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O SISTEMA #01 | Darlene e o SUS

Não sei se foi meu erro mesmo ou se foi erro deles, também.

Você fica pensando: "Poxa vida...

Tanto imposto, tanta coisa que a gente paga, para na hora que chegar a vez da gente, a gente não poder fazer." É triste, viu.

Uma pessoa que realiza um diagnóstico precoce muitas vezes, só precisa fazer a cirurgia.

E ela pode ser curada. Qual é o preço de uma vida?

240 bilhões de reais para atender 200 milhões de brasileiros.

O gasto em saúde no Brasil, particularmente o gasto público, é insuficiente.

Em 1988, os princípios do Sistema Único de Saúde, o SUS, foram incorporados à Constituição.

A saúde no Brasil passou a ser direito de todos e dever do Estado.

O SUS é um sistema que não encontra paralelo no mundo.

Ele garante acesso integral à população Brasileira.

Só que ainda não está pronto.

Neste projeto, nós vamos retratar suas fragilidades e buscar os possíveis caminhos para o seu aperfeiçoamento, com a ajuda de diferentes personagens que dão vida à essa instituição de grande complexidade.

Jacareí, cidade do interior de São Paulo.

Localizada a uma hora e meia da capital, ali moram aproximadamente 228 mil pessoas.

A cidade conta com 178 médicos atuantes no sistema público.

Eles estão espalhados nas 17 Unidades Básicas de Saúde e em dois hospitais que atendem a saúde pública. É nesta cidade que encontramos Darlene.

A demora no diagnóstico do câncer de mama colocou em risco o sucesso do tratamento.

Eu sempre faço autoexame.

Aí, eu tomando banho, senti um carocinho bem pequenininho.

Só que, dentro de uma semana, já cresceu.

Minha mãe marcou uma consulta no postinho, com o clínico geral.

Aí, no clínico geral ela falou: "Darlene, a gente vai ter que fazer um ultrassom.

Só que a prefeitura está com uns problemas, está demorando muito para sair o papel da liberação."

Daí eu fui e paguei o ultrassom.

-Custou quanto? -100 reais.

No dia que a doutora fez o ultrassom, ela já percebeu que tinha alguma coisa de errado, porque ela ficou mais de 40 minutos só nesse seio.

Ela falou: "Então, amanhã cedo seu exame vai estar pronto.

Você leva de novo para o clínico e pede um encaminhamento urgente para o mastologista."

Eu cheguei em casa, liguei no postinho.

A moça falou: "A gente tem vaga só para daqui uns 20 dias, mais ou menos."

Eu falei: "Não, moça, eu não posso esperar, ela pediu urgência."

Aí ela falou: "O que a gente pode fazer é você tentar uma desistência." Daí eu fui, consegui a desistência no outro dia.

A Dra. Rita, que já tinha me atendido, falou: "Realmente, deram algumas alterações, só que só o mastologista mesmo para ver.

O primeiro contato com o SUS é feito necessariamente pela atenção básica, que são os postos de saúde e as unidades de saúde da família.

Esse primeiro atendimento funciona como uma triagem, e a pessoa é encaminhada, se necessário, para outros serviços que atendem casos de maior complexidade.

O posto de saúde foi criado para desafogar as consultas com especialistas e os hospitais gerais.

Mas ele não oferece saída para os 20% que precisam de tratamento especializado.

Como é o caso da Darlene.

Ela conseguiu uma consulta com um outro doutor, mastologista mesmo, ele chama Dr. Vial,

-lá em São José. -Pelo SUS.

Não, essa consulta foi particular.

Ele falou assim: "Olha, tem algumas alterações mas a gente não sabe o que é.

Vai ter que fazer biópsia."

Aí eu fiz a biópsia, paguei 570 reais na biópsia.

Enquanto estava saindo o resultado da biópsia, o SUS ligou. Quando eu cheguei no SUS, ele falou: "É caso cirúrgico, vai ter que retirar toda a mama." Explicou certinho.

Aí ele falou: "Eu quero ver se a gente consegue operar entre 15 e 20 dias." Só que eu não consegui.

Demorou 54 dias para marcar a cirurgia.

O paciente que demora para conseguir um diagnóstico, e em razão dessa demora, fica com o tratamento completamente prejudicado, não é exceção.

Não é à toa que 60% dos diagnósticos de câncer no Brasil são feitos no estágio avançado.

Isso faz com que toda a sociedade arque com custos de tratametos absolutamente custosos, e preços de vidas, mesmo. São vidas que são perdidas e que não precisariam ser.

Nesse caso dessa moça, a Darlene, que foi operada no Hospital São Francisco de Assis, houve vários atrasos no atendimento dela.

E ela acabou até fazendo alguns curto-circuitos aí, fazendo exames particularmente. A biópsia, por exemplo.

Esses atrasos acontecem por que, normalmente?

Na realidade, no primeiro atendimento dela, não houve atraso nenhum.

Ela foi priorizada, foi atendida na unidade, não tinha vaga no momento, mas ela teve o acolhimento da enfermeira, contou o caso para ela e foi priorizada.

Depois ela resolveu, e a própria médica orientou, por descrédito do SUS, mesmo, a procurar particular.

O Ministério da Saúde, as Secretarias de Saúde, os gestores públicos, quando eles contratam um hospital e o habilitam em oncologia, eles ainda são os responsáveis pelo SUS.

Se o hospital não está oferecendo um bom tratamento, o problema não é do hospital, do prestador de serviço contratado, é do gestor da saúde, é do secretário, do ministro.

Eles têm uma responsabilidade que não pode simplesmente entregar:

"Aquele hospital é que não está dando..."

Você contratou aquele hospital.

Vocês recebem aqui um número "X" de casos de câncer de mama para operar.

Vocês usam algum critério para dizer:

"Olha, esse mês não dá, porque tem muita gente, nós não temos verba suficiente para isso", ou esses casos têm prioridade total e passam na frente dos outros?

Os casos de câncer sempre têm prioridade.

Existe uma contratualização do governo municipal com o hospital prestador, em que você determina, mais ou menos, o número de procedimentos que podem ser feitos.

O que extrapola aquilo, a gente negocia com o hospital.

Nesse caso, por exemplo, a Darlene entrou em um mês que já estava completada a cota, mas mesmo assim ela foi colocada.

No dia da cirurgia, a cirurgia foi suspensa?

-Foi suspensa. -Você estava no quarto?

Eu já estava na sala de cirurgia.

-Você chegou a ir à sala de cirurgia? -Cheguei.

Quanto tempo fazia que nenhum médico te via?

Eu só vi ele no dia 15 de maio.

-Dois meses antes. -É.

Ele te examinou, e você ficou dois meses

-sem nenhum exame. -Sem nenhum exame.

E aí chegou a descer para o centro cirúrgico,

-ir para a sala de operação? -Desci.

Chegamos lá, já estava com a roupa para fazer a cirurgia, já estava na mesa mesmo, daí foi suspensa.

Não pôde operar porque infeccionou muito.

Porque o meu é tipo inflamatório, foi inflamando tudo.

Se ele tivesse me examinado um dia, dois dias antes, ele teria visto que não daria para operar.

Então você fez o pedido e aí, 40 dias depois, você recebeu

-a autorização para a cirurgia. -Exato.

Nós recebemos certos laudos e colocamos exatamente na sequência com que ele foi solicitado.

Então nós também tínhamos casos de câncer de mama juntamente com o caso da Darlene. Naquele dia, eu lembro muito bem, que nós tínhamos quatro cirurgias agendadas.

Todas eram de câncer de mama.

As três cirurgias nós conseguimos fazer.

Infelizmente, a da Darlene nós não conseguimos fazer.

E às vezes eu fico me perguntando:

"Será que eu fiz algo de errado?

Será que eu poderia ter feito algo melhor para que, naquele momento, a gente pudesse ter condições de ter beneficiado ela?" É lógico que assim, se essa paciente viesse comigo em uma rede privada, talvez a minha conduta seria diferente.

Eu iria solicitar um exame que se chama imuno-histoquímica, que o senhor conhece muito bem, e ali eu poderia, com esse resultado, me falar: "Olha, essa paciente vai ter benefícios iniciando o tratamento com quimioterapia e não com cirurgia."

Só que, se eu fizesse todos esses exames pela rede pública, ia atrasar mais ainda.

Então, eu tinha que tomar uma conduta naquele momento, de escolher o tratamento mais rápido para ela.

Corremos esse risco e, infelizmente, a doença progrediu.

Metade do financiamento púlbico do Brasil vem do Ministério da Saúde.

Teve uma troca de ministros algoz nos últimos cinco, seis anos.

Onde você não tem continuidade administrativa, você cria um desastre perfeito.

O Ministério da Saúde perdeu sua capacidade de gerar políticas de saúde.

E isso é grave.

De 2010 para cá, quantos ministros da saúde o Brasil teve, o senhor fez a conta?

A expectativa de vida, ao nascer, de um ministro da saúde no Brasil é baixa.

Talvez estejamos no quinto ou sexto ministro, de 2010 para cá.

Quantos cargos de confiança, se eu for ministro, eu posso trocar, amanhã?

Alguns milhares. É um dos problemas do SUS.

Quando o ministro da saúde da França muda, ou da Inglaterra, ele muda 10 pessoas. Por que?

Porque toda estrutura da burocracia da saúde desses países é de carreiras estáveis.

Vão se especializando, fazendo especialização, mestrado, doutorado e vão ascendendo na carreira.

E aqui, não.

E isso você tem toda razão, cria uma fragilidade de gestão extremamente grave.

Como pode ser explicado um país que arrecada tanto devolver tão pouco à sua população?

O Brasil é o único país entre as 10 maiores economias do mundo em que os gastos privados com a saúde superam os gastos públicos.

Só que os gastos privados se destinam a 50 milhões de pessoas, enquanto que os públicos há 150 milhões de brasileiros que dependem exclusivamente do SUS.

Vocês recebem em dia os recursos que devem vir do Estado e do Governo Federal?

Em dia, até recebe. Não recebe o que deveria.

Aí é o município que, se quiser,

-tem que investir mais. -Tem que colocar o que precisa mais.

Mas o município não é obrigado a passar de 15%.

Não é obrigado, mas aí depende de prioridade, mesmo.

A Constituição Federal, no artigo 196, fala lá:

"A saúde é direito de todos e dever do Estado, que será alcançada através de políticas públicas."

Não se mexa nisso, isso é um direito pétreo.

Rosana, como não existem recursos para tratar todos, eu imagino que essa decisão de quem vai ser atendido antes não seja uma decisão fácil.

Então, nós temos um recebimento de mais ou menos 400 a 500 guias por período.

Em um dia, dá quase 1000 fichas.

Tem patologia que você tem direito a colocar um paciente por mês.

Então, é difícil. Você tem uma fila de 20 pacientes, às vezes, naquela super especialidade, você pode colocar um por mês.

Então, você vai levar dois anos para colocar.

Falta de articulação regional, falta de criação de políticas regionais de saúde, em que você crie soluções mais adequadas do que as soluções que nós estamos criando hoje.

Darlene, pela espera de quatro meses, deixou de ser um caso cirúrgico e precisará de sessões de quimioterapia, radioterapia e outros medicamentos, e um tratamento que vai durar vários anos.

Toda essa confusão, que impacto teve na sua vida pessoal?

Olha...

Foi bem difícil, viu.

Não tive depressão, mas fiquei bem...

Eu já sou chorona, né? Como se diz.

Chorei mais ainda, mas...

Agora eu estou mais conformada.

Reconhecer a importância da saúde pública nos coloca à frente de muitas civilizações, mas também nos traz responsabilidades.

Uma delas é entender o papel de cada um para que aquilo que foi conquistado não seja tirado da sociedade.

Devemos assumir uma postura mais atuante e sermos objetivos quando o tema é o futuro.

O SUS é um projeto em construção, e os primeiros passos já foram dados.

Agora cabe a cada um de nós refletir e agir.

A gente sabe que hoje em dia é normal.

Mas, mesmo assim, ninguém quer ter.

Quem que quer, né?

Por mais que tenha cura, que tenha tratamento, que a medicina esteja avançada...

Graças a Deus, só avançou no seio.

E se tivesse avançado para outro lugar?

A gente não tem noção do que a gente é, porque depois que acontece um caso assim, você vê tanta pessoa que você nem imaginava que gosta da gente, e gosta.

A gente nem imagina.

Você está ali, está todo mundo ali.

Só que na hora que a gente fica doente, a gente vê.

Tem bastante gente para a gente.

Para ajudar a gente a vencer.