The Mouse Utopia Experiments | Down the Rabbit Hole
[DESCENDO A TOCA DO COELHO]
Entre as estranhas pesquisas americanas que apareceriam na metade do século XX existem poucas com um legado tão duradouro ou assustador quanto o dos Experimentos da Utopia dos Ratos.
Ocorridas ao longo dos anos 1950, 1960 e início dos 1970, o destino sombrio das cobaias foi publicado na revista nacional Scientific American, e os experimentos em si foram amplamente vistos como "manifestações apocalípticas".
Em um Estados Unidos do pós-Guerra, os termos utilizados para descrever os resultados, tais como "ralo comportamental", tornaram-se sinônimos junto aos medos de um mundo superpopulado, e de comportamentos violentos e depravados nas cidades.
Hoje eles são preservados em ficções como o thriller de conspiração Utopia, do Channel 4, e o clássico filme de animação, A Ratinha Valente (The Secret of NIMH).
*Nosso mundo começou a mudar*
Então, o que é capaz de descrever os Experimentos da Utopia dos Ratos?
Brevemente, após a Segunda Guerra Mundial, um grupo coletivamente conhecido como "os ambientalistas" faziam forte pressão para evitar a degradação do meio ambiente, assim como a superexploração dos recursos renováveis do planeta.
Entre essas pessoas encontrava-se um grupo especificamente conhecidos como "Neomalthusianos", um termo em referência ao estudioso inglês dos séculos XVIII e XIX, Thomas Robert Malthus.
Malthus propôs que "enquanto a população mundial crescesse exponencialmente, a produção de comida cresceria apenas linearmente levando a um eventual nível de subsistência existencial para a raça humana" conhecido como "Catástrofe Mathusiana".
Enquanto avanços como a Revolução Verde mostraram que isso não aconteceria, os neomalthusianos estavam conscientes das preocupações de Malthus a respeito da superpopulação e temiam que este padrão resultasse no colapso da civilização, ou, na melhor das hipóteses, em efeitos adversos extremos.
Estes medos receberam sustentação na literatura da época, especialmente em obras como Road to Survival, de William Vogt, em 1948; e talvez a mais famosa Primavera Silenciosa, de Rachel Carson, em 1962.
Entretanto, antes da explosão de popularidade dos movimentos nos anos 50 e 60, pesquisadores já haviam começado a investigar os efeitos do crescimento populacional, e entre eles havia um homem chamado John B. Calhoun.
Nascido em 1917, Calhoun tomou um interesse científico precoce, especificamente em ornitologia, publicando seu primeiro artigo sobre aves quando tinha 15 anos de idade, mas com o tempo seu interesse mudaria.
No período em que recebera seu PhD, seu foco mudaria para a etologia, o estudo do comportamento animal.
Com o fim de sua formação, ele mudou-se com sua família para Towson, em Maryland, para dar início a uma pesquisa na Universidade Johns Hopkins, próxima a Baltimore, mas a pesquisa propriamente seria conduzida muito mais próxima de sua residência.
Em 1947, logo após sua chegada, ele propôs ao seu vizinho que utilizasse parte de sua propriedade negligenciada para um experimento.
O escopo seria gigante, e, de acordo com Calhoun, seu vizinho provavelmente não esperava tamanha escala quando concordou em deixá-lo usar seu terreno florestal.
Tomando mais de um quarto de uma medida agrária (acre), Calhoun construiu um massivo habitat, completo com comida, água, um amplo abrigo e proteção de predadores, com a única condição limitante sendo a do espaço restrito do terreno.
Afetivamente, ele nomeou seu cerco de Rat City (Cidade Rato).
Infelizmente, nenhuma imagem disponível publicamente da Rat City existe...
Calhoun estava bem familiarizado com a espécie de "ratos da Noruega", tendo feito pesquisas com eles para seu doutorado e estimava que a Rat City poderia sustentar aproximadamente 5 mil indivíduos afirmando, contudo, que caso este número fosse atingido a densidade populacional seria grande
Ele começou dispondo 5 fêmeas grávidas no cerco, fornecendo ampla diversidade genética e logo a população já estava crescendo exponencialmente.
Mas então, algo surpreendente ocorreu.
Ao invés da população crescer ao ponto de preencher todo espaço do cerco, ela rapidamente decresceu seu nível a partir dos 150 membros.
Ele também notou certas peculiaridades comportamentais.
Apesar do tamanho considerável da Rat City, os residentes pareciam reunir-se ao redor de apenas alguns locais formando grupos sociais de 12 indivíduos, e limitando-se a localizações específicas de alimentação.
Ele concluiria o experimento após dois anos e quatro meses, nos quais a população jamais passara de 200.
Observações cautelosas revelaram a causa: alta mortalidade infantil.
Por alguma razão, conforme o experimento progredia e a população crescia, as mães não estavam cuidando de seus filhotes apropriadamente, levando a maioria deles a morte antes de alcançarem a maturidade.
Calhoun teve suas teorias para as causas mas para prová-las, ele precisaria de mais dados.
Em 1954, aproximadamente 5 anos após a conclusão de seu experimento inicial, ele foi contratado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, conhecido geralmente pela sigla, em inglês, NIMH.
No Laboratório de Psicologia, Calhoun recebeu amplos recursos para continuar seu trabalho.
Com uma equipe, ele começou a projetar e construir fervorosamente habitats, algumas vezes referidos como "universos", onde ele executou diversas versões em menor escala, e mais controladas, de seu estudo original com ratos, em uma raça domesticada do rato albino.
Estes ratos não buscariam por nada, todas as necessidades físicas para uma vida saudável seriam fornecidas para eles, incluindo comida, água, controle climático e material para os ninhos.
Calhoun levou 8 anos aperfeiçoando seus cercos e métodos até que finalmente em fevereiro de 1962, um artigo de sua autoria foi publicado na revista Scientific American.
O artigo foi intitulado: "Densidade Populacional e Patologia Social".
Seu parágrafo inicial sinistramente diz, aspas:
"Na celebrada tese de Thomas Malthus, imoralidade e miséria impõem o limite máximo natural no crescimento das populações.
Estudantes do assunto viraram suas atenções em maior parte para a miséria, isto é, para as predações, as doenças e os suprimentos de comida como forças que operam para ajustar o tamanho da população para seu ambiente.
Mas e a imoralidade?
Deixando de lado a carga moral desta palavra, quais são os efeitos do comportamento social de uma espécie em meio ao crescimento populacional — e da densidade populacional no trato social?".
Para responder esta questão ele citou seis de seus experimentos em particular, todos com composições e resultados preocupantemente similares.
O projeto destes habitats era simples.
O traçado era um retângulo medindo aproximadamente 3 por 4,25 metros dividido em quatro seções iguais por cercas elétricas.
Três dessas cercas sustentavam pontes nas quais os ratos poderiam subir, enquanto uma cerca não conteria tal passagem, basicamente criando um amplo espaço contido em si mesmo.
Cada seção era equipada similarmente, com um funil de comida, água, e áreas para os ninhos acessíveis através de escadarias em espiral.
Entretanto Calhoun, alavancando sua experiência com os ratos, fez modificações especiais para estimular comportamentos específicos.
Ele atraia os ratos para usar uma das baias centrais, fazendo com que a escadaria espiral para um dos espaços de convívio fosse menor que as outras, embora ele admitisse que isto era um fator comparativamente pequeno.
Entretanto, a mudança mais traiçoeira foi com seus suprimentos de comida.
Para uma metade dos experimentos, Calhoun ofereceu comida em pó, mas na outra metade, ele pôs alimentadores desenhados por ele, consistidos de pastilhas rígidas atrás das telas metálicas.
Metade de seus experimentos iniciaram-se com 32 ratos, a outra metade com 56, igualmente distribuídos em composições de machos e fêmeas e com todos tendo acabado de atingir a maturidade.
Calhoun estimou que aproximadamente 40 ratos poderiam viver confortavelmente nestes cercos, entretanto ele iria permitir que estas populações crescessem para 80 antes que ele os parasse.
Quase imediatamente após a implementação, as coisas começaram a dar errado.
As fêmeas, sem surpresa, se espalharam de maneira um tanto igualitária pelas baias, mas após os machos disputarem pela dominação e aqueles com a melhores classes foram selecionados, eles começaram a se distribuir estranhamente.
Ratos menos dominantes geralmente acordam mais cedo e começam a vagar e buscar por comida, e devido ao desenho da baia, isto significava que eles geralmente acabavam nas seções centrais para se alimentarem.
Durante este período, o macho dominante das baias externas acordariam e começariam a vigiar seus respectivos territórios.
Por haver apenas uma rampa de entrada em cada ponta, os machos dominantes de cada baia barrariam a volta dos machos menos dominantes forçando a população masculina a se aglomerar nas baias centrais, enquanto os machos dominantes das pontas protegiam o que viria a ser seus haréns.
Apenas alguns outros machos diferenciais eram permitidos a permanecer.
Estes poucos machos restantes começaram a exibir comportamentos estranhos, apesar de estarem maior parte do tempo nas tocas com a fêmeas, se escondendo dos machos dominantes, eles nunca tentaram acasalar com nenhuma delas.
Em vez disso, espantosamente, eles buscavam acasalar com o macho dominante, e de maneira ainda mais espantosa, o macho dominante não resistia a essas tentativas.
No mesmo momento em que isto estava acontecendo, o efeito dos alimentadores especiais de Calhoun estava tomando conta.
Visto que a procura de alimento era um processo demorado com os alimentadores de comida dura, era comum que um rato se juntasse a outro durante o processo de alimentação.
Com este método, os ratos lentamente se condicionaram a comer na companhia de outros ratos até que, eventualmente, os ratos recusariam a se alimentar a menos que outro rato estivesse presente.
Tendo em vista que cada vez mais ratos tendiam a permanecer nas baias centrais, este comportamento significava que, com o tempo, mais e mais ratos seguiam até lá, os condensando cada vez mais.
Isto elevou a proximidade de uma já elevada população.
Nos experimentos com a comida em pó, este efeito foi bem menos pronunciado.
Com estes fatores combinados, Calhoun observou o que ele chamou de "ralo comportamental", ou um aumento de atividade patológica nos ratos devido ao estresse envolvido em tal elevada densidade populacional.
Para as fêmeas, o "ralo comportamental" se manifestou com a redução da capacidade de construção de ninhos e criação dos filhotes.
Ratos filhotes são extremamente dependentes de suas mães para quase todas as coisas, entretanto, sob os efeitos do "ralo comportamental", as mães comumente eram interrompidas na prática de construção de seus ninhos para se engajarem em alguma outra prática social.
Conforme o tempo passava, isto levou a ninhos cada vez mais esparsos que não poderiam abrigar os filhotes apropriadamente.
Se uma mãe decidisse mover sua ninhada, ela geralmente mudava apenas alguns, ou os espalhava pela baia em locais separados.
Além disso, quando fêmeas estão prontas para acasalar, os machos podem sentir e o espaço fechado significava que uma fêmea não poderia escapar das contínuas investidas dos machos durante estes períodos.
Mesmo quando elas entrassem em seus ninhos para um descanso, elas seriam seguidas e atormentadas.
Estes fatores em conjunto resultaram em uma mortalidade infantil extremamente elevada, em um dos casos, atingindo 96%.
Para os machos, isso se manifestou de maneiras diferentes.
Os machos dominantes ocasionalmente atacavam com violência os outros membros da baia, incluindo os filhotes, geralmente mordendo e ferindo suas caudas.
Entre os machos das classes mais baixas, haviam três grupos:
O primeiro ele descreveu como os Homossexuais. Com os quais ele imediatamente corrigiu para Pansexuais, que não competiriam por status, mas que comumente tentariam acasalar com qualquer outro rato independente do gênero ou idade.
Muito como nas baias do fim, esses avanços foram imbatíveis.
O segundo grupo ele descreveu como os Sonâmbulos, que se locomoviam lentamente pela baia sem interagir com outros indivíduos com qualquer tipo de vaidade.
E os outros ratos, como resposta, os ignoravam, exceto em raras circunstâncias.
Estes ratos, externamente, ele descreveu como "gordos, macios e de aparência saudável".
Mas para ele o grupo mais estranho era o terceiro, que ele nomeou de Investigadores
Estes ratos eram hiperativos, hipersexuais e pansexuais.
Apesar da violência dos machos dominantes, eles perseguiam visceralmente as fêmeas em exaltação comprometendo qualquer tipo de ritual de copulação as seguindo até suas tocas para acasalar.
Adiante nos experimentos, eles geralmente encontravam os corpos dos filhotes mal cuidados cometendo canibalismo.
Com o tempo, um dos assistentes de Calhoun descreveria publicamente essas baias como "inferno".
Neste ponto, Calhoun finalizou os experimentos, mas ele previa que estas mudanças patológicas eventualmente levariam à morte das colônias.
Em sua conclusão, ele coletou os quatro machos e fêmeas mais saudáveis e permitiu que eles reproduzissem, mas seus comportamentos haviam sido tão inexoravelmente alterados que nenhum dos filhotes sobreviveu após o desmame.
Este pequeno artigo cativou os leitores americanos e os efeitos em ambos os mundos da ciência e da cultura popular foram imediatos.
Pessoas começaram a relacionar os experimentos com ratos de Calhoun à vida nas cidades modernas e em uma era em que o medo do desvio social estava atingindo seu ápice eles foram vistos amplamente como um reflexo do tempo presente e um possível rumo para a sociedade.
Estimulados pela linguagem provocativa de Calhoun e o desenho alegórico de seus ambientes de testes, feitos para parecerem cidades, a densidade populacional se tornou um assunto comum.
O psicólogo Carl Rogers em seu trabalho "Some Social Issues Which Concern Me" relatou que:
"A semelhança com o comportamento humano é amedrontadora.
Em humanos vemos más relações familiares, a falta de cuidado, a alienação completa, a atração magnética das superlotações, a falta de envolvimento tão vasta que permite as pessoas a serem capazes de presenciar um longo assassinato sem sequer chamar a polícia.
Talvez todos os moradores das cidades sejam habitantes de um ralo comportamental"
Logo após, conduziram-se estudos em densos ambientes urbanos com a finalidade de observar se estes efeitos poderiam se traduzir diretamente nos humanos, mas os resultados foram inconclusivos e não satisfatórios.
Apesar das insinuações dos ratos de Calhoun, humanos e cidades reagiam de maneira diferente ou em alguns momentos, dependendo dos locais, contrário ao que os pesquisadores esperavam.
Independentemente do quanto tentassem, nenhuma evidência de um ralo comportamental generalizado pôde ser encontrada em áreas urbanas.
Entretanto, isso não desestimulou Calhoun.
Mesmo com outros já havendo explorado os problemas das superlotações,
Calhoun continuou freneticamente sua pesquisa.
Agora com um celebrado sucesso e encorajado pela aceitação pública de suas ideias, ele retomou seu trabalho no NIMH em uma escala ainda maior, embora, novamente, longe da visão pública.
Ele usou seu tempo em novos assuntos enquanto continuava a aperfeiçoar seus cercados e experimentos até que, finalmente, após 11 anos,
Calhoun revelou sua obra-prima através de um artigo intitulado:
"Morte Confinada"; publicado na revista acadêmica Proceedings of the Royal Society of Medicine em janeiro de 1973.
A extensa introdução desse artigo era inegavelmente apocalíptica.
Calhoun escreve: "Falarei sobre ratos de maneira ampla, mas meus pensamentos serão sobre os homens, a cura, a vida e sua evolução.
Ameaçando a vida e a evolução existem as duas mortes, a morte do espírito e a morte do corpo.
Evolução, nos termos da sabedoria antiga, é a conquista ao acesso à arvore da vida."
Ele prossegue citando diversas vezes o Livro do Apocalipse e os Quatro Cavaleiros, usando-os para afirmar que o Juramento de Hipócrates se aplica não somente ao corpo mas também ao espírito.
Após essa introdução dramática, ele descreve seus testes.
Em maior parte, estes novos experimentos eram similares aos seus de 1963, incluindo acesso ilimitado à comida e água, proteção aos elementos naturais e predadores, e medidas contra doenças.
Diversas partes, entretanto, foram drasticamente alteradas. Conforme Calhoun menciona na sua introdução, os "ratos da Noruega" utilizados em seus primeiros experimentos publicados foram substituídos por ratos albinos domésticos, que haviam sido obtidos de um grupo de reprodução do Institutos Nacionais da Saúde (NIH), gerados especificamente para prevenir doenças transmissíveis.
Para acomodar seus novos objetos, Calhoun projetou um cerco inteiramente novo.
Esta versão era muito mais vertical, com 16 áreas domésticas para os ratos montadas nas paredes no topo de longos tubos de metal, que Calhoun chamou de "apartamentos sem elevador".
Na base de cada apartamento encontrava-se um suprimento praticamente ilimitado de comida, água, e materiais para os ninhos.
Com o espaço disponível, Calhoun estimou que se pudesse, potencialmente, abrigar 3840 ratos.
Ele nomeou esse cercado de "Universo 25".
Os métodos de Calhoun também haviam mudado.
Ao invés de estabelecer controles populacionais, ele interferiria bem menos no experimento.
Seu plano era colocar 8 ratos no cerco, 4 machos e 4 fêmeas, e, simplesmente, observar e esperar.
Calhoun observou 4 fases distintas no subsequente experimento:
"Fase A" era previsível, constituindo-se do período de tempo anterior ao nascimento dos primeiros ratos, que por fim levaria 104 dias.
Para os ratos, esses dias seriam "marcados por turbulências sociais consideráveis."
Após o estabelecimento da organização social, e a primeira ninhada tivesse nascido, a população iniciaria a "fase B", na qual Calhoun nomeara de fase de "exploração".
Durante este período os ratos duplicariam em quantidade a cada 55 dias conforme novos filhotes se tornassem maduros e tivessem suas próprias crias.
Esta duplicação continuou até o dia 315, no qual a taxa de duplicação desacelerou para uma a cada 145 dias, um período aproximadamente três vezes maior.
Neste ponto, as diferentes ninhadas haviam se aglomerado em um dos cantos da baia, exibindo o mesmo tipo de aglomeração que a dos ratos da Noruega.
Mas desta vez, sem qualquer persuasão dos projetos de Calhoun, esta mudança na taxa de procriação estabeleceu a "fase C", na qual Calhoun nomeou de "fase de estagnação".
Este é momento em que os eventos mais notáveis ocorreram e que estranhamente refletiram os experimentos com ratos de Calhoun.
Em um cenário natural, aqueles ratos que não encontram qualquer nicho social acabam por abandonar sua colônia, porém neste experimento, a migração era impossível, sendo assim, aqueles forçados a permanecer se afastaram da sociedade.
Estes machos rejeitados formaram um grande conglomerado no centro do cerco.
Eles rapidamente caracterizaram-se por suas ambas inatividade e suas diversas cicatrizes e feridas.
Ocasionalmente eles ficavam agitados e atacavam uns aos outros, e, com nenhum lugar para correr, o alvo destes ataques simplesmente permanecia quieto e suportava a investida.
As fêmeas exiladas, ao invés de se juntarem a eles, abrigavam-se nos apartamentos mais altos e viviam calmamente entre si.
Foi durante este período que o ralo comportamental se manifestou, com ratos se aglomerando em grande número ao redor de alimentadores específicos, enquanto outros permaneciam quase que inteiramente intocados, mostrando como, novamente, a necessidade de interação social havia se tornado tão entrelaçada com a necessidade por comida ao ponto desta última se tornar menos importante do que a anterior.
Os machos que haviam ganhado as primeiras lutas também foram submetidos a intenso estresse.
Conforme mais e mais ratos alcançavam a maturidade, tanto os membros de dentro ou fora dos grupos, os líderes dos grupos sociais precisavam manter continuamente a patrulha e defender seus territórios.
Eventualmente, eles alcançaram o ponto de exaustão e não eram capazes de defender as fêmeas de seu grupo.
Estas fêmeas foram, por consequência, forçadas a defenderem seus ninhos sozinhas, mesmo durante os cuidados com seus filhotes, conduzindo a um comportamento agressivo generalizado.
Essa agressão seria, inevitavelmente, mal direcionada aos seus filhotes, que seriam feridos por suas mães e forçados a abandonarem o ninho antes que terminassem a amamentação.
Bem como os ratos passados, a mãe-rato igualmente esquecia alguns de seus filhotes quando mudava-se de um local do ninho para outro.
Devido ao estresse adicional de defender seu território, em alguns momentos a mãe reabsorvia os ratos ainda não nascidos dentro do próprio útero reduzindo ainda mais as taxas de fertilidade.
Calhoun escreve: "Para todos os propósitos práticos houve uma morte da organização social no final da Fase C."
Por fim, havia a Fase D, que Calhoun intitulou
"a fase da Morte".
Esta fase era caracterizada amplamente por uma geração inteira de filhotes que haviam sido rejeitados por suas mães precocemente e forçados a abandonar o ninho, e eles estavam, portanto, incapazes de demonstrar comportamentos sociais normais.
Isso se manifestou de inúmeras maneiras.
As fêmeas desta geração tiveram bem menos filhotes, e aquelas que tiveram crias, não possuíam os instintos maternos necessários para criá-los além do período de amamentação.
Calhoun prossegue descrevendo os machos desta geração:
"Machos homólogos a estas fêmeas não reprodutoras foram prontamente apelidados de "os belos".
Eles nunca se comprometeram em abordagens sexuais com a fêmeas, e nunca haviam entrado em brigas, portanto, não carregavam feridas ou cicatrizes.
Nestas condições, suas pelagens permaneciam em excelentes condições.
Seus repertórios comportamentais se tornaram amplamente resumidos em comer, beber, dormir e cuidar da própria aparência, nenhum dos quais carrega quaisquer implicações sociais além daquelas representadas pela proximidade de corpos."
Conforme o último rato com instintos reprodutores envelhecia para além de sua fertilidade,
Calhoun declarou que o último macho morreria aproximadamente no dia 1780 do experimento, declarando, com efeito, a morte da colônia, sendo esta incapaz de produzir qualquer filhote a mais.
Sua fala no presente do indicativo implicava que no momento em que o artigo foi publicado, a colônia ainda estava tecnicamente viva. Embora seu destino final já estivesse praticamente selado.
Calhoun finalizou seu artigo com uma chamada para a ação:
"Para um animal tão complexo quanto o homem, não existe razão lógica do porquê uma sequência comparável de eventos não deve também acabar por conduzir à extinção da espécie.
Se as oportunidades para o cumprimento do papel está aquém da demanda por aqueles capazes de cumprir papéis, e havendo expectativas para tal, apenas a violência e a ruptura da organização social poderá se seguir.
Indivíduos nascidos sob estas circunstâncias estarão tão fora de contato com a realidade sendo incapazes até mesmo de alienarem-se.
Seus comportamentos mais complexos se tornarão fragmentados.
Aquisição, criação e utilização de ideias apropriadas para a vida em uma sociedade pós-industrial cultural, conceitual e tecnológica estarão bloqueadas.
Assim como a generatividade biológica no rato envolve os comportamentos mais complexos dessa espécie, também relaciona-se a generatividade ideacional para os homens.
A perda destes respectivos comportamentos complexos significa a morte da espécie."
Porém, mesmo com Calhoun realizando sua pesquisa em ratos, outros estavam trabalhando para aplicar suas teorias em humanos.
Neste momento pesquisadores mudaram-se para locais mais específicos com superlotações ao invés da escolha por locais comuns nas cidades, testando os efeitos em estudantes em dormitórios e pacientes em hospitais, entretanto o exemplo mais frutífero que se descobriu foram em prisões.
Paul Paulus, da Universidade do Texas, escreveu que "prisões eram o local perfeito para esse tipo de estudo", descrevendo a interação social entre detentos como:
"intensa, prolongada, inescapável e realista."
A prisão dentro do estudo também oferecia a equivalência mais próxima com os experimentos com ratos de Calhoun, dada a circunstância de que os prisioneiros não poderiam escapar da companhia do outros, até mesmo em suas celas comunais.
Lá eles encontraram conexões entre socialização excessiva e suicídio, violência, psicopatia e estresse.
Após tais estudos, psicólogos ambientais começaram a descobrir o problema.
Eles identificaram dois tipos de densidade:
Densidade Física e Densidade Social.
Densidade Física era a quantidade de espaço por pessoa, enquanto a Densidade Social era o número de indivíduos ocupantes em um espaço.
Eles descobriram que a Densidade Social era um fator muito mais importante já que os indivíduos de altas densidades sociais eram incapazes de controlar suas interações com os outros. baseado nestas pesquisas, ambientes humanos poderiam ser projetados para, pelo menos, parcialmente atenuar estes problemas, permitindo que os que vivessem neles a privacidade necessária para manter uma relação social saudável.
Fora do discurso científico, a retórica de Calhoun manteve sua força ao longo dos anos, com diferentes grupos, de todas as convicções políticas, retorcendo seus resultados para apoiar suas visões a respeito da degradação social.
Entretanto, eles mesmo podem defini-las.
Entre mais algumas fontes acadêmicas, Calhoun foi tanto louvado quanto criticado por seu trabalho.
Aqueles que o apoiaram citam seu pensamento avançado a respeito da superpopulação, enquanto aqueles que o ridicularizam citam sua deturpação dos reais problemas sociais nas cidades, distanciando o discurso das verdadeiras causas para a discórdia social.
Porém independentemente do que aqueles no tempo atual pensam sobre sua pesquisa, sua influência na maneira em que os EUA enxergam suas cidades é inegável.
