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O SISTEMA #03 | O SUS por Drauzio Varella

Muito obrigado pela presença de todos.

Eu ando muito pelo Brasil.

E a queixa que eu mais escuto da população é sobre a ineficiência do sistema de saúde pública.

São filas, atrasos, remédios que deixam de ser distrubuídos, e um problema muito grave de gestão e organização.

Hoje, 77% dos Brasileiros dependem do SUS.

E esse número só aumenta.

Em um momento importante como esse de transição de governo, faz falta uma discussão política sobre os rumos que precisamos tomar. É um assunto urgente.

Nos últimos cinco anos, o Brasil teve seis ministros da saúde.

A cada troca, todos os cargos de confiança mudam também.

Isso cria uma fragilidade e desorganiza a gestão.

Como é que a gente pode blindar esse sistema, exatamente do aspecto político, e torná-lo realmente um sistema controlado pela parte técnica?

Eu acho que, o que tem acontecido até agora, o que é: um ministro da saúde é nomeado, a classe médica não se manifesta, as pessoas que trabalham na área da saúde não se manifestam, também.

Eu acho que nós temos, primeiro, que criar essa consciência, que nós não podemos aceitar esse tipo de situação para sempre.

No Ministério da Saúde, como você sabe, tem técnicos excelentes, pessoas preparadas, com pós-graduação, muitos formados no exterior.

Mas só que eles são...

Se nomeiam o chefe deles um medíocre, você deixa essa pessoa desmotivada para trabalhar.

Eu acho que é a mobilização política mesmo que pode deter, ou pelo menos reduzir, esse tipo de desmando.

A falta de visão da saúde como um projeto estratégico deve mudar.

E isso depende do nosso compromisso, com as escolhas que fazemos pelo voto.

Imaginem o seguinte: que empresa sobreviveria se, em um período de cinco anos, trocasse o presidente, todos os diretores, os gerentes e todos os cargos de confiança, usando critérios não técnicos, mas políticos.

Seria possível sobreviver?

Como, então, o sistema de saúde resiste?

O SUS é um sistema complexo, com muitos aspectos positivos, mas também negativos.

Alguns anos antes da implementação do SUS, no período da ditadura militar, o Governo criou o INPS, o Instituto Nacional da Previdência Social, que prestava atendimento só para os trabalhadores que tinham carteira assinada.

Todos os outros Brasileiros que não tinham dinheiro ficavam sem atendimento.

Trabalhadores rurais, donas de casa, trabalhadores informais, desempregados.

Com o SUS, pela constituição, saúde passou a ser um direito de todos e um dever do Estado.

Desde o nascimento, até a morte.

Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, oferecer saúde gratuita a todos é uma ação sem precendentes no mundo inteiro.

Não existe outro país que faça isso.

E mesmo com as dificuldades, conseguimos levar a medicina aos quatro cantos de um país continental como o nosso.

A minha geração cresceu sem pediatras, mesmo morando em São Paulo.

Se não havia cuidados pediátricos para as crianças da capital, imagine o que acontecia com os Brasileiros que viviam no campo.

Eram 70, 80% nessa época.

Apesar do crescimento populacional que ocorreu nos últimos anos, praticamente não há crianças sem algum acesso à assistência médica.

As cenas de bebês morrendo de desidratação, diarreia, doenças infecto parasitárias, um atrás do outro, nos plantões do pronto-socorro de pediatria que tanto nos revoltavam, não acontecem mais.

A mortalidade infantil caiu no país inteiro.

Quando eu saí da faculdade, a taxa de mortalidade infantil era de 73 para cada mil nascimentos.

Em 2016, foi de 14.

O SUS é tão abrangente que, além do foco no diagnóstico e cura, ele desenvolve campanhas de promoção de saúde e prevenção de doenças.

Ano passado, o PIB Brasileiro foi seis trilhões de reais.

Sabe quanto é que a saúde, saúde quando eu digo é indústrias, serviços, hospitais, policlínicas, alimentação ligada à saúde...

600 bilhões.

Não tem nenhum setor industrial que produz essa riqueza.

10% do PIB Brasileiro é saúde.

Direta ou indiretamente. São 12 milhões de empregos diretos e indiretos. Saúde pode ser um dos componentes para a saída para a crise.

Essa visão pobre e estreita de que saúde é gasto.

Que país nós queremos no futuro? Qual é a visão de país?

Eu acho que esse é o ponto central.

Nós estamos perdendo essa questão tão importante.

O SUS é isso. É uma política de estado que não pode estar submetida aos caprichos e aos ditames das conjunturas.

Mas o SUS não funciona como deveria ou gostaríamos.

Ainda nem conseguimos implantar o sistema com a abrangência necessária.

Faltam remédios para os tratamentos, recursos orçamentários, são muitas filas nos prontos-socorros, há demora para marcar consultas e conseguir internações hospitalares.

Desorganização no planejamento das unidades de saúde, que seguem critérios políticos.

E as dificuldades de acesso a cuidados médicos especializados.

Nós temos um SUS subfinanciado, acho que não há dúvida nenhuma.

O dinheiro que vem para o SUS não é o suficiente para você estender assistência médica à população inteira.

Esse é um lado da questão.

Por outro lado, não há dinheiro que chegue para a saúde.

Eu acho que o exemplo dos Estados Unidos é o exemplo principal.

Os Americanos investem em saúde

17% do Produto Nacional Bruto deles.

O Produto Nacional Bruto deles é de 19 trilhões de dólares.

A expectativa de vida nos Estados Unidos, desde dois anos atrás, vem caindo um mês por ano. Quer dizer, não é que eles estão... Estão caindo, provavelmente essa geração vai viver menos do que a geração dos pais.

Então, para aumentar a expectativa de vida de uma população você tem que agir onde?

Você tem que agir na prevenção, não tem outro jeito.

Especialmente uma população que envelhece como a nossa.

O que aconteceu aqui em uma geração levou mais de 100 anos para acontecer na Europa.

Foi um envelhecimento muito rápido da população.

Muito bem.

Nós temos que criar um sistema que economize dinheiro, não esses gastos perdulários que nós temos hoje no sistema de saúde, tanto na saúde pública quanto na saúde suplementar.

São nababescos, não há possibilidade de a gente manter esse nível de gastos.

Nós temos que desenvolver programas, temos que desenvolver protocolos que barateiem o custo da saúde.

Hoje eu acho que, a continuar assim, a saúde complementar vai quebrar.

O SUS não quebra, por que?

O SUS não quebra porque tem aquela verba, acabou a verba, não trata de mais ninguém e está acabado.

Mas nós temos que procurar sistemas que economizem dinheiro na saúde.

E nós, médicos, temos uma responsabilidade muito grande nesse processo.

Nós somos muito irresponsáveis nos gastos.

Nós não pensamos que alguém vai pagar aqueles exames que nós estamos pedindo.

Alguém vai pagar aqueles tratamentos que estamos propondo.

Mas tem que haver uma conscientização da classe médica, da administração da saúde, de tentar privilegiar esquemas de tratamento que sejam mais baratos, que a gente possa estendê-los a um maior número de pessoas.

Apesar de todas as deficiências, desorganização, uso político, corrupção e demais desmandos do SUS, no intervalo curto de 30 anos, implementamos o maior programa gratuito de vacinações do mundo, o maior programa de transplante de órgãos e o maior programa de tratamento da infecção pelo HIV.

Nosso programa de saúde da família, que cobre a maior parte do país, considerado pelos organismos internacionais um dos dez mais importantes programas de saúde pública mundial.

E por fim, o governo precisa se planejar e distribuir verbas de forma mais eficiente. É fundamental combater as fraudes no sistema.

Um caminho importante é implementar o Registro Único Eletrônico com todos os dados de cada paciente.

Para evitar, por exemplo, as repetições de exames pedidos por médicos diferentes.

Porque hoje, por incrível que pareça, ninguém tem controle sobre o prontuário.

Sobre quantas consultas foram feitas ou remédios prescritos.

Qual é o caminho para se gerar um maior engajamento das pessoas no cuidado com a sua própria saúde?

Eu acho que é educacional, Adriano.

Eu gosto de citar muito o exemplo do cigarro.

Na minha geração, quando eu era adolescente,

60% dos maiores de 15 anos fumavam.

Hoje, não chega a 10%. É uma diminuição absurda.

Nós fumamos menos do que todos os países da Europa, hoje.

E como foi feito isso?

Eu acho que o poder dos meios de comunicação de massa em um país como o Brasil, é enorme, porque você não tem países em que a televisão, por exemplo, redes de televisão atingem o país inteirinho, de norte a sul.

O SUS é de todos. Pago com o dinheiro dos impostos.

Por isso a gente tem também um papel importante que é o de fiscalizar.

Participando dos órgãos de controle e cuidando mais da própria saúde.

Porque a prevenção é o melhor remédio e desonera os gastos do sistema.

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