contemporâneos, que apreciam Parmênides e não se movem, tem implicação saber onde estão.
Do século XV ao século XVI, vivemos um mundo sem chão.
Pensar nas transformações de hoje como muito graves e muito sérias não é nada junto das mudanças dos séculos XV ao XVI.
Pensem só a Terra deixar de ser plana para ser redonda; segundo, que ela não é mais o centro do universo, mas ela gira em torno do Sol.
Basta pensar nessas duas mudanças para saber que as mudanças que existem hoje são blá-blá-blá.
Do século XV ao século XVI, vivemos um mundo sem chão.
As grandes navegações colocam o Ocidente em contato direto com outras culturas.
Se as viagens de Marco Polo, no século XIV, já haviam antecipado esse contato, agora, as grandes descobertas com o Mercantilismo, o contato com outras culturas passava a ser sistemático.
Mais que isso, na esfera do pensamento, passava-se uma revolução que logo iria se popularizar.
O mundo de Ptolomeu seria substituído pelo de Copérnico.
A Terra deixaria de ser o centro do universo, mas não era plana, era uma esfera que girava em torno do Sol. É igualmente à época da Reforma Luterana e do Movimento Calvinista.
Isso foi uma verdadeira experiência de um mundo sem chão. É nesse momento que surgem os “Ensaios” de Montaigne; seria muito oportuno relê-los no momento em que vivemos.
Em Montaigne, não habitam certezas.
Ele se interroga e duvida das certezas da época. É o momento mais elevado do ceticismo pré-cartesiano.
Provavelmente esse foi o último momento em que experimentamos a dúvida cética no seu sentido grego, como um “eu não sei” no combate às falsas certezas erigidas enquanto dogmas.
Montaigne é muito mais do que o “Que sais-je?” (O que sei eu?), mas, ainda que fosse só isso, bastaria diante do mundo sem chão que enfrentava.
Admitir o “eu não sei” é mais do que não saber.
Duvidar, no sentido cético, é mais do que não saber, é admitir que existe no ser algo que está vazio, que não pode ser preenchido por nenhuma certeza e por nenhuma verdade, e esse vazio que não sabe será sempre parte de nós mesmos.
E isto é difícil!
Aprendemos com Heidegger que habitamos a linguagem, mas, com Montaigne e com os verdadeiros céticos, aprendemos que existe em nossa casa um lugar vazio, onde não existem palavras nem nomes para preenchê-lo, logo somos esse cheio de linguagem que nos ensina onde pisamos, e, com os céticos que sabem duvidar no sentido verdadeiro da palavra, que não sabemos onde estamos, porque não temos as palavras ou conceitos para nomeá-los.
Se fôssemos resgatar os valores do passado recente para ler o presente, estaríamos perdidos.
O resgate da utopia é a metamorfose da fé na crença laica e racional que fracassou na indicação de onde pisamos.
Admitir que não sabemos onde pisamos é admitirmos, antes de tudo, que, com todos os nossos conceitos, a lei da inércia, a gravitação universal, a relatividade de Einstein, a geometria não euclidiana, a topologia, a acumulação do capital, a luta de classes, o inconsciente, a micropolítica, a biopolítica e tantos outros, não explicamos como o mundo regride ao ponto de encontrar hoje seus maiores conflitos em diferenças religiosas sectárias, ao ponto de segmentar, de modo radical, as comunidades islâmicas, isso sem falar que uma das economias mais fortes do mundo é administrada por um Estado comunista e a maior economia do mundo não resolve não apenas seus problemas de desigualdades econômicas, como exacerba seus problemas raciais.
Esses são, como dizem, os fatos!
Estamos ou não em um mundo sem chão?
Eu nunca pensei...
Há cinquenta e um anos, em 1966, foi deflagrada a Revolução Cultural na China.
Você não era nascido ainda. Já?
E agora, 51 anos depois, eu vejo o presidente da China defendendo a globalização e a internacionalização do capital e o presidente dos Estados Unidos defendendo o fechamento da economia e o nacionalismo econômico.
Eu nunca pensei que eu ia viver para ver isso.
Isso é muito extraordinário!
Impressionante!
Se fôssemos resgatar os valores do passado recente para ler o presente, estaríamos perdidos.
Ah, isso eu já li.
Estamos ou não em um mundo sem chão, em um mundo onde o “eu” substituiu definitivamente o “nós”, com todas as suas consequências de ilusões precárias? É muito importante lembrar que isso que o Nicolas Bourriaud, que é apontado pelo professor em sua fala, é muito importante, que é exatamente uma tentativa de, na arte, substituir o “eu” pelo “nós”.
Ou seja, a estética relacional procura, sobretudo, que a obra de arte seja um “nós” e não um “eu”.
Mas é exatamente esse mundo sem chão que nos desafia.
Teríamos que repensar o conceito de inconsciente fundado no recall, ou devemos protegê-lo de qualquer revisão?
Vamos extravasá-lo como ocorre frequentemente 418 00:21:19,403 --> 00:21:21,159 no frágil culturalismo e aplicá-lo de forma indigente a fenômenos socioculturais?
A psicanálise pode ir além do indivíduo, como pensavam filósofos como Theodor Adorno e Walter Benjamin, e se confrontar com esse mundo sem chão para tentar compreendê-lo?
Pode um pensamento crítico ir além de pensar as desigualdades e formular um sistema econômico que corrija os derrames de imigrantes depositados sobre a Europa todo dia, porque não podem sobreviver em seus países de origem?
Esses são apenas alguns dos desafios que se apresentam para quem quiser pensar o mundo sem chão, no qual não há o lugar natural das coisas, tal como em Aristóteles, nem há mais um proletariado oprimido, como pensaram Marx e Engels, porque estes foram substituídos por especialistas bem remunerados nas indústrias de alta tecnologia e mesmo nas indústrias convencionais a maior parte opera robôs.
Estar em um mundo sem chão é bom porque estamos diante desses desafios. Depois falar do circo contemporâneo que se transformou o mundo da arte seria muito fácil.
Eu queria falar algumas coisas sobre esse circo contemporâneo.
Eu acredito que há mudanças nos regimes de visibilidade.
Se nós olharmos... a equação estética tem sempre... é um binômio com dois momentos importantíssimos.
No primeiro termo, tem a produção, no segundo termo, tem a recepção.
Se nós olharmos do ponto de vista da produção, nós tivemos aqui um excelente painel dado pelo professor Fabbrini.
Ou seja, nós temos ali uma visão de um membro da equação estética, a produção.
A produção não somente moderna, como ele apresentou, como contemporânea, como ele lembrou nos exemplos dos trabalhos coletivos, em grupo etc.
E do ponto de vista da recepção?
Eu quero lembrar que existe uma coisa, um fenômeno relativamente recente, que a arte entrou definitivamente, pelo menos no horizonte que eu posso examinar, entrou definitivamente na indústria do entretenimento, e isso tem graves consequências na alteração do regime de visibilidade.
Regime de visibilidade é a forma como a arte é consumida, é a forma como a arte é recebida, ou seja, é olhar a equação estética do ponto de vista da recepção, um pouco como na “Crítica do Juízo”, de Kant.
Ele não olha nenhum lugar...
Em nenhum momento, Kant perde tempo no ponto de vista do artista, ele só olha do ponto de vista do receptor, o que não é justo, o que não é correto, mas foi importantíssima a contribuição dele.
Graças a Deus, até hoje nós já temos o universal subjetivo, ou, pelo menos, algo parecido com isso.
Onde tocar a “Nona” de Beethoven, em Moçambique, no Japão, no Alasca, todo mundo vai reconhecer que ali existe uma obra de arte.
Algumas obras estão naquilo que o Kant chamou de universal subjetivo. É subjetivo, mas é universal.
Eu estava lembrando agora, por exemplo, a Tate Modern, quando foi aberta, em abril de 2000, ela tinha uma expectativa de receber um milhão de visitantes no primeiro ano, e ela recebeu cinco milhões de visitantes.
Eu me lembro, o que hoje é a Tate British, na época a antiga Tate, o que era a sala de Rothko na antiga Tate.
A sala de Rothko era uma verdadeira capela.
Todo mundo que conhece um pouco de História da Arte conhece a história dessas telas do Rothko.
Elas foram compradas por um restaurante nos Estados Unidos, o Four Seasons, que queria as telas do Rothko colocadas nas suas paredes.
Rothko foi lá, visitou, produziu imensamente, inclusive, boa parte da produção para aquela seleção que está hoje na Tate e que é o que iria para o Four Seasons, está hoje em uma coleção no Japão, porque ele produziu muito para fazer aquelas telas que estão na Tate, ele olhou o restaurante e disse:
“Ah, não! Esse lugar aqui não é para as minhas telas.
Imagine as pessoas comendo, e minhas telas na parede, decorando o restaurante.
Nem pensar!”
Então, ele realmente fez as exigências.
Ele devolveu o dinheiro, na época, meros 2,5 milhões de dólares, hoje, cada tela daquelas vale uns 50 milhões de dólares, cada uma, aliás, todas as telas ali.
Ele devolveu o dinheiro para o Four Seasons e doou as telas para a Tate, e a Tate fez exatamente como ele queria, pintou no tom de cinza que ele queria...
Nós íamos lá, e podia passar meia hora, uma hora, e entravam duas, três pessoas na sala, e você tinha um regime de fruição, de visibilidade das telas muito diferente do que tem hoje.
Hoje, você vai lá e em um minuto passam pelo menos 400 pessoas diante das telas.
Em um minuto, passam umas 400 pessoas! É evidente que o regime de fruição daquelas telas estaria muito melhor no Four Seasons do que na Tate Modern, porque você não tem condições de fruir a tela.
São multidões.
Houve um episódio, um crítico...
Elas foram vítimas de vandalismo na Tate Modern e foram restauradas, e houve um crítico do “The Guardian” que escreveu muito bem um artigo há uns dois anos.
Disse assim: “Poderia a Tate respeitar Mark Rothko?”
Ou seja, por causa desse regime de visitação que as telas têm, impede a sua própria fruição.
Então, evidentemente as telas estão relegadas a uma transformação.
Elas não são mais o que elas são.
Por mais que eu olhe do lado da produção e na condição de professor de História da Arte e crítico de arte veja as telas e possa falar sobre o Rothko, elas não são consumidas dessa maneira, como um professor de História da Arte ou como um crítico consome, porque as condições de consumo e de fruição estão absolutamente destruídas pelas multidões que passam em frente por minuto.
Houve um outro episódio, continuando na Tate.
Houve um episódio há uns dois ou três anos que circulou nos jornais.
Uma criança escalando um Donald Judd.
E ela, literalmente, estava como em um parque de diversões, ela escalava a escultura.
Quer dizer...
Devia ter dia para criança ir a museu.
E só vai criança, e com muita vigilância, vigilância dobrada, igual ao Rio de Janeiro na rua.
Tem que dobrar a vigilância.
Se vai criança, tem que dobrar a vigilância, e naquele dia é só para criança.
O que não é possível é largar as crianças escalando esculturas em um museu, porque há um regime de...
Claro, esse cara é um careta! Ele não quer... É a criança na arte participativa.
Participativa uma ova!
Tem obras que são feitas para serem participativas, para terem a participação do espectador, e tem obras que são feitas, desculpe-me a palavra, estão ainda no regime da contemplação, são feitas para serem contempladas, e obras que são feitas para serem contempladas não podem ter a participação do espectador, sob risco de sua destruição.
Então há uma alteração muito radical no regime de visibilidade, e essa entrada da arte na indústria do entretenimento é generalizada nos países desenvolvidos; aqui ainda está engatinhando, está no começo da vida, mas será inevitável essa entrada.
Será inevitável essa entrada porque é o destino.
Nós temos que nos perguntar, nesse mundo de hoje, é se a arte resistirá como uma forma de conhecimento.
Ou seja, existe um conhecimento religioso que é aquele a que se entrega pela adesão cega aos dogmas de uma determinada fé.
Se eu vou aderir aos dogmas de uma fé, eu vou ser revelado por esses dogmas e tenho um conhecimento religioso, graças à adesão cega aos dogmas da fé.
Eu acredito piamente na virgindade de Maria, na ressurreição no terceiro dia, eu acredito piamente nesses dogmas e sou revelado pela minha adesão e adquiro esse conhecimento pela revelação.
Existe o conhecimento científico que é o conhecimento...
Primeiro: só existe porque progride, se não progredir, não existe.
Segundo: esse conhecimento constrói sobre o real um objeto que corresponde às leis que representam esse objeto construído pelo conhecimento, corresponde às leis que obedecem ao funcionamento desse real observado, seja uma célula, seja um corpo caindo, seja a luz viajando no espaço, o conhecimento científico se apropria do real, toma posse dele e o descreve tal como ele é, e pode até se antecipar.
Ou seja, é próprio do conhecimento científico formular hipóteses que só serão comprovadas muitos anos ou muito tempo posteriormente, como recentemente nós assistimos ao bóson de Higgs, que foi comprovado com ele (Higgs) em vida. Ainda bem!
O bóson de Higgs é descoberto depois de ter sido formulado pelo Higgs décadas antes, então se comprova a existência.
No terceiro conhecimento, é o conhecimento artístico, ele só se dá a posteriori.
Não há a hipótese de eu imaginar a “Nona” de Beethoven sem nunca ter escutado. É impossível imaginar uma tela do Pollock sem nunca tê-la visto.
Ou seja, o conhecimento artístico só se dá a posteriori.
Segundo: se o conhecimento científico precisa de uma radical separação entre o sujeito e o objeto, para que o sujeito não interfira no objeto do conhecimento, no caso do conhecimento artístico, ocorre um momento que é o contrário, um momento que é o contrário.
Há um momento, um momento, não no processo inteiro, mas há um momento de suspensão da separação entre o sujeito e objeto, onde eu não sou o Beethoven, nem o Beethoven sou eu, eu sou a música que eu estou escutando, e aquela música me escuta, e eu esqueço até, mesmo que eu tenha o domínio da partitura, eu me esqueço até da partitura nesse momento, para a plena fruição do objeto.
A mesma coisa é quando eu estou olhando um Pollock.
Há um momento em que não existe o Pollock nem eu.
Existe o momento em que está suspensa a separação entre mim e esse objeto.
Só aqueles chatos de galocha que veem o cinema como se estivessem olhando em uma moviola e vendo cada plano.
Há o momento em que eu estou lá no filme e depois eu vou pensar, se eu sou um crítico de cinema, como foi feito, repito, revejo.
Há aqueles chatos que não conseguem ter fruição estética e leem um livro analisando o livro.
O teórico estruturalista era mestre nisso, não ter prazer nenhum com a leitura.
Ficava o tempo inteiro, no momento da primeira leitura, já analisando o parágrafo, a estrutura formal do parágrafo, olha o filme e já vê o filme como se estivesse vendo em uma moviola.
Aí não tem prazer!
Ou seja, esse momento na fruição estética para produção do conhecimento científico de suspensão da separação entre sujeito e objeto é absolutamente necessário, e mesmo em Brecht, que queria o distanciamento diante da obra de arte, eu duvido que nós, vendo
“Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny”, ou vendo qualquer uma das peças do Brecht, não haja um momento em que não estejamos plenamente envolvidos com aqueles personagens.
Distanciado uma ova!
Distanciado é depois, quando eu começo a pensar sobre o que eu vi.
Então, eu acho que essa forma de conhecimento, está em jogo sua sobrevivência dentro desses novos regimes de visibilidade, ou seja, a arte como forma de conhecimento específico, diferente de produção de conhecimento específico, diferente do científico e diferente do religioso, está em jogo no momento atual, em que a arte entra diretamente na indústria do entretenimento e assiste-se a esse tipo de fruição das obras de arte sob o peso de multidões o tempo inteiro, entre nós e a obra.
Eu não tenho condições de fruição da obra.
Isso faz parte desse mundo sem chão.
Muito obrigado.
