A Dieta Mediterrânica - Alimentação Tradicional
A questão do ser ambientalmente saudável e ter uma base científica parece-me a mim que hoje é claro. Não podemos promover consumos alimentares que não vão deixar nada para os nossos filhos e os nossos netos.
Estas questões são centrais e eu gostava de lançar aqui um bocado esta ideia.
Que o nosso padrão alimentar tradicional do mediterrâneo, da bacia do mediterrâneo.
Foi e é, pelo menos aqueles que o mantêm assim, um padrão essencialmente de base vegetal.
A nossa tradição alimentar é uma tradição de base vegetal.
Aliás, as tradições de base vegetal, típicas dos países... não diria mais pobres, mas felizmente hoje já não somos assim tão pobres e ainda bem.
Acho que devemos evitar a apologia da pobreza, como um objetivo.
Por acaso, estas populações viviam em condições muito restritas de acesso à proteína animal.
Proteína animal sempre foi aquilo que todos aspiravam, porque era aquilo que era difícil.
E na bacia do mediterrâneo nunca houve proteína animal em grande quantidade, porque os animais eram necessários para o trabalho. Para cultivar a terra que por acaso era de muito má qualidade. E ainda por cima o clima não ajudava nada e portanto o animal era muito sagrado, nestes aspetos, mais um animal de grande porte.
Primeiro não havia pastos, não havia água suficiente para alimentar animais de grande porte
Quando eles existiam eram para trabalhar a terra e portanto os animais aos quais nós nos socorríamos, da tradição da dieta mediterrânica, eram animais de pastagem que andavam de um lado para o outro. Já agora, aqui uma notícia para os nossos colegas estrangeiros. Enquanto a maior parte dos países ocidentais tem os seus heróis guerreiros e tem nos seus heróis, homens lavradores, fortes.
Os nossos ou são poetas ou eram pastores, tipo Viriato. Não é?
Isso demonstra também a especificidade que nós temos do nosso país.
E temos que olhar para ela. Portanto, andávamos atrás do pasto, andávamos atrás da comida e portanto, isso significa que quando havia proteína em casa, essa proteína era muito bem tratada e preservada. Aliás, eu acho que os portugueses tratam muito bem a proteína quando ela existe. Basta ver a diversidade de enchidos e de produtos cárnicos que existe na nossa tradição alimentar. Que são formas muito inteligentes de tratar a proteína animal escassa. E pouco presentes na alimentação. Acho que há uma ideia estranha, às vezes, que o chouriço e os enchidos são de rejeitar.
Os chouriços e os enchidos, na maior parte da nossa tradição mediterrânica, eram para fingir a carne que ela não existia. E portanto, eram essencialmente, produtos aromáticos. Produtos que davam aroma quando não estava a carne presente. O mesmo se passava com o peixe salgado com o bacalhau, etecetera. Que eram fingidores de proteína animal que ela nunca existiu em grande quantidade na maior parte dos lares portugueses.
E portanto, eu às vezes quando dizem que à que rejeitar temos que ter algum cuidado.
Que estes produtos são a melhor forma de eu não consumir proteína em excesso.
Porque fingem a proteína, quando ela não existe e quando não tenho acesso ou quando ela é cara. E portanto, nós temos uma tradição alimentar muito rica de produtos hortícolas. Muito rica de produtos vegetais, muito sazonal.
Porque era o que a terra dava em função dos momentos.
Do ponto de vista ambiental, também muito adaptado à escassez de água e uma série de outras questões. E acima de tudo muito frugal.
E aqui a frugalidade não quer dizer fome. São conceitos distintos.
Frugalidade significa eu comer o suficiente. E a base também destes estudos, eu creio, que o professor Campbell poderá concordar, poderemos falar sobre isto.
A longevidade está muito associada ao evitar o excesso de energia para aquilo que necessito.
A célula quando tem energia a mais, de um modo geral, replica mais, trabalha mais tem mais risco de mau condicionamento. E de má transmissão entre informação genética de uma célula para a outra, para a sua replicação. Células com energia a mais de uma forma consistente, são células que estão e sofrem risco.
E quando não tem exercício físico maior é o risco, até porque aumenta a sua gordura.
Só para terminar, eu tinha mais slides mas vou só acabar com este e vou deixar o resto, depois para discussão. Há aqui outra questão muito interessante, na nossa dieta do mediterrâneo e que tem a ver com seguinte:
Tem a ver com o processamento mínimo dos produtos.
Não foi aqui muito discutido, mas se há uma diferença grande entre o consumo do sul e o consumo do norte, ou o consumo da China e o consumo do Ocidente é que tal como na China, em Portugal não havia muita floresta para queimar.
E como não havia muita floresta para queimar, nós tínhamos que preparar os produtos de forma relativamente rápida. E não atacar muito com temperatura os produtos.
E portanto, uma breve cozedura, e nós somos o país rei das cozeduras, uma breve cozedura nos alimentos permitia evitar contaminação bacteriana, mas depois o alimento ficava preservado às vezes em vinagre, outras vezes em limão. Numa série de produtos que acidificavam, a maior parte dos alimentos e isso impedia as temperaturas elevadas em contacto com proteína, que constroem uma série de ingredientes que são claramente tóxicos. Hidrocarbonetos, a maior deles aromáticos, com ciclos muito grandes.
Que são os grandes agressores da mucosa onde nós raramente tínhamos esses produtos.
Os chineses, com uma cultura ainda tão milenar como a mediterrânica, faziam a coisa ainda mais simples. Cortavam o alimento em bocados muito pequenininhos e bastava uma pequeníssima temperatura, que o alimento de repente estava cozinhado.
Porque evitavam grandes peças de carne ou de outros produtos a serem queimados durante muito tempo.
E o cortar, é uma forma também de trabalhar quando não se tem acesso à temperatura.
Estamos a ver que há aqui um conjunto de ingredientes, que eu diria que são comuns nesta nossa alimentação tradicional do mediterrâneo.
Com muito pouca utilização de carne e peixe, com utilização de grandes quantidades de vegetais. Vegetais que nós desaprendemos.
Eu gostava de dizer que nós desaprendemos a nossa cultura do vegetal, que desapareceu.
Só para termos uma ideia, hoje falamos muito dos alimentos ricos em ómega 3 e dos nossos peixes. Concordo em absoluto com a questão da suplementação, é completamente diferente um pescado natural produzido do oceano e um suplemento de ómega 3
Provavelmente, em termos de impacto na nossa saúde
E portanto, à que discutir estas questões.
Mas nós temos por exemplo, uma das principais fontes de vegetais de ómega 3, na nossa alimentação.
Que ninguém sabe. Aliás, arrisco-me a perguntar quem saberá que, a beldroega é um dos maiores fornecedores de ómega 3 na nossa alimentação. E que é um produto completamente anónimo da nossa alimentação e que uma ou outra pessoa gosta, por causa do sabor.
Mas não utiliza neste formato. Portanto, podíamos continuar aqui durante muito tempo a discutir estas coisas, mas como é que desaprendemos a proteção da nossa alimentação?
E como é que a temos que utilizar e reutilizar numa lógica que, só para finalizar.
Como é que nós podemos reinventar coisas que entretanto desapareceram. Não é?
Tudo o que tem a ver com a alimentação dos vegetais implica tempo.
E o tempo desapareceu da nossa vida. Para fazermos um bom produto vegetal é muito mais fácil fazermos um bom produto, com carne ou peixe, rápido.
E o sabor fica já lá, do que fazermos um produto com vegetais com qualidade.
Obriga-nos a conhecimentos, algum tempo. E esses conhecimentos e tempo são aqueles que não existem nas populações mais vulneráveis. E portanto, vale a pena depois debater como é que operacionalizamos algumas das ideias que estão aqui.
E que são muito interessantes. Bom! Eu vou dar... Vamos abrir o debate, certamente, há aqui muita gente, muito interessada. A sala está cheíssima, foi surpreendente a adesão.
