What's Your Prison?: Paul Wood at TEDxAuckland
Tradutor: Margarida Ferreira Revisora: Mafalda Ferreira
Na vida, onde chegamos, é quase sempre o resultado duma série de escolhas aparentemente inocentes, que parecem não ter importância na altura, mas que acabam levando-nos numa única direção.
Aos 18 anos, resolvi usar drogas para poder lidar com a vida e associei-me a pessoas que não se importavam com o meu bem-estar ou com o de outras pessoas.
Com isso, acabei por me colocar em situações de alto risco.
A minha mãe morreu quando tinha 18 anos.
Três dias depois, resolvi encontrar-me com um traficante de drogas.
O que eu não sabia, quando tomei essa decisão, era que ele gostava de atos sexuais com garotos adolescentes.
O que ele não sabia, quando resolveu encontrar-se comigo, era que eu estava disposto a lutar.
O que nenhum de nós sabia, quando fizemos a nossa escolha, era onde aquilo nos levaria.
Antes de o dia acabar, ele estaria morto, e eu passaria a primeira noite de muitas que se seguiram nos 10 anos seguintes, atrás das grades.
Aos 20 anos, formei-me na pior prisão de segurança máxima da Nova Zelândia.
Foi lá que aprendi, em teoria, a iludir sensores de calor e helicópteros da polícia e, na prática, como fabricar uma arma com uma película de PVC e uma escova de dentes.
O que eu não percebera, antes de ser preso, era que já estava a viver numa prisão feita por mim mesmo.
A prisão da minha mente.
Há muitas crenças que nos aprisionam e nos impedem de viver uma vida plena.
A minha prisão era acreditar que o meu potencial estava traçado.
A minha prisão era acreditar que um homem se media pela sua capacidade de violência, e que um homem não devia sentir medo, ficar triste, ser vulnerável ou fraco. É irónico ter sido preciso ir parar a uma prisão de verdade para me livrar da minha prisão mental.
Também é irónico que, só depois de ter saído, tenha percebido quantas pessoas ficam presas nas suas prisões pessoais.
Consegui escapar da minha prisão mental através de 5 passos progressivos para uma mudança pessoal.
Chamo-lhes "os 5 passos para a liberdade".
O primeiro passo para a liberdade é reconhecer que nascemos livres.
Em bebés, quando começamos a respirar, temos a mente em branco.
Mas depois, a vida começa a ficar séria e, para tentar lidar com as coisas que nos acontecem e dar sentido ao mundo, adquirimos crenças distorcidas que nos são prejudiciais.
Com o tempo, essas crenças acabam por nos aprisionar.
Porém, não nascemos para viver essa vida, a vida em que podemos ser verdadeiramente autênticos e livres.
Só quando conheci um dos arrombadores mais experientes da Nova Zelândia é que questionei o que eu pensava sobre a liberdade.
Foi cerca de dois anos depois da minha condenação, logo a seguir a mais uma temporada que passei na solitária.
Esse tipo era membro da MENSA.
Era muito inteligente, e passávamos muito tempo no pátio a falar sobre a complexidade da sua atividade.
O pátio é como uma piscina vazia onde todas as extremidades são a parte mais profunda.
Lembro-me que, quando via passar um avião, pensava no que eu não daria para estar dentro dele, para onde quer que ele fosse, para qualquer lugar menos ali.
Um dia, o arrombador de cofres veio ter comigo com uma bola de ténis e um cinzeiro pesado e perguntou-me:
"Se eu deixar eles cair os dois ao mesmo tempo,
"qual deles chega primeiro ao chão?"
Não pude acreditar na estupidez daquela pergunta.
Ver aqueles dois objetos a bater no chão ao mesmo tempo fez explodir a minha cabeça.
Nunca tinha questionado o modo como via o mundo.
Sempre achara que o mundo era tal como eu o via.
Porém, aquela demonstração fez-me pensar sobre o que podia estar errado com outras coisas que eu julgava saber.
Antes daquilo, sempre tinha achado que os estudos serviam para arranjar um emprego.
Depois daquilo, comecei a ver os estudos como uma coisa que podia tornar o mundo mais interessante e apurar a veracidade das minhas crenças.
Sempre fui uma daquelas pessoas insuportáveis que gostam de pensar que têm sempre razão, uma tendência que levou a minha mãe a pôr um aviso no frigorífico sugerindo que os adolescentes deviam sair de casa enquanto ainda soubessem tudo.
(Risos)
Reconhecer que nascemos livres e que as crenças que nos aprisionam podem ser contestadas e substituídas é o primeiro passo para a liberdade.
O segundo passo para a liberdade é optar por romper com o que nos aprisiona.
Viver na prisão é difícil, mas libertar-se dela ainda é mais difícil.
O desejo de nos libertarmos depende daquilo que achamos que vamos conseguir.
Muita gente opta por não se libertar das suas prisões, porque acha que é impossível mudar e que no fim vai acabar dececionada.
Libertar-se também depende de quanto achamos que isso vai custar e de quanto valorizamos a mudança. É muito mais seguro ficar do lado de dentro.
Não corremos riscos adicionais de fracasso e isso exige menos esforço.
As taxas de reincidência confirmam esta tese.
Para muitas pessoas é mais fácil ficar na prisão.
Lá dentro, são poucas as responsabilidades que se têm como adulto.
E por mais distorcido que isto pareça, na prisão, muitas pessoas sentem que pertencem a alguma coisa, que têm um estatuto e uma comunidade, coisas que não conseguem ter cá fora.
Na hierarquia da prisão todos conhecem o seu lugar.
Para algumas pessoas, aquele lugar é a única coisa de valor que possuem.
Libertar-se exige um compromisso real e emocional com a mudança.
Para isso, temos de nos concentrar na razão por que queremos mudar.
Não porque os outros possam achar que devíamos mudar, mas porque somos nós que queremos mudar.
Nunca me tinha visto como alguém que podia completar os estudos.
Ainda por cima, tinha chumbado um ano na escola.
Mas acabei por me matricular em duas especializações em psicologia, pois sabia que entender a motivação das pessoas é uma competência útil para quem está na prisão.
(Risos)
Cerca de 50 a 80% dos presidiários sofrem de qualquer tipo de transtorno mental, e ser atacado por causa da instabilidade mental de outras pessoas era uma preocupação bem real.
Terminei a minha primeira tarefa na solitária.
Imprimi tudo num único parágrafo e em letras maiúsculas.
Fiz isso porque não conhecia as convenções da escrita e achava que as maiúsculas eram mais bonitas.
(Risos)
Terminei os exames numa sala sem janelas de um bloco correcional.
Mesmo assim consegui terminar os exames.
Fiquei muito espantado por passar nos exames.
Fiquei a pensar que talvez fosse muito mais capaz do que pensava ser.
Fez-me sonhar. Fez-me pensar:
"E se eu pudesse sair daqui com um diploma?"
Conseguir um diploma parecia ser uma meta audaciosa.
Mas havia um grande obstáculo para realizar esse sonho: era eu fumar tanta marijuana.
(Risos)
Fumar marijuana fazia sentir-me nas nuvens e fazia-me esquecer a realidade.
Eu era jovem e estava preso.
Sentia-me frustrado, desorientado.
Se queria realmente começar a mudar de vida precisava deixar de usar drogas.
Ter passado naqueles exames tinha reforçado o desejo de sair da prisão.
Mas entre querer mudar e pôr isso em prática vai uma grande diferença.
O terceiro passo para a liberdade é concretizar a fuga.
Sonhos sem ação não passam de sonhos.
Para conseguir escapar é preciso começar a dar passos para reduzir a distância entre o sítio onde estamos e onde queremos chegar.
As pessoas que desejam sair das suas prisões, mas que não conseguem fazê-lo, pensam geralmente na mudança como uma coisa que irá ocorrer num futuro distante.
O problema é que isso não nos leva a agir.
A mudança pode começar a parecer algo impossível de alcançar. É amanhã, no próximo mês, no próximo ano.
Para escapar, temos que ser específicos sobre o que queremos mudar.
Uma mudança específica não é querer perder peso, mas sim querer perder 5 kg.
Pensar em escrever um livro não nos leva a pôr a caneta no papel.
Ter a meta específica de escrever 500 palavras na quinta-feira é que nos pode levar a isso.
Há pesquisas que mostram que ter objetivos vagos torna mais difícil começar e mais fácil desistir.
Ter metas específicas significa que não podemos enganar-nos pensando que já fizemos o suficiente.
Muitos presos falam sobre o que farão quando forem soltos, como cuidarão melhor dos seus filhos, como levarão uma vida melhor.
Mas viver e mudar tem a ver com o que fazemos agora.
O tempo é uma coisa diferente quando se passa muito tempo na prisão.
Para sobreviver psicologicamente, é preciso esquecer o mundo cá fora, aceitar que aquela é a nossa nova vida, e concentrar-se no presente.
Concentrar-me no presente foi a chave para me poder libertar.
Não me preocupava como o que iria ou não fazer num futuro incerto.
Só me concentrava no que eu podia fazer nesse dia, no que eu podia fazer nesse momento.
As pesquisas mostram que a capacidade de agarrar o momento triplica as hipóteses de alcançar os objetivos.
Então, deixei de fumar erva, o que me permitiu terminar o primeiro curso.
Também reduziu drasticamente o tempo que passava na solitária.
(Risos)
Para mim, as metas específicas e relacionadas eram acabar com as drogas e formar-me.
O custo da minha fuga foi deixar de me entorpecer emocionalmente.
Mas essa conquista não foi conseguida sem luta.
O quarto passo para a nossa liberdade é lutar por ela.
Lutar pela liberdade exige coragem e tenacidade.
Para lá chegar, temos que vencer todos os obstáculos que encontrarmos.
Desistir das drogas não foi um processo fácil.
Claro que tive algumas recaídas.
Estudar na prisão também tinha os seus obstáculos.
Por exemplo, ter autorização para aceder aos materiais do curso.
Mas, superar obstáculos como esses tem a ver com o que significa lutar pela liberdade.
De facto, é superando esses obstáculos que desenvolvemos a nossa capacidade de mudar e a força de vontade necessária para que isso aconteça.
Muitas pessoas acham que a força de vontade e a autodisciplina são coisas que temos ou que não temos.
Mas as pesquisas mostram que são características que se desenvolvem através da prática e do uso.
Quando terminei o curso, tinha desenvolvido a tenacidade suficiente para lutar a fim de entrar numa pós-graduação em Psicologia.
Depois, esforcei-me para ter o meu projeto de investigação transformado em tese de mestrado.
Isso obrigou-me a fazer várias outras especializações, que exigiam assistir a aulas.
Até aí, eu estava livre de aulas.
(Risos)
Mas consegui terminar as especializações porque as pessoas que as ensinavam concordaram em dar-me aulas à distância, para além da sua carga normal de trabalho.
Encontrei obstáculos em várias etapas do meu percurso que exigiram persistência e empenhamento para superá-los.
Porém, os meus sonhos aumentaram na mesma proporção dos meus êxitos.
Depois de terminar o mestrado, o passo seguinte, logicamente, parecia ser o doutoramento.
Dessa vez, ainda havia mais barreiras.
Disseram-me que era impossível começar um doutoramento sem ter encontros presenciais com os meus supervisores.
Assim, os meus supervisores viajavam horas fora do seu trajeto normal para me visitarem na prisão.
Lutar pela liberdade é fundamental para conseguirmos mudar e crescer.
Porém, as melhores batalhas a vencer são aquelas em que se tem aliados.
Se eu não tivesse um pai disposto a visitar-me todos os fins de semana durante 10 anos, se não tivesse mentores como John Barlow e o Dr. Paul Englert dispostos a desafiar-me, a estimular-me a sonhar mais alto, se não tivesse o apoio da Massey University, onde estudei, se não tivesse supervisores no doutoramento dispostos a viajar fora de horas para me visitar, se, depois de ser solto, não tivesse tido a oportunidade do OPRA Consulting Group para ajudar outras pessoas a crescer e a desenvolver-se, não estaria aqui hoje.
Fui a primeira pessoa que entrou numa prisão da Nova Zelândia com o secundário incompleto, a fazer uma licenciatura e um mestrado.
Fui a primeira pessoa a começar um doutoramento.
Porém, nada disso teria sido possível sem o apoio de outras pessoas que estavam dispostas a lutar ao meu lado.
O quinto e último passo para a liberdade tem a ver com viver livremente.
A liberdade é uma viagem, não é um destino. É uma condição que exige esforço para se manter.
Os livros e os programas de autoajuda falham muitas vezes porque não reconhecem a realidade de se viver livre e o contínuo comprometimento que isso exige.
Mudar e crescer de verdade, de forma sustentável e positiva, não são coisas que conquistamos, que riscamos na nossa lista de coisas a fazer e depois esquecemos.
O preço da liberdade é um esforço contínuo.
Para vivermos em liberdade, precisamos de ter consciência das paredes que nos aprisionam.
Reconhecer e evitar escolhas aparentemente inocentes e aprender formas de responder aos obstáculos que aparecerem.
Aqui na Nova Zelândia, todos conhecem bem a expressão
"Ter os pés no chão."
Bem, viver em liberdade tem a ver com essa expressão.
Viver livre exige saber que, por vezes, somos fracos, que nem sempre chegaremos lá sem passar por dificuldades.
Por vezes, vamos escorregar e voltar a hábitos antigos.
Por vezes, não conseguiremos alcançar os nossos ideais.
Mesmo assim, essas falhas dar-nos-ão oportunidades de crescimento, dar-nos-ão a hipótese de refletir e identificar as brechas na nossa armadura.
Caímos para aprender a levantar-nos novamente.
Todos nós somos capazes de voltar atrás quando escolhemos ou agimos mal.
Aos 18 anos, fiz escolhas que afetaram negativamente muitas pessoas.
Terei que viver com isso o resto da minha vida.
Depois, passei mais de 10 anos num ambiente negativo onde se adotavam todos os valores errados e se recompensavam todos os comportamentos errados.
No entanto, essas escolhas e experiências não são o que me define hoje em dia.
O que define o homem que sou hoje é o modo como escolho viver agora, o modo como escolho comportar-me.
Todos nós somos capazes de deixar o passado para trás, de irmos atrás das nossas aspirações, de reescrevermos as nossas histórias.
Para vivermos esta liberdade, temos que reconhecer que nascemos livres.
Temos que escolher livrarmo-nos do que nos aprisiona.
Temos que escapar dessas prisões.
Temos que lutar pela nossa liberdade e sermos nós mesmos em relação a viver em liberdade.
Tenho agora o privilégio de passar o tempo a ajudar outras pessoas a libertarem-se das suas próprias prisões, a identificarem um propósito de vida, a encontrarem mais motivação, satisfação, êxito e bem-estar.
Enquanto a minha história reflete o meu percurso para mudar, os cinco passos para a liberdade refletem o percurso de todos nós para nos libertarmos.
Ora bem, qual é a vossa prisão?
(Aplausos)
