GREG NEWS | DAMARES
Damares.
Hoje a gente vai começar o programa fazendo aquilo que o PT não fez.
Autocrítica. Além da frente ampla, que também não fez.
E da politização da classe média, também era importante ter feito.
E o kit gay também.
Teria sido super útil ter um kit gay.
Uma regata, um bigode e um chinelo rider.
Sim, porque o gay de 2020 é o açougueiro dos anos 90.
Mas vamos voltar à nossa autocrítica antes que a gente faça o esporte preferido da imprensa, que é a autocrítica dos outros.
A gente vai fazer aqui um mea culpa. no Greg News, nós sempre tratamos Damares como uma piada, que, na verdade, é um meia culpa porque a gente nunca disse que ela era uma piada engraçada.
Damares sempre foi uma piada do SBT.
Aquele personagem da Praça É Nossa.
Não parece? Qualquer momento ela vai olhar para a câmera e falar:
"Menina veste rosa".
Dá sempre pra imaginar do lado dela vai ter o Carlos Alberto da Nóbrega:
"Ô Damares, deixa disso, Damares.
Essa Damares. É cada uma que me parece".
Olha o que a gente já falou sobre a Damares aqui no programa.
Mas, minha função aqui não é divertir ninguém.
Isso eu deixo com a Damares.
Afinal de contas, esse governo tem uma ministra do alívio cômico.
Eles mandam ela assim:
"Tá muito chato esse papo de reforma da previdência, solta a Damares!"
Vai, solta a Damares.
Solta a Damares. É sério, solta a Damares.
Tem a Damares, que é a ministra favorita do Greg News.
Eu to mostrando esse vídeo pra provar que eu não sou a única coisa que envelheceu mal nesse programa, minhas piadas também.
Mas sério, olha essa cútis de quem abraça gente na rua, de quem não tem medo de perdigoto.
Esse colágeno dessa pessoa que nunca ouviu a palavra comorbidade.
O sorriso de quem nunca fez uma reunião por zoom. de quem tem uma creche funcionando.
Ano passado, quando o governo Bolsonaro começou, era comum a gente ouvir que o papel da Damares era ser uma distração.
De que ela levantaria uma cortina de fumaça enquanto ministros mais "sérios", como o Guedes e o Moro, moviam-se sem que ninguém percebesse. principalmente o Moro que, inclusive, fala sem que ninguém perceba, ele não mexe a boca, não sei se vocês já viram.
"Nós temos que ver a questão dos conjuges, todos os conjuges..."
O governo Bolsonaro tinha um plano meio Pinky e o Cérebro, sabe?
Não sei se vocês lembram, tinham uns planos tipo:
"Pinky, você vai lá e distrai eles falando bobagem, enquanto eu domino o mundo".
Pra quem não lembra do desenho animado, são dois ratos querendo dominar o mundo, mas como diz a canção, um é um gênio, o outro um imbecil.
A gente sempre achou que o Pinky seria a Damares, né?
Até porque as meninas vestem pink.
Mas, o que a gente tá vendo é que ela é o Cérebro.
Sim, ela é o gênio.
Talvez porque em volta dela só tenha imbecil,
Mas, também porque ela, sim, é quem tá colocando em prática um plano pra dominar o mundo.
Pra se convencer disso, é só entender quem é Damares e de onde ela vem.
Pra entender Damares, tem que tá moleque.
Damares nasceu no paraná, ela é mais uma contribuição do Paraná pra política brasileira.
Ela é filha de um pastor evangélico da Igreja Quadrangular.
A Igreja Quadrangular, que é a tradução em português de The Foursquare Church.
Tradução errada, aliás, tá?
A Foursquare Church em português claramente tinha que chamar "Igreja do Quadradinho de 4".
E o que seria essa igreja com nome de torneio?
Seria uma igreja em que 4 pastores se enfrentam e ganha quem tiver mais pontos corridos? Não. É uma igreja fundada nos Estados Unidos depois que sua criadora recebeu a visão do evangelho quadrangular, que tem como seus quatro símbolos: a cruz, a pomba, o cálice e a coroa.
Essa visão que ela recebeu mostra que Deus usa Windows 95, porque o símbolo da igreja parece um clip art, tá vendo?
Deus quando abre uma porta, fecha um windows, provavelmente.
Quando o culto dela começa tocar provavelmente, eu acho, que eles devem ouvir essa música aqui.
Amém, Senhor.
O pai da Damares foi um missionário que abriu mais de 100 templos em vários estados do Brasil, então, ela passou a infância viajando o país, enquanto o pai espalhava o evangelho e coletava dízimo, afinal templo é dinheiro.
Damares morou na Bahia, em Alagoas, no Sergipe, no interior de São Paulo.
Depois que cresceu, virou pastora também.
Ao mesmo tempo, ela estudou direito e pedagogia e assim aprendeu os jargões da lei e da educação.
Com essa formação ampla, ela foi parar no congresso, onde ela ficou por mais de 20 anos trabalhando como assessora parlamentar de políticos da bancada evangélica, como o também pastor e cantor gospel Magno Malta, do Espírito Santo.
O trabalho dela era traduzir as convicções religiosas de Malta em linguagem jurídica e política.
Nesse governo cheio de novato, a Damares sempre foi uma raposa velha que domina as engrenagens do congresso e o diálogo com o baixo-clero.
A gente sempre tratou ela como uma outsider, quando ela é uma das mais experientes operadoras do governo, segundo ela própria.
Eu sou pastora evangélica, mas também sou jurista.
E há 14 anos eu estou ali...
Estava nos bastidores do Congresso Nacional assessorando os parlamentares cristãos, não só os parlamentares evangélicos, mas os parlamentares cristãos, na construção de boas leis, e também ajudando a derrubar as péssimas leis e na fiscalização de políticas públicas no Brasil.
Você provavelmente não conhecia esse vídeo da Damares séria.
Porque a competição de vídeos da Damares é árdua.
Como esse vídeo vai bombar?
Ela não tá gritando que o Aladdin é gay nem que a Cinderela é drogada.
Sim, porque essa coisa de carruagem virar abóbora, isso é ketamina.
Meia noite acaba, você descobre que o negócio é um rato, é um negócio deprimente.
Enfim, ela tá dizendo uma coisa bem mais grave.
Ela está dizendo que ela tá há anos, que ela está, no caso, desde o governo Fernando Henrique, que ela já trabalhava no congresso pra que a religião defina as leis do Brasil. É isso que ela fazia.
Além de assessorar pessoalmente parlamentares cristãos,
Damares também criou uma organização inteira dedicada a fazer a mesma coisa: É uma associação de juristas evangélicos chamada Anajure.
Não, não é aquela música do Los Hermanos. Ô Anajure.
Se você não sabe o que é a Anajure, você não sabe o que é sofrer.
Vou parar, perdão.
Vou parar, vou parar, é só que me atormenta a previsão do nosso destino.
A Anajure foi criada em 2012 e dedica-se, em grande parte, a prestar serviços de assessoria parlamentar.
Pra se filiar à Anajure, juristas como a Damares tem que fazer um juramento que inclui esse trecho aqui:
"Reconhecemos que a Bíblia é a palavra de Deus, divinamente inspirada, inanerrante, infalível, verdadeira, sendo ela nossa única regra de fé e conduta."
Se você achou estranha a palavra inanerrante é por um motivo: é porque ela não existe mesmo.
A gente checou, e não é que não existe no Houaiss ou no Aurélio, não existe no Google.
O único lugar que tem a palavra inanerrante é no site da Anajure.
Quem escreveu isso errou, provavelmente por não ser inanerrante.
Deus pelo jeito escreve certo por palavras que não existem.
Mas o assustador aqui é que eles se dizem juristas, mas afirmam que a única lei que eles seguem é a Bíblia, e não a lei mesmo.
E é por isso que eles se dedicam a fazer com que a lei do país fique cada vez mais parecida com uma interpretação rasa da lei de Deus, que é, basicamente: "Comer camarão? Não pode. Comer a irmã? Pode.
Tá na Bíblia, gente".
Na sua atuação, a Anajure parece ter duas bandeiras principais.
O combate ao aborto e à ideologia de gênero.
Como já discutimos aqui no Greg News, ideologia de gênero não existe, é um slogan, é um golpe de marketing. É uma expressão-balaio, que quer dizer muitas coisas ao mesmo tempo, desde homossexualidade até pedofilia, necrofilia, sexo com animais, enfim. É um fantasma inventado pela igreja católica pra criar pânico social.
Nessa mitologia, criada pelo cardeal Ratzinger, antes de ser papa, o objetivo da ideologia de gênero seria destruir a família.
Isso é mentira. a gente sabe que o que destrói a família é grupo de whatsapp.
E a Flordelis também destrói a família dela, no caso.
Depende do quão radical é o seu projeto de destruição da família.
Desde então, o termo "ideologia de gêneros" foi apropriado também por lideranças evangélicas.
Olha a Damares explicando como a ideologia de gênero está sendo usada nas escolas.
Fizeram um congresso recentemente, depois tiveram no Congresso Nacional e disseram que no Brasil estão catalogadas 70 identidades de gênero, consegue entender isso?
-Setenta? -Setenta!
Aí os professores, os educadores, em sala de aula, estão dizendo o seguinte:
"Você não é menino, escolhe uma das setenta".
Consegue entender a confusão?
Consegue entender que os meninos e adolescentes estão confusos, e por conta disso estão se suicidando, estão se cortando, estão em depressão.
O que a Damares faz aqui é fundamental pra entender como ela atua.
Reparem que ela tem um método.
Ela começa com uma premissa falsa de que crianças de 3 anos estariam sendo obrigadas a escolher entre 70 opções de identidade de gênero na escola.
Como se tivesse jogando Pokemon Go, e tivesse uma infinidade de pokemons para ela escolher, e ela é obrigada a escolher um só pro resto da vida.
Isso não existe, isso nunca existiu.
O plano nacional de educação sequer prevê o ensino de identidade de gênero, muito menos obrigar uma criança tão pequena a escolher entre 70 possibilidades. Isso não existe.
Só que depois dessa premissa falsa, ela tira também uma conclusão falsa de que a variedade de gêneros está levando pessoas ao suicídio.
O que também é mentira, obviamente.
As pesquisas mostram que é justamente o sofrimento por não poder questionar uma identidade imposta que causa depressão e morte.
O que acontece? O método de Damares consiste em fazer a gente questionar somente a conclusão, mas não a premissa.
Daí a gente começa a defender a liberdade que os jovens e adultos devem ter pra afirmar sua própria identidade.
E a gente acaba esquecendo de dizer que a escola não está dizendo pra criança nenhuma que ela "não é menino".
Quem tá dizendo isso é a gente, pro Bolsonaro, que não é mais menino, que tem que saber afinal de contas estão depositando 89 mil reais na conta da esposa dele, mas enfim...
Ela tem um método argumentativo que é baseado no "daqui a pouco", eu gosto mais de "daqui a pouquismo".
O "daqui a pouco" é um conectivo que ela usa pra relacionar coisas que não tem a menor relação.
Tipo: "eles estão distribuindo kit gay, daqui a pouco tão comendo seu cu".
Oi? Qual é a relação?
Você fica tão perplexo que esquece de explicar que não estão distribuindo kit gay porque logo depois ela disse um absurdo maior.
Então, o quê que ela faz? Ela inventa uma resposta falsa pra uma pergunta falsa.
Todo o mundo sabe que a pergunta deveria ser:
Por que é que o Queiroz depositou 89 mil reais pra Michelle Bolsonaro?
Mas a Damares, ela vai além.
Essa gravura aqui.
Não sei se vocês já viram essa gravura, se chama O Fazendeiro Solitário.
Ela estava numa prova de criança, de história… De português, na cidade de Curitiba.
A criança tinha que ver essa gravura e fazer uma redação.
Dá uma olhada na gravura, irmão, não ri não.
Não ri não, porque isso é sério.
Que dá vontade de rir, dá, mas que é sério, é sério.
Olha o tamanho do órgão sexual do fazendeiro solitário e olha como é que estão as galinhas.
Apologia ao sexo com animais.
Vocês acham que um professor tem que mostrar isso pra criança e mandar a criança escrever uma redação?
De que há sexo com animais?
De que é normal sexo com animais?
Essa imagem realmente circulou numa prova, numa imagenzinha de 5cm, uma única escola que o professor se enganou, ele procurou, provavelmente, fazendeiro no Google e botou aquilo sem querer.
Se enganou, ele pediu desculpas, inclusive.
Ele não mandou os alunos escreverem uma redação dizendo que zoofilia é normal, entendeu?
Ele não disse isso. Todo o resto não existe.
Então, assim, pelo amor de Deus, a gente acaba esquecendo de dizer que zoofilia é um negócio que existe, tanto existe, sim, e existe um problema sério disso.
Inclusive existe uma pessoa que já assumiu publicamente, e com um detector de mentiras, que fez sexo com animais.
E não foi o professor do seu filho de três anos, não, foi o presidente do seu filho de três anos.
-Você já comeu um bichinho? -Que bichinho?
Um bezerrinho, uma vaquinha, cavalinho.
Olha, ir atrás de galinha no galinheiro, todo mundo ia na minha cidade, entendeu?
Alguns mais malandros iam na bezerrinha, na jumentinha, tá certo.
Era comum, naquele tempo não tinha mulher como tem hoje em dia.
Tinha mulher, mas a mulher não...
Por que a galinha atravessou a rua?
Pra não encontrar o Bolsonaro.
Sim, não sei se vocês ouviram tudo, mas o Bolsonaro procurava galinha porque não conseguia mulher.
Isso foi o termo que ele usou. É engraçado que ele mesmo diz que os mais espertos iam atrás de cabra, ou seja, até entre zoófilos ele é incompetente. É muito triste isso, esse é o nosso presidente.
Eu tenho muita pena da galinha.
Porque a gente sabe que não é fácil namorar o Bolsonaro, daqui a pouco tá todo o mundo te perguntando por que o Queiroz depositou 89 mil reais na sua conta, Galinha?
A galinha, tadinha, não tem nada a ver com isso.
Mas voltando à Damares, ela encerra seu pânico moral jurando que todos esses ensinamentos horríveis, pedofilia, zoofilia, são parte do currículo da escola.
Olha o que ela disse sobre a Marta Suplicy.
Vou mostrar pra vocês o que tá acontecendo nas escolas, pode mostrar o próximo slide.
Irmãos, é...
Esta mulher, quando era prefeita de São Paulo, irmãos,
Ela gastou 2 milhões de reais com aquele grupo, o grupo GBTOS, para ensinar sobre ereção e masturbação em bebês nas escolas.
Isso é que dá ter uma pastora advogada.
Porque mentir é pecado, mas com atenuantes.
De novo, é mentira o que ela diz, claro. o projeto que ela cita é de educação sexual, o currículo não incluía masturbação de bebês. Jamais.
O trecho que ela citou entre aspas no slide como sendo do jornal o Estado de São Paulo, não existe, nunca foi publicado, a gente checou.
E a história continua:
Inclusive na Holanda, os especialistas, esses homens que são grandes especialistas, que fizeram não sei quantas universidades, eles ensinam que o menino tem que ser masturbado com 7 meses de idade pra que quando ele chegar na fase adulta ele possa ser um homem saudável sexualmente, e a menina tem que ter a vagina manipulada desde cedo para que ela tenha prazer na fase adulta.
E essa prefeita fez isso.
Lá na Holanda eles estão até distribuindo uma cartilha ensinando os pais como massagear sexualmente as suas crianças.
Isso está acontecendo no Brasil.
Essa história daí da Holanda ninguém sabe nem de onde ela inventou, entendeu?
Os outros você entende qual foi o começo da mentira, essa aí, realmente, ninguém até hoje achou qual foi o ponto de partida para essa ficção.
Inclusive essa fala dela virou notícia na Holanda, onde ficou todo mundo muito chocado com essa mentira.
Tem, sim, aulas de educação sexual lá, só que pra alunos em torno dos 11 anos, e ninguém masturba ninguém.
Essa coisa de "países baixos" é por outro motivo que chama.
A gente fica ofendido quando um desenho animado que no Brasil tem macaco na rua.
Só que aqui tem macaco na rua. E é só um desenho animado!
Nossa ministra acha que na Holanda se masturbam bebês.
Isso é bem mais grave. É com esse tipo de mentira que Damares cria espaço pra que organizações como a Anajure aprovem leis que impedem os professores de falar em gênero ou sexualidade.
Nos últimos anos, mais de 160 projetos proibindo a ficção da ideologia de gênero nas escolas tramitaram em municípios, estados e no Congresso Nacional.
Dezenas foram aprovados.
Esses projetos tornam muito mais difícil que crianças tenham aulas de educação sexual, como essa daqui.
Esse garoto era muito eu na escola.
Querendo que a professora falasse palavrão, tipo, não importa a matéria, é só: "Vai, vai, fala um palavrão".
Enfim, essa é professora que a Damares vê como um inimigo.
Sim, é nesse tipo de aula que ela vê bestialismo e pedofilia.
Aí, entra uma parte triste.
Infelizmente, a própria Damares, ela conta que foi estuprada por mais de dois anos a partir dos 6 anos de idade, por dois pastores que se hospedavam na casa dela.
Porque o pai não suspeitava que gente religiosa pudesse cometer uma atrocidade dessas.
Ela mesma manteve a violência que sofria em segredo, por vergonha, culpa e medo.
E seus pais descobriram, mas não fizeram nada.
Talvez, se Damares tivesse tido aula de educação sexual na escola, seu sofrimento teria sido descoberto mais rápido.
Afinal, por causa de aulas de educação sexual como a que a gente viu, e que estão na mira da Anajure, a escola costuma ser o lugar onde os abusos são descobertos e não cometidos. É na escola que muitas crianças violentadas descobrem que não são culpadas, que elas são vítimas.
Muitas vezes vítimas da própria família.
Mas a Anajure não é a única organização que Damares criou em sua vida.
Ela também é fundadora da Atini.
Atini é uma palavra indígena, quer dizer "voz" no idioma suruwahá.
A ONG diz que trabalha para acabar com o infanticídio indígena.
Uma das primeiras ações da ONG foi fazer um filme, chamado "Hakani", sobre infanticídio nos povos indígenas.
O filme tenta mostrar que esse é um hábito comum entre indígenas brasileiros, principalmente em aldeias isoladas.
O filme não é um documentário, as cenas trágicas são encenadas.
A ONG justifica dizendo que o filme é um "docudrama", encenado a partir de fatos reais.
Os atores eram indígenas evangelizados.
O problema é que eles não sabiam que estavam encenando fatos que seriam apresentados como reais.
A equipe de produção disse a eles que eles retratariam hábitos de um passado distante.
Eles foram enganados.
O objetivo do filme era fazer o infanticídio parecer um hábito comum e disseminado por muitos povos, quando na verdade os relatos são raríssimos e há muitas dúvidas sobre a veracidade deles.
Pelo visto ela entende tanto de indígena quanto entende de holandês.
Em paralelo, um deputado da bancada evangélica redigiu um projeto de lei que dava poderes para missionários denunciarem infanticídios, ou seja, dava autoridade a religiosos que entrassem em aldeias isoladas.
Aí, em 2014, essa história foi parar no Fantástico, que passou uma reportagem extensa e chocante falando de infanticídio indígena, e retratando-o como um problema comum.
A reportagem era baseada na história de uma mãe evangelizada que afirma que teria fugido da aldeia para salvar a vida de sua filha.
Naquela mesma noite, como se já estivesse a postos,
Damares publicou um vídeo no youtube.
Olá, o Brasil todo acabou de assistir a reportagem do Fantástico, na Rede Globo, que trouxe a público o tema do infanticídio indígena.
Que feio, FUNAI! Que feio, senhores antropólogos. É muito fácil ficar de trás de uma mesa emitindo pareceres, emitindo laudos, dizendo que isso é cultura e que os índios têm os direitos de matar os seus filhos.
Você que está indignado, você que está em compaixão, vamos escrever para a Câmara dos Deputados?
Vamos pedir que a Câmara, esta semana, aprove um projeto de lei? É o mesmo método Damares de pedalada argumentativa.
Ela inventa um problema, daí ela critica pessoas por defenderem esse problema, depois ela propõe uma solução errada pro problema que não existe.
Daí a gente aponta que a solução é errada, e a gente esquece de dizer que o problema não existe.
E esquece de dizer que a solução errada é o objetivo final dela, que é encher as aldeias de missionário evangélico, e que isso sim seria um problema real.
A presença de missionários em aldeias está associada a problemas reais, como o aumento do suicídio indígena, um fenômeno tão fartamente documentado, esse sim, esse sim, que não precisa ser encenado em docudrama.
Se a Atini estivesse comprometida em acabar com todos os tipos de infanticídio, seria muito compreensível que ela existisse.
Afinal, nossa sociedade de fato mata crianças, e muitas.
No ano passado, só no Rio de Janeiro, foram mais de 20 menores de idade mortos pela polícia. É o infanticídio policial.
Mas combater o infanticídio policial não dá margem pra desmontar os órgãos de proteção aos povos indígenas e deixar que esses povos sejam catequizados por missionários evangélicos.
Aliás, quando perguntaram a Damares por que ela não tinha se pronunciado sobre a trágica morte da menina Agatha Felix, baleada pelas costas aos 8 anos por um policial, a ministra disse que acha ridículo
"fazer esse embate em cima da morte de uma criança linda" e que "estavam usando esse episódio para um embate político desnecessário".
Mas a morte de crianças indígenas, mesmo a morte que ela não consegue provar, essa sim ela acha ok politizar, ela usa até, essas mortes, pra passar projeto de lei.
Foi como ministra dos direitos humanos no governo Bolsonaro que o compromisso de Damares com uma teocracia, com a Bíblia como única regra, ficou ainda mais nítido.
Na hora de montar a equipe, Damares juntou vários religiosos.
Sete pessoas do time dela têm formação em teologia.
Sim, isso representar a totalidade das pessoas formadas em teologia no Brasil.
E não são só evangélicos.
A secretária da família é a jurista Angela Gandra Martins, de uma família ligada à Opus Dei, ordem católica que, historicamente, apoiou governos autoritários e fascistas, né?
Assim como o autoflagelo também, ela apoiou.
Autoflagelo é uma espécie de sadomasoquismo solitário, sabe, em que você é o sádico e o masoquista, olha que barato. É uma espécie de violência sustentável. É uma espécie de punheta do flagelo.
Ao lado da tradicionalista reacionária católica Angela,
Damares nomeou a inovadora reacionária católica Sara Giromini, que prefere o apelido Sara Winter, ex-ativista feminista radical que virou anti-feminista fervorosa convertida ao catolicismo.
Segundo Damares, Sara é como uma filha pra ela.
Vê só esse vídeo que elas gravaram na campanha de 2018.
Sara é mais que minha companheira de luta na defesa da vida e da família.
Sara é como se fosse minha filha. É minha filha, né, Sara? É minha filha.
Orgulho de ser amiga, parceira e mãe de Sara Winter.
Você do Rio de Janeiro, está preocupado com a defesa da vida, não tem outro nome.
No Rio de Janeiro, mulher, pró-vida, é Sara Winter.
Conto com vocês, povo cristão do Rio de Janeiro.
Minha amiga, Sara Winter, pra deputada federal.
Eu não sei vocês, mas depois da Flordelis quando eu vejo uma pastora adotando um monte de adulto por aí eu já penso que vai morrer gente, ai meu Deus.
Isso não vai dar certo.
Sara não está mais no ministério da família, nem na família da Damares, porque parece que a mamãe Damares deserdou essa filhinha por enquanto,
Mas ela era uma das servidoras que faziam papel duplo na equipe de Damares, era paga pelo governo, e fazia ativismo pró-governo na rua e nas redes sociais.
Tem todo um ecossistema de ativistas-governamentais em volta do ministério de Damares.
Gente como Renan Sena, aquele cara que agrediu enfermeiros que estavam protestando por melhores condições de trabalho, depois soltou rojões na direção do STF e acabou preso.
Já o Oswaldo Eustáquio, aquele "jornalista" suspeito de receber pra fazer matérias de ódio, casado com Sandra Terena, assessora de Damares. Sim.
Pelo menos uma vez, o dinheiro pra pagar pelo trabalho de Oswaldo saiu da conta de Sandra, quando ela já trabalhava pra ministra.
Semana retrasada, vimos mais uma vez a influência de Damares.
Mesmo sem muito orçamento e sem mexer em nenhuma lei, a gente descobriu que toda a celeuma em volta da menina de 10 anos, que precisou fazer um aborto legal, teve o dedo do seu ministério.
Uma equipe do ministério foi ao Espírito Santo, e tudo indica que a pressão política que eles fizeram teve relação com a decisão do hospital da UFES de se recusar a fazer o procedimento, forçando a menina a viajar para Pernambuco.
Depois disso, a casa onde a menina morava com a avó começou a receber uma romaria de ativistas católicos e evangélicos, apesar de que ninguém deveria saber o endereço, mas alguém vazou.
No dia do procedimento, tinha um bando protestando na frente do hospital, uns chamando a criança de assassina.
Incitando eles, estava Sara, a ex-feminista e ex-filha de Damares.
Sara divulgou o nome da criança, o que é crime, e o endereço do hospital, informações às quais ela jamais deveria ter tido acesso, quanto mais divulgar.
A menina de 10 anos, abusada e assustada, teve que entrar no hospital dentro do porta malas do carro.
Não conseguiram impedir o procedimento.
E nem tinham como, porque a lei estava do lado da menina, mas criaram um clima de intimidação a médicos, servidores públicos e famílias no Brasil todo.
O que, na prática, acaba impedindo que outras meninas abusadas tenham seus direitos cumpridos caso precisem. É o resultado do projeto Damares.
Primeiro a gente impede o professor de falar sobre violência sexual, diminuindo a chance de abusos serem descobertos, depois a gente dificulta o acesso das vítimas ao aborto legal, obrigando crianças a terem o filho de seus estupradores. É assim a vida vai mudando concretamente, mesmo quando a lei não muda. É por isso que o antropólogo Orlando Calheiros define o regime em que a gente vive no Brasil de uma "teocracia difusa".
"Difusa" porque nossa constituição ainda não é a de uma teocracia.
Mas na prática o regime já mudou, como bem sabem os professores com medo da palavra "gênero", os gays com medo de andar na rua, os terreiros com medo de abrir as portas, as crianças acusadas de assassinato por serem estupradas.
Até porque nesse país em que a política de segurança pública é facilitar pra todo mundo comprar arma, qualquer um com um três oitão pode se ver como um agente do governo, ou da Damares.
Claro que essa teocracia tende a ficar cada dia menos difusa, à medida em que ela se institucionaliza.
Se ele conseguir terminar o mandato,
Bolsonaro vai ter nomeado pelo menos 15 juízes da cúpula do judiciário, inclusive dois no supremo.
Ele já preveniu que teria a intenção de indicar alguém "terrivelmente evangélico" para o STF.
Certeza de que a Anajure vai ser consultada muitas vezes.
Quem sabe a própria Damares não é indicada?
Ninguém do alto escalão do governo é tão qualificada para cumprir esse pré-requisito.
Na política internacional, o Brasil já se assumiu teocrático.
Ano passado, no conselho de direitos humanos da ONU, a diplomacia Brasileira votou junto com a Arábia Saudita e o Bahrein para enfraquecer a recomendação de que todos os países tenham educação sexual.
Ou seja, o Brasil não está nem se alinhando aos países cristãos, que votaram a favor da educação sexual.
Está se alinhando às teocracias mesmo, as islâmicas.
Damares é a grande aiatolá desse governo.
Ela junta poder político com uma visão assumidamente fundamentalista e religiosa.
Isso ficou bem claro naquela mesma reunião de 22 de abril.
Aquela na qual Bolsonaro exigiu que o Moro protegesse sua família e alertou os ministros que suas hemorróidas corriam perigo.
A reunião era pra discutir um pacote pra reerguer a economia.
Aí Damares, bem assertiva, começou a falar.
Eu preciso lembrar e eu preciso fazer sempre isso pra que a gente não perca o foco.
A questão de valores, ministro.
Esse governo tem o pilar dos valores.
Não se pode construir nada nesse governo sem a gente trazer valores.
Nessa hora o Bolsonaro ouviu valores, acho que ele ficou nervoso pensando que ela ia falar nos valores de 89 mil reais que o Queiroz depositou na conta da Michelle.
Mas na sua fala, Damares enquadrou todo mundo.
Olha o que ela diz pro ministro da saúde, no auge de uma pandemia.
Nós vamos ter que fazer algumas revisões de políticas públicas no Brasil, então, por favor, ministro, coloque aí a questão de valores.
Quando eu falo valores, aí eu quero olhar pro nosso novo ministro da saúde, e quero dizer, ministro, valores estão lá no seu ministério também.
Neste momento de pandemia, a gente tá vendo aí a palhaçada do STF trazer o aborto de novo para a pauta e lá estavam a questão das mulheres que são vítimas do Zika Vírus, vão abortar, e agora vem do coronavírus?
Será que vão querer liberar que todos que tiveram coronavírus poderão abortar no Brasil?
Vão liberar geral?
O seu ministério, ministro, tá lotado de feminista que tem uma pauta única de liberação de aborto.
Quero te lembrar ministro, que tá chegando agora, este governo é um governo pró-vida, é um governo pró-família.
Eu gosto que ela fala que o governo é "pró-vida" olhando pro Teich, tadinho. que tinha o semblante mais pró-morte que eu já vi na vida.
Mas não se perceberam que esse foi mais um exemplo de "daqui-a-pouquismo", agora em reunião ministerial, né?
Qual foi a lógica? "O pessoal quer liberar o aborto pra feto anencéfalo, daqui a pouco vai liberar pra covid, daqui a pouco vai descobrir que o próprio ministro da saúde já morreu e vão querer abortar ele também".
Hoje tá claro que a cortina de fumaça do governo Bolsonaro nunca foi a Damares.
Ela não era um alívio cômico, ela era o desespero trágico mesmo.
Assim como nunca foi uma ministra ideológica.
Ideológico era o Moro.
Que era cheio de convicções, mas não conseguiu operar o estado em nada na sua cruzada contra a corrupção.
Piada mesmo é o Paulo Guedes, fundamentalista do mercado que não conseguiu convencer nem o Bolsonaro de sua agenda.
Damares não. Damares é profissional.
Damares é a verdadeira ala técnica do governo Bolsonaro.
Ela tem a experiência, o currículo e o talento pra mobilizar não só o governo, mas a sociedade em direção a um objetivo, a teocracia.
Seu inimigo é o estado laico e ela está combatendo esse inimigo de dentro do próprio estado.
E, em defesa dela, ela nunca escondeu que esse era o plano.
Chegou a nossa hora!
Chegou o nosso momento de a gente avançar! É o momento da igreja ocupar a nação. É o momento da igreja dizer pra nação a que viemos. É o momento de a igreja apresentar boas ideias de políticas públicas! É o momento de a igreja governar! É a nossa hora!
Pois é, esse foi o Greg News!
