Como reiniciar a sua mente e praticar bons hábitos | Kau Mascarenhas | TEDxRioVermelho
Tradutor: Gabriella Valente Revisor: Claudia Sander
Eu estava pensando a respeito de como trazer pra vocês uma palavra que representasse tudo aquilo que todos os seres humanos na face da Terra fazem a todo instante, mesmo que nem se deem conta de que estão fazendo.
E como no TEDx tudo é muito curtinho, a gente tem que falar muito em poucas palavras, eu procurei uma única palavra que pudesse me dar essa situação.
E a palavra que me veio foi "mudança".
Nós todos mudamos o tempo todo, a cada segundo, sem que estejamos nos dando conta disso.
A cada coisa que eu falo e que chega aos seus ouvidos, uma grande ducha de hormônios, de neurotransmissores, começa a ser levada para a sua corrente sanguínea.
Coisas que nós vemos, coisas que nós pensamos já começam a mudar a nossa própria biologia.
E mudança faz parte de todos os momentos da nossa vida.
Estar neste lugar já é uma possibilidade de mudar, de alterar significativamente tudo aquilo que nós vivemos.
Se você agora, por exemplo, tocar a pessoa que está aí ao seu lado...
Que tal fazer isso por um instante?
Um lugar, por favor, respeitoso, tá?
(Risos)
Você, além de estar mudando a vida desta pessoa, está mudando a sua própria.
Lógico que alguns casamentos podem surgir de uma dinâmica assim, mas não é bem isso que estou falando.
Estou falando de mudanças sutis, sensíveis, que podem acontecer conosco num nível bioquímico.
Amigos, tudo muda o tempo todo.
Existia um filósofo na Grécia em 500 a.C., chamado Heráclito.
E ele nos dizia o seguinte:
"Nenhum homem mergulha o pé no mesmo rio duas vezes".
Primeiro, porque na segunda vez, o rio não é mais o mesmo, as águas já mudaram.
Segundo, por quê? Este homem não é mais o mesmo.
O dono do pé já mudou, já se transformou. Mudança, mudança, mudança, mudança.
Nós estamos mudando o tempo todo, a vida toda.
E existem pessoas que parecem que foram construídas pelo universo para influenciar nossas vidas, para mudar quem nós somos, para mudar as nossas mentes o tempo todo.
Eu digo que são:
Pessoas Ávidas por Influenciar Significativamente.
Nossos pais. É bem provável que você já tenha se pegado, por exemplo, fazendo, pensando ou dizendo coisas que o seu pai dizia, que a sua mãe dizia.
E, de repente, você se dá conta de o quanto está reproduzindo coisas que eles te disseram.
E, dessa forma, você ganhou algum tipo de contribuição paterna ou materna.
Mas é possível também que aquelas pessoas que já foram para sessões de terapia se vejam nelas falando mal de papai e mamãe.
Estou falando bobagem?
Alguém já foi pra terapia e falou mal de papai e mamãe aqui? É muito comum.
Pessoas Ávidas por Influenciar Significativamente as nossas vidas.
Nossos pais.
Eu me lembro de uma situação, quando eu tinha mais ou menos uns 11 anos de idade.
Eu vivia com meu irmão, pendurando-me nos galhos de uma goiabeira que nós tínhamos no quintal de casa.
Essa goiabeira era o nosso playground, nós ficávamos que nem macacos, arrancávamos as goiabas, vivíamos felizes com aquela goiabeira.
E aí, um dia meu pai chegou de forma meio solene pra mim e disse: "Meu filho, a goiabeira vai ser arrancada.
Não tem como mudar essa decisão, porque essa goiabeira tem as suas raízes interferindo na tubulação de esgoto da casa, vai trazer problemas".
Eu fiquei muito triste, meu irmão também, e íamos perder o nosso playground.
E aí, um dia antes da derrubada da árvore, eu fui até ela e me despedi dela.
Solenemente, me despedi da árvore.
E, de repente, eu vi num de seus galhos uma última goiaba. Era perfeita.
Eu arranquei e fiquei olhando pra ela, linda, cheirosa, apetitosa.
E antes de dar uma mordida bem certeira, eu pensei:
"E se a árvore tiver envenenado esta goiaba?"
"Ela sabia que ia ser derrubada e, como vingança, resolveu envenenar esta última goiaba."
E fiquei com aquela vontade de morder a goiaba, e afastava-a de mim com medo de a goiaba estar envenenada.
Coisa de criança e adolescente que adorava histórias de terror gibis de realismo fantástico, ficção, fantasia.
Aí eu precisei procurar o meu pai.
E eu disse: "Pai, estou com medo de comer a goiaba. porque ela pode estar envenenada".
E o meu pai disse: "Kauzinho, meu filho, meu pequeno, meu filhote, é muito mais provável que, sabendo que iria ser arrancada, a goiabeira colocou nesta goiaba não veneno, mas o melhor de si.
Ela queria ser lembrada por nós como uma boa árvore por dar bons frutos.
Ela queria ser perpetuada através das suas sementes, e colocou nela o melhor que tinha para oferecer".
Imediatamente, ao ouvir aquilo, a minha mente se reiniciou.
E aquelas palavras do meu pai me fizeram perder totalmente o medo.
E nós dividimos a goiaba.
Nós temos "pês" programadores, gente.
Não apenas os nossos pais, mas... padres, pastores, políticos, propaganda, professores, parceiros nossos, amigos, nossos pares amorosos, cônjuges podem programar as nossas mentes.
Vocês já devem ter percebido o quanto algumas pessoas que são importantes, decisivas para suas vidas falam coisas e vocês absorvem, como se aquilo fosse uma verdade.
Até mesmo palestrantes podem programar as suas mentes.
Aliás, vocês vieram aqui pra isso.
Acredito que vocês vieram ter duchas de programações positivas.
Mas não se enganem: há programações positivas dos "pês" programadores, e há programações negativas.
A vida é uma chuva de programações na qual estamos o tempo todo nos molhando.
E é muito importante percebermos quando podemos reprogramar a nossa mente para justamente limpar aquelas programações que não são boas e captar aquelas que são poderosas.
Existe, por exemplo, um pensador, e este pensador é muito importante pra mim; ele é William James, considerado o pai da psicologia moderna.
Ele dizia o seguinte:
"A maior descoberta da minha geração é que pessoas podem mudar suas vidas, mudando suas mentes".
Assim, eu trouxe este bonsai.
Quero mostrar pra vocês um bonsai de goiabeira. É um bonsai de goiabeira, mas antes de ser uma goiabeira, ele é um bonsai.
E a palavra bonsai significa "árvore em bandeja".
Pessoas cortam as suas raízes periodicamente, seus galhos, suas folhas, colocam adubo e terra de forma reduzida, para que esta goiabeira permaneça minúscula, pequena.
E é muito interessante notar que, apesar de ser uma arte muito delicada, bonita, que vem lá do oriente, é também uma metáfora que traz uma ideia triste, se formos trazer para a nossa realidade enquanto seres humanos.
Esta é uma árvore à qual não foi permitido o crescimento.
E existem mentes bonsai.
Mentes às quais não foi permitido o crescimento, porque elas estão sendo podadas com informações que apequenam, que tornam a sua vida menor.
Crenças limitantes.
Eu vou pedir para que vocês completem comigo.
Dinheiro não traz...
Plateia: Felicidade.
Kau Mascarenhas: Vocês acreditam nisso?
Mas quem acredita nisso pode ter uma vida muito apequenada em relação a sucesso profissional e financeiro.
Imaginem uma mãe que disse pra sua filha muitas vezes:
"Minha filha, cuidado, porque homem..."
Plateia: Não presta.
KM: Vocês já ouviram isso também? Já disseram isso? "Homem não presta"?
Enfim, alguém que acredite nisso colocou na sua mente algo que está podando as suas possibilidades de ter realidades interessantes na vida afetiva.
Enfim, as crenças não são verdades, mas elas se disfarçam muito bem de verdades.
E nós vamos recebendo a linguagem, seja ela nesses ditos populares, seja ela na nossa própria criação, linguagem que vai nos apequenando, linguagem que vai nos fazendo tornar a nossa vida menor.
Uma coisa importante, e que eu quero passar pra vocês, já que aqui não estamos falando apenas de coisas negativas.
Eu quero trazer pra vocês uma ótima notícia: também temos um "pê" programador absolutamente fantástico.
Este "pê" programador chama-se "programação pessoal".
Uma outra do meu "pê" programador predileto, meu pai.
Meu pai estava se barbeando no banheiro, eu tinha uns seis anos de idade e olhava pra ele de baixo pra cima, logicamente.
E, enquanto meu pai estava lá se barbeando, eu vi também na parede um mosquito, um pernilongo.
E aí, matei o danadinho e ele ficou na parede do banheiro agarrado e morto.
E aí, eu disse ao meu pai:
"Pai, por que o mosquito ficou assim quando eu o matei?"
E o mosquito lá.
E aí o meu pai disse:
"Kauzinho, meu filho, meu pequeno, meu filhote, é muito simples: o pai dele disse que, quando ele morresse, ele deveria ficar assim, e ele obedeceu".
(Risos)
Não sei se vocês notam, mas naquele momento meu pai estava me dando uma crença, uma programação.
De quê?
De que devemos obedecer aos nossos pais até a morte.
E foi uma crença que abracei na minha vida, e que pautou a minha existência; eu fui um menino muito obediente, um adolescente que não deu trabalho, e aos 16 anos fiz meu primeiro vestibular para engenharia química, que não tem nada a ver comigo, por influência paterna.
Mas depois, as minha possibilidades se agigantaram, quando eu próprio comecei a reprogramar a minha mente, a reiniciar a minha mente.
Recebi dele muitas informações positivas, mas também recebi algumas que não combinavam com meu jeito de ser.
E é isso que nós podemos fazer quando entramos num processo de autoconhecimento: observar quais são as crenças que funcionam, quais as que não dão certo na nossa vida, e usar o nosso poder de autoprogramação para dar um reinício à nossa vida, a partir da mudança daquilo que temos dentro da mente.
Amigos, um pensador francês, Jean-Paul Sartre, que gosto muito de ler, dizia: "O mais importante não é o que fazem conosco, mas o que nós fazemos com aquilo que fazem conosco".
Eu, neste momento, estou muito feliz e honrado em participar do TEDx.
Este é um instante de dar a minha gratidão ao meu pai, senhor Carlos Mascarenhas, porque o que ele fez, me ajudando a ser o ser humano que eu sou, dando umas mancadas aqui, mas acertando em muitos momentos; ele me ajudou a pegar o bonsai da minha mente nas minhas mãos e a colocá-lo de volta na terra.
E acho que cada um de nós pode fazer isso.
Cada um de nós tem o poder de agigantar a árvore que se encontra dentro de si e não ser apenas um ser condenado a ter tamanho diminuto.
Se nós cavarmos um lugar para o bonsai ficar enterrado, ele poderá ter toda a possibilidade de crescimento.
Eu poderia dizer ao meu pai, por exemplo, que o Kauzinho dele, seu filhote, seu pequeno, está bem plantado na terra, porque ele contribuiu decisivamente pra isso.
E acho que cada um de nós, além de termos "pês" programadores, somos também "pês" programadores, e as nossas falas, as nossas comunicações, o nosso sorriso, a nossa postura podem mudar o mundo.
Eu gostaria de dizer que as pessoas que ajudam a colocar mais bonsais na terra serão eternamente lembradas.
Conexão é isso.
Ajude seres humanos a colocar os bonsais mentais que têm, no chão, e a se transformarem em seres gigantescos.
Eu acredito que essa é a nossa proposta.
Num TEDx, o que queremos é ajudar seres humanos a não serem mais bonsais e a se tornarem grandiosos e conectados com seres também grandiosos, pra que este mundo seja um mundo grandioso.
Muito obrigado.
(Aplausos)
