eu tenho ansiedade
[sons urbanos]
Eu tenho ansiedade.
Eu sempre achei que eu só fosse uma pessoa tímida, que tinha algumas dificuldades sociais e ficava nervosa na hora de usar o telefone, ou de conversar com pessoas desconhecidas, ou que sofria muito pra falar em público.
E sempre foi assim.
Eu não era aquela pessoa que levantava a mão pra fazer pergunta na escola.
Antes de pedir uma comida no restaurante ou de dar um telefonema, eu sempre treinava várias vezes na minha cabeça ou em voz alta exatamente o que eu pretendia falar.
Eu nunca gostei muito de lugares cheios de gente, festa, festival, show, shopping...
Mas nada disso realmente prejudicava a minha vida.
Ou eu achava que não prejudicava.
Eu terminei a escola, eu fiz faculdade. Eu pegava ônibus todos os dias.
Tudo bem que eu não saía muito, mas eu saía.
E eu levava o que eu achava que era uma vida normal de uma pessoa introspectiva.
E que gosta muito de ficar em casa!
E tudo isso é verdade.
Eu sou essa pessoa que prefere ficar em casa com os meus gatos, vendo série.
Eu poderia passar todos os finais de semana lendo, cozinhando e jogando videogame.
Mas eu também fazia e gostava de fazer outras coisas naturais e necessárias à vida de um ser humano.
Tipo ir ao cinema, encontrar amigos, viajar e trabalhar.
Até ano passado.
Em outubro de 2018, eu postei um vídeo chamado "Eu tava mal".
E é verdade, eu tava mal em 2018.
Eu fiquei quatro meses afastada da internet.
Mas eu não fiz isso pra cuidar da minha saúde.
Eu fiz isso pra terminar a minha dissertação, e eu voltei com o canal em outubro.
Dois meses antes de terminar o mestrado.
E assim que eu defendi a minha dissertação, eu já tinha voltado a trabalhar com internet.
E tinha assinado um contrato pra escrever um livro.
Sim, eu vou publicar um livro!
Eu tô muito feliz com essa notícia, e eu amo o meu trabalho.
Mas a questão é que eu continuei mal depois daquele vídeo.
Porque eu nunca parei pra me cuidar.
Eu me esforcei pra que isso não afetasse minha produtividade.
Mas a verdade é que afetou todas as áreas da minha vida.
Inclusive o meu trabalho.
Se você acompanha o meu canal, talvez você pense que gostaria que eu postasse vídeos com mais frequência.
E sim, eu também gostaria!
Faz um tempo que eu não consigo escrever um roteiro.
Porque minha saúde mental não anda muito boa.
Então, eu decidi gravar um vídeo justamente sobre ansiedade e os processos pelos quais eu tô passando.
Desde que eu comecei a ser muito sincera com as pessoas e passei a falar sobre ansiedade, e sobre como isso afeta a minha vida, eu percebi que muita gente vai te compreender e te apoiar.
E principalmente, eu notei que outras pessoas passam por situações muito parecidas.
Se esse for o seu caso, eu espero que esse vídeo te ajude.
2018 não foi um ano fácil pro mundo, e certamente não foi um ano fácil pro Brasil.
Figuras autoritárias chegando ao poder, crimes ambientais, execução de Marielle Franco.
O crescimento do discurso de ódio e da violência contra grupos socialmente marginalizados.
E também não foi um ano fácil pra mim.
Em 2016, eu comecei o meu mestrado em literatura brasileira.
E era algo que eu desejava muito!
Porque eu tinha como plano de vida fazer mestrado, doutorado e provavelmente ser professora.
Mas no meio desse processo, eu não sei exatamente como, mas meu trabalho na internet cresceu.
E eu passei a fazer coisas que eu jamais imaginei que eu faria.
Eu comecei a viajar, a gravar com outras pessoas, a participar de eventos, a dar entrevistas...
E a falar em público com frequência.
Nada disso é fácil pra uma pessoa tímida, introspectiva e ansiosa.
Mas tava tudo sob controle, eu acho.
2017, por exemplo, foi um ano ótimo, em que muita coisa aconteceu.
Mas uma coisa que deveria ter acontecido e não aconteceu, foi a minha dissertação.
Eu investi meu tempo e minha energia no meu trabalho.
E quando chegou o momento de defender a minha dissertação, em fevereiro de 2018, ela não pronta.
Pra dar conta de todas as minhas demandas, eu passava o dia lendo, fazendo pesquisa, escrevendo roteiro, escrevendo dissertação, gravando vídeo, editando vídeo, postando vídeo...
E eu não levava uma rotina saudável! Às vezes eu dormia, tipo, às seis horas da manhã.
Eu parei de fazer coisas que eu gostava de fazer.
Eu parei de sair e de ver pessoas.
E quando eu saia, eu só pensava que eu precisava trabalhar e escrever.
Bom, em nenhum contexto isso é saudável.
E trabalhar com internet às vezes também não é.
Quando você é uma pessoa que tem certos problemas de autoestima, que tem muito medo de ser julgada e que, por tanto, prefere não ser o centro das atenções, trabalhar com internet é um grande desafio.
Tudo que você faz vai ser analisado e julgado.
E pessoas vão gostar de você, mas outras pessoas vão te odiar.
E isso é um fato.
Você começa a se questionar o tempo todo!
E se eu cometer um erro? E se alguém me interpretar errado?
E se meu conteúdo deixar de ser relevante?
E os algorítimos?
E o engajamento das minhas redes sociais?
E como manter produtividade e qualidade?
Meu trabalho na internet, o mestrado e o contexto político de 2018, agravaram meu stress, o que resultou num pico de ansiedade do qual eu não consegui mais sair.
Eu não me lembro direito quando tudo começou a ficar difícil.
Desde as coisas mais simples, como pegar ônibus, ou fazer compra no mercado.
Até as mais complexas, que eu precisei abandonar.
Eu parei de fazer aula de canto, porque eu precisava pegar ônibus pra chegar lá.
E uma vez eu tive que descer no meio do caminho.
Porque eu achei que eu ia passar mal.
E eu passei mal. Na verdade, eu passo mal.
Meu coração dispara, minha mão começa a suar.
Eu fico tonta, enjoada, e toda vez eu penso que eu vou vomitar, então...
Eu não me sentia confortável em lugares fechados, ou em lugares públicos.
Eu ainda não me sinto confortável.
Eu sempre procuro uma porta, uma saída de emergência, um banheiro, uma lixeira.
E aos poucos, eu fui deixando de fazer todas as coisas.
Ir ao shopping, ver um filme no cinema, encontrar pessoas.
Pegar dinheiro no banco, fazer compra no mercado.
Tomar açaí na praia, comer fora de casa.
Eu sempre sinto que eu vou passar mal se eu comer fora de casa.
Porque eu fico muito enjoada.
E daí, comer não é uma coisa muito simples de se fazer.
Enfim, eu não consegui mais trabalhar.
Eu fiquei meses sem entrar num avião. E meu trabalho exige que eu viaje.
Eu não tinha nem criatividade pra escrever um roteiro.
Ou forças pra me arrumar.
Montar luz, câmera, áudio, gravar, editar e postar vídeo.
E quando você vive tempos de constante ansiedade e para de fazer tudo que você fazia, você se sente anestesiada também. Ou você tá ansiosa, ou você não tá sentindo nada.
O seu prazer pelas coisas simplesmente some.
Não adianta comer uma comida que você gosta, visitar um lugar bonito.
Ou começar uma série nova.
Você faz um esforço muito grande pra encontrar as pessoas.
Porque você quer ficar com elas, e você tem medo de perder quem você ama.
Você tem receio de que elas percebam que você não tá bem.
Que elas não entendam porque você não tá bem.
Ou que elas se cansem do seu comportamento meio estranho.
Mas sair e ver pessoas exige energia. E às vezes você só queria ficar em casa.
E na verdade, tudo exige uma energia que você não tem.
Eu achei que depois da eleição, depois do mestrado, e que me afastar da internet me faria voltar ao normal.
Mas eu acho que eu atingi um pico muito alto de ansiedade e eu não conseguia mais retroceder.
E eu passei a ficar ansiosa, por medo de ficar ansiosa, sabe?
Porque eu construí memórias muito ruins de momentos em que eu ficava mal fazendo qualquer coisa.
Eu disse que isso afetou todos os âmbitos da minha vida.
Mas quando afetou também a minha saúde física, eu pensei que eu precisava fazer alguma coisa.
Eu já fazia terapia, mas eu passei a me cuidar de todas as outras formas possíveis.
Porque eu tinha a possibilidade de fazer isso. E auto cuidado também é um privilégio.
E aos poucos, eu fui percebendo uma melhora significativa.
Conquistas simples se tornaram as maiores conquistas da minha vida.
Quando eu consegui fazer compras, por exemplo.
Ou quando eu fui no cinema depois de muito tempo.
Até que eu recebi o convite da Dia Estúdio, pra ser uma das apresentadoras da Parada LGBT de São Paulo.
Na transmissão oficial do YouTube.
Eu pensei, na hora, em não aceitar o convite.
Porque eu não viajava há muito tempo.
E eu nem conseguia pensar na ideia de participar de uma live.
Ainda mais numa transmissão tão grande, e pra tanta gente.
Mas eu aceitei.
E eu não vou dizer que foi fácil, mas foi menos difícil do que eu achei que seria.
E foi gostoso. E foi uma conquista muito grande.
Então, foi um momento de virada pra mim.
Porque a partir daquele dia, eu retomei as minhas atividades.
Eu voltei a fazer outras viagens, eu voltei a trabalhar.
E eu me sinto muito melhor agora!
Eu aprendi a compreender e a respeitar os meus limites. Às vezes, eu ainda não consigo fazer algumas coisas.
E alguns dias são mais difíceis do que outros. Às vezes eu não consigo sentar e escrever o meu livro, ou escrever um roteiro.
Ou encontrar energia pra gravar um vídeo, ou pra sair de casa e ver muitas pessoas.
Mas eu aprendi a priorizar a minha saúde, e a acolher as minhas necessidades.
Eu passei muito tempo pensando: "Será que a vida vai ser como antes?"
Eu lembrava de momentos que eu vivi e de experiências que eu tive.
Eu não entendia como eu tinha sido capaz de tudo aquilo.
E eu falo de coisas que, pra muita gente, parecem simples.
Mas que pra outros seres humanos, podem ser extremamente difíceis.
A ansiedade afetou todos os âmbitos da minha vida.
E eu tenho certeza que também afeta a realidade de outras pessoas.
Muitas vezes, a gente negligencia a nossa saúde mental, porque esse é um problema silencioso. Às vezes você não tá bem, mas ninguém percebe. Porque você consegue disfarçar.
Porque você convive minimamente em sociedade e conversa, e sorri pras pessoas.
Por isso, é muito comum a gente dar mais importância pra nossa saúde física.
Se a gente fica fisicamente doente, a gente vai procurar um tratamento pra ficar bem.
E quando o assunto é saúde mental, muitas vezes a gente sente vergonha.
Ou minimiza o problema, até chegar no nosso limite.
Eu provavelmente cheguei no meu limite. E não, a vida não vai ser como antes.
Porque eu sou uma pessoa completamente diferente depois de tudo isso.
E eu gosto da pessoa que eu tô me tornando.
Eu aprendi muito nos últimos tempos.
E todos os dias eu repito pra mim duas frases que eu sempre digo nos meus vídeos.
Mas que eu não sei se eu mesma me escutava.
A cura não é linear.
E tá tudo bem se não estiver tudo bem.
