Vó é mãe com açúcar!
Vamos ver se você se reconhece nessa situação.
Você passa a semana inteira caprichando na lancheira do seu pequeno.
Usa toda a sua criatividade...
Tem aquele trabalho toda noite pra oferecer uma alimentação saudável...
Mas aí chega na casa da vovó…
Eba, tá tudo liberado!
(Música)
Nas últimas décadas, as mulheres entraram com tudo no mercado de trabalho e, para muitas, a opção é deixar os filhos nas casas dos avós.
Isso é uma verdadeira alegria, não é verdade?
A maioria delas abraça esse papel com muito carinho, e, pra criançada, uma grande oportunidade para coletar lembranças incríveis, que com certeza serão acessadas com muito carinho na vida adulta.
Se você, que está assistindo esse vídeo, teve o privilégio de crescer com avós presentes, sabe do que estou falando.
Não é à toa que aqui no Brasil se fala que:
Vó é mãe com açúcar!
E eu não estou aqui para falar que doce é veneno!
E que criança não pode nunca comer um pouco de açúcar.
Mas eu observo que é muito comum ocorrer um choque entre as opiniões ligadas à parte alimentar da criança.
E isso tem a ver até com a questão de geração: as crenças e aprendizados em torno dos alimentos mudam bastante com o passar do tempo.
Por isso hoje eu quero falar um pouquinho sobre os principais motivos de divergência nesse sentido, e, depois, vamos tentar resolvê-las.
Com amor, respeito e parceria!
Acredite: as avós podem ser incríveis aliadas na educação alimentar do seu filho. É só uma questão de alinhar o discurso!
Então vamos começar com o perfil mais comum: as avós que liberam tudo.
Geralmente, o que acontece é mais ou menos assim: as avós não conseguem dizer "não" para os netos.
E aí vira aquela bagunça.
Porque, durante o dia, a abordagem é mais permissiva e as regras são menos rígidas. À noite, que, para muitos pais, é o único momento em que conseguem fazer uma refeição juntos, vem aquela abordagem completamente diferente, mais linha dura.
Realmente, fica difícil e pode até gerar certo conflito.
Eu vi esse filme diversas vezes no ambulatório de Obesidade Infantil, no Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, onde fiz meu doutorado.
O perfil era sempre bem parecido: eram famílias que precisavam deixar os filhos com os avós para poder trabalhar.
A primeira coisa que eu fazia quando me deparava com um caso desses era pedir pra conhecer a avó.
Afinal, elas precisavam ser incluídas, porque passavam boa parte do dia com aquelas crianças!
E foi assim que conheci muitas avós muito fofas.
Muitas delas tiveram pouco acesso à educação formal e algumas chegaram até a passar fome na infância.
Por isso mesmo, queriam que os netos tivessem uma vida completamente diferente:
Isso é compreensível.
Quem teve um histórico de escassez não vai querer restringir mesmo!
Para algumas avós que eu conheci, poder comprar um produto industrializado, como um pacote de bolacha recheada, um salgadinho, ou um iogurte com algum personagem, era como uma demonstração de carinho, um sinal de que ela podia oferecer para aquele neto algo que ela mesmo não teve.
Mas acontece que hoje temos muito mais ofertas de alimentos ultraprocessados do que na época das nossas avós.
E hoje já sabemos que a melhor forma de prevenir a obesidade infantil e de garantir um estilo de vida saudável, com rotina, é acostumar as crianças com o sabor mais natural das coisas.
Sabemos que as crianças adoram os produtos mais industrializados, justamente porque a maioria deles tem bastante açúcar e gordura, e o cérebro gosta bastante dessa combinação.
E também não é um pecado oferecer esse tipo de coisa de vez em quando.
Eu sou contra radicalismos!
Mas o ideal seria encontrar um equilíbrio.
Eu vou dar algumas dicas nesse sentido no final desse vídeo, mas antes, quero falar sobre uma outra situação comum entre avós que cuidam dos netos no lugar dos pais.
Agora vamos falar um pouco sobre o extremo oposto dessa avó que oferece tudo, que é aquela que já está um pouco contaminada com o terrorismo nutricional e com as crenças ligadas às dietas e imagem corporal.
Esse também é um reflexo da nossa cultura atual.
Como eu disse, as crenças sobre os alimentos mudam de tempos em tempos e algumas avós são mais antenadas e se preocupam demais com a imagem corporal dos netos, especialmente das meninas.
Afinal, vivemos um momento em que parece proibido estar acima do peso!
Então é isso, na melhor das intenções, essa avó pode exagerar muito nas restrições, mas, pior do que isso, repetir muito algumas frases que podem ser prejudiciais à criança, como por exemplo:
Esse tipo de mensagem deveria ser evitado, e isso não é só um recado para as avós, mas para mães e pais também e para qualquer adulto que conviva com uma criança.
Se toda vez que falar de comida tiver algo associado a "engordar", ele pode crescer achando que ganhar alguns quilinhos é o pior castigo do mundo e que comer é feio, proibido e errado.
Então, que tal adotarmos medidas mais eficazes para que seu filho cresça num ambiente saudável e construa uma relação mais tranquila com a comida e com o corpo?
Bom, eu falei sobre duas situações bem comuns quando se trata de alimentação infantil: o cenário do excesso e, do lado oposto, o cenário da restrição.
Agora vamos tentar resolver essas situações.
E a estratégia mais eficiente para estabelecer uma rotina alimentar de qualidade e sem neuras, é alinhar o discurso entre os pais e os avós.
Como tudo na vida, o segredo é o diálogo.
Em primeiro lugar, se o seu filho passa mais tempo na casa dos avós do que na sua própria casa, seria interessante que vocês conversassem e chegassem a um acordo sobre horários, concessões e preferências alimentares.
Se for possível, seria até interessante irem juntos ao médico, ao pediatra, ao nutricionista... assim, todo mundo segue as mesmas orientações e quem sai ganhando é a criança! É preciso entender que, na maioria dos casos, as decisões que as avós tomam é na melhor das intenções.
Por isso é preciso compreensão de ambas as partes.
Em parceria, dá para fazer um trabalho maravilhoso de educação alimentar.
Para que isso aconteça, é preciso que vocês sejam parceiros e estejam dispostos a falar a mesma língua.
Então, vamos às dicas práticas:
Não é coisa de criança nem de adulto!
Para que a criança desenvolva uma boa relação com a comida, é preciso que ela respeite os próprios sinais de fome e saciedade.
Se ela fizer dieta, provavelmente estará lutando contra esses sinais, passando fome e ficando ainda com mais vontade de comer as coisas, porque em crianças, a privação pode levar a comer escondido.
E isso nos leva a um segundo ponto importante:
Se o seu filho está um pouco acima do peso, tire o foco da balança.
De novo: associar à comida a algo negativo pode fazer a criança começar a ter vergonha, comer escondido e até desenvolver um transtorno alimentar.
Então, alinhe com todo mundo: não vamos falar de peso, de medidas, de gordura de corpo.
Vamos falar de saúde!
Converse com a avó para que ela incentive uma vida mais ativa, para que não deixe seu filho o dia todo no computador, TV, tablet, ou celular.
Procure atividades em família em que todos também possam mexer o corpo.
Pode ser uma volta no parque ou na praça perto da sua casa à noite, passear com o cachorro!
Ou todo mundo se matricular em um clube onde cada membro da família possa fazer a modalidade que mais se sentir à vontade.
O peso saudável será a consequência desse estilo de vida, pode ter certeza!
Deixei para o final um dos pontos mais importantes, que é a qualidade alimentar do seu filhote.
Não estou me referindo a ingredientes caros e nem a receitas complexas.
Estou falando da boa e velha regra que eu sempre falo: tentar ter uma alimentação diversificada, com maior prevalência de alimentos in natura e menos produtos ultraprocessados.
Eu sei que tem pessoas que não gostam de cozinhar, mas se a alimentação do seu filho ou neto é uma prioridade, seria legal reservar um tempinho para fazer mais comida caseira.
Vocês podem combinar e fazer isso uma vez por semana, tem muitas coisas que já podem ser preparadas com antecedência para serem consumidas ao longo da semana como feijão e outros grãos, arroz, vários preparos de carne e frango, legumes assados, molhos, frutas, etc.
O negócio é voltar para o básico mesmo.
No lugar de chips ou salgadinho, é muito melhor oferecer uma opção feita em casa.
O bolo pronto é muito mais sem graça do que um bolo caseiro, fofinho e cheiroso, feito na hora.
E nosso o arroz e feijão de todo dia é uma combinação poderosa!
Vai fazer a criança crescer forte, saudável e apreciando uma boa comida feita em casa.
E o nosso pãozinho de queijo então? Huuum…
Uma receita caseira que pode servir como um ótimo lanche da tarde!
Enfim, essas são algumas dicas, mas lembrando que vocês não precisam demonizar os alimentos industrializados! Eles não são veneno!
Mas se puder comer mais alimentos frescos, a saúde vai agradecer e isso acaba incentivando um bom hábito alimentar em toda a família.
Seja na casa da vovó ou na sua própria casa!
Muitas avós estão totalmente em paz com a comida, preferindo os doces caseiros, frutas, muita salada... tudo em quantidade moderada.
Vamos valorizar nossa história, nossa cultura e voltar para o básico?
Então combine aí com a vovó e o vovô de redescobrir as receitas da família e leve a criançada para a cozinha!
Bon appétit!
(Música)
