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Diabetes, mitos e verdades - Entrevista com Ticiane Bovi

Estamos de volta, segunda entrevista da Ticiane Bovi, uma nutricionista sensacional que eu descobri o ano passado, cheguei a convidar hoje pra bater um papo sobre o tema que ela mais estuda, que é diabetes.

(Música)

Dentro da primeira entrevista, a gente comentou sobre o quadro, a descrição da doença, e agora vamos focar mais na parte que eu acho super importante falar, é desse terrorismo nutricional que a gente vê ao redor dessa doença, dos mitos que estão sendo divulgados, não só por profissionais de saúde, mas também vizinho, amigo, revistas... É o maior cultivo de fake news qua a gente pode imaginar existe dentro do diabetes.

E principalmente em relação à alimentação no diabetes.

Exatamente.

Porque às vezes as pessoas atribuem um determinado alimento para o melhor controle glicêmico e não...

Mas tem muitos mitos que acabam se perpetuando e as coisas pioraram depois do advento das redes sociais.

Isso.

Porque aí se espalhou de uma maneira inadvertida.

Então a primeira coisa: ter diabetes não é o fim do mundo.

Tá? É uma doença.

Quando é diabetes tipo 1, por enquanto não é reversível, mas tem alguns estudos incríveis.

- A gente espera que... - A gente vai ficar de olho.

"O diabetes não limita", frase da Maria de Lurdes, que eu citei. Você também falou que não é uma sentença...

Não é uma sentença...

- Não é sentença de morte... - Não, não é sentença de morte!

Dá pra ter uma vida saudável, feliz, equilibrada...

- Sim, é possível... - Mas tem que aprender a manejar...

Acho que o manejo é o principal.

Você ser bem orientado com relação à alimentação, saber que você pode comer todos os grupos alimentares, não há uma necessidade de uma restrição de um determinado grupo alimentar ou privilégio de outro grupo alimentar para o melhor controle glicêmico.

Quer dizer, você pode comer de tudo.

Agora, quais são os mitos?

O mais clássico é:

"Ah, você tem diabates, não pode mais doces".

- Concorda? - Não.

Paciente com diabetes pode sim comer doces, dentro de um plano alimentar, como qualquer outra pessoa, ele pode fazer uso de comer um doce, comer um bolo que ele queira, e não necessariamente ele precisa ser diet.

Acho que uma das coisas que os paciente mais perguntam é:

"Eu preciso realmente comer um produto diet?"

Não, nem light.

Quando a gente compara, o que é importante quando a gente vai escolher um produto industralizado?

A gente observar a quantidade de carboidrato presente na porção daquele determinado alimento.

Então se a versão diet tiver a mesma quantidade de carboidrato do que a versão convencional, o paciente pode e até deve optar pela opção convencional.

O acúcar, inclusive de adição, ele pode fazer parte do plano alimentar também de um paciente com diabetes, por isso a contagem de carboidrato.

Porque aí o paciente pode fazer o uso da contagem para ele conseguir controlar a glicemia e ter uma alimentação flexível, inrotuduzir os alimentos como doce, como açúcar de adição, mel, melado, o que ele queira.

Exatamente. Eu acho muito importante quebrar esse mito contra o açúcar.

Açúcar em moderação não é veneno, tá?

E adoçante? Qual sua atitude frente ao adoçante?

Frente o que a comunidade científica tem mostrado pra gente, eu particularmente não incentivo o consumo de adoçantes.

Eu também não. Estamos alinhadas.

Por diversos motivos.

A gente ainda tem muito a se estudar porque tem adoçantes que a gente sabe que são metabolizados, outros que não são, então a longo prazo, a gente não sabe o que o uso crônico dessa substância pode provocar no nosso organismo.

Agora, se eu contro carboidrato, por que não eu fazer um uso consciente do açúcar e não fazer uso do adoçante, por exemplo?

- Exatemente. - Então não há por quê.

E também ter uma atitude mais consciente e até reeducar o paladar, que é uma coisas totalmente ao alcance de cada um...

Sim, até para as pessoas poderem sentir o gosto da comida realmente, o gosto da fruta, o gosto do suco, o gosto de cada determinado alimento.

Porque o adoçante acaba mascarando muito o paladar.

Principalmente para criança, acho que isso é muito importante, a gente está formando o hábito alimentar.

Então os adoçantes, eles têm um poder dulçor muito grande, e essas crianças acabam tendo mesmo uma modificação do paladar, e quando ela vai comer uma fruta vai achar extremamente sem graça, quando comparado a alguma coisa que tem adoçante, por exemplo.

Outro mito que a gente vê muito, sobre farinhas.

Tem que ser farinhas integrais?

As farinhas brancas são veneno ou não?

Não, na verdade o que a gente tem é assim: o paciente pode fazer uso das farinhas que são refinadas, não há problema desde que ele mantenha isso dentro de um plano alimentar adequado, orientado...

As farinhas integrais, a gente tem o benefício das fibras, que ajudam no controle glicêmico, mas se um paciente quiser comer um macarrão que não seja integral, ou um arroz integral, isso é possível porque ele faz a contagem de carboidrato, e isso é viável.

E veja bem: arroz e feijão, a gente tem as fibras do feijão...

Sim! Acho que isso é importante da gente falar, porque muito se tem da questão do índice glicêmico dos alimentos, mas quando a gente tem uma refeição mista, um alimento vai interferir no índice glicêmico do outro alimento.

Então como a Sophie falou: se eu for comer arroz com feijão, é diferente de eu comer só arroz.

Se eu for comer um pão com queijo é diferente de eu comer só o pão.

Exatamente. Então não necessita, obrigatoriamente, ser arroz integral?

Não, não precisa.

Perfeito. Talvez você tenha alguns mitos aí...

- As frutas. - Frutas?

Que eu acho que é importante. Às vezes os pacientes, eles têm medo de comer a fruta porque eles acham que têm uma grande quantidade de açúcar, que geralmente os pacientes chamam de açúcar, mas de glicose.

Mas as frutas são ricas em vitaminas e minerais, têm fibras que vão ajudar no controle glicêmico, e são alimentos que vão ajudar na saúde do indivíduo como um todo.

E não necessariamente vão influenciar tanto no controle glicêmico.

Existe essa questão do índice glicêmico das frutas, mas a gente precisa entender em que momento que essa fruta vai entrar, existem frutas que têm uma quantidade menor de carboidrato, que a gente pode associar a uma refeição mista, por exemplo, como almoço e jantar.

Deixar uma fruta que tenha mais carboidrato para o lanche...

Por exemplo, um atleta que tenha diabetes, não haveria problema dele comer uma porção de fruta, ou uma outra pessoa que não faça exercício físico comer uma porção de frutas como lanche, ou como qualquer outra coisa durante a alimentação dela.

Então as frutas podem e devem fazer parte da alimentação de quem tem diabetes.

E não tem nenhuma fruta proibida, a não ser que ele tenha alguma outra doença associada.

Exatamente. Isso que eu queria te perguntar.

Porque a gente escuta que tem frutas do mal, frutas do bem...

Não existe.

Melancia não pode, manga não pode, banana não pode...

- Não, não é isso... - Não é isso! É só não haver um consumo exagerado daquela determinada fruta naquele momento.

Então não existe nenhuma fruta que seja proibida.

E legumas que tenham um gosto doce?

Isso é muito característico. Às vezes os pacientes falam:

"Ai, Ticiane, mas eu vou poder comer beterraba?",

"eu vou poder comer cenoura? Porque é doce!".

Não tem problema. Pode consumir, sem problema nenhum, porque, além de ter o carboidrato, óbvio que tem, mas é uma quantidade pequena, também tem bastante fibra, que vai ajudar no controle glicêmico desse paciente.

Então não precisa tirar isso da alimentação dele.

Também não precisa tirar batata, mandioca, inhame, farofa, farinha, que é uma coisa muito de brasileiro também... É, tão importante...

O milho, que também é uma coisa que as pessoas têm um pouco de medo de consumir.

Então eles pode, sim, consumir, desde que sejam bem orientados.

Nós, como nutricionistas, o nosso dever é facilitar a vida dos pacientes.

Exatamente, facilitar a saúde.

Porque o que acontece quando a gente escuta, de repente:

"Ah, você tem diabetes, você vai morrer, e também você não pode mais comer pão nem doce".

O que acontece na vida?

Nossa, as pessoas ficam extremamente tristes.

- Acaba com a vida. - Acaba com tudo.

E também, isso pode ocasionar dificuldade dentro do comportamento alimentar, que também você estuda bastante, e ver que nós vemos uma taxa muito elevada de transtorno alimentar dentro dessa doença, então talvez você possa comentar um pouco sobre isso.

Quando a gente pensa no diabetes, como a gente já comentou antes, o diagnóstico já vem com restrições.

Então o paciente com diabetes, ele já tem uma preocupação muito grande com alimentação, porque ela que vai interferir no controle glicêmico.

Aí chega um ponto em que essa preocupação é tão grande que ele acaba restringindo demais, ou tendo uma preocupação tão grande que acaba às vezes tendo uma relação muito conturbada.

Quais são os comportamentos transtornados que você vê mais?

O que a gente observa mais no paciente com diabetes, muitas vezes, é que quando a gente tem uma restrição muito grande, muitas vezes quando esse paciente é exposto a um determinado alimento, ele come um volume muito maior do que ele comeria.

Então isso acontece com as frutas, isso é muito comum, às vezes o paciente pensa assim:

"Já que eu vou comer um pouquinho, vou comer um montão...", isso acontece muito com fruta porque é um das coisas que os pacientes mais ouvem que eles não podem. É... e também que é menos pior do que o doce...

Então já que eu quero um doce, eu vou comer uma fruta...

Aí ao invés dele ir lá e comer um pedaço de chocolate, ele come três bananas, por exemplo.

Aí o descontrole glicêmico vai ser evidente e não teria acontecido se ele tivesse comido um pedaço de chocolate, por exemplo.

- Tranquilamente... - Sim!

A gente não está aqui dizendo: "Ah, pode liberar tudo!".

Você precisa de um atendimento acompanhado...

Especializado, eu acho que é importante...

E multidisciplinar.

Multidisciplinar. Ninguém faz nada sozinho!

Endócrino, nutricionista e psicólogo, tá?

E também, se tiver uma atividade física...

Ajuda muito no controle glicêmico, muito.

E também com cuidado de um profissinal se precisar, hein...

Mas é interessante ver que tem sim essa abordagem, que é uma abordagem mais atualizada, que ajuda o paciente a ter um conforto de alimentação normal,

Apesar de ser planejada.

Então, sim, vai ter que ter um planejamento, mas... É, na verdade quando a gente pensa no diabetes, a gente fala que o diabetes é uma doença de rotina.

Isso vai ajudar tanto o paciente a atingir o controle glicêmico adequado, quanto para os profissinais de saúde poderem ajudá-lo.

Então fica mais fácil o manejo.

Então ele tem que ter uma rotina de aplicação de insulina, de alimentação saudável, de prática de exercício físico, então com essa rotina, que também cabe a todos nós que não temos diabetes, para ele ter um bom controle glicêmico.

E ganhar autonomia.

Isso, sim!

Eu acho que essa é uma palavra muito importante.

Ele ganhar autonomia e a família também ganhar autonomia.

Para que não haja uma vigilância em cima daquele paciente, e um julgamento daquilo que ele vai comer.

Porque é muito comum, às vezes, o terrorismo vir...

Ele vem da mídia, às vezes ele vem até de profissionais da saúde, mas a família convive com ele todos os dias, e muitas vezes o julgamento vem do núcleo familiar, que é aquele que deveria acolher o paciente com diabetes.

Já escutei de uma nutricionista, uma família que não sabia lidar com o diabetes de uma criança, e chegou até a proibir a criança de viajar com eles.

- Isso é muito comum... - Por causa do diabetes!

Então a coitada da criança não só tem uma doença, mas também ficou prejudicado, excluído de uma viagem, porque os pais tinham medo de não saber como lidar com a doença.

Isso acontece em passeio de escola, acontece em viagens de escola, festas de aniversário onde às vezes o paciente é excluído, porque ele não pode comer aquilo que está na mesa, mas isso não é verdade.

Isso é importante a gente dizer.

E para as crianças, para os pais poderem ver que essa criança pode ter uma vida normal, e eles ficarem tranquilos também.

Porque isso gera um estresse dentro da família, que só dificulta o tratamento em si.

Porque a adesão para o tratamento vai depender de um ambiente que favoreça essa adesão.

Se eu tenho um comportamento julgador, ou uma família não muito acolhedora, ou que não tenha entendido, ou que não tenha aceitado o diagnóstico, fica muito mais difícil.

Graças a Deus eu tenho médicos com quem eu trabalho que são muito receptivos para com o pessoal da nutrição, que nós formamos um time.

A partir do momento em que a gente tem o time da família e o time dos profissionais, a gente consegue levar um diagnóstico bem mais fácil, a vida fica mais leve.

Exatamente. E ninguém é o general do paciente.

O paciente que tem a liberdade...

Ele tem que tomas as rédeas do tratamento dele.

Isso!

Tanto para adolescente quanto para adulto, a criança a gente tem a questão dos pais, mas é importante para que ele se sinta livre.

Acho que é a principal palavra.

- Mudar tudo... - Sim.

Nossa, muito interesante.

E o glúten? É uma outra coisa que também é um mito.

Eu sei... é por isso que eu estou cutucando, porque eu quero passar essas informações aproveitando a sua vinda...

A gente não tem nenhuma associação direta entre o diagnóstico de diabetes e o consumo de glúten.

O que a gente tem muitas vezes no diabetes tipo 1, são doenças associadas.

Eu tenho, por ser uma imunidade, às vezes eu tenho diagnóstico de doença celíaca, junto com o diagnóstico de diabetes, mas isso não significa que uma coisa é causa ou consequência da outra.

Isso, a doença celíaca é uma doença onde, sim, precisa tirar o glúten.

Agora, acontece em menos de 2% da população, então é muito raro.

Até nós termos pacientes com doença celíaca.

Temos alguns colegas que são especializados nisso, mas não é uma doença muito comum.

Agora na parte do diabetes, sim, pode vir com essa...

E às vezes o paciente acaba até perdendo de consumir alimentos que sejam ricos em fibras, que tenham uma quantidade de nutriente adequado, pensando em retirar o glúten da alimentação.

Então ele dificulta mais ainda a alimentação dele, mas não existe uma associação direta.

- Então não faça restrição! - Não, não precisa.

Não escuta o papo que você lê até nas revistas, vá buscar profissionais especializados, vou deixar todos os links do trabalho da Ticiane, temos, graças a Deus, uma grande quantidade de profissionais fantásticos no Brasil, é um país muito bem educado, atualizado, e infelizmente, não todos, mas temos sim cada vez mais essa visão de um diabetes mais tranquilo.

- Não tão perigoso. - Não precisa ser tão dolorido.

Não precisa ser tão sofrido. Às vezes eu recebo os pacientes no consultório, e a impressão que eu tenho é que eles carregam o mundo nas costas, parece que é uma mochila muito pesada.

E aí aos poucos a gente vai tirando aquelas pedras de dentro da mochila, e a carga vai ficando mais leve, e a vida mais divertida.

- Mostrando um caminho de confiança... - Sim!

Recuperar a confiança no corpo.

Exatamente, os sinais que o corpo mostra, acho que isso é muito importante.

Acho que esse atendimento mais humanizado também.

Mais humanizado, de autoconhecimento, eu acho muito, muito importante isso.

Então queria deixar você concluir, tem algum recado que você quer passar ao nosso público?

Pessoas que estão tendo diabetes, ou tendo um familiar com diabetes, ou escutando, ou até nutricionista, que está lá dizendo: "Nossa, eu preciso saber mais sobre".

Acho que assim, para os pacientes que são diagnosticados com diabetes, ou se você tem alguém na sua família que tem diabetes, é importante dizer que essas pessoas podem ter uma vida normal.

Procurem ajuda, não desistam de vocês.

Por que o tratamento exige alguma rotina, exige algumas coisas, mas não desistam de vocês, acreditem que vocês podem, isso é possível, ter uma vida normal tendo diabetes, independente do tempo em que você tenha de diagnóstico, e independente em que idade você foi diagnosticado com diabetes.

Então acreditem em vocês, vocês podem, e é possível sim ter uma vida normal.

Agora, para os profissionais que atendem pacientes com diabetes, qual é a minha mensagem: estudem.

Estudem e sejam humanos com esse paciente.

Nós não passamos pelas mesmas coisas que eles passam.

A gente convive com eles, mas é diferente.

Sejam empáticos com esses pacientes.

Mas, para ser empático, também é preciso ter conhecimento sobre a doença.

Se eu não tiver conhecimento sobre a doença, vai ser muito difícil de eu poder atender ele de uma maneira mais adequada.

Então conheçam, tenham o domínio sobre a doença, para que vocês possam fazer um atendimento adequado.

E se não tiver, encaminha para outro.

Encaminha, a gente não precisa fazer tudo, né, Sophie?s

Cada um tem uma especialidade.

Se você não sabe fazer diabetes, ou não quer, ou não gosta, então encaminha para quem gosta. encaminha para quem quer fazer diabetes, acho que essa troca de profissionais, quem ganha somos todos nós, o paciente e o próprio profissional.

Exatamente. Muito obrigada, eu adorei!

Eu que agradeço.

Gente, esse vídeo vai ser show.

Eu espero, espero que possa alcançar muitas pessoas.

- Mas sempre com atendimento... - Médico especializado e nutricionista.

Então cuidado com toda informação que você capta online, isso pode ser até interessante, mas aí vai buscar ajuda de um profissional, e tem muitos...

- Sim. - Profissionais de qualidade...

- Muito obrigada. - Eu que agradeço.

(Música)