The three myths of climate change | Linda Mortsch | TEDxToronto
Tradutor: Tânia Crispim Revisora: Margarida Ferreira
Como cientista, fiz muitas viagens a comunidades para falar sobre o impacto da alteração climática e como nos adaptarmos a ela.
Gostava de partilhar uma experiência memorável que tive quando estava de viagem.
Estávamos em 2000.
Eu estava numa "workshop" para profissionais canadianos e norte-americanos da Bacia dos Grandes Lagos.
A minha apresentação era "Porque temos que nos adaptar?" e o meu objetivo era motivar as pessoas a repensar, a planear e a agir, ou a adaptarem-se à alteração climática.
Usei mapas, gráficos, tabelas com muitos números.
Vocês sabem, as coisas que os cientistas gostam de usar.
Mas também falei sobre os impactos e custos económicos e as implicações na qualidade de vida das pessoas.
Pensava que tinha feito um trabalho excelente ao abordar os casos científicos da adaptação à alteração climática e estava com esperanças de os ter inspirado a agirem de qualquer modo.
Quando chegou a altura das perguntas, um participante um pouco agitado foi o primeiro a levantar-se.
"Minha senhora, minha senhora
"está a falar de mudanças no futuro, nas décadas de 2020, de 2050.
"Ainda falta muito tempo.
"Além disso, esses impactos de que fala
"são apenas projeções.
"Estamos bem preparados,
"por isso, não vejo que isso aconteça na minha comunidade.
"Além disso, se as mudanças começarem a aparecer, teremos tempo para reagir.
"Além disso, minha senhora,
"está a aconselhar-nos a nos adaptarmos à mudança climática.
"Porque é que devemos escutá-la?
"Porque é que devemos agir?
"Para além do mais, quão certa está da sua ciência de alteração climática?
"Era capaz de sacrificar o seu primeiro filho recém-nascido?"
Eu fiquei: "Uau! Nunca tive uma pergunta assim."
E pensei: "Oh meu Deus."
Vocês sabem, nós cientistas gostamos de factos.
Eu estava à espera de ter os detalhes técnicos fundamentais.
Logo, fiquei surpreendida.
Já não me permitiam ser uma cientista racional e específica.
Eu tinha que ser, pensar e sentir como uma mãe.
Aquele cavalheiro estava a tornar as coisas muito pessoais.
Eu parei e pensei.
Mas, sabem, é mesmo pessoal.
Nenhuma mãe quer oferecer o seu filho como sacrifício.
Mas são os meus filhos e as gerações futuras que motivam a minha pesquisa.
Em certo sentido, eu posso ver possíveis futuros, não como uma profeta, mas com as ferramentas da minha profissão.
Ferramentas científicas, modelos climáticos, projeções climáticas e avaliações de impactos ajudam-me a diagnosticar ameaças, oportunidades e onde a ação seria prudente.
As provas são esmagadoras.
Adaptarmo-nos ao clima é necessário e urgente.
Aquele homem não entendera?
Ele também não entendera que era um participante na adaptação à alteração do clima querendo ou não.
Eu parei e pensei.
As minhas provas são fortes, por isso disse-lhe que sim.
Não sacrifiquei só um filho, mas dois, Patrick e Alison.
(Risos)
Muitos de vocês aqui acreditam na alteração climática e que algo deve ser feito.
Mas suspeito que muitos aqui ainda tenham preconceitos sobre a natureza da alteração climática e como fazer a adaptação.
Segundo a minha experiência, gostava de falar de três mitos e acabar com eles.
Mito número um: a alteração climática só vai aparecer num futuro distante.
Mito número dois: a alteração climática vai acontecer aos outros.
Mito número três: vai ser fácil adaptarmo-nos à alteração climática.
Mito número um: "a alteração climática vai acontecer num futuro distante".
Na verdade, já estamos no meio da transformação climática.
Só que não o sabemos.
As estatísticas dizem-nos isso.
Mas quantos de nós recolhemos dados e sabemos as estatísticas da temperatura do ar?
Lentamente, as alterações vão-se aproximando.
Como quando, em jovens, ganhamos os primeiros cinco quilos
(Risos) ou pior, quando os cabelos brancos e as rugas aparecem de repente.
E, quando reparamos nessas mudanças, não é que elas parecem acelerar, que estamos a envelhecer mais depressa, e não podemos voltar atrás? É isso que está a acontecer com a alteração climática.
Então, se estamos no meio duma transformação climática, como é que sabemos?
Nós, cientistas, estamos a trabalhar nisso.
Desde 1990, trabalhámos e apresentámos cinco relatórios de avaliação da alteração climática aos governos de todo o mundo.
Eu participei em quase todos.
E digo-vos, temos que estar no topo da profissão para participar. É um processo rigoroso e exigente.
As nossas avaliações usam uma investigação do mais alto calibre.
Usamos milhões de observações por todo mundo recolhidas num período de mais de cem anos.
Essa é a base para criarmos afirmações quanto ao estado do sistema climático.
Gostava de partilhar convosco algumas dessas afirmações, e gostava que ouvissem as palavras atentamente.
Elas foram escolhidas com muito cuidado pelos cientistas e aprovadas por unanimidade, por mais de 150 países.
Eu acho que isso é um feito incrível.
Fizemos isso cinco vezes.
Então, quais são as afirmações?
Em 1995, começámos a detetar a influência humana no sistema climático.
Em 2001, era percetível a influência humana no sistema climático.
No relatório de 2013, o aquecimento do sistema climático é inequívoco e a atividade humana é a principal causa do aquecimento desde os anos 50.
Então, quando os cientistas internacionais e os governos mundiais usam a palavra "inequívoco" é no sentido literal:
"sem qualquer dúvida."
Então, se estamos no meio de uma transformação climática, e podemos medi-la, quais são as consequências?
Vou levar-vos a Houston, Texas, que foi atingido recentemente pelo furacão Harvey.
Alguns cientistas pensam que a alteração climática tornou Harvey pior.
Como assim?
Sabemos que o aquecimento aquece o oceano, que alimenta furacões.
O aquecimento também aquece a atmosfera, e faz com que os furacões absorvam mais humidade e água, que pode cair como chuva.
Mas esse é só um exemplo.
O que realmente me preocupa é que o aquecimento alimenta acontecimentos extremos.
Não são só os furacões.
São as ondas de calor, as secas, as inundações e os incêndios.
Todos tornando-se mais fortes, durando mais tempo e tornando-se mais frequentes. É isso a alteração climática.
Agora, o mito número dois é
"a alteração climática só vai acontecer aos outros."
Este é interessante.
Apercebi-me que a maioria das pessoas acha que os maiores impactos vão acontecer aos outros.
Eles desviam-se.
Mas a alteração climática vai acontecer a todos.
Vai afetar todos diretamente.
Vai afetar a nossa família, a nossa comunidade, a nossa cidade, a nossa área natural, a nossa região.
Também nos vai afetar pelo que acontece noutros países do mundo.
Vou usar a subida do nível do mar, como exemplo.
Bangladesh foi identificado muitas vezes como um lugar de crise humanitária a desenrolar-se.
Bangladesh está um pouco acima do nível do mar.
Está na foz de três grandes rios, e está exposto a ciclones tropicais, e não tem muita proteção.
Cerca de 10% da população de Bangladesh pode ser deslocada pela subida do nível do mar devido à alteração climática.
São 18 milhões de refugiados ambientais ou seja, cerca de metade da população do Canadá.
E não é tudo.
O Bangladesh é apenas um de muitos outros países nas áreas costeiras que vão sofrer a subida do nível do mar; inundações e pessoas desalojadas.
Torna-se um problema mundial.
Também gostava de chamar a atenção para o facto de como a alteração climática nos vai afetar mais de perto.
Vou usar como exemplo, Vancouver, na Colômbia Britânica,
As comunidades costeiras na Colômbia Britânica já estão a fazer planos por causa da subida do nível do mar, devida à alteração climática.
São 50 centímetros em 2050, são 100 centímetros em 2100, e 200 centímetros em 2200.
Também foram identificadas regiões vizinhas como locais críticos de possíveis futuras inundações.
Vocês vão reconhecer estes nomes:
English Bay, Kitsilano Beach, Gastown, e Downtown Eastside, por exemplo.
Agora imaginem que são um comerciante ou um residente nesse local,
O vosso bairro está em transformação. É provável sofrerem mais inundações.
Estão em risco de serem deslocados, de serem evacuados de emergência.
A perda de receitas e de propriedade também será um risco maior.
Então, o que podem fazer?
Como se podem adaptar?
Estas são as perguntas difíceis.
Isso leva-me ao mito número três.
"Vai ser fácil adaptarmo-nos à alteração climática".
Sabem, a mudança é difícil.
Pensem em perder peso.
Os cinco primeiros quilos são fáceis, desaparecem rapidamente, mas os 5, 10 ou 15 quilos seguintes precisam de planeamento, de compromisso e esforço, e também pode ser preciso uma transformação na dieta e no estilo de vida. É o mesmo com a alteração climática.
Vamos voltar ao exemplo da subida do nível do mar em Vancouver.
Nas primeiras fases de adaptação, a ameaça climática é o aumento de inundações durante tempestades.
Então, o nosso objetivo é proteger a saúde e a segurança e o ambiente construído.
Chamo-lhe "o rosto dos sacos de areia e dos diques".
Isto significa que a adaptação é tradicional e gradual.
O que fazemos é a avaliação de riscos, por exemplo.
Vemos quem é vulnerável, o que está em risco e onde e pensamos em modificar os diques existentes e criar novos.
Mas, se olharmos para o futuro, vamos perceber que, enquanto o clima vai mudando, provavelmente vamos chegar a extremos desconhecidos.
Isso significa que os nossos planos já não vão funcionar como deviam, ou talvez já não consigamos pagá-los.
A adaptação torna-se muito difícil.
Voltem a pensar nos locais críticos da vizinhança que são propensos a inundações.
Até que ponto a comunidade achará que o risco de inundações é demasiado elevado que vão desistir da terra, abandonar as suas casas e empresas, e fugir da subida do nível do mar?
Conseguem imaginar como serão as conversas?
Como as escolhas podem ser difíceis?
Este é o desafio da adaptação.
Agora, vou tentar falar de adaptações inovadoras, fora do habitual.
Planificadores, arquitetos e engenheiros estão a re-imaginar a área costeira, a relação entre a linha da terra e a linha da água ao longo da costa, e estão a projetar subdivisões anfíbias.
Isto é uma adaptação transformadora.
Na minha palestra, desmontei três mitos.
E vou substitui-los por três realidades da alteração climática provocada pelo ser humano.
Vai acontecer, vai afetar-nos, e vai ser necessário uma adaptação transformadora.
Eu não vos quero desanimar.
Eu não estou desanimada e tenho trabalhado neste problema há mais de 30 anos.
Tenho esperança e tenho a certeza que conseguimos e iremos enfrentar este desafio da adaptação.
Lembram-se como eu disse que estamos nesta viagem de adaptação quer queiramos quer não?
Gostava que pensassem em como podem contribuir, que papéis podem desempenhar.
Precisamos de pensadores, pessoas que olhem para o problema de novas formas e que encontrem soluções transformadoras e inovadoras, coisas em que ainda não tenhamos pensado.
Precisamos de quem aja, pessoas que peguem nessas ideias inovadoras e ultrapassem as controvérsias normais e as barreiras inevitáveis quando combatemos o status quo.
Também precisamos de apoiantes.
Os apoiantes são fundamentais para apoiarem quem pensa e quem age.
E não podemos pôr de lado os apoiantes que usam a sua voz, como no caso do voto, para criarem apoio social e político para essas ideias inovadoras e transformadoras.
Eu sacrifiquei os meus filhos, Patrick e Alison, à mudança climática.
Não estava a brincar, era a sério.
Estava a falar a sério com aquele senhor.
Estava a falar a sério sobre a minha ciência, e estava a falar a sério sobre precisarmos de nos adaptar.
E se não agirmos todos, iremos sacrificar os nossos filhos à alteração climática.
Então, olhando para os futuros desafios da adaptação, não vamos sacrificar os nossos filhos, netos e gerações futuras.
Vamos pensar numa adaptação transformadora.
Vamos ser inovadores, enérgicos, corajosos e vamos construir um futuro melhor.
Obrigada.
(Aplausos)
