O SISTEMA #06 | O país do sobrepeso
Eu fico angustiada mesmo, com a espera.
Será que essa cirurgia vai chegar?
Um frango assado, eu comia quase sozinho.
Eu deixo qualquer coisa para comer um doce.
Entre 5 a 10% dos Brasileiros teriam indicação formal de cirurgia bariátrica.
No Brasil de hoje, há muito mais obesos do que subnutridos.
A subnutrição do passado foi substituída pela má nutrição.
A obesidade é um pacote que traz junto pressão alta, diabetes, problemas reumatológicos, ortopédicos, doenças cardiovasculares e até câncer.
As pessoas vão engordando, chegam na faixa do sobrepeso e, quando menos esperam, estão obesas.
Como foi a semana de vocês, pessoal?
Conseguiram comer melhor?
-Mais ou menos? -Um pouquinho mais, porque eu tive festas durante a semana, aniversário... Então eu comi um pouquinho mais.
O sobrepeso seria um primeiro alerta para nos informar que nós estamos ingerindo mais alimentos do que de fato nosso organismo está necessitando.
O Brasil é um dos países que tem mais aumento de sobrepeso e obesidade.
A maior razão para o aumento do peso corporal das pessoas é o estilo de vida que atualmente nós temos. É uma vida mais sedentária, um custo menor de gasto energético.
Eu estou no Ipiranga, um bairro tradicional de São Paulo, em uma região conhecida como "moinho velho".
Eu vim para conhecer a Dona Teresa e a filha, Luciana.
A Dona Teresa sofre de diabetes há vários anos, e a filha vive brigando com ela para não comer doces e controlar a taxa de açúcar.
Luciana, então você tinha um pai com diabetes.
Como é que você reagiu quando você soube que sua mãe tinha o mesmo problema?
A gente leva um susto, né? Porque a gente pensa:
"A gente também vai ter."
Os três filhos, eu sou a mais velha.
Então, fico sempre um pouco receosa.
Tudo certinho aqui dentro de casa e minha mãe, depois de anos, também com diabetes. Então a gente ficou um pouco assustado.
-E quais são os exageros... -Da Dona Teresinha?
A Dona Teresinha adora comer doces.
-É? -Ela é doente por doces.
Eu sempre gostei de doces.
Eu deixo qualquer coisa para comer um doce.
Você sabe qual é o problema, Teresinha?
A glicemia sobe e a gente não percebe, mesmo.
Não dá sintoma. Só vai dar sintoma quando estiver muito alta.
Quando você aumenta a concentração de açúcar no sangue, aquele sangue com aumento de açúcar vai fazer mal para o organismo inteiro.
Vai provocar uma chance maior de ter um ataque cardíaco.
Uma chance maior de ter um derrame cerebral.
Porque esses vasos ficam mais sujeitos a serem obstruídos por um coágulo.
E vai obstruir vasos nas pernas, por exemplo, que é o lugar mais frequente.
Por isso que acaba tendo muitos problemas de amputação em pessoas com diabetes.
Nós estamos vivendo uma epidemia mundial de obesidade e o Brasil faz parte dela.
Aqui, 32% dos adultos estão na faixa do sobrepeso e 20% são obesos.
Nós vamos falar sobre esse problema com o casal que tem vivido na pele as consequências da obesidade.
A Andreia e o Armando.
Armando, quando é que você começou a engordar?
Na realidade, eu sempre fui gordinho, desde pequeno.
Ia me alimentando mal.
Eu comia quase três quilos.
Um frango assado, eu comia quase sozinho.
Um refrigerante de dois litros, eu tomava quase sozinho.
Com 20 anos, eu já estava com mais de 100 quilos.
-E vida sedentária. -Sedentária.
Em 2009, eu tive meu primeiro apagão.
Eu bati o carro, no Rodoanel, não lembro de nada...
Nisso, eu já estava com mais de 200 quilos.
-Você conseguia dormir deitado? -Eu só dormia sentado.
-E roncava muito. -Qual foi o máximo de peso
-que você atingiu? -261 quilos. É uma fase de obesidade muito grave.
Você tinha perdido uns 70 para ter condições de ser operado.
-Para fazer a cirurgia. -Em dois anos, você perdeu?
-Cinco anos. -Cinco anos, perdeu 70 quilos.
E depois você perdeu mais 60 em dois anos.
-E hoje você pesa quanto? -127 quilos.
Explique como é esse dumping.
-Dumping... -Uma coisa que começou
-com a cirurgia. -Sim.
-O que você sente no corpo? -Formigamento, aquela palpitação no coração, até o ar às vezes falta.
Eu tenho que deitar toda vez que me dá isso.
Se eu ficar em pé, eu caio.
Quem fez a bariátrica sente muito isso aí. É ruim demais, é uma sequela que vai ficar, depois da cirurgia bariátrica.
Entre 5 a 10% dos Brasileiros teriam indicação formal de cirurgia bariátrica.
Nós estamos falando de uns 15 milhões de Brasileiros.
-Exatamente. -Vamos dizer 10 a 15 milhões.
Quem que vai operar essa gente toda?
Exatamente, a fila hoje para cirurgia bariátrica é muito grande.
Porque o SUS oferece, gratuitamente, o tratamento cirúrgico para a obesidade, mas não oferece, gratuitamente, o tratamento clínico para a obesidade.
Ou seja, por vezes esse paciente acaba indo para a cirurgia bariátrica porque ele não tem um tratamento clínico adequado no Sistema Único de Saúde.
E isso precisa ser visto urgentemente, porque senão a gente vai entupir a fila de cirurgia bariátrica e não vai dar vazão para que isso possa ser feito.
Andreia, então você está há três anos na fila
-para a cirurgia bariátrica. -Aguardando a cirurgia.
Aguardando. E você, o seu problema, você começou a ganhar peso quando?
Eu sempre fui obesa, mas eu comecei a engordar muito rápido.
Em dois anos, praticamente, eu engordei 30 quilos.
Aí eu comecei a me sentir mal, começaram os problemas de diabetes...
Essa demora toda na fila, para a cirurgia, não te deixa angustiada?
Muito, doutor.
Muito, porque às vezes eu fico pensando:
"Será que essa cirurgia vai chegar em tempo?"
Porque a minha pressão ela sobe muito, eu já troquei de medicação umas três vezes, porque ela é bem difícil de controlar.
Eu fico angustiada, mesmo, com a espera.
Para entender um dos agentes responsáveis por esse quadro, decidi conversar com Wilson Mello, representante da ABIA, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação.
Muita gente acusa a indústria de fazer uma publicidade agressiva, especialmente para as crianças, de doces, bombons, chocolates, alimentos altamente calóricos.
A questão da publicidade é um ponto que precisa, realmente, ser monitorado e ser trabalhado.
A indústria de alimentos do Brasil ela tem pactos voluntários, em que ela se compromete a não fazer publicidade infantil.
Mas, por outro lado, a gente vê na publicidade uma maneira, também, de comunicar essa mudança no perfil nutricional dos alimentos, prestar maiores informações para esse consumidor, e dar a ele a possibilidade de conhecer, inclusive, inovações, novos produtos, novas tecnologias e, até mesmo, produtos que possam ser considerados mais saudáveis.
Você não acha que a indústria poderia fazer mais na educação das crianças, mesmo da população em um modo geral, em relação à dieta
-e ao problema da obesidade? -Acho.
Nós temos trabalhado para que a indústria tenha esse papel.
Nós temos discutido com o Governo Federal maneiras de contribuir para que haja mais esclarecimento e mais informação para a população em geral, mas também para as crianças.
A Luciana diz que você exagera nos doces e põe defeito em você.
-Ela exagera no refrigerante? -Exagera. É, não sou a melhor pessoa para falar, porque eu gosto de doce, mesmo.
E você faz algum controle
-de glicemia, Luciana? -Não.
Não?
Vamos aproveitar para medir a sua glicemia, agora.
Você está um pouco acima do peso.
Você não faz exercício.
Você tem tudo para ficar com diabetes.
179.
Você sabe qual é o problema?
Você tem mãe com diabetes, pai com diabetes, se uma pessoa quiser ficar com diabetes...
-É só fazer assim. -Fazer o que eu estou...
-Está fazendo certinho. -o que estou fazendo.
Certinho.
Não dá para ter diabetes e levar vida sedentária.
Não dá para você estar na fase pré-diabetes e levar
-E levar essa vida. -a vida parada o dia inteiro.
Você vai desenvolver a doença, o risco é muito alto.
Vocês viram a nossa conversa com a Dona Teresinha e com a Luciana.
As duas fazem tratamento pelo SUS e dizem que são muito bem atendidas.
O problema é que a Dona Teresinha tem diabetes e come muito doce.
E a Luciana, com pressão alta, não toma os remédios adequadamente.
Onde o sistema falha com elas? Não é no atendimento, é na informação. As duas não têm consciência da gravidade do que representa a hipertensão e o diabetes.
Já o problema da Andreia e do Armando, em relação ao SUS, é de outra ordem.
Os dois têm consciência plena dos riscos da obesidade e estão dispostos a fazer qualquer sacrifício para ficarem livres dela.
O Armando demorou muito tempo para conseguir a cirurgia, e a Andreia está na fila há três anos, sem ter a menor ideia de quando será chamada para a cirurgia bariátrica.
O SUS tem muita dificuldade para organizar o atendimento de doenças complexas como essa.
Luciana, nós medimos a glicemia.
Vamos medir a pressão, agora. Coloque aí direitinho.
Deu 167 por 104, o que significa 16/10. É muito alta.
A medicina diz que a pressão alta é um assassino silencioso.
