Comecei a fazer 80 anos com 29 | Abilio Diniz | TEDxSaoPauloSalon
Tradutor: Maurício Kakuei Tanaka Revisor: Maricene Crus
Quando foi a última vez que vocês fizeram alguma coisa pela primeira vez?
Eu, com 81 anos, estou fazendo esse TED pela primeira vez.
Estou feliz...
(Aplausos) mas estou um pouco ansioso.
Eu faço muitas palestras, dou aula, mas aqui é um pouco diferente.
Espero que vocês gostem.
Meus pais.
Meu pai morreu com 94; minha mãe, com 99.
Eu podia dizer:
"Tudo bem, tem ainda um bom tempo pra eu passar a me preocupar com isso.
Tem ainda uns bons anos pela frente".
Não é verdade.
Os estudos nos mostram que a genética é responsável unicamente por 20% daquilo que nos acontece.
Os outros 80% somos nós mesmos, aquilo que nós fazemos e o meio em que nós vivemos.
Nós temos que ter consciência muito clara: que envelhecer é uma certeza.
Envelhecer bem é uma escolha.
Eu comecei a fazer 80 anos com 29.
Eu, naquela altura, já era um cara bem-sucedido na vida, forte, saudável, mas não era feliz.
Era muito tenso e, um dia, comecei a me sentir mal.
Senti dor no peito.
Fui ao médico.
O médico me encaminhou pra um cardiologista.
Eu fiz os exames, fiz os testes.
O cardiologista chegou pra mim e disse:
"Você não tem nada, por enquanto.
Mas vai ter, se você não cuidar de você mesmo, se você não cuidar da sua cabeça, se você não procurar ser menos tenso".
Com isso, eu procurei um analista, procurei alguém que pudesse me ajudar, e comecei as minhas primeiras sessões de análise, duas vezes por semana.
Comecei procurar a entender quem é que era o Abilio.
Isso foi muito importante pra mim na minha vida.
Tem sido uma constante, com raros períodos que eu fiquei sem fazer análise, que eu fiquei sem procurar entender o que eu estava fazendo nesse mundo.
Isso tem sido muito importante pra que eu pudesse lidar com coisas que não são tão fáceis pra mim, pudesse seguir na minha vida.
Eu acho que, numa coisa, o autoconhecimento é fundamental: todas as pessoas deveriam fazer alguma coisa para procurar se conhecer melhor.
E não precisa necessariamente ter um analista.
Isso pode ser feito sozinho, desde que a pessoa queira investigar um pouco:
"Quem é que nós somos?
Quem é o cara que está lá dentro de mim?
Quem é que está me dirigindo?
Quais são as suas emoções?
Quais são as suas reações?"
Isso não é nenhum trabalho de grande esforço.
Basta a gente prestar um pouco de atenção naquilo que nós fazemos:
"Por que eu fiquei tão triste ontem?" ou "Por que eu fiquei tão alegre?",
"Por que eu me irritei com tal coisa e não com a outra?"
O autoconhecimento é fundamental.
Ele nos dá uma possibilidade muito melhor de relacionamento e, principalmente, o relacionamento com as outras pessoas.
Quando você conhece a si próprio, você passa a ser um cara mais compreensivo com as outras pessoas com que você se relaciona.
Isso é extremamente importante.
O autoconhecimento nos ajuda também a lidar com o estresse.
O estresse existe, e uma vida sem estresse seria extremamente enfadonha, seria extremamente "boring", não seria uma vida agitada.
O estresse existe, mas ele tem que ser colocado a nosso favor e tem que ser administrado. É muito importante nós sabermos administrar o estresse.
"Como é que se administra o estresse?"
Parece complicado, mas é muito simples.
Vamos combinar com nós mesmos de fazer o seguinte: eu só vou me estressar com aquilo que for importante.
Com aquilo que for importante pra mim eu posso me estressar.
Esse é o primeiro passo.
O segundo passo: vamos definir o que é importante na vida.
Vão comprar um caderno de 100 páginas e vão começar a escrever as coisas importantes.
Vocês vão escrever duas, três, quatro linhas, no máximo.
Pra mim, as coisas importantes na vida são: eu mesmo, a minha saúde, eu estar centrado e a minha família.
Se isso estiver bem, o resto é o resto.
Vocês podem dizer:
"Mas tem uma série de coisas: o trabalho, os esportes, tudo aquilo..." É a vida.
Nós temos que saber lidar com ela.
Então, consciência muito clara que nós só devemos nos estressar, nós devemos somente, de repente, sair do nosso eixo, com as coisas que são importantes.
Pra mim, o importante sou eu mesmo, a minha saúde e a minha família.
Eu, desde muito pequeno, desde a infância, tive que conviver com o estresse e aprendi a conviver com o estresse.
Eu nasci numa família humilde.
Meu pai era um imigrante português, chegou aqui com 16 anos, se casou com minha mãe, e eu nasci numa pequena edícula, atrás de uma pequena vendinha que meu pai tinha aqui, não muito longe daqui, na rua Vergueiro.
Tenho o maior orgulho da minha origem, o maior orgulho da minha família, a maior saudade dos meus pais.
Só que a natureza não foi muito boa comigo no começo da minha vida.
Eu, até 12 anos, era baixinho, gordinho, muito flácido, um verdadeiro pudim, muito frágil.
(Risos)
E aí, meu pai me colocou numa escola no alto da várzea do Glicério.
Ficava lá de manhã e, na parte da tarde, ia pra várzea ficar convivendo com garoto de rua, garoto de rua mesmo, em um ambiente extremamente hostil.
Gente, não era bullying, não.
Vocês não sabem o que eu apanhei.
Apanhei barbaridade.
E meu pai dizia: "Homem não chora".
Se homem não chora, o que precisava fazer?
Precisava dar um jeito de fazer alguma coisa.
Aí, comecei a procurar como é que eu podia me defender.
Encontrei uma academia.
Comecei em uma academia de artes marciais.
Entrei lá, me matriculei.
Comecei a treinar, treinar, treinar... treinei muito boxe; competi.
E aí, de apanhar passei a bater.
Isso foi importante na minha vida.
Foi minha introdução ao esporte.
Mas me trouxe uma dose de agressividade por muito tempo, que eu tive depois dificuldade de lidar com ela e procurar a administrar essa agressividade.
Mas isso me introduziu ao esporte, e o esporte sempre foi muito importante na minha vida.
Tenho alguns títulos de campeão brasileiro dos quais eu me orgulho.
Sempre foi realmente uma coisa que, pra mim, foi muito importante, não só o esporte em si, mas pra saúde e também, mesmo no trabalho, em todos os relacionamentos, todo o endurecimento que ele traz.
Nós precisamos entender que o corpo tem limite, e nós precisamos entender bem pra que nós queremos o esporte.
Sempre classifiquei o esporte: o esporte de competição, o esporte de lazer e o esporte para o nosso bem-estar, para a nossa saúde, e também para a longevidade com qualidade.
Eu, durante muito tempo, me dediquei ao esporte de competição e me dediquei com afinco.
Sempre tive uma relação muito clara com a derrota.
Eu simplesmente odiei sempre a derrota.
Então, lutei muito, muito, muito no esporte.
Hoje, pra mim, o esporte tem que estar a serviço da minha saúde, da minha longevidade, com qualidade, pra que eu possa estar junto com minha mulher, com meus filhos, fazendo as coisas que eles fazem e acompanhando sempre.
Ainda hoje, eu me exercito todos os cinco dias da semana com bastante atividade.
Tenho um programa de esportes em todos os dias, todos os cinco dias.
Nos outros - sábado, domingo - eu faço alguma coisa assim leve, aquilo que eu tiver vontade de fazer.
Mas, durante os cinco dias, eu faço os esportes aeróbios, bons e importantes pro sistema cardiovascular.
Faço treinamento de musculação, treinamento de força, porque, com o envelhecimento, nós perdemos muitas células dos músculos. É importante que a gente fortaleça as outras.
E faço também os esportes, aqueles chamados um pouco lúdicos.
Jogo squash, ainda treino boxe.
Isso é importante pra você manter o sistema neural sempre ativo, pra você fazer com que os seus músculos tenham agilidade.
Mas não adianta a gente pensar só em esporte.
Olhando pro corpo, a gente tem que pensar também na alimentação.
A alimentação é fundamental pra nossa saúde e para o envelhecimento com qualidade.
Tem muita gente que pensa, que diz:
"Pro Abilio esse negócio é tudo fácil... ele não gosta de nada.
Ele só come salada, só come verdura, só come não sei o que..."
Não é verdade.
Eu gosto de tudo o que vocês gostam: eu gosto de feijoada, eu gosto de lasanha, eu gosto de churrasco, eu gosto de doce.
Eu gosto de tomar uma tacinha de vinho de vez em quando.
Só que eu não faço isso todos os dias, a todo momento.
Eu não como um churrasco no almoço e uma lasanha no jantar, e todos os dias da semana.
Então, realmente, na alimentação, aquilo que engorda e que faz mal...
Na realidade, é a regra, é você fazer isso todos os dias e sempre: você ter uma alimentação regrada durante todos os dias, a maior parte do tempo, e você, simplesmente, de vez em quando, você sai, come e faz aquilo que você gosta, esse é o ideal.
Mas a gente não pode cuidar só do corpo, a gente tem que pensar também no espírito.
Tem gente que pergunta:
"Qual é a força do Abilio?
De onde esse cara tira a força dele?"
Sou uma pessoa comum, absolutamente normal, como todos vocês.
Se tem uma coisa que, pra mim, realmente é muito forte é a fé que eu tenho em Deus.
Isso realmente pra mim é muito forte.
Deus tem sido um amigão comigo.
Ele não tem evitado as dificuldades que eu tenho encontrado na vida, mas tem me ajudado a superá-las, como aqui, no caso do meu sequestro.
Fui sequestrado por um bando de guerrilheiros internacionais, realmente uma coisa extremamente profissional.
Fui colocado debaixo da terra, dentro de um caixote e tinha a certeza de que ia morrer.
Nos primeiros momentos, eu não conseguia rezar, não conseguia nenhuma conexão com Deus.
Pouco a pouco, isso foi voltando.
E, quando foi voltando, eu fui pedindo a Deus:
"Deus, não me deixa perder a fé".
E aí, quase que por milagre, eu consegui sair dali são, salvo, e pude continuar a minha vida.
(Aplausos)
Obrigado.
Relações.
Hoje está provado pela ciência, pelos estudos, que o relacionamento é extremamente importante pra que as pessoas vivam bem, principalmente pra que as pessoas tenham longevidade com qualidade.
O relacionamento é extremamente importante.
As relações estáveis, a monogamia, são extremamente importantes para que as pessoas vivam bem.
Eu dou muita importância aos meus relacionamentos e eu estou sempre me reinventando.
Todo mundo sabe das minhas reinvenções empresariais.
Eu compro empresa, vendo outra.
Saio daqui, vou trabalhar do outro lado, coisa e tal, mas a minha grande reinvenção foi eu ter me casado
14 anos atrás com a Geyze, e dali nascer a Rafaela e o Miguel.
Vocês não sabem o que é isso.
Hoje meus seis filhos, meus quatro filhos adultos, a Ana, a mais velha, está ali; tem 57 anos; e o meu pequenininho tem 8.
Gente, vocês não sabem o que é isso.
Isso aí dá uma força pra você continuar vivendo, você dizer:
"Escuta, eu tenho que me cuidar eu tenho que estar com eles, eu tenho que estar bem".
Então, é extremamente importante a maneira como você se relaciona, não só com a família, com todas as outras pessoas.
Eu tive muitos conflitos na minha vida.
Ter conflito é normal.
Não é desejável, mas pode acontecer.
O importante é você ter os conflitos, você saber superá-los e, principalmente, você saber se reconciliar, você não ficar curtindo ódio, você não ficar curtindo mágoa, você tocar pra frente e levar a vida.
Até porque tenho a consciência que nós somos 1 pessoa em 7 bilhões de pessoas desse mundo.
Embora seja assim, nós somos únicos.
Cada um de vocês que está aqui é único.
E vocês são insubstituíveis, porque quem é que vai substituir cada um de vocês?
Ninguém.
Quem é que vai substituir o Abilio?
Pode substituir aquilo que o Abilio faz, fazer melhor ou pior, não importa.
Mas ninguém vai substituir aquilo que eu sou.
A gente tem que ter consciência disso.
E aí, realmente procurar... não estar aqui de passagem, à toa nessa vida... saber por que nós estamos aqui.
Eu, desde sempre, desde pequeno, eu sempre fiz uma escolha.
Eu queria ser alguém, eu queria ser alguém que passasse por essa vida de uma maneira marcante.
Isso não tem relação com o dinheiro, tem relação com a postura na vida.
Eu sempre quis ser alguém.
E, dentro disso, eu criei o meu propósito.
Meu propósito sempre foi minha meta principal, sempre foi a felicidade.
Eu quero ser feliz.
Eu sempre pus a felicidade lá na frente como meta e tudo que tinha do lado eu fui arrumando, ajeitando, me direcionando pra lá, pra felicidade.
Você diz: "Mas tem dias que você está mal, triste; tem dias que você está infeliz?"
Não.
São coisas que acontecem na vida, e você tem que administrar.
Você tem que seguir sempre rumo... a ser feliz.
Além disso, tanto o meu propósito...
Eu sempre quis aprender e compartilhar.
Desde lá atrás, quando eu me formei na GV; não tinha emprego aqui no Brasil; eu estava pensando em ir para os EUA ser professor; eu sempre quis aprender.
Eu tenho uma vontade imensa de aprender.
Eu tenho uma frase que eu uso muito:
"Eu quero ser hoje melhor do que eu fui ontem e amanhã eu vou querer ser melhor do que eu sou hoje".
Tem gente que acha que isso é marketing; não é.
Eu levo a minha vida assim.
Agora eu quero aprender e compartilhar.
Eu quero aprender e quero dividir com as pessoas. É por isso que eu estou aqui. É por isso que eu dou aula na GV. É por isso que eu faço palestras. É por isso que eu já escrevi dois livros.
Porque eu quero compartilhar as coisas que têm acontecido na minha vida.
E essa é a ideia.
Esse é o meu propósito. isso é o que me traz aqui.
Se eu consegui deixar alguma coisa pra vocês, com vocês, que possa ser útil pra vocês na vida, eu vou ficar muito feliz.
(Beijo)
(Aplausos)
