Nutrição e Saúde Mental
Bem-vindo ao canal, hoje mais uma entrevista incrível, estou muito, muito feliz...
Estou convidando o Daniel Martinez.
- Olá! - Um médico psiquiatra, que eu admiro muito, estamos trabalhando com pacintes juntos.
(Música)
O Daniel, eu conheci no Ambulim, o ambulatório de transtornos alimentares, e hoje eu convidei para fazer um bate-papo, primeiro sobre o quadro hoje da psiquiatria, das dificuldades que a nossa sociedade está enfrentando, a gente vê um aumento, você pode até confirmar isso, um aumento de dificuldades...
E também puxar a sardinha, claro, sobre os transtornos alimentares, que são os assuntos desse canal, assuntos de como se fazer as pazes com a comida, e que o fato de estar em paz com a comida, e bem nutrido, diminui muito as chances de ter transtornos psiquiátricos. Você concorda com isso?
Concordo, com certeza, e o que você falou, né, Sophie, isso acontece e a gente vê muito na sociedade, parece que a sociedade está adoecendo.
E se a gente vai ver nos estudos de felicidade...
Tem até um ranking do World Happiness Report, está mostrando que a felicidade comparada entre os países, o Brasil está caindo no ranking.
De dois em dois anos que é medido, então...
Se a gente for pensar em bem-estar, em saúde mental, não estamos falando necessariamente de doença, mas de bem-estar e de felicidade, alguma coisa está acontecendo que as pessoas estão ficando cada vez mais infelizes, sente que as vidas estão sendo desperdiçadas, que aquela sensação de vazio parece que não vai embora... que alguma coisa está aumentando.
Também a gente vê um mal-estar geral frente à alimentação, que é nossa gasolina, que é nosso...
Nosso combustível, nosso alimento da alma também...
Alimenta não só a alma, mas também o corpo.
E esse ato de comer, ele é psicológico também.
Então, eu vejo que muitas pessoas que estão com quadro até que pode ser diagnosticado como depressão, e comendo melhor elas melhoram esse quadro.
Então dentro do seu trabalho, o Ambulim foi uma experiência provavelmente bem interessante porque a maioria dos psiquiatras, eles não têm necessariamente uma formação dentro da faculdade sobre essa parte da relação com a comida.
Como que foi sua experiência no Ambulim?
Olha, minha experiência no Ambulim foi maravilhosa, só tenho elogios, realmente você tem toda razão, não faz parte da grande maioria dos currículos, o ato de entrar em contato com o comer transtornado, ou transtornos alimentares...
E talvez eu vou dar só um minutinho aqui, porque o Ambulim, para quem não conhece, a gente conhece e a gente fala... É o ambulatório de transtornos alimentares, então ele se situa no Hospital das Clínicas, no Instituto da Psiquiatria. É o maior centro do Brasil e da América Latina, de tratamento de transtornos alimentares. É dirigido pelo Dr. Táki Cordás, estou há 10 anos lá, e você também está há muitos anos...
Há uns quatro ou cinco...
Então....
O ambulatório, então falando um pouquinho do ambulatório, a gente qaundo está fazendo treinamento psiquiátrico na residência, a gente passa por lá e a gente começa a ter o primeiro contato com as principais patologias e com os pacientes que sofrem desses transtornos, né?
Então para o profissional é muito enriquecedor, e a gente consegue ver nos pacientes, quando eles melhoram, como muda a qualidade de vida e como a gente consegue diminuir o sofrimento.
E a gente vê também que eles têm, quase todos, a mesma história. Se você conversa com esses pacientes que têm transtornos alimentares, a gente está falando de anorexia, de bulimia, de transtorno da compulsão alimentar, muitos, quase todos, vão falar:
"Ah, eu estava bem, fiz uma dieta, e entrei no transtorno alimentar".
Então, isso que me chamou a atenção, isso que me levou a estudar o que eu estudei, agora de maneia profunda, esse impacto da restrição da dieta no transtorno psiquiátrico.
Então quando a gente vê esse bem-estar que eles estão ganhando no tratamento, a gente vê que é importante uma equipe multidisciplinar.
- Faz toda a diferença. - Faz toda a diferença!
Então... nutricionista, psicólogo e psiquiatra.
Quem vai fazer o diagnóstico é o psiquiatra.
Então você, no seu consultório, está vendo bastante casos de transtornos alimentares ou você está atendendo todo tipo de transtornos?
Eu acabo atendendo bastante transtorno alimentar, principalmente bulimia e compulsão alimentar.
Também atendo bastante paciente com ansiedade, transtorno depressivo... acho que esses seriam os carros-chefe aqui...
Mas respondendo sua pergunta, a gente vê bastante.
Acho que... é multifatorial, né? Pode ser por influência da mídia, as dietas da moda, mas a gente vê que isso aumenta, sim, a chance dos pacientes descompensarem.
Então, por exemplo, quando o paciente vai fazer ou alguma dieta muito restritiva, ou vai fazer um jejum prolongado, isso aumenta, e muito, a chance da pessoa ter uma compulsão alimentar.
Então, exatamente. Eu gosto muito de você levantar esse assunto porque dois, três dias atrás, no meu consultório, teve dois pacientes novos, duas...
E as duas com o transtorno da compulsão, seguindo dietas de blogueiras no Instagram.
Então as duas com jejum intermitente e low carb.
Essa combinação é uma bomba retardo.
Então como você falou, fazer dieta aumenta muito o risco de desenvolver compulsão alimentar.
E, infelizmente, isso não está sendo falado o suficiente.
Então o risco é não somente maior, mas também aumenta com a dose, a gente fala "dose-dependente". Concorda?
Concordo. Se a gente for pensar em compulsão como um descontrole...
Então, por exemplo, comer uma quantidade muito maior do que uma pessoa comeria na mesma situação semelhante.
Então eu gosto de dar um exemplo para meus pacientes que é da ceia de natal.
Então se eu estou na ceia de natal, e estou comendo muito mais do que o meu normal, as pessoas em volta talvez também estão comendo muito mais. É uma ocasião especial, talvez não seja compulsão.
Agora, se todos os dias eu como igual eu como em uma ceia de natal, pode, de repente, se enquadrar nos critérios.
Comer de uma forma muito voraz...
A pessoa tem aquela sensação de perda de controle, a gente consegue às vezes ver alguns sinais na pessoa que tenta comer escondido também.
Também... o comer escondido é muito presente na compulsão.
Tem a perda de controle e o comer escondido.
Eu aho que são dois critérios bem importantes.
E quando o paciente faz essas dietas, ou muito restritivas, ou acaba restringindo muito o alimento, fica longos períodos sem se alimentar, aumenta muito a chance dele perder o controle depois, né?
"Então agora já que eu perdi, vou perder mesmo..."
Uma coisa meio inata, daí a pessoa tem uma compulsão, daí depois se sente mal, tenta fazer algum tipo de conduta compensatória, seja exercícios, alguma coisa e tal...
Daí volta pro ciclo e fica lá: restrição, compulsão, conduta compensatória.
Fica aquele tripé que a gente tem que tentar cortar para poder tratar nossos pacientes.
E a gente tem que falar para a população porque infelizmente tem outros... Especialmente blogueiros e até profissionais de saúde dizendo que não, não tem nada a ver com restrição.
E sim, a gente vê isso.
Uma prova é que lá no Ambulim a gente está tendo cada vez mais casos com esse Instagram, que está bombando.
A gente vê que tem lista de espera, eu acho que nunca foi tão grave a situação.
Todo mundo fala da epidemia da obesidade, mas nós que trabalhamos com saúde mental, a gente vê que uma epidemia muito mais grave está acontecendo.
Que é uma epidemia de transtornos mentais e transtornos alimentares, um deles...
Um exemplo que eu gosto de dar para os pacientes, eu gosto de fazer um paralelo com o fumo.
Então a gente escuta às vezes de paciente que fala:
"Ah, mas meu avô fumou a vida inteira e nunca teve câncer de pulmão."
Realmente tem gente que fuma, fuma, fuma, e não vai desenvolver alguma coisa.
Do mesmo jeito que pode ter alguém que, de repente, pode fazer uma dieta restritiva e não vai desenvolver uma compulsão.
Só que você pega a grande maioria das pessoas que fumam de forma regular, aumenta muito a chance, isso é muito provado, tem um monte de estudos.
E é o que a gente vê nos quadros de transtornos alimentares.
Então a pessoa acaba fazendo alguma dieta muito restritiva, vai aumentar a chance de ter uma compulsão, sim.
E sabe, é meu trabalho de pesquisa que eu coordeno o programa de genética lá no Ambulim, e eu justamente estudo isso.
Tem predisposição sim para desenvolver compulsão alimentar. É interessante que, genéticamente, a gente pode, ou não, ter esse circuito...
E a gente vê o que mais desperta esse circuito: restrição, o famoso "restrained eating".
Tem até um gene, se você pega um variante desse gene, fazer uma vez uma dieta restritiva, você aumenta muito a chance de desenvolver bulimia, e olha que interessante: esse gene, 30% da população tem.
Então, o pesquisador que descobriu isso falou que estamos em uma sociedade de fabricantes de bulimia, que é um transtorno grave.
- Concorda comigo, né? - Sim!
De bulimia e talvez de obesidade, né?
As taxas de obesidade estão aumentando muito no mundo.
Seja no Brasil, Estados Unidos...
Sempre digo, os dois problemas são dois lados da mesma moeda.
Então, qual é a solução?
Essa pergunta é a de ouro, quem souber acho que ganha o Nobel.
A solução, eu tenho uma: fazer as pazes com a comida.
- Isso eu concordo 100%. - Não é?
Fazer as pazes com a comida e, num segundo momento, fazer as pazes com o próprio corpo.
Exatamente. E sabe, dentro dos meus segredos, tem o primeiro segredo: fazer as pazes com o corpo, que a Daiana Garbin fala muito bem no livro dela.
Mas fazer as pazes com a comida e fazer as pazes com o corpo não é brincadeira, você realmente sai de uma dificuldade de viver, e entra em um caminho mais feliz de vida.
E o seu trabalho como psiquiatra é de também encaminhar os paciente nesse sentido, né?
Sim, e tem tudo a ver com o que a gente estava conversando antes de começar a entrevista.
Acabei de voltar, de fazer um curso com um grupo de colegas, amigos médicos lá de Harvard, um curso de medicina de estilo de vida, de "lifestyle medicine".
Que é basicemente mudar o estilo de vida da pessoa para pode tratar as principais patologias de transtorno alimentar.
São cinco pilares:
Alimentação, então tudo que a gente está falando aqui entra na parte de alimentação.
Sono, atividade física, manejo de stress, e felicidade ou contato social.
Então o primeiro pilar que a gente for pegar, a alimentação, como você falou, fazer as pazes com a comida, a gente pode destrinchar bastante esse tema...
Se a gente for pensar em viver melhor, a pessoa ter mais qualidade de vida, ou ter menos patologia... Concordo totalmente.
Então esse vai ser o tema do nosso próximo vídeo, com o Daniel, porque justamente eu quero saber mais...
Vamos conversar...
Dessa nova carta que ele está abrindo, que é também aquele movimento dos Médicos na Cozinha. É o nome do... Médicos na Cozinha.
Médicos na Cozinha, um projeto que a gente está construindo.
Muito bem, muito obrigada.
(Música)
