Viva a liberdade
VIVA A LIBERDADE
-Tem um banheiro? -Se tivesse perguntado antes...
-tem o da sala VIP. -Preciso agora.
-Então, precisamos voltar. -Estamos muito atrasados.
Se quiser, tem o de serviço.
TODAS AS PESQUISAS EM TEMPO REAL
ASSEMBLEIA NACIONAL
Oliveri!
Sabe por que está calado?
Porque nunca teve merda nenhuma pra dizer.
Nunca!
Não vê que está destruindo o partido e que não vamos deixar?
Não entende que está na hora de você cair fora?
Cair fora, cair fora. Cair fora, entendeu?
Você é o flagelo mandado pra tapar a nossa boca... pra sermos servos inofensivos pra sempre!
Mas o tempo dirá, secretário!
Cedo ou tarde, a vergonha vai paralisá-lo!
In obscura nocte sidera micant!
Precisa cair fora, entendeu?
Nem Jesus Cristo quis ser condenado sem ser julgado... porque é muito mais humilhante morrer através de um julgamento... do que por uma revolta. Por mais que seja injusta.
Pode ser amanhã?
Obrigado.
O nome é Federica Civatti...
44 anos, ninguém da equipe a viu antes.
Foi mandada por encomenda.
-Por eles? -E quem mais?
-Por que falou em latim? -É professora do Ensino Médio.
Estes são os dados para o encontro de amanhã da Esquerda Europeia.
Tem também um esboço do discurso.
Quer me dizer alguma coisa?
Nada.
Tchau, Andrea, fique bem.
-Sim? -Oi.
Liguei antes, mas não deu sinal.
Acabei de chegar.
Estou em Pequim, o encontro já terminou. Estou exausta.
Esta noite teve uma recepção na Embaixada... estava sem vontade, mas precisei ir.
E você, como está?
Nada de especial. Vou cedo pra cama, como sempre.
Vi no noticiário a mulher te contestando.
Está me ouvindo?
Claro.
Está cansado? Não se irrite, você sabe como é esse país.
Dê uma boa dormida. Um beijo.
Outro.
Tchau.
Desculpe a hora.
Entre.
Não consigo mesmo dormir.
Está com medo. Está preocupado e queria ser consolado.
Mas, infelizmente, é impossível. Cometemos um erro.
Fomos uns idiotas de apostar nele.
Não havia outra alternativa. Ele era, e ainda é, a melhor alternativa. É tão bom, que vai nos poupar uma longa agonia.
Como assim?
Depois dele, não vai mais haver rastros de nós.
A CORAGEM DE MUDAR COMENTÁRIOS
A OPOSIÇÃO ESTÁ MORTA, E A CULPA É SUA!
VOCÊS FALAM DE MUDANÇAS...
MAS ANTES É PRECISO MUDAR OS DIRIGENTES DO PARTIDO!
NÓS CANSAMOS DISSO! É A MESMA HISTÓRIA TODO ANO.
RIDÍCULO E VERGONHOSO!
Esta é a secretária eletrônica...
Rocchi, onde você está?
Em casa, por quê?
O Senador me ligou, à meia-noite, pra eu não ir pegá-lo... porque ia sozinho.
Por quê, mudou de ideia?
Por que não me avisou?
Ele disse que tinha avisado. O que eu faço, vou até lá?
Não, fique aí. Se precisar, eu ligo.
Como? Estava tranquilo ontem à noite, ia pra cama.
-O que pode ter acontecido? -Nada, não se preocupe, Anna.
Ele deve estar chegando. Desculpe-me por ter ligado.
Boa viagem.
Andrea, o que está acontecendo?
-Nada... -Por que ele não chegou?
-Teve um mal estar, não pode vir. -Está brincando?
Não, juro.
-Quero falar com ele. -Está desligado, ele não pode.
-Onde ele está? -No médico, em consulta.
Depois ele me liga.
Precisamos avisar que houve um imprevisto.
Claro.
Enrico?
Enrico?
Vou dar uma olhada.
OLIVERI CONTESTADO EM ASSEMBLEIA DO PARTIDO
-Recado do Senador? -Não. É uma coisa que esqueci aqui.
-Podemos ir? -Sim, claro.
"Estou pronto para lutar... mas preciso de uns dias sozinho para por as ideias em ordem.
Andrea dará um jeito de justificar a minha ausência... sem criar alarme."
Está ouvindo, Anna?
Claro, continue.
"Darei notícias assim que possível, não se preocupem. É o preço que, cedo ou tarde, uma figura pública precisa pagar."
Só isso.
Aonde pode ter ido?
Não tenho ideia.
Não vem ninguém em mente? Um amigo?
Um político não tem amigos.
Tudo bem?
Como é o nome dele?
Enrico, é um velho amigo que eu não via faz tempo.
Não falou uma palavra desde que chegou.
Acho que precisa descansar um pouco, sei lá.
Danielle... desculpe vir assim, de improviso, devo ter causado embaraço.
Só preciso de um tempo pra respirar.
Claro.
Diga a verdade, acha que é um erro?
Sim.
Acho que está fugindo, está cometendo um erro.
Não estou fugindo.
Estou ciente das consequências que desencadeará em Roma... e é isso que quero ver: o que aqueles idiotas vão fazer sem mim.
Fica melhor sem óculos.
Seu marido e sua filha, onde estão?
Saem cedo, ela vai à escola, ele vai trabalhar.
-O que ele faz? -É diretor.
Televisão?
Cinema.
Eu conheço?
Mung. É um dos meus diretores favoritos.
Você não é o único, ele é adorado como um astro do rock.
-Você falou de mim? -Claro.
O que ele disse?
Que você tem um belo rosto.
Bom dia a todos.
Deve estar claro a todos os motivos e a urgência da reunião de hoje... em vista do estado de saúde do secretário.
Precisamos votar uma suplência rápida que, é inútil esconder... acontece num momento particularmente difícil.
Desculpem o atraso. Tive que fazer cópias do discurso do secretário.
Queria que também hoje ouvissem a voz dele forte e clara.
Aqui está.
Bottini, diga alguma coisa.
Estamos ansiosos pelas suas palavras.
Enrico está bem, saúda a todos... e retornará aos seus compromissos em poucos dias.
Quantos?
Não sabemos exatamente, os médicos falaram em alguns dias… por cautela.
E por que ele não dá uma entrevista?
Caso contrário, levantará suspeitas de que seja algo mais grave.
Primeiro, por razões compreensíveis de privacidade... e por uma avaliação política extremamente lúcida.
A imagem da sua recuperação pode fazer pensar... num partido em péssima saúde.
As coisas são um pouco diferentes de como vocês intelectuais veem.
Pra mim, esse mal estar é uma dádiva inesperada... por que não tiramos proveito?
As pessoas amam uma fofoca.
Também amam a merda, mas nem por isso vamos dar.
Devíamos falar diretamente com ele. Pra demonstrarmos o nosso afeto.
E é melhor discutir com ele o problema da opinião pública.
-Ligamos pra ele? -Sim, eu ligo.
Não, eu ligo.
Estou fora, não posso atender. Não adianta deixar recado.
Muita tensão, muita armadilha.
-Ele vai te dar notícias. -Duvido.
Talvez tenha alguém que pode nos ajudar.
-Quem? -Giovanni, o irmão dele.
O professor? Mas ele não está...
Não, saiu do manicômio, dizem que está inofensivo.
Da única vez que falou dele, disse que não se viam mais.
Sabe por quê?
Não sei nada sobre a juventude dele, a não ser as bobagens... que dizem os jornais: garoto prodígio entediado, sua paixão pelo cinema... a paixão repentina pela política. Bobagem.
Em instantes, o Presidente passará na Sala do Mapa Mundi e pode recebê-lo.
Venha comigo.
Obrigado.
Presidente...
Obrigado.
Parece que as coisas não estão muito claras.
Ele está mesmo doente?
Claro, é caso de uma pequena cirurgia. Uma bobagem, sem maiores consequências.
Então, por que tanto mistério?
Conheço Oliveri desde que entrou para a política.
Neste momento, o país não pode permitir uma omissão da oposição.
Há quem espera isso para tirar proveito.
O Secretário está ciente disso. Garanto, é uma questão de dias.
Um súbito mal estar impôs alguns dias de repouso... ao Senador Enrico Oliveri, Secretário do principal partido de oposição.
São desconhecidos os problemas de saúde do Secretário Oliveri.
Seus colaboradores falam de estresse.
O Senador, de 50 anos, sempre gozou de ótima saúde.
O Presidente da República Italiana lhe desejou breve recuperação.
A ILUSÃO DE VIVER
GIOVANNI ERNANI É PSEUDÔNIMO DE UM ADMIRADO FILÓSOFO ITALIANO
Quem é?
Queria informação sobre um paciente, Professor Giovanni Ernani.
Está vendo aquelas casas?
-Procuro o Professor Ernani. -Por que o procura? É uma longa história. Uma questão particular, pessoal.
Lamento, o professor não está.
-É sobre o seu irmão, Enrico. -Ele morreu?
Não, pelo amor! Desculpe, não queria assustá-lo.
Por que iria me assustar?
Escute, posso entrar? Podemos conversar?
Se quiser... Entre, pode deixar aberta.
Como vê, não estou preparado para receber.
Gosta de livros? Pode levar.
No início, parecerá um pouco difícil... mas, aos poucos, até alguém como você consegue entender.
-Leve. -Obrigado.
Queria lhe perguntar...
Se vamos conversar, tem um bom restaurante aqui perto.
A esta hora, na clínica, eu já teria terminado de comer.
-Ele não vai jantar? -Está sem fome.
Coitado, fale pra ele vir aqui. Não pode ficar fechado no quarto.
Pode vir quando quiser, não está trancado a chave.
Ele encontrou o sistema ideal. Podia dar uma volta à noite.
Por que não de dia? É uma pessoa especial, ninguém pode saber que está em Paris.
Não pode ser reconhecido.
Por quê? Quem ele é? É um político muito importante na Itália.
Como Hollande e Sarkozy?
Como o Obama!
Meu nome é Mung, prazer. Sente-se. É, sente.
Desculpe incomodar vocês, mas o meu remédio acabou... e se puderem me indicar uma farmácia aberta...
Eu vou, talvez seja mais prudente.
Não, prefiro dar uma volta. E à noite não deve ser muito arriscado.
Posso acompanhá-lo, assim tomo um ar.
Obrigado, é muito gentil.
Professor, não sei como pode ajudar.
Seu irmão deve ter pedido hospedagem a alguém.
Com certeza a ninguém do seu círculo. É muito difícil entrar na cabeça dele. Enrico nunca conseguiu ser ele mesmo.
Com licença.
Senador!
Que bom que se recuperou! Podemos trocar umas palavras?
Talvez uma entrevista rápida? É claro que antes de eu publicar, poderá ler.
-Por favor. -Obrigado.
Esses seus cabelos grisalhos são devidos a sua recente doença? É uma mensagem aos italianos: Sejam honestos, deixem de tingir.
Evelina, daqui uns dias ele volta.
Não temos tempo.
O médico aconselhou mais uns dias de repouso.
Seus eleitores não têm muitos motivos para se alegrar... tenho lido críticas duras no seu blog e no do Partido.
Meus eleitores fazem bem de se cansarem de mim...
-eu também me canso deles. -É melhor eu não escrever isso.
Não, escreva. E escreva isto também: se os políticos são medíocres é porque os eleitores são medíocres.
E se são ladrões é porque os eleitores são ladrões. Ou gostariam de ser.
Precisa me por em contato com ele imediatamente.
Sabe que sou a única em quem ele confia.
Andrea?
Há sempre algo a se desenterrar no passado de um poderoso.
E há sempre um poderoso que, no momento certo, pode ser crucificado.
-O medo é a música da democracia. -"O medo".
O poderoso tenta desafiá-la... ilude-se de poder domá-la e acaba atraído por ela.
Por isso não existe democracia no Ocidente... que possa prescindir dos serviços secretos.
E é pela mesma razão... que os políticos tentam falsificar as próprias biografias.
Sósias, cópias, postiços.
Na Câmara, não há um cretino sequer que saiba ser um cretino.
Agora, me deixe comer em paz.
Nem sei como agradecer, espero não ter incomodado demais.
De nada.
Escute, que porcaria de doença ele teve? É outra pessoa! Esta entrevista será uma bomba.
Caiu direitinho! Há anos, não fazia essa brincadeira.
Na juventude, eu e meu irmão sempre trocávamos de identidade... mas eu conseguia imitá-lo sem ser descoberto, ele não.
Como esse jornalista se chama?
Arrighi, do Corriere della Sera.
Não se importa se sair um artigo, não?
Talvez possa ser útil.
O que foi?
-Deu notícias? -Não exatamente.
Talvez eu tenha uma solução. Mas você precisa concordar.
Eu topo.
Sabe por quê? Por desaforo.
Mas cuidado, está pondo o Partido nas mãos de um doido.
Pode ser doido, mas tem método. E é espirituoso.
Prazer, Giovanni Ernani.
Anna Oliveri.
Pode mostrar o apartamento, o quarto?
Posso deixá-los a sós?
Com licença.
Se quiser, o senhor pode se acomodar aqui.
Coragem, minha cara! Menos formalidade.
Este é o seu armário. Está vendo?
Enrico não levou quase nada.
Aqui ficam os óculos.
Está assustada? É idêntico a ele.
Sim, se quiser, posso ser. Vocês têm empregados?
Uma faxineira que fica umas horas. Seu irmão não gosta de ter gente em casa.
Não me importo, pode pedir que ela fique o dia todo.
Vai deixar ele aqui?
Não posso leva-lo comigo.
Não vou ter tempo.
Não posso cuidar dos problemas dele enquanto trabalho.
Não sou sua babá!
Mas ele está aqui por você.
Sabia que é um dos meus cineastas favoritos?
Danielle me disse.
Nunca achei que tivesse um fã entre os políticos italianos.
Talvez eu seja uma exceção.
Política e cinema não são assim tão distantes.
Blefe e genialidade coexistem em ambos, e não é fácil distinguir entre os dois. É aqui.
Esse remédio não existe na França.
Posso encontrar um similar, mas precisa me dizer para o que foi prescrito.
Sofre de depressão, não é?
Ele sofre de depressão.
Desculpe...
Este piano é meu, sabia?
Não, não sabia.
-Seu marido nunca aprendeu. -Eu sei, nunca o vi tocar.
Desculpe ter acordado você.
Não faz mal.
Então, o senador voltou?
Claro.
Melhor assim.
Bem-vindo de volta, Senador.
Podemos ir.
-Aqui está a entrevista. -É?
O MEDO É A MÚSICA DA DEMOCRACIA
Não gostei da foto. Não pareço eu.
A entrevista está extraordinária, genial.
-Hegel dizia que a leitura dos jornais... -É a reza do leigo.
Sim. Que bobagem! Não leio nunca.
Vão fazer um monte de perguntas. Vão querer saber o que você teve.
Vamos nos ater ao que combinamos.
Do que devo falar?
Aqui está o discurso, é só ler. É um fórum da faculdade de Economia, cheio de jovens.
Falará um economista, um sindicalista... e um daqueles jornalistas que sabem tudo e não entendem nada.
E também Rezza, do governo.
Querem saber em que direção vamos... e se estamos dispostos a fazer um "mea culpa" pelo pacto social.
Acho que vou improvisar.
-É louco? -É o que dizem.
Aí está o Senador! É verdade que vai renunciar?
Leu as pesquisas, Senador?
Volta depois de uma misteriosa ausência e nos surpreende... propondo uma mudança de linha. É remorso pelo resultado desastroso do seu mandato?
-Uma admissão tardia de culpa? -De que jornal ele é?
Sou Corsini, me conhece muito bem.
Diga a verdade, alguma vez diz a verdade?
Como assim?
Eu apenas falei a verdade sobre o meu partido.
Escreveria a verdade sobre o seu editor?
Somos um jornal independente. É mesmo, no cabeçalho diz "independente". Mentem do começo ao fim.
Conhece o paradoxo do mentiroso de Epimênides?
Eu é que lhe fiz uma pergunta.
E demonstrei que não merece uma resposta.
Uma outra pergunta...
Não está muito pesada?
Vou pegar a chave com a vizinha.
Tome conta dele pra não arrumar encrenca.
Hoje vou falar...
O DESAFIO DO CRESCIMENTO
... sobre a catástrofe.
Um grande filósofo francês disse que a catástrofe... é o único recurso verdadeiro do sul.
Hoje vemos que se tornou...
O PACIENTE ERNANI NÃO APRESENTA MAIS NENHUM TIPO DE DELÍRIO...
E TERÁ ALTA DA INSTITUIÇÃO...
CONTINUANDO A TERAPIA COM LEMIDAL. -... nossa sociedade não parece... ter outro programa que não seja viver à beira de um abismo.
Só se fala de novas catástrofes, verdadeiras e supostas.
Vemos uma política e uma indústria que prosperam com as catástrofes.
Eu me pergunto como as pessoas podem tolerar tudo isso.
Aliás, começo a ter minha cota.
Mas, falando de catástrofes... gostaria de dizer uma palavra também sobre o meu partido.
Nós, que deveríamos ser os primeiros a nos opor a essa vertente... temos sido moles demais, incertos, indecisos, vagos, disponíveis.
Em uma palavra: cúmplices.
Está nos faltando uma voz clara!
Mesmo que alguém, esporadicamente, tentasse falar... as pessoas não ouviriam nada.
Garanto que, a partir de agora, não vai mais ser assim.
Estou aqui para que amanhã não se diga... que os tempos eram obscuros porque eles se calaram.
A mamãe disse que se conhecem faz tempo.
Sim.
Cerca de 25 anos.
Nos conhecemos em Cannes.
Era apaixonado por cinema também?
-Sim. -Eram namorados?
Olhe isto.
Meu pai disse que você ainda é apaixonado pela mamãe.
Que se vê pelo modo como olha pra ela.
Bom retorno!
-Tudo bem? -Bem, obrigado.
Vemos que está em ótima forma, que bom! É um outro homem.
Tão diferente que quando soube das suas críticas ao partido... duvidei que fosse de quem nos levou ao ponto em que chegamos.
E quem disse que sou a mesma pessoa?
Nolfo me ligou. Está preocupado com o nosso silêncio... e com os boatos que circularam sobre a sua ausência.
Sem a aliança com o centro de Nolfo as eleições estão perdidas.
Simplesmente.
"É primavera, sutis véus de neblina... circundam a montanha sem nome. É minha essa figura de costas que caminha na chuva?"
Olha ele!
Olá, Senador.
Bom retorno, Senador Oliveri.
Qual é a decisão do partido sobre a aliança eleitoral?
Faço a vocês uma pergunta:
Para derrotar esse governo, o pior da nossa história... é lícito aliar-se até com o diabo?
-Quem seria o diabo? Nolfo? -Não.
Falo do diabo mesmo, em pessoa. O diabo existe.
Mas este país de católicos sempre preferiu seus representantes.
Porém, temo que o diabo já seja aliado do nosso adversário.
De concreto, você vão fazer a aliança ou não?
O consenso é uma coisa séria. Não tem nada a ver com alianças.
A única aliança possível hoje é com a consciência das pessoas.
"É minha essa figura de costas... que caminha... na neblina?"
Na chuva.
-É uma charada? -É um Haicai.
Viu a Danielle?
Da edição? Lá em cima.
Obrigado.
Feche a porta.
Não pode ficar aqui.
Espere lá embaixo.
AS PALAVRAS NUNCA FORAM TÃO CLARAS
-Está bem, está elegante. -Obrigado.
Alô?
Alô?
O que é?
Só se ouve uma respiração. É você.
Olá, sou a Marà, Danielle me mandou.
Se quiser assistir, as filmagens vão começar.
Não faça barulho, não se mexa, ou vão descontar em mim.
Você vai ver, é uma cena muito especial.
Olá, Senador. Tem uma multidão lá fora.
Que bom!
Até logo.
Pare de me olhar assim. Alguém pode perceber.
Depois, aquela história terminou, não?
O que foi, Bottini?
O Presidente da República quer encontrá-lo na próxima semana.
-Não consegui evitar. -Tudo bem.
Terá que ir sozinho, é uma conversa particular.
Melhor ainda.
-Oi, Enrico. -Boa tarde, querida.
-Precisa de algo? -Não.
Estou indo embora.
-Até amanhã. -E os seus compromissos?
Hoje à tarde estou ocupado, cancele todos os compromissos.
Esta sede é horrorosa, quem a decorou assim?
O senhor! Ficou tão contente quando inauguramos.
Aonde vai com tanta pressa?
O senhor já foi jovem ou já nasceu assim?
Quem é?
Giovanni.
Bottini, eu lhe apresento meus amigos.
Tive um pesadelo, mas já acabou.
Obrigada.
Você tem filhos?
Não.
Sabe dirigir?
Sei. Por quê?
Preciso ir encontrar uns amigos, e vamos esquiar.
A mamãe pediu um motorista pra me levar. Você me leva?
Claro.
Pode apagar a luz.
-Boa noite. -Boa noite.
-Ainda vai ao cinema? -Não muito.
A última vez, foi há três anos atrás.
Vocês, políticos, não levam uma vida saudável. É verdade.
Tento assistir quatro filmes por semana.
Sua mãe era como você.
Esta semana eu assisti "E.T.", "Grandes Expectativas", "Avatar"... e "O Último Tango em Paris".
Esse é para adultos, não acha?
Eu sabia! Você e o sexo não se dão bem.
-Olá. -Olá.
-Sou a mãe do Simon. -Prazer.
-Está com a Hélène? -Sim.
Eu o conheço!
-Eu o vi na TV. -Deve estar enganada.
-Vou sentir saudades. -Eu também.
Boa viagem.
Tchau.
-Eu também! -Eu também!
Não, eu também!
Meu velho amigo voltou.
Fiquei com medo por você. E por todos nós.
Restamos poucos de nós com bom senso.
Só se vê covardes, ladrões e banqueiros por aí.
Como você bem disse, é uma catástrofe.
Mas nos pedem ações concretas.
O que você faria?
Eu não destruiria a dignidade de quem não sabe se defender.
Se a Europa e o mundo viraram uma venda miserável, quem nós somos?
Quem é o senhor, Presidente?
Não é culpa minha, é a política que desapareceu.
"Ser ou não ser, eis a questão." É melhor estar presente, como se já tivéssemos desaparecido?
Aonde vai?
Ou desaparecer completamente para tornarmos a ser?
Onde está?
Ele desapareceu!
Como se sente?
Não pergunte de mim, não vale a pena.
Fale alguma coisa de você.
Bom... Você viu, não?
O repouso fez muito bem ao nosso Secretário... e ele está subindo nas pesquisas.
Não brinque comigo.
Até outro dia, Oliveri era um peixe morto... agora é um tubarão que não poupa ninguém.
Não acredito em milagres.
Se eu contar, será o único a saber, além de mim, ouviu?
Se não confia em alguém neste estado, em quem vai confiar?
De fato, só vou contar a verdade porque você está morrendo.
Boa!
Estamos ferrados!
Justo hoje que a cenografia está sob pressão.
-O que aconteceu? -Michel se sentiu mal.
-Quem é Michel? -O assistente de contra regra.
Pronto, Enrico?
Um, dois, três...
Devagar.
Está bom?
Não achei que ia se sair tão bem.
Se quiser nadar comigo esta noite, tenho as chaves da piscina.
Mas precisa ser depois das 21h, quando não há mais clientes.
A embaixadora está esperando o senhor. É um grande prazer encontrá-lo... e trocar ideias sobre a situação difícil na qual nos encontramos.
Suas palavras, tão surpreendentes neste período obscuro... passaram a ser uma luz para nós.
Você é enigmático, sabia?
Como assim?
Parece sempre deslocado.
Nem sempre. Agora, por exemplo, aqui... eu estou bem.
Parece que perdeu alguma coisa.
O que fez no cabelo? Está grisalho.
Posso ficar?
Claro.
-Seus pés estão frios. -Como sempre.
-Fica bem de cabelos grisalhos. -É?
Dão um ar mais de filósofo...
-de poeta. -É?
-Imprevisível? -É, um pouco maluco.
Um visionário.
Oi, Giovanni, como vai?
Quieta!
Não tem nada pra me dizer?
-O que quer que eu diga? -O que está aprontando com a Marà?
Com a Marà? Não vou contar.
Não conte.
Devia se despentear um pouco, Bottini. Ficaria melhor.
De Bellis ligou.
Queria convidá-lo para jantar, depois do comício de encerramento.
Pra conversar um pouco.
O que o meu irmão faria?
Perceberia a armadilha e não iria.
Então, eu vou.
O que foi?
Cedo ou tarde, seu irmão irá voltar.
E ele não ia gostar, não é?
Não, não vai gostar.
Quero confessar uma coisa...
Só de pensar nisso me dá arrepio.
Eu votaria em alguém como o senhor.
E se sente culpado por isso.
Não se preocupe. Acontece.
Acontece quando se tem medo de ganhar.
Sejamos menos formais, Andrea.
Viu quanta gente?
Não se via uma multidão assim há anos.
Há uma palavra que me é particularmente valiosa... e que não está aqui:
Paixão.
Uma palavra-chave não só na política, mas também na vida.
Escute, estou falando diretamente com você.
Você diz: "Está ruim pra nós".
O escuro aumenta. As forças diminuem.
Depois de se trabalhar tantos anos, estamos, atualmente... em uma situação mais difícil do que quando começamos.
O inimigo está à frente, mais poderoso do que nunca.
Suas forças parecem ter aumentado, assumiu uma aparência invencível... e nós cometemos erros. Não se pode negar isso.
Somos sempre em menor número. Nossas palavras são confusas.
Uma parte das nossas palavras atingiu o inimigo, até torná-lo irreconhecível.
O que é errado, falso do que dissemos?
Alguma coisa ou tudo? Com que podemos contar ainda?
Somos sobreviventes arrastados pela corrente?
Ficaremos para trás, sem compreender mais ninguém... e por ninguém ser compreendidos?
Ou devemos contar com a boa sorte?
Isso é o que você se pergunta.
Não espere nenhuma resposta... além da sua própria.
Nunca o vi comer com tanto apetite.
Aliás, desde que o conheço, nunca o vi comer.
O que está acontecendo? Falou de paixão.
-Hoje até quase conseguiu me comover. -Teria sido um milagre.
Aonde quer chegar?
Este é um país cansado, podre, amedrontado.
Não podemos nos dar ao luxo de sermos ingênuos.
Eu poderia lhe ser útil.
Sozinho não sei o que acha que pode fazer.
Libertar os italianos do medo.
Do medo? Interessante.
E louvável.
Mas eu te conheço bem. Sei que essa súbita exuberância... esse discurso cortante e, admito, realmente eficaz... não é seu. Não está no seu DNA.
Como assim?
Um eminente político me falou uma vez da sua experiência com... certas substâncias químicas. Disse que eram uma ajuda formidável.
E que resolvem certos distúrbios de personalidade.
A mim parece que alguma coisinha forte, com certeza, você toma.
Por que não propõe um teste "antidoping"?
-Não tenho nada contra. -Ótima ideia.
Estou falando sério. O que tem por baixo?
Olhe, De Bellis, o que não entende é que está acontecendo algo muito maior.
Mas as pessoas entenderam muito bem.
Até os elefantes do partido sabem que a música está mudando.
Conforme-se.
-Com quê? -Desta vez, vamos ganhar.
Seu nome era Boca de Rosa Punha o amor, punha o amor
Seu nome era Boca de Rosa Punha o amor acima de tudo
Quando chegou à estação Na aldeia de Santo Hilário
Todos viram na hora Que não era uma missionária
Há quem faça amor por tédio Outros por profissão
Com Boca de Rosa não era o caso Fazia amor por paixão
Vá indo. Bertrand me pediu pra comprar uma caixa de tinta.
Sim?
Alô?
Quem fala?
Alô?
Alô?
Quem você é? Um vagabundo? Quer brincar?
Alô?
Alô?
Sou eu.
Como vai, Giovanni?
Tudo bem?
Queria te agradecer.
-O teu comprimido. -Já tomei.
-Quem era? -Quer sair? Está um lindo dia.
-Você pode? -Não.
Mas faz tanto tempo que não vejo o mar.
Onde está o Enrico? Enrico!
Onde ele está?
-Deve estar chegando. -Danielle, vá procurar.
Calma.
AS PALAVRAS NUNCA FORAM TÃO CLARAS
-Olá. -Quis fazer uma surpresa pra Danielle.
Como pode ver, autonomia zero. O ar do campo lhe fez bem.
-Sim, obrigado. -Vejo por que Danielle... se apaixonou por você. Você é outro homem!
Quero te mostrar uma coisa. Estava fazendo pesquisa para um filme.
Vem cá.
Sob que condições aceitaria abrandar a sua posição?
Sob nenhuma condição.
Não é uma questão de negociar, barganhar uma interrupção.
Não deve haver interrupção.
Portanto, é uma questão ética, moral?
Claro, e que diz respeito a si próprio... não só a nós, autores narradores de histórias por profissão... inventores de situações, personagens que não podem se sujeitar... a essa agressão contínua a essa velhacaria bárbara... e respeito a nós próprios.
Como alguém pode se respeitar recebendo bofetadas, cusparadas e insultos?
Como vê, Fellini foi o artista que mais lutou... pra que a indecência não se tornasse hábito.
Quando os canais de TV foram sondar a sua morte... sua verdadeira missão era anunciar o fim de um mundo... e o nascimento de um novo ciclo.
A política como invenção constante da realidade, como impostura.
Você me impressionou muito. É testemunha do fracasso que envolve todos nós.
Você corta a cebola?
Claro.
Vou fazer pilaf ao curry. É o prato favorito da Danielle.
Seu filme conta uma história?
Não gosto de filmes que contam uma história.
Oi, amor.
Tudo bem?
Encontrei no armário, ele tinha escondido.
Quem é ela?
Era a nossa namorada.
Não achei que ia ficar de novo no meio dos joguinhos de vocês.
Não deviam ter feito isso comigo.
Não foi ideia minha, foi ideia do partido em Roma.
Mas você deixou.
Talvez eu tenha errado em te ajudar.
Você me salvou.
Você me disse que não via mais seu irmão.
Não via há 25 anos.
-E você? -Não vi mais desde aquela vez.
-Desde Cannes? -É!
O livro foi a única mensagem que me mandou em todos estes anos.
Hélène me mostrou a fotografia que guarda de vocês dois.
Ela achou que era eu na fotografia.
E daí?
Você nunca se esqueceu dele.
Não.
Mas não me esqueço de ninguém.
Lembro de todos os homens que amei na minha vida.
Nem de você eu me esqueci, senão você não estaria comigo, agora.
Amei vocês dois.
Não acredito.
Mas é verdade.
Eu amava teu olho direito, e o olho esquerdo dele.
Giovanni? Giovanni?
Giovanni?
Giovanni, está aí?
Giovanni?
Andrea...
Anna, o que foi?
O que aconteceu?
Ele sumiu de novo.
Alô?
Andrea? Estava dormindo?
Não.
Onde se meteu? Viu as pesquisas?
Não.
Enrico está estraçalhando.
Quero ver a cara dos diretores dos telejornais amanhã.
Onde você está? O Presidente está a sua procura.
Andrea?
Estou ouvindo.
O que você tem? Sua voz está estranha.
Não tenho nada. Ele já está na cama, você o conhece.
Eu conto amanhã cedo.
Obrigado pela boa notícia, estou contente.
Tchau, boa noite.
Tchau.
Desculpa, estou exausta. Amanhã preciso estar no set às 6h. Vou dormir.
Boa noite, amor.
Em Roma, o comício triunfal de Oliveri, no qual recitou uma poesia de Brecht... inverteu a tendência e deu coragem e otimismo à esquerda italiana... para as próximas eleições.
"Querida Danielle, foi maravilhoso rever você.
Adorei ver o seu trabalho de perto.
Sua missão é bastante delicada: proteger a ordem dos acontecimentos... da superficialidade e insensatez.
Como sabe, não gosto de despedidas por isso, dê um beijo na Hélène por mim.
E abraços em todos os amigos da equipe.
Especialmente em Bertrand e Marà que me ensinaram muito.
E lembre-se de mim."
Quase me mata de susto! Droga, parecia morto!
-Bom dia, doutor. -Bom dia.
A LONGA NOITE ITALIANA ESTÁ ACABANDO
OLIVERI REACENDEU A ESPERANÇA DOS ITALIANOS
-É você, Andrea? -Onde se meteu?
Procurei você a noite toda.
Por que está me olhando assim?
Viu as pesquisas? Desta vez, vamos ganhar.
Pascal apostou na existência de Deus usando a probabilidade.
Nós políticos apostamos no senso da história.
Você preferiu apostar num maluco.
Deve estar cansado.
Por que não vai descansar?
Temos muita coisa a fazer.
VIVA A LIBERDADE
