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O que comemos tem um custo “invisível”. Mas nós estamos a pagá-lo.

Quando comemos fazemos uma escolha.

E pagamos por ela.

Mas há custos que não vemos no nosso prato.

Um é o custo do alimento, outro é o impacto que a má alimentação tem naquilo que é o nosso estilo de vida.

Se a má alimentação é o principal responsável por termos anos de vida com doença, esses anos de vida com doença tem um custo.

Começamos pela saúde.

Estamos na cantina da faculdade de engenharia da universidade do Porto.

Aqui servem-se milhares de refeições todos os dias.

Dar comida a muita gente não é uma coisa fácil, e manter algum sabor e manter preços muito baixos.

Por outro lado, qualquer pequena modificação que se faça aqui tem um impacto tremendo na saúde porque são 5 mil pessoas a circular.

Basta que, agora não temos aqui pão, não ter um pão branco e ter um pão integral nós já temos mais-valia nutricional que atinge muita gente.

Passaram duas décadas desde que a Organização Mundial de Saúde avançou com as primeiras políticas alimentares para reduzir doenças relacionadas com uma má alimentação.

Serão os custos da obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares assim tão elevados?

São.

São enormíssimos.

Só para termos uma ideia, somos 10 milhões de habitantes, temos 1 milhão de diabéticos, perto de 3 milhões de pessoas com problemas de pressão arterial elevada, temos metade da população com excesso de peso, mais de metade da população, se começarmos a somar vai quase nos 10 milhões.

Se nós agora somarmos antidiabéticos, reguladores de glicemia, e uma série de produtos que temos para estas patologias, somando isto, nós estamos a falar de um valor que faz com que o Sistema Nacional de Saúde, nas três ou quatro patologias que consomem mais de 70% de recursos estamos a falar de doença oncológica, doença cardiovascular, diabetes, obesidade à volta deste arco nós temos a maioria dos custos do SNS a serem alocados a estas doenças.

A qualidade e a quantidade do que comemos afecta a nossa saúde, mas é ainda difícil reflectir esse impacto no preço final.

O mesmo acontece com os custos ambientais e a pegada ecológica de um alimento.

Nós temos várias componentes, a componente da água, a componente da energia, a componente solo, como é que nós juntamos todos esses… que peso damos a cada um desses factores no cálculo final de uma pegada para dar uma informação simplificada ao consumidor.

Não é muito simples… - Isso ainda não existe?

- Nem em Portugal, nem na Europa… Já há metodologias, por exemplo, há cálculos da pegada carbónica, da pegada hídrica, cálculos mais individualizados de determinados factores na cadeia de produção, na produção de determinado produto ou alimento, isso já há.

- Mas não estão nos alimentos quando vamos ao supermercado.

Não de todo.

De todo.

E são tudo custos que ainda não começámos a reflectir.

Aquela manga que passa o oceano Atlântico de avião e que nos chega a um preço da maçã, tem impacto ambiental tremendo para chegar aqui mas que por algum motivo não é repercutido no seu custo final.

Filipe Duarte é um dos maiores especialistas em alterações climáticas em Portugal.

A agricultura, diz-nos, é tanto causa como efeito.

A agricultura é profundamente afectada pelas alterações climáticas.

A agricultura também contribui para as alterações climáticas.

Porquê?

Porque, a agricultura, em sentido lato, envolvendo a pecuária, por causa dos ruminantes, em particular das vacas e dos bois, que têm uma fermentação entérica que produz grandes quantidades de metano, e metano é um gás com efeito de estufa, cujas emissões aumentaram muito não é.

Olhemos para alguns números.

A utilização de fertilizantes nos solos representa 79% das emissões de óxido nitroso, um dos gases com efeito de estufa.

Em 24 horas, só em rega para a produção agrícola, gastam-se cerca de 7,4 biliões de litros de água.

A pecuária é uma das principais causas para emissão de gases com efeitos de estufa.

São necessários cerca de 2000 a 5000 litros de água para produzir os alimentos consumidos, diariamente, por uma pessoa.

Da panóplia de produtos que temos a nossa disposição, a agricultura, o sector agrícola é aquele onde a diferença entre ao custo que nós pagamos, o preço que nós pagamos quando compramos um produto, e aquele que é o custo real da sua produção, quando dizemos o custo real é o tal impacto nos vários serviços dos ecossistemas, por exemplo, onde a diferença é maior, onde nós pagamos muito abaixo daquilo que é o verdadeiro custo quando estamos a falar obviamente da agricultura convencional, com maior impacto, agricultura mais intensiva, no seu expoente máximo.

E os estudos que foram feitos a nível internacional demonstram que na agricultura a diferença é de 170%, ou seja, nos pagamos 170% abaixo daquilo que seria o custo real se nós de facto integrássemos o impacto que essa agricultura tem nos diferentes factores ambientais, no preço final.

Como é que hoje em dia o barato é o que usa mais recursos?

Não tem lógica.

Como é que uma embalagem de manteiga, embalada individualmente, que usa petróleo para fazer a caixinha, a tampa tem alumínio, lá dentro tem a manteiga que foi pasteurizada, e vacas não são propriamente felizes, essas coisas todas, e esse produto é mais barato do que uma manteiga que se tirou ali da vaca e se fez e... não tem muita lógica.

E é óbvio que o consumidor é difícil para ele entender por que é que aquele produto que está embalado, com embalagem de plástico, que ainda levou mais não sei quê, que esteve em frigoríficos, como é que aquele é mais barato do que vem directo do produtor.

Há uma falta de lógica no mercado em si, porque aquele preço não é o preço real.

Joana Macedo, produtora de legumes biológicos em Azeitão, acha que não se dá aos alimentos o devido valor.

Porque um canteiro deste tamanho, só ao nível de estrume, ronda entre os 25 e os 35 euros uma linha destas, só de estrume.

As pessoas dizem-me: “ah, mas o biológico é mais caro”.

E eu digo: “sim, mas as suas calças da Levis custam 100 e tal euros e não as come, não é?

Nós hoje estamos dispostos a pagar por uma determinada marca de um telemóvel um determinado custo, e achamos que é justo quando esse produto até é fabricado a um custo muito baixo, mas houve uma marca, uma capacidade de marketing à volta desse produto, em relação à alimentação, nós consideramos quando damos mais do que um custo, que às vezes nem é muito diferente do custo de produção, nós estamos a considerar que estamos a dar a mais.

Como é que o consumidor em relação a um produto que é fundamental para a sua sobrevivência, deixou de valorizá-lo.

Eu ir comprar uma lasanha ao supermercado e ela custar 1 euro e meio...

Para aquela lasanha, com aquelas dimensões custar 1 euro e meio, o que é que está ali dentro?

Como é que aquela empresa pagou aos trabalhadores, depois da margem do supermercado, da margem de todos os produtos que estão ali.

Não sei se tenho coragem de dar uma lasanha que custou 1 euro e meio aos meus filhos.

Não sei.

Na casa da família Medeiros Rodrigues há uma preocupação em pagar o custo justo pelo que se come.

Se os nossos rendimentos por exemplo agora de repente descessem para metade teríamos de avaliar essa questão.

Por agora, preferimos gastar boa percentagem dos nossos rendimentos numa boa alimentação e numa alimentação que esteja mais de acordo com a natureza.

Eu olho para isto com uma espécie de imposto que eu pago à natureza.

- Vou só pôr a mesa, mais um bocadinho e vamos jantar.

As pessoas falam das alterações climáticas, mas muitas pessoas não se consciencializam que cada uma delas tem influência sobre este problema, e pode fazer uma diferença.

Mas é uma pergunta clássica nas universidades, em cursos de alterações climáticas, é perguntar aos alunos:

"o que é que você poderia fazer para contribuir, você próprio, para contribuir para diminuir as emissões de gases com efeitos de estufa."

Poderá haver várias respostas, mas uma das mais correctas, penso eu, é dizer: "comer menos carne".

Se olharmos apenas para a água necessária para produzir carne, percebemos porquê: um quilo de trigo tem uma pegada hídrica de 1300 litros, um frango precisa de cerca 4 300 litros por quilo e um bife atinge o valor máximo: mais de 15 mil litros por quilo.

Na altura da compra, há custos que são invisíveis para o consumidor.

Mas estamos a pagá-los.

No Reino Unido, a ONG ambiental Sustainable Food Trust chegou à conclusão que o consumidor britânico paga duas vezes aquilo que come.

Como se calcula este preço que não se vê?

Somando os custos ligados à poluição e perda de biodiversidade, aos serviços de saúde, aos apoios à agricultura e aos bens importados.

Mas conseguirá o consumidor, mesmo conhecendo os custos escondidos, manter-se imune a estratégias publicitárias cada vez mais sofisticadas?

Estamos sentados aqui e no nosso telemóvel cai uma publicidade do restaurante que está à nossa frente sem darmos conta disso.

E uma criança hoje está em casa a fazer um jogo didáctico para Matemática e tem uns botões da mesma cor da marca que patrocinou o jogo e nem os pais nem ninguém se apercebe disso, eles quando acabam o jogo estão a comprar a marca sem se aperceberem de que foram manipulados enquanto jogavam e pensavam Matemática ou História ou o que quer que seja.

E então temos hoje produtos que são água com açúcar que de repente têm uma capacidade de publicidade enorme comparando com o açúcar natural de uma fruta que não consegue ter esse espaço para ser publicitado.

Estima-se que o consumo alimentar já seja o principal factor que contribui para o aquecimento global na Europa, ultrapassando a habitação e os transportes.

Nós não temos a capacidade de destruir o planeta, temos a capacidade de destruir as características que este planeta tem para albergar vida.

A nossa e de outras espécies.

Isso temos.

Não é uma questão de se vamos viver mais 30 ou 40 anos, não é isso, é: não há sociedade nem economia sem ambiente.

Porque a economia só funciona, e a sociedade só existe porque existem os recursos naturais.

Cabe ao estado intervir e fiscalizar?

Moldar comportamentos saudáveis?

E os cidadãos?

O que estão a fazer para mudar o sistema alimentar?

Em sua casa, na sua rua, na sua cidade?