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Como falar sobre morte com as crianças | Reflexões sobre o Luto

E eu amparada por essas 3500 histórias, para poder falar para os meus filhos, que eram pequenos, que eles iam perder um primo tão jovem. Alguns de forma mais próxima, outros de forma mais distante, mas todos já tivemos que lidar com a morte em algum momento. É um tema pouco abordado entre os adultos também que dirá falar sobre isso com as crianças. As famílias educam seus filhos para muitas coisas na vida, mas será que falar sobre morte e luto está entre esses temas? Como falar sobre morte e luto com as crianças, será o tema abordado neste episódio de "Reflexões Sobre o Luto".

Fernanda, se apresenta para a gente. Como que que foi a sua história com o luto? Sou uma das colaboradoras do site "Vamos falar sobre o luto", que nasceu da minha experiência de perda do meu pai.

Somos sete colaboradoras, todas nós trabalhamos no conteúdo, mas eu, especificamente, toco um espaço que chama confessionário. É um espaço de escuta que nós abrimos para as pessoas contarem suas histórias. Eu tinha um medo inicial disso ser muito pesado no meu dia-a-dia, responder inúmeras mensagens, e no final acabou me amparando numa segunda situação de luto que eu vivi, que foi a do meu sobrinho.

Sandra, qual que é o entendimento que uma criança tem sobre a morte? Eu me permito aqui citar o pensamento de Maria

Júlia Kovács. Ela diz que o século 21 é um século onde as crianças estão vendo a morte na televisão de forma super violenta e, ao mesmo tempo, elas não são incluídas no processo de luto familiar.

Não é da nossa cultura trabalhar o conceito de morte, conversar sobre a morte do cachorrinho. São subterfúgios para que a criança não comece a lidar com a perda. se a criança começa, desde cedo, lidar com a finitude da vida, no momento de perda de um ente, ela já vai ter passado por outras perdas. Qual que é o linguajar ideal para se falar com uma criança a respeito da morte? Nós devemos falar numa linguagem clara, acessível, de forma que ela possa entender. Então não adianta só dar o nome de uma doença e não explicar o que que é essa doença, como fosse explicar a causa da morte. Não usar metáforas ou eufemismos, dizer que é tá dormindo, que foi viajar. Principalmente a criança pequena, ela vai entender ao pé da letra e ela vai perguntar: e quando ele vai acordar? Ela não entende a irreversibilidade da morte, ou seja, que a pessoa que morre não volta à vida. Ela não entende a não-funcionalidade da morte, ou seja, que o corpo para de funcionar. E não entende a universalidade da morte também, ou seja, de que todos vamos morrer um dia inclusive, ela mesma.

Valéria, infelizmente não pudemos estar juntas, então por isso que a gente vai conduzir essa entrevista por meio virtual. Existe uma educação para a morte,

Valéria? Existe sim. Quando a gente apresenta histórias, filmes que tratam desse tema, e quando todos os adultos que cuidam da criança se permitem a conversar sobre esse tema quando ele surgir, a partir da própria curiosidade da criança, ou quando acontece um evento externo, seja nas mídias, seja na família de uma criança. A criança é um ótimo balizador do que a gente pode falar, porque ela normalmente pergunta o que ela quer saber, então a gente utiliza as palavras que ela utiliza e tenta explicar a partir da visão que ela tem ali no momento. E uma coisa muito importante: não tem problema não saber as respostas. Não tem problema dizer para ela: não sei responder isso aí que você tá me dizendo, eu vou me informar.

E como que vocês, enquanto família, vivenciaram em conversaram sobre a morte do seu sobrinho? O meu sobrinho ele morreu de câncer.

Eu aprendi que as pessoas têm muito potencial de amor para dar. E aí, inspirada nisso, eu criei um jantar que a gente chama de jantar dos primos. Todas as crianças participavam dessa corrente de oração, a gente brincava muito. Então isso já foi um luto antecipatório que nós vivemos ali com a criançada, muito importante.

E falando do contexto vivencial, a criança veio para mim tímida, sorridente, aquele sorriso amarelado, aquele sorrisinho assim. E aí ela começa a elaborar o luto. E como que acontece isso? Ela faz um desenho. Ela desenha ela mesma e ela desenha o irmãozinho. Isso é um processo de elaborar, de entender que

"é minha família, essa pessoa não está mais aqui comigo". Ele deu o nome para pessoa, porque talvez é entender que para a criança é difícil falar: "minha mãe morreu".

E essa criança traz a seguinte informação:

"toda vez que eu vou para o banho, tenho a impressão que ela tá atrás da porta." O que que você vai falar para criança? Ai, não pensa isso, não pode. Então você pergunta, por exemplo: como você se sentiu? No caso dessa criança ele falou: "ah, eu me senti bem". Então se você se sentiu bem com a sensação de que a pessoa estava ali, se isso te tranquilizou, ok, não tem problema nenhum. É o processo de elaboração dela. E essa criança falou que ela lembra assim: ah, eu me recordo que a última vez que eu vi a minha mãe, então depois de um certo tempo ela consegue falar mãe. "Eu estava indo para escola e ela me deu tchau que ela tava indo para o médico" É difícil, é doloroso, mas é importante para criança conseguir falar, colocar para fora tudo isso, porque isso vai deixar ela mais tranquila, mais leve.

Já existia comigo e o meu marido, um momento de: quando a gente vai falar que não tem mais jeito? E eu lembro que chamamos nossos três filhos e o meu pequeno falou: "mãe, eu preciso te fazer uma pergunta - o Felipe vai morrer?" aí eu e o meu marido olhamos um para o outro e falamos: "a gente não quer que o

Felipe se vá, a gente não vai deixar de acreditar que ele pode se curar, mas está cada dia mais difícil para ele encontrar uma saída. Qual que é idade do seu filho nesse momento? O meu filho tinha 5 anos, e aí ele até brincou, porque o meu sobrinho ficou doente 12 anos, mas ele era muito namorador. E aí o meu pequeno falou:

"mas mãe, ele é muito novo para morrer, ele tem muita namorada ainda para ter na vida."

Viveu intensamente - Isso é uma outra coisa que acontece quando você fala sobre o luto de uma forma tão transparente, abre um espaço para questão da brincadeira da leveza aparecer.

Naturalizar a morte, em qual sentido você entende que é positivo para a sociedade? Então, a existência, ela é permeada pela morte. Se você for comparar com o exemplo de sorrir, chorar, isso acontece com pessoas todos os dias.

E morrer? Morrem pessoas todos os dias.

Naturalizar nesse sentido: faz parte da nossa existência. Porque quando a família oferece a verdade para criança, conta o que aconteceu, o que ela está dizendo é que por mais terrível que isso seja, é possível sobreviver a isso. Eles pais podem sobreviver e a criança também é capaz de dar conta. Quando os pais omitem a verdade, o que a criança entende é que aquilo é tão terrível que não pode nem ser nomeado, nem falado.

Os pais, eles precisam se mostrar fortes, mas fortes não significa não sentir, pelo contrário. Poder falar dos seus sentimentos é dizer para essa criança de que tudo bem se sentir dessa forma. Tudo bem eu estar muito triste com a perda do seu irmão, tudo bem também você ficar triste. Então, isso também dá segurança para criança, porque ela entende que o que ela está sentindo é normal. A morte de um ente não é só que este ente sai da família, não é só isso.

A família, ela é outro sistema, ela muda completamente. Da mesma forma quando nasce alguém dentro da família, a família também muda né? Exatamente, só que a vida, ela é uma explosão, ela é celebrada, comemorada. E a gente não tem a cultura do legado de celebrar os momentos bons que você passou com aquela pessoa. É fazer um álbum:

"ah, vamos fazer um albinho do primo? Lembra o dia que a gente estava lá naquele parque, ou lembra da festa Junina da

Escola?" Uma coisa assim, simples, para que a criança também tenha uma boa memória.

Teve um segundo ritual que eu achei que foi o encerramento mais bonito que ele pediu para ser cremado. E ele falou:

"eu quero que joguem as minhas cinzas na represa" E aí, de novo, toda aquela movimentação dos jovens foi muito importante, porque a hora que todo mundo jogou as flores e acabou eles naturalmente pularam na água. Então, foi um ritual das cinzas, das flores, dos amigos. E aí todo mundo, a família inteira, todos os amigos, eram 40 pessoas na água. Então assim, esses rituais e as crianças participarem dos rituais é um processo muito positivo para eles. Eu gosto de dizer: "quanto mais você coleciona momentos de amor, a hora que o desespero da dor, você tem aquilo como um remédio. Nossa lembra daquele dia?"

Quando eu falo da conscientização da criança sobre a morte, eu não estou querendo desvendar o mistério da morte com a criança. Eu estou querendo que a criança entenda que acontece. E enquanto não acontece, o que que eu para viver?

O que eu quero dessa vida? O que eu quero para mim? A sociedade, como um todo, poder falar do assunto contribui muito para educação para a morte. Por que geralmente é um tema que todo mundo tenta deixar debaixo do tapete. E quanto mais a gente puder falar de uma forma natural, nós vamos ter mais recursos para lidar com isso no futuro.

Eu acho que existe ainda muito não falar sobre isso. Eu acho que essa pandemia veio para dar um alerta.

Sairemos daqui com um pouco menos tabu. Quanto mais se fala naturalmente sobre a morte, melhor é o seu processo de luto, porque ele não vira um monstro.

Quando você não abre a janela para ver o que que tem ali dentro do quarto, ele fica escuro e com muito medo. E eu vou dizer: a gente nunca está preparado. Mas, quanto mais você fala, mais natural é o processo e os caquinhos, mais fácil de você depois juntar os caquinhos.

O luto ele não acontece numa ordem cronológica de fatos. Ele é como uma montanha-russa, às vezes a gente está naquele carrinho tranquilo e de repente a gente entra num looping escuro e que a gente não faz ideia do que vai acontecer