How will we survive when the population hits 10 billion? | Charles C. Mann
Tradutor: Rafael Morais Revisor: Maricene Crus
Como estamos indo?
Não, não, com isso eu quis dizer: "Como nós, o homo sapiens,
(Risos) estamos indo como espécie?"
O jeito típico de responder essa questão é este: escolham algum medidor de bem-estar físico humano.
Longevidade média, calorias médias por dia, renda média, população total, esse tipo de coisa.
E desenhem um gráfico do valor ao longo do tempo.
Em quase todo caso, você obtém o mesmo resultado.
A linha se estica num nível baixo por milênios, então aumenta exponencialmente nos séculos 19 e 20.
Ou escolham uma medida de consumo: consumo de energia, de água potável, consumo da fotossíntese do mundo, e desenhem um gráfico do valor ao longo do tempo.
Do mesmo jeito, a linha se alonga num nível baixo por milênios, e então aumenta exponencialmente nos séculos 19 e 20.
Biólogos têm uma palavra para isso: surto.
Um surto é o momento em que uma população ou espécie excede os limites da seleção natural.
A seleção natural ordinariamente mantém populações e espécies dentro de limites rigidamente definidos.
Pestes, parasitas, falta de recursos, previnem a expansão exagerada deles.
Mas de vez em quando, uma espécie escapa do seu limite.
A estrela-do-mar-coroa-de-espinhos no oceano indiano, mexilhões-zebra nos Grandes Lagos, lagartas de espruce aqui no Canadá.
Populações explodem de 100 a 1 milhão de vezes.
Então aqui está uma lição fundamental da biologia: surtos não terminam bem na natureza.
Coloque dois protozoários numa placa de Petri cheia de gosma de nutrientes.
Em seu habitat natural, solo ou água, seu ambiente os reprime.
Na placa de Petri, eles têm um oceano de café da manhã e nenhum inimigo natural.
Eles comem e reproduzem repetidamente até atingirem o limite da placa de Petri, então eles se afogam em seus próprios restos, morrem de fome pela falta de recursos, ou os dois.
O surto termina sempre mal.
Do ponto de vista da biologia, vocês e eu não somos diferentes dos protozoários na placa de Petri.
Não somos especiais.
Tudo que nós, em nossa vaidade, pensamos que nos faz diferentes: arte, ciência, tecnologia, tais coisas não importam.
Somos uma espécie do surto e vamos atingir o limite da placa, simples assim.
A questão óbvia é: isso é verdade?
Estamos de fato condenados a atingir o limite da placa de Petri?
Deixarei essa questão de lado por um momento e perguntarei a vocês uma outra.
Se vamos escapar da biologia, como vamos fazer isto?
Em 2050, existirão 10 bilhões de pessoas no mundo, e todas elas irão querer as coisas que vocês e eu queremos: bons carros, roupas legais, boas casas, o último pedaço de Toblerone.
Pensem nisso: Toblerone para 10 milhões de pessoas.
Como faremos isso?
Como vamos alimentar todo mundo, conseguir água, fornecer energia, evitando os impactos da mudança climática?
Eu sou jornalista científico, e venho fazendo essas perguntas a pesquisadores por anos, e pela minha experiência, suas respostas cabem em duas grandes categorias:
"magos" e "profetas".
Magos, gênios da tecnologia, acreditam que ciência e tecnologia, aplicadas corretamente, nos permitirão produzir nossa saída dos nossos dilemas.
"Seja esperto, faça mais", dizem.
"Desse jeito, todos podem ganhar."
Profetas acreditam no contrário.
Eles veem o mundo como governado por processos ecológicos fundamentais com limites que transgredimos para nosso próprio mal.
"Use menos, conserve", dizem.
"Ou todos vão perder."
Magos e profetas têm discordado por décadas, mas ambos acreditam que a tecnologia é a chave para um futuro de sucesso.
O problema é que eles imaginam diferentes tipos de tecnologia, e diferentes tipos de futuros.
Magos imaginam um mundo de megacidades brilhantes e supereficientes, rodeadas por vastos trechos de natureza intocada, economias que transformam átomos em bits, sociedades capitalistas desmaterializadas, que não dependem mais da exploração natural.
Energia, para os magos, vem de compactas usinas nucleares; comida de fazendas ultraprodutivas, com baixa pegada ecológica, culturas geneticamente modificadas vigiadas por robôs; água vinda de usinas de dessalinização, o que significa que não mais exploraremos rios e aquíferos.
Magos visualizam todos os 10 bilhões empacotados em megacidades ultra densas planejadas, um mundo urbanizado de máxima aspiração humana e máxima liberdade.
Mas os profetas se opõem a tudo isso.
Você não pode desmaterializar comida e água, apontam.
Dizem que você não pode comer bits, e a agricultura industrial já nos deu enormes taxas de erosão do solo, enormes zonas costeiras mortas e microbiomas de solo arruinados.
Querem mais, magos?
E as gigantes usinas de dessalinização?
Elas geram pilhas de sal tóxico igualmente gigantes, que são impossíveis de eliminar.
Megacidades?
Vocês podem me citar uma megacidade existente no mundo hoje, exceto Tóquio, que não seja uma fossa de corrupção e desigualdade?
Ao invés disso, profetas rezam por um mundo de comunidades menores e interconectadas, mais perto da terra.
Um mundo mais agrário, de máxima conexão humana e controle corporativo reduzido.
Mais pessoas vivem no campo nessa visão, com energia solar fornecida pela rede vizinha e instalações eólicas que se estendem ao longe.
Profetas não geram água de gigantes usinas de dessalinização, eles estocam a água da chuva, a reusam e reciclam infinitamente.
E a comida vem de fazendas com redes de pequena de escala que focam as árvores e tubérculos em vez de cereais pouco produtivos como o trigo e o arroz.
Acima de tudo, porém, profetas visualizam pessoas mudando seus hábitos.
Elas não dirigem para o trabalho, pegam o trem de energia renovável.
Não tomam banhos quentes de 30 minutos toda manhã.
Elas comem, como Michael Pollan diz, comida de verdade, em pequenas quantidades, e sobretudo plantas.
Profetas dizem que submeter-se aos limites naturais resulta num estilo de vida mais livre, democrático e saudável.
Mas os magos consideram isso besteira, e veem isso como uma receita para a regressão e a pobreza global.
Dizem que a "agricultura profeta" aumenta a pegada ecológica humana e desvia mais pessoas para o trabalho agrícola com salários baixos.
As instalações solares por vizinhança, parecem ótimas, mas dependem de uma tecnologia que ainda não existe.
São uma fantasia.
E reciclagem de água? É uma freada no desenvolvimento.
Acima de tudo, magos são contrários na ênfase dos profetas de uma engenharia social de larga escala, a qual veem como antidemocrática.
Se a história dos últimos dois séculos fosse uma de crescimento desenfreado, a história do próximo século pode muito bem ser a escolha que fazemos, enquanto espécies, entre os dois caminhos.
Esses são os argumentos que serão resolvidos pela geração dos nossos filhos, de um jeito ou de outro.
A geração que viverá num mundo de 10 bilhões de pessoas.
Agora biólogos devem estar revirando os olhos ao me ouvirem dizer isso.
Devem estar dizendo: "Tudo isso de magos e profetas, é uma fantasia".
Não importa qual caminho ilusório você pensa estar trilhando.
Surtos na natureza não terminam bem.
Vocês pensam que os protozoários veem o limite da placa chegando e dizem:
"Galera, hora de mudar a sociedade?"
Não. Eles só a deixam morrer. É isso que a vida faz e somos parte dela.
E faremos a mesma coisa. Lidem com isso.
Se vocês forem seguidores de Darwin, têm de levar isso em consideração.
O contra-argumento básico se resume a: "Somos especiais".
Nada convincente, não?
(Risos)
Podemos acumular e compartilhar conhecimento e usar isso para guiar o nosso futuro.
Estamos fazendo isso?
Existe alguma evidência que estamos usando ou acumulando conhecimento compartilhado para garantir nossa prosperidade a longo prazo?
Com certeza não.
Se você é mago, e acredita que hiperprodutividade e culturas geneticamente planejadas são a solução para alimentar o mundo de amanhã, você tem que levar em conta que 20 anos de cientistas demonstrando que elas são seguras ao consumo falharam em convencer o público a adotar essa tecnologia.
Se você é profeta, e crê que a solução para a crescente falta de água potável é parar de desperdiçá-la, você tem de se preocupar que cidades ao redor mundo, tanto em lugares ricos como pobres, rotineiramente perdem um quarto ou mais de sua água com vazamentos em encanamento e contaminações.
A Cidade do Cabo, há pouco tempo, quase ficou sem água.
A cidade perde um terço de sua água em vazamentos.
Esse problema tem piorado por décadas, e pouco foi feito sobre isso.
Se você é mago e pensa que limpeza, abundância, e energia nuclear livre de carbono são a solução, você tem de se preocupar que a aprovação pública para projetos nucleares está diminuindo.
Se você é profeta, e pensa que a solução para o mesmo problema são as instalações solares de vizinhança mandando energia num ciclo, você tem que se preocupar que nenhum lugar no mundo dedicou recursos necessários para o desenvolvimento dessa tecnologia e para implantá-la a tempo.
E se você é um dos dois, mago ou profeta, tem de se preocupar que apesar do alarme sobre a mudança climática, a quantidade anual de energia fóssil gerada subiu cerca de 30%, desde o começo deste século.
Vocês ainda pensam que somos diferentes dos protozoários?
Ainda pensam que somos especiais?
Na verdade, é ainda pior que isso.
(Risos)
Não estamos nas ruas.
Se existe uma diferença entre nós e os protozoários, uma diferença que importe, não é só nossa arte, ciência e tecnologia. É que nós podemos gritar, e podemos sair às ruas, e com o tempo, mudar o modo como a sociedade funciona.
Mas não estamos fazendo isso.
Magos têm discutido por décadas que energia nuclear é a solução para a mudança climática.
Mas a primeira marcha pró-nuclear aconteceu há menos de dois anos, e ela foi impedida pelas marchas antinucleares do passado.
Profetas vêm discutindo, também por décadas, que a preservação é a solução parar manter o abastecimento de água potável sem destruir os ecossistemas que produzem a água desse abastecimento.
Mas na história da humanidade, nunca houve uma rua cheia de protestantes bravos com cartazes sobre vazamento de canos.
De fato, a maior parte da atividade política nessa esfera, tem sido a briga entre magos e profetas, protestando um contra o outro, ao invés de reconhecer que estão, fundamentalmente, no mesmo lado.
Essas pessoas estão preocupadas com a mesma coisa: o que vamos fazer com um mundo de 10 bilhões de pessoas?
O primeiro passo para gerar o movimento social necessário, criando uma massa crítica e conseguindo vozes pra isso parece óbvio: magos e profetas se juntarem.
Mas como farão isso, considerando tantas décadas de hostilidade?
Um jeito pode ser este: cada lado concorda em aceitar as premissas fundamentais do outro.
Aceitar que energia nuclear é segura e livre de carbono, e que minas de urânio podem ser terrivelmente sujas.
E que colocar grandes volumes de resíduos tóxicos em trens frágeis e transportá-los pelo interior é uma péssima ideia.
Isso leva rapidamente para uma visão de pequenas usinas nucleares temporárias, energia nuclear como uma ponte, enquanto desenvolvemos e implementamos renováveis.
Ou aceitar que culturas geneticamente modificadas são seguras e que a agricultura industrial causa grandes problemas ambientais.
Isso leva rapidamente para uma visão de cientistas botânicos, dedicando mais de sua atenção para culturas de árvores e tubérculos, que podem ser muito mais produtivos que cereais, usam menos água e causam menos erosão.
Estas são ideias de um jornalista aleatório.
Tenho certeza que existem muitos outros melhores aqui nessa sala.
O ponto principal é: magos e profetas trabalhando juntos têm muitos caminhos para o sucesso.
E sucesso significaria muito mais que sobrevivência, embora isso seja importante.
Se a raça humana sobreviver a seu próprio surto, se tivermos comida, água e energia para todo mundo.
Se evitarmos os piores efeitos da mudança climática, e de alguma forma protegermos os biomas, isso seria maravilhoso.
Isso diria, mesmo para um cínico como eu, que talvez sejamos especiais.
Obrigado.
(Aplausos)
