Entrevista com Mirian Bottan: restrição gera compulsão!
Oi, bem-vindo ao meu canal do Youtube, com mais uma entrevista incrível. É meu grande prazer de apresentar a Mirian Bottan,
O prazer é meu, Sophie.
Muito obrigada pelo convite, você é uma super famosa, do bem.
Então eu pensei: "Será que ela vai aceitar meu convite?"
Claro que veio de maneira super espontânea, então muito obrigada, adorei.
Imagina, para mim é um prazer estar aqui, até por que, vamos falar disso, mas... você faz parte da minha história de recuperação, né?
Então para mim é um prazer.
Estou toda vermelhinha de escutar isso.
(Música)
A Mirian é jornalista, e ela tem um projeto sensacional, é um dos perfis de Instagram para seguir, então eu vou enfatizar isso e insistir no resumo desse vídeo, para vocês conhecerem o trabalho da Mirian.
Obrigada!
E eu acho que você pode ficar à vontade aqui nesse canal para justamente contar um pouquinho da sua história e do seu projeto, então fique à vontade...
Tá... minha história... Vamos falar bastante, então!
Eu tenho uma história bastante longa, né Sophie, com transtorno alimentar.
Eu comecei a fazer dieta aos 12 anos de idade, e eu pesava 42 quilos.
Recentemente até eu publiquei no Instagram uma página do meu diário, de quando eu tinha 12 anos, falando que eu estava acima do peso e que eu tinha uma missão de emagrecer.
E que eu ia registrar minhas medidas para ir acompanhando, e aí está lá minhas medidas.
O que influenciou isso na época?
Porque... não quero divulgar a idade, mas...
Não tinha Instagram, e a gente está sempre falando em Instagram que incentiva, mas era uma queixa já da sua geração, da sociedade em geral.
Você lembra o que levou você a buscar emagrecer com 42 quilos?
Sim, na verdade Sophie, eu tinha...
Eu nasci em 86, né... Então assim...
- Poderia ser minha filha! - Sem problemas, sem problemas...
E aí nos anos 2000, nos anos 90, anos 2000, tinha bastante aquela coisa da modelo esquelética, né?
As super modelos esqueléticas, esse era o padrão.
Aquele magro doente, assim que a gente falava, que era o Heroin Chic até que eles falavam, enfim com a aparência como se usasse drogas, como se fosse...
E esse era o magro bonito, esse era o magro que as pessoas...
- Queriam... - Queriam, exatamente. É uma magreza pálida, meio doentinha, né?
Kate Moss, enfim...
E eu tive a infelicidade de ter uma experiência na minha infância que a gente nunca imaginou obviamente, meus pais nunca imaginaram que fosse ser tão nociva, que foi participar de concurso de beleza.
Muito cedo, comecei aos 5 anos de idade.
Então assim, eu era uma criança loira de olho azul, e aí as pessoas, enfim...
Uma criança que está dentro desse padrão, desse ideal estético, enfim, loira de olho azul já é o topo ideal estético. É como se fosse um bilhete dourado,
- Ganhou na loteria. - Exatamente.
Tem que usar, tem que aproveitar.
Então assim, eu também era uma criança esperta, eu aprendi a ler muito cedo, eu gostava muito de estudar, mas ninguém nunca chegou para minha mãe e falou:
"Coloca ela em uma escola avançada."
"Coloca ela para fazer um curso."
Mas para falar:
"Coloca ela em um curso de modelo."
"Coloca ela para desfilar."
- Todo mundo? - Aparecia estranho na rua, assim...
Podia ser familiar, amigos ou estranhos, né?
Tem aquele pessoal que fica caçando criança na rua, para fazer curso, fazer book, né?
Então me paravam na rua:
"Leva ela em tal lugar, leva ela para desfilar".
E aí, eu também criança, escutando isso de todos os lados, comecei a assimilar isso, comecei... peguei isso para mim.
Comecei a dizer que eu queria ser modelo.
E aí começou essa história, eu tinha 5 anos quando eu comecei a desfilar, e desfilei até os 12.
E aí o que aconteceu?
Nesse ambiente, já começa que... É óbvio, né? A gente já sabe.
Para ser modelo, não pode engordar.
Naquele momento, principalmente.
- O corpo vira central. - Exatamente.
Hoje em dia, não.
Hoje em dia, como a gente já tem os movimentos plus size e tal, já não está tão ligada essa coisa de ser modelo com ter um corpo tão magro.
Mas naquele momento, era.
Então pronto, já estava instalada essa ideia de que...
Com 12 anos você começou a escrever um projeto para emagrecer...
E tinha um outro elemento aí que era...
A minha mãe, ela emagreceu em um grupo de emagrecimento, que tinha... Eles faziam encontros semanais.
E aí esse grupo, ele convidava as pessoas que atingiam a meta de peso a serem orientadoras, a serem palestrantes desse grupo.
E aí isso aconteceu, a minha mãe, ela se tornou orientadora desse grupo de emagrecimento, então esse era um assunto muito recorrente na minha casa também.
Dieta, emagrecer, não comer entre as refeições, ter os horários certinhos, negar doce...
Era como se fosse uma vitória pessoal, tanto que eu tenho um caderno de redação de escola, que eu tinha que escrever uma história de superação, e eu escrevi uma história que era...
"De Aluno a Professor", era o título da história.
E era a história da minha mãe, depois de ter emagrecido.
Depois de ser aluna sucedida, virou professora.
Exatamente, e era a história de todo o emagrecimento, e era assim que eu via, porque...
Histórias de superação e sucesso para todo lado.
Emagreceu, é um sucesso.
"Nossa, olha que coisa maravilhosa!"
Então eu acredito que foram várias coisas.
Sem contar a cultura da dieta normal, do dia a dia, da família, que as mulheres da minha famiília também sempre falavam:
"Nós somos baixinhas, então quando você é baixinha, você não pode engordar nem 2 quilos porque já aparece".
E você vê, você começou... Você falou, com 12 anos, que é o momento, justamente, que a menina entra na puberdade, começa a ver o corpo mudar de um jeito que não é, necessariamente, fácil de aceitar, porque o corpo ganha curvas que é natural, normal, desejado. Mas que não é bem vivido, né?
Não, nesse momento é complicado.
E tem a questão da identidade, você está se afirmando, você está conhecendo a sua turma de amigos, e esses desfiles, eles tiveram, além da influência do ambiente, tem uma coisa muito esquisita nessa questão de concurso de beleza infantil, que é a sexualização infantil, né?
Então é um ambiente que procura crianças "bonitas", mas na verdade procura crianças que pareçam mulheres já.
Meninas que já pareçam mulheres.
E eu era uma criança muito magra, sempre fui.
Então eu não ganhava, porque apesar de eu ser "o ideal", loira, de olho azul... eu era muito magrela.
E a muito magrela não servia.
Então também foram golpes na minha autoestima em um momento que não era para ter.
Assim, dos 5 aos 12, era um momento que era para eu estar aprendendo coisas, me divertindo, né?
Aí foi assim a história, eu comecei a dieta aos 12...
Começando a dieta, eu comecei a compulsão.
Eu não tinha compulsão alimentar, aí quando eu comecei...
Então, restrição gerou compulsão.
Porque era assim, eu sempre comi tudo que tinha vontade, sempre respeitei os sinais do meu corpo, de repente eu não podia mais.
E eu nunca gostei de doce, Sophie, olha que coisa maluca.
Então quando eu era criança, eu não gostava de brigadeiro, não ligava, só bebia água, não gostava de refrigerante...
Não fazia falta.
Mas a partir do momento que eu falei: "Não posso!"
Aí virou... Mas sabe que isso é o que eu estou estudando?
Quanto mais você restringe, mais seu cérebro vai querer energia e recompensa, então mais ele vai querer carboidratos, acúcares e gordura.
Eu sonhava com comida, eu acordava de madrugada para comer.
Eu cheguei.. assim... muitas vezes já aconteceu nesse período que foi bem longo, de quase 16 anos, de eu acordar de manhã, e encontrar um monte de pacote aberto na cozinha, e não lembrar.
- E não lembrar... - Não lembrar de ter comido.
Então era uma compulsão bem forte...
Era bem forte porque era muita restrição, era muita.
Então a partir do momento que eu comecei a desenvolver a compulsão, nessa idade aí que eu estava bem...
Eu mudei de escola, então estava conhecendo amigos novos, estava meio perdida ali...
Já tinha uma autoestima muito abalada por causa dessa trajetória do concurso de beleza e tal.
Então nesse momento a compulsão virou minha válvula de escape.
Eu lembro de muitos momentos, assim, que até eu estou colocando no meu livro essas histórias que eu fui resgatando.
Por exemplo, um dia... eu voltava de ônibus escolar.
E aí o ônibus estava chegando perto da minha casa, e eu resolvi descer do ônibus antes do ônibus parar.
E aí eu não consegui e caí... Caí e "pá"!
Caí de cara no chão na frente de todo mundo.
Aí todo mundo: "Êêê..." Criança, 12, 13 anos...
E eu me lembro que cheguei em casa e a primeira coisa que eu fiz...
Peguei um saquinho de doce de leite, fui pro quarto, e comi de uma vez, assim.
- Pra aliviar essa dor, né? - É.
Foi a partir dessa idade que começou...
E com a ajuda da restrição, eu comecei a usar a comida como válvula de escape, e não só a comida como outras coisas, que na minha história são muitas compulsões.
Então assim, eu comecei a beber muito cedo, álcool.
Eu comecei a trabalhar com 16, 17 anos, eu gastava tudo.
Eu precisava de qualquer coisa que me desse uma sensação de prazer, de alívio...
Só que isso engoliu praticamente a minha adolescência inteira.
Sinto muito.
Mas hoje, significa tudo isso, esse trabalho, ele é importante porque eu olho para trás, e eu não vejo mais tempo perdido.
Eu vejo uma história que aconteceu, e que hoje pode servir, como serve, de exemplo para muitas outras pessoas identificarem que estão na mesma situação.
Exatamente, exemplo do que não fazer. É pegar isso como até alerta para os pais.
Seus pais não tiveram uma ideia do quanto esses concursos poderiam mexer em você.
Essa indústria da beleza, ela afunda um pouquinho essa autoestima porque é muito difícil sair dessa indústria ganhando autoestima.
Muito difícil... Sempre você vai...
Você nunca está à altura, né Sophie?
- Nunca é o suficiente... - Nunca é o suficiente!
Eu tenho amigas que foram...
Enfim, que também foram desfilar, foram fazer book.
Ou então tentar ser atriz, que em teoria nem teria a ver com o corpo, porque atriz...
A gente precisa de atriz de todos...
De qualidade humana, de personalidade.
Exatamente. E eu tenho amigas que foram em agências e a primeira coisa que escutou, é:
"Ah não, antes de tentar qualquer trabalho, precisa perder 8 quilos."
Sem saber o peso...
E aí a gente estava falando da impulsividade de adolescente, e eu me lembro, aos 15 anos foi a fase mais aguda do meu transtorno alimentar, que realmente aí... eu já estava em depressão, porque eu fiquei desnutrida, anêmica.
Pela desnutrição, meu cérebro foi afetado, e eu fiquei em depressão.
Perdi um ano na escola, fiquei 2 anos sm menstruar.
Enfim, toda a complicação, e eu me tratando, né?
Porque aí meus pais descobriram, perceberam, e me arrastaram para o tratamento porque eu não queria.
E os médicos me falavam:
"Você sabe que você pode morrer, né?"
"Se continuar desse jeito, você vai morrer".
E eu dizia para eles:
"Se eu morrer magra, está ótimo".
"Prefiro morrer magra do que engordar".
Nada importava mais, nada importava.
E isso aconteceu por muito tempo, assim...
Eu, nesse momento, comecei a tomar antidepressivo pela primeira vez, então melhorou.
Porque nessa fase eu chegava a ter compulsões oito vezes por dia.
Eu cheguei a sair do banheiro direto para a geladeira. É, porque era compulsão e depois, purgação.
Sim, e às vezes eu ficava o dia todo fazendo isso.
Então a gente teve um momento na minha casa que foi muito difícil porque...
Não é só a pessoa que adoece, a família inteira adoece junto.
- Com certeza. - Então, é...
Meus pais não sabiam o que fazer,
Porque eu comia tudo, eu comia tudo.
E aí a psicóloga dizia para eles:
"Tenta não interferir, não..."
Porque não adiantava, só piorava.
Então a gente fazia, eu gostava muito de fazer bolo, aí metade do bolo era para mim, e a outra metade do bolo era para eles.
Todo resto da comida eles guardaram...
Começaram a guardar na despensa, em casa.
E minha mãe andava com a chave no pescoço.
Ela estudava para concurso, ficávamos só nós duas na casa, era o dia inteiro, eu tentando roubar a chave, ou então roubar algum dinheiro da bolsa dela.
Era um comportamento de adicto mesmo, assim, Sophie.
Porque eu tentava... Qualquer dois reais que eu conseguisse pegar da bolsa dela, eu corria até a padaria e eu comprava todas as coisas mais baratas que eu conseguisse para comprar bastante.
E aí depois do antidepressivo, eu comecei a conseguir me sentir um pouco melhor, voltei a me alimentar um pouco melhor, mas sempre daquele jeito: frango, salada...
- Arroz integral! - Arroz integral!
Exatamente, escondia um pouquinho a comida, aprendi as técnicas na internet, escondia a comida embaixo da folha de alface, assim.
Você vê, a internet já está ajudando, felizmente.
Na internet tem de tudo, tem esse vídeo, que vai, espero, dar uma boa conduta de vida para quem está assistindo, mas tem também o pior.
As dicas para adoecer.
Tem, tem as comunidades de...
Eu nunca gostei muito, isso que é o mais louco, assim.
Eu acho que eu poderia ter ficado muito pior se eu gostasse desse conteúdo dos...
- Doentes... - Pró-doença.
Eu já achava uma coisa muito esquisita, assim.
Então eu imagino as meninas que acabam encontrando ali conforto, uma comunidade.
Exatamente, acho que tem a ver com comunidade, quem se sente sozinho, aí vai nesses blogues, e vê uma tribo para pertencer.
E é muito grave.
Por isso que eu insisto em falar, a gente ainda aqui no Brasil, a gente está começando a falar sobre isso agora, na verdade.
Então, você é porta-bandeira, hein. É, eu na verdade faço esse trabalho justamente, Sophie, porque eu adoraria ter encontrado alguém fazendo esse trabalho quando eu tinha 16 anos, porque eu procurava. Eu procurava "bulimia" lá.
No Cadê era ainda, não tinha nem o Google ainda.
Eu procurava "bulimia", e só encontrava esses sites de...
- De incentivo. - De incentivo, exatamente.
Ou então sites de médicos, profissionais, falando em termos muito técnicos, que eu não entendia, que não me conectava, que não falava comigo.
Então eu não ligava.
E aí eu vejo a importância, desde quando eu comecei...
Eu comecei em 2015, a primeira vez que eu escrevi um texto foi em 2015, quando eu ainda estava ortoréxica, né?
Porque eu tive uma segunda fase de transtorno alimentar, eu migrei.
Talvez explicar rapidinho o que é ortoréxica.
Então você estava com bulimia, compulsões e depois purgação, e aí você voltou a comer, as restrições diminuíram, mas aí entrou em uma fase de querer comer super saudável, tudo perfeitinho.
Depois desse período agudo, diminuíram as restricões, mas flutuava, elas aumentavam quando eu estava meio deprimida, tinha dado alguma coisa errada no trabalho, ou na vida pessoal, então...
Era uma montanha-russa minha vida dos 16 até os 26,
10 anos, tinha fases que eu estava melhor, mas nunca...
Acho que o melhor que eu conseguia fazer nessa fase era passar 2, 3 dias sem vomitar.
Ou, já perto de quando eu busquei o tratamento, quando eu comecei a fazer aquelas dietas de proteína.
Que foi o que acabou de acabar com a minha saúde mesmo, porque imagina, nesse período todo, de 10 anos, meu corpo já tinha se consumido, bastante.
Eu não tinha músculos já, eu estava com uma estrutura muscular bem debilitada, e aí essas dietas acabaram... Eu fiz duas vezes seguidas, fiz um mês, aí dei um tempo e fiz mais um mês.
E aí acabou, realmente fiquei bem... bem debilitada.
E aí eu fui buscar ajuda, na verdade, não foi nem por causa da comida, foi por causa da bebida.
Porque daí em uma dessas fases que as coisas estavam...
Não estavam muito boas, eu fiquei desempregada, e aí eu não conseguia, conseguia um frila aqui, outro ali, aí eu já estava vivendo com meu namorado, ele que estava pagando as contas, eu fui ficando nervosa porque eu não conseguia trabalho.
E aí eu voltei, aos 26 anos, para a mesma rotina que eu tinha aos 16.
Então eu ficava em casa, comendo e vomitando o dia inteiro, só que com um agravente: eu comecei a beber em casa.
Nesse ano, que foi 2013, eu comecei a beber assim, uma taça de vinho, aí dava uma relaxada, parecia que não era tão grande o problema, né?
Aí no outro dia, duas taças de vinho, fui aumentando, fui tomando uma garrafa sozinha.
Quando eu percebi, eu já estava muito em casa, com fobia social, deprimida de novo, e aí, para começar a sair, teve um dia que me fez começar a tomar bebidas mais fortes.
Foi um dia que eu tinha que sair, e eu cheguei no portão, e eu não conseguia, meu coração disparou.
Porque eu tive pânico também nesse período de 10 anos...
Não, mas vai junto. E a gente vê depressão, ansiedade, crise de pânico, tudo associado à restrição, à carências e uma relação doente com a comida.
E aí eu cheguei, em 2013, cheguei na pior situação que eu já tinha chegado, que foi da bebida.
Então teve um dia que meu marido saiu para jogar pôquer, que ele joga com os amigos dele e tal, eu fiquei sozinha em casa, e eu não sabia o que fazer com meus pensamentos, com esse medo, com essa angústia.
E eu bebi meia garrafa de Fernet, que é uma bebida argentina, ele é argentino, que tem o mesmo teor alcoólico da vodca.
E aí eu fui buscar ajuda depois desse dia, que eu bebi, assim, acabei bebendo muito em casa, e acordei no outro dia muito assustada.
Eu percebi que não dava mais, Sophie, porque...
Eu fugia do tratamento, na verdade assim...
Eu mesma voltei a procurar o tratamento aos 20 anos, mas eu não entendia o que era o tratamento, eu não entendia. Faltava a linha de nutrição que me explicasse como voltar a comer.
Porque uma coisa que me atrapalhava muito, por exemplo, era: eu ia na psicóloga, e aí eu ia em um nutricionista, ele me dava uma...
Eu contava lá, meia hora, toda minha história com bulimia, de 10 anos, 12 anos, e aí ele me dava um cardápio.
Então você vai comer isso aqui, isso aqui, isso aqui...
Eu olhava aquele cardápio e eu pensava:
"Como eu vou fazer isso? Não vou conseguir!"
Então você já sabia que isso não ia funcionar.
Sim, ninguém nunca me explicou que a restrição, por exemplo, me atrapalhava e gerava compulsão, né?
E aí a gente tem hoje em dia...
Fala isso alto aqui: restrição gera compulsão.
A gente continua falando.
Infelizmente no Instagram tem cada vez mais blogueiros dizendo o contrário, mas não! É, tem gente que não acredita, mas foi esse conhecimento que mudou a minha vida.
Depois que eu busquei ajuda psicológica, eu estava muito... eu não tinha resistência.
Teve um dia que eu saí, fui ao mercado com meu namorado, e a gente subiu uma quadra, uma subida, e eu cheguei muito cansada, e eu falei:
"Gente, não é possível, com essa idade?"
"Eu preciso procurar ajuda, preciso fortalecer o meu corpo".
Então o que eu encontrei? Uma nutricionista esportiva.
Porque eu não sabia, até então, que tinha um outro tratamento, específico, uma outra abordagem.
Especializado.
E aí nesse processo, como eu já estava muito cansada, eu resolvi tentar, e ela me disse o seguinte:
"Olha, a gente tem que refazer a sua massa muscular, que você já perdeu quase toda, então para isso você vai ter que comer. Você confia em mim?"
Eu falei: "Ah, vamos lá. Eu não aguento mais".
Já eram muitos anos, né?
E aí eu comecei a treinar, e a tentar seguir um cardápio que tinha bastante comida.
E aí o que ela me falou? Isso foi o que me ajudou muito.
"Se você tiver uma compulsão e acabar vomitando, você come depois alguma coisa leve e bola pra frente.
Não fica presa nessa recaída, não fica presa no que aconteceu, bola pra frente."
E uma outra coisa muito importante, que foi: ela tinha uma lista de alimentos que eu podia comer, e não era dia do lixo, era assim... quando eu quisesse.
Então eu podia comer chocolate, eu podia comer linguiça, sorvete...
E isso me ajudou demais. A partir daí começou a espaçar as recaídas, que eram diárias, aí passaran a cada 2 dias, 3 dias, aí uma vez por semana, até que a gente chegou em duas vezes por mês, duas a três vezes por mês.
E nesse período meu corpo se transformou, realmente, eu ganhei 5 quilos de músculo e eu perdi bastante gordura.
Eu estava com 25% de gordura e fui para 14% de gordura.
Foi nesse monento que eu fiquei bem seca, mas para chegar...
O que não é saudável, hein, 14% de gordura...
Não, principalmente para mulher.
Para mulher é uma porcentagem que geralmente vem junto com falta de menstruação, irritação, nada de libido...
Exatamente, e eu queria chegar em 12%.
Meu planejamento era chegar em 12%.
Mas aí o que aconteceu? Nesse meio do caminho, conforme eu percebi que estava funcionando, assim...
Eu queria ficar magra, mas era sempre de um jeito sem comer.
E aí pela primeira vez eu podia comer, meu corpo estava ficando de um jeito que eu queria, estava ganhando músculo, mas aí o que aconteceu?
Aí foi que eu fui cada vez fechando mais o caminho.
"Olha, se está dando certo, eu quero ganhar mais músculo, mas para eu ganhar mais músculo sem ganhar gordura, então eu preciso tirar o açúcar".
E aí eu fui, de novo, sozinha...
Mas dessa vez não era pelo peso, era mais para ganhar corpo?
- Isso. - Você vê? É outro motivo. É por isso que é mais ortorexia?
Exatamente, foi uma mistura de ortorexia com vigorexia.
Eu queria ganhar músculo e queria comer perfeitamente para não ganhar gordura.
Mas você aceitava comer?
Eu aceitava comer.
Isso foi o que transformou muita coisa nesse começo.
Então assim, eu já passei a ter uma vida mais normal, eu fiquei saudável, porque eu estava anêmica, né?
Quando comecei a fazer o tratamento, estava anêmica.
Então melhorou minha saúde, melhorou muita coisa.
Mas, de novo, começou a piorar a minha vida, em outros aspectos.
Eu cheguei a levar marmita na pizzaria.
- Ah não, ninguém merece. - Muito triste isso mesmo.
Hoje quando eu lembro, eu fico pensando...
Mas sabe, vou te dizer, melhor ir na pizzaria do que ficar em casa também.
Sim. Também. Sem dúvida.
Porque dois anos antes eu não teria ido.
Foi uma fase que eu ainda não entendi, o problema era que a minha cabeça ainda não aceitava que eu não precisava de um corpo "perfeito", perfeito com muitas aspas, para ser feliz.
Mas eu já estava evoluindo, já estava me transformando, estava melhorando minha relacão com a comida, porque antes eu não me permitia comer arroz, por exemplo.
Sophie, eu passei 10 anos sem comer arroz!
Eu só comia arroz se eu fosse vomitar.
Então, daí nesse momento do treino, eu comia 12 colheres de arroz na janta, que era uma coisa assim, inconcebível antes para mim.
Então era uma melhora. Mas de novo eu fui voltando, fui restringindo restringindo, e aí quando eu fui restringindo, eu comecei a perder o controle com as coisas que eu restringia.
Começou a aumentar a compulsão, que estava duas a três vezes por mês, às vezes...
Voltou a ser um pouco mais de uma vez por semana e sempre com as coisas que eu não me permitia comer.
E aí foi que eu comecei a olhar em volta e entender que não estava legal, porque eu brigava com meu namorado se ele colocasse manteiga na carne.
A gente foi viajar, e fizemos uma viagem que a gente tinha que economizar.
Para economizar, a gente tinha que comer lanche ou pizza.
E eu não permitia. Então eu quebrava a parceria com meu companheiro, um acordo nosso, econômico, para a gente conseguir realizar um sonho, porque primeiro, antes de tudo, era o corpo.
Então nesse momento eu percebi que não estava saudável.
Eu achava que estava saudável, mas não estava.
E aí foi quando eu descobri a palavra ortorexia, pesquisando na internet, na verdade foi sem querer, eu vi um texto sobre ortorexia, e aí eu descobri, eu li aquilo e falei:
"Bom, sou eu."
E foi nesse momento que eu conheci seu trabalho.
Ah que legal!
A partir daí, procurando...
Comecei a pesquisar muito sobre ortorexia, e como eu saio disso, então?
Se não é dessa forma, se não é comendo bem e treinando, se não é, como é?
E aí foi que eu entendi a questão de se permitir os alimentos que a gente gosta, né?
E fui fazendo esse exercício de recolocar, aos pouquinhos, na minha dieta... isso durou um ano!
Foi durante todo o ano de 2016, que eu fui me permitindo, aos pouquinhos, voltar a comer.
Eu lembro até hoje, não esqueço o dia que meu namorado falou:
"Vamos pedir um hambúrguer?"
E eu falei: "Vamos!"
Como se tivesse fazendo a coisa mais corajosa do mundo.
Porque realmente não fazia, não tomava uma cerveja com ele, era o fim, não podia.
Então, nesse... Durante 2016 meu corpo foi mudando, né?
Aqueles 14% de gordura não dá para manter comendo as coisas que a gente gosta.
- Não, mas nem é saudável. - Exato!
E isso até que eu acho interesante, é que seu corpo, ele só quer melhorar.
Então se você começar a dar para ele o que ele realmente precisa, ele vai no sentido da saúde.
Vai! E aí aconteceu um processo que eu também só fiquei tranquila por acompanhar seu conteúdo, e conteúdo de outros profissionais, depois que eu fui descobrindo com o tempo, que é o seguinte: eu voltei a comer, por exemplo, doce, né?
Como eu falei, meu namorado é argentino, alfajor é uma coisa que não falta na minha casa.
Doce de leite, né?
Então quando eu comecei a me permitir, eu não conseguir comer um, eu comia dois.
E aí às vezes eu comia, durante uma semana, eu comi dois, assim, toda noite.
E aí às vezes eu me sentia mal com isso. mas eu li que isso era normal, que isso era comum, que podia ter um descontrole.
E esse descontrole, ele aconteceu por uns três meses, mais ou menos.
Até um dia, muito mágico, que é outro dia que eu nunca vou esquecer na minha vida, que ele virou para mim e falou: "Você quer um alfajor?"
E eu falei: "Acho que não."
Não estou com vontade. É aí que vem o segredo maravilhoso da permissão.
Quer dizer, eu posso. Mas será que eu quero?
- E aí muda tudo. - Exatamente.
E era uma coisa, Sophie, que eu nem sabia mais como era.
Eu não sabia falar não.
Eu não sabia falar, não porque eu não queria, falava não porque eu não podia.
Você vê, essa permisão, ela muda tudo.
E ela te dá muita liberdade.
Porque a partir do momento que você se permitia comer, aí você podia sim ou não, e de uma maneia tranquila, sem fazer esforço, não é uma guerra contra você.
E aí essa é a parte que eu me esforço muito para explicar, e contar, porque é difícil explicar para quem nunca viveu.
Se alguém me falasse antes que seria assim, eu ia falar: "Você está doido".
- "Eu não". - "Comigo não, é impossível".
Eu tenho pacientes que falam: "Nossa, Dra. Sophie, agora que você me permite comer chocolate,
(olha o meu poder), eu não quero mais".
"Você me dá a possibilidade de comer chocolate, mas não quero mais."
Eles vão além, eles falam:
"O que você fez no meu cérebro?"
Como se eu jogo um pó mágico.
Eu falo: "Eu não fiz nada, você que se permitiu comer".
Tem uma coisa que é legal de falar, assim, tem muito essa ideia, essa história, de normalmente profissionais de dieta restritiva, costumo falar paras pessoas, que se você começar você vai abrir a porteira lá, e não vai conseguir controlar.
Então você não pode começar.
E era o que eu fazia, na fase ortoréxica eu dizia para o Nano:
"Esconde de mim."
Ele escondia os doces que a gente trazia da Argentina, e o que acontecia?
Ele saía de casa, eu passava três horas procurando o doce na casa.
Eu deixava de trabalhar para ficar caçando onde ele tinha escondido o doce.
E depois desse momento que eu passei a me permitir, pode estar em qualquer lugar.
E esse ano, eu até gravei pro pessoal, que foi a primeira vez desde a minha infância que eu esqueci um ovo de páscoa na geladeira.
Ficou um ovo de páscoa um mês na geladeira, que é uma coisa que não acontece.
Eu até falei, gravei as Stories, e falei:
"Gente, quem tem compulsão sabe do que eu estou falando."
Não acontece de você esquecer.
O fato de se permitir não é uma coisa intelectual de "a partir e hoje vou me permitir".
Você tem que sentir de dentro, seu animal tem que saber que é permitido. É um exercício que não para.
Então até hoje eu presto atenção, para ver se eu não estou, de repente até sem querer...
- Fazendo uma restrição. - Exatamente.
A luzinha fica sempre acesa ali.
O que você vai ganhar ao longo desses anos, porque é relativamente recente, é uma confiança de que a Mirian é capaz.
Sim.
Essa confiança é só você que vai conseguir adquirir, ao longo do tempo, mas você está cada vez reforçando isso.
A gente não tem noção, né Sophie, essa é a parte mais difícil de explicar, do inconsciente, a gente não conhece o inconsciente.
Então a gente brinca com o inconsciente.
Essa coisa de se proibir, né, às vezes a pessoa fala:
"Se eu não me proibir, eu não vou conseguir".
E ela não está enxergando que tem uma outra parte trabalhando por trás que não depende....
O que chamo de inconsciente, chamo também de animal.
E quando a gente não respeita nosso animal, a gente fica em guerra contra nós mesmos.
E quando você está em guerra contra você, ninguém ganha porque é você contra você.
E você adoece.
- Muito obrigada. Adorei. - Eu que agradeço.
Nós vamos continuar, na próxima entrevista, sobre um trabalho lindo que a Mirian está fazendo, que estou acompanhando e vou torcer para sair quanto mais cedo, é de utilidade pública.
- Até logo. - Até mais.
(Música)
