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Entrevista ao Prof. Francisco Varatojo

Resumidamente, o que é a Macrobiótica?

Resumidamente, a macrobiótica deixem-me por isto pela negativa não é uma dieta, não é uma ciência nutricional é essencialmente uma filosofia que parte do pressuposto que a natureza tem uma ordem: que a natureza é perfeita, que a natureza tende a criar sempre harmonia e que o papel do ser humano na natureza é de fluir com ela e seguir e seguir os seus ritmos. Eu também vos aviso que, relativamente à macrobiótica, há muitas interpretações e definições possíveis conforme a pessoa com quem estão a falar.

Para mim, isto é uma parte importante, a ideia de que um dos aspectos da macrobiótica é aprender a conhecer a natureza em que vivemos e seguir o seu ritmo. Há aspectos também relacionados com o desenvolvimento pessoal, que fazem parte da filosofia macrobiótica, em que podemos criar a nossa vida para nós mesmos, sermos responsáveis por aquilo que somos, pela nossa saúde, pela nossa felicidade.

A ideia de que podemos tomar conta das nossas vidas e que somos os grandes criadores das nossas vidas também é também um aspecto de filosofia; há muitos, mas é mais uma filosofia do que é uma dieta, apesar de a alimentação desempenhar um papel importante nesta filosofia.

Que impacto tem a macrobiótica na sua vida e o que o motivou a enveredar por esta área profissional

Eu, para já, não enveredei por esta área profissional.

Neste caso, não fui eu que escolhi a profissão, foi a profissão que me escolheu a mim.

A minha profissão é aquilo que eu faço no dia-a-dia, ou seja, não tenho um trabalho com ordenado, nunca tive, diga-se de passagem.

Eu tento seguir aquilo que ensino: não como carne há 34 anos; não como açúcar regularmente (pode calhar de vez em quando); há 34 anos o mesmo com lacticínios; como todos os dias cereais integrais, vegetais…

Tenho uma dieta predominantemente vegetariana e foi por ter começado a fazer isto há 30 e tal anos e por ter sentido que os efeitos eram tão extraordinários que, na realidade, me dediquei a estudar isto e depois a viver isto.

Portanto, eu acabei por ser metido nesta profissão, porque era praticante e acabei por entrar assim, não foi uma coisa de “eu vou estudar isto e vou fazer este emprego e neste emprego posso ganhar tanto por mês” – não. Foi naturalmente.

Que efeitos extraordinários?

Que efeitos extraordinários? Boa pergunta.

Apesar de ter começado quando era muito jovem, provavelmente mais jovem do que aquilo que vocês são agora, tinha 16 anos (calculo que vocês andem por aí), foi dormir 5 horas por noite e ter uma energia brutal quando acordava de manhã, corria 20 km por dia porque eu praticava desporto, estudava inglês, estudava francês, estudava mais do que estudava no liceu e, ao mesmo tempo, ainda abri uma loja com um primo meu e uma padaria e um restaurante para servimos deste tipo de coisas.

Sentia-me muito bem disposto, na realidade, nunca me tinha sentido assim até ter mudado de alimentação

– e não era doente nem tinha nada de especial, era uma pessoa relativamente saudável, tinha níveis de energia normais e tudo mais, mas a mudança que se deu em mim foi extraordinária.

Também em termos físicos: os meus intestinos não funcionavam muito bem, eu tinha uma colite, mas isso melhorou num instante, a colite melhorou muito depressa.

Tinham-me dito que ia ser para o resto da vida e que iria constantemente ter cólicas e diarreias e tudo mais e isso desapareceu num instantinho. Portanto, foram boas mudanças.

Qual é a sua opinião sobre os alimentos biológicos e transgénicos?

A minha opinião sobre os alimentos biológicos e os transgénicos é diferente para um e para outro.

Eu acho que devemos dar preferência aos alimentos biológicos, apesar de mais caros e são mais caros realmente.

São muito melhores para a saúde humana, aliás, a saúde dos solos e saúde humana estão ligadas. à medida que os nossos solos forem ficando danificados, a nossa saúde vai ficando danificada também, porque nós somos um fruto daquilo que se cultiva.

Pelos mesmos princípios, eu não sou de todo a favor dos alimentos transgénicos.

Os alimentos transgénicos não são uma forma natural de criar alimentos, apesar de haver biólogos que dizem que sempre se fez engenharia aos alimentos.

Mas nunca desta forma, não do tipo de tirar um gene de um e colocar no outro: isto nunca se fez, é uma coisa moderna.

Acho que os transgénicos não estão suficientemente bem estudados, há imensos estudos que apontam para uma possível ligação dos alimentos transgénicos com algumas doenças particularmente do foro alérgico.

Há o problema dos alimentos transgénicos contaminarem outras culturas e isso já está a acontecer em grande grau, portanto, os alimentos transgénicos ao entrarem no nosso prato, e isso está a acontecer, essencialmente estamos a passar um cheque em branco por uma coisa que não sabemos o que vai ser.

E nem que seja por medidas revolucionárias, deviam fazer-se mais testes para saber no que é que vão dar.

O que acontece é que nós não temos rigorosamente nada a dizer.

Eles estão a ser utilizados em muitos produtos actualmente, a maior parte das pessoas das pessoas não é a favor e, no entanto, as empresas, as multinacionais, continuam a vendê-los.

O justificativo é de que com os alimentos transgénicos vamos resolver o problema da fome no mundo – isso é conversa pegada.

Os problemas da fome no mundo não têm nada a ver com isso, têm a ver com questões de ordem social, com questões de ordem política, há comida que chegue para toda a gente, há recursos que cheguem para toda a gente, as coisas têm de ser geridas de uma forma diferente e eu não acredito que seja com os transgénicos que isso vá ao lugar e acho que isso pode trazer problemas bastantes sérios.

Acho também, para ser franco, que uma vez que a natureza cria sempre ordem, que a natureza acaba por pôr ordem no processo.

O que é que se vai passar com a saúde humana a esse nível francamente já não sei mas não sou a favor dos transgénicos.

Na dieta presente na filosofia macrobiótica só são utilizados produtos biológicos?

Não, não se usam só biológicos… Enfim, idealmente dever-se-iam usar só biológicos.

Sabes, a macrobiótica deve ser adaptada a todas as pessoas, depende muito da capacidade económica da pessoa.

Alguém que queira fazer macrobiótica e não tenha dinheiro e para quem seja mesmo difícil gastar mais dinheiro em alimentos biológicos... Paciência.

Tenta escolher os vegetais da melhor qualidade possível e poderá fazer uma prática sem alimentos biológicos.

Idealmente sim, eu acho que vale a pensa fazer o investimento, pessoalmente, mas se a pessoa não puder mesmo paciência, sabes, não têm que se utilizar.

Que medidas acha que iriam contribuir para um maior sucesso dos produtos biológicos no mercado?

Boa pergunta. Uma maior revelação. Acho que uma maior difusão junto dos mass media.

Relativamente ao preço também não está ao alcance de toda a gente…

Mas o problema, sabes, os produtos são mais caros também porque a agricultura moderna é subvencionada; o que acontece é que as pessoas neste momento compram os alimentos mais baratos do que aquilo que eles custam: o leite é mais barato do que o seu preço real, a carne é mais barata do que o seu preço real, porque essa produção é subsidiada com o dinheiro dos nossos impostos.

Isso, pessoalmente, a mim, incomoda-me, porque eu pago impostos há imensos anos – e não pago tão pouco como isso – e o dinheiro dos meus impostos está a ser utilizado para subsidiar áreas com as quais eu não concordo.

Por exemplo, a fast food é muito mais barata do que a comida boa e não faz sentido.

Muitos dos alimentos que as pessoas comem no dia-a-dia são mais baratos, porque são produzidos em muito maior quantidade, mas, ao mesmo tempo, têm subsídios para a produção.

Depois temos alimentos de boa qualidade que, ao mesmo tempo, são muito mais baratos, mas que acabam por sair mais caros, porque a produção é menor e não são subsidiados e não têm a mesma cadeia de distribuição que têm outros.

Na realidade, os alimentos utilizados numa prática macrobiótica são muito mais económicos, muito mais baratos de produzir, mas não é assim que chegam ao consumidor final.

Mas acho que deviam sim.

Quais foram as razões que o levaram a escolher este estilo de vida?

Essencialmente, eu tinha a vossa idade e praticava bastante desporto e interessava-me bastante sobre a relação entre a alimentação e performance desportiva.

Interessava-me por áreas relacionadas com a nutrição, comecei a ler alguns livros sobre nutrição (na altura não havia muita coisa)…

Adoptei uma dieta não cem por cento vegetariana mas bastante vegetariana, predominantemente vegetariana, com imensas saladas e frutos e também muito leite e também ovos, etc.

E depois um amigo meu falou-me nesta prática chamada macrobiótica que eu não conhecia, comprei um livro sobre o assunto, achei que o livro fazia algum sentido, era engraçado, experimentei e pronto e o resto foi mais ou menos aquilo que vos contei.

Não só me sentia muito bem mas como achei que a filosofia tinha interesse e foi assim que comecei, tinha a vossa idade, foi há uns aninhos bons.

Que medidas acha que seriam adequadas numa tentativa de retirarmos os transgénicos do nosso consumo? É assim não te sei responder exactamente, mas teria que passar pela população em geral assumir um papel mais activo nas suas escolhas e dizer claramente o que quer e o que não quer, porque o que acontece é que a maior parte da população não quer produtos transgénicos, em todos os países da Europa, mas nunca fazemos barulho suficiente.

Por exemplo, na Suíça, são proibidos, os suíços não os deixam entrar.

No nosso caso, não há informação suficiente sobre isso, a questão dos transgénicos passou muito suavemente na nossa sociedade, de uma forma muito subtil.

A maioria das pessoas não está desperta para assuntos deste tipo e também não temos como feitio fazer barulho, sei lá, não houve muitos artigos a serem publicados.

Há debates e mais mas é numa elite mais científica e então a população geral acaba por não querer saber grande coisa disso.

Eu não sei exactamente qual é a lei neste momento, mas sim a maior parte dos consumidores poderá comprar produtos transgénicos sem o saber.

Não é claro quando se compra um produto se esse produto provém de agricultura transgénica, no entanto, os produtos que tenham marca biológica não podem ser provenientes de métodos transgénicos, isso tenho a certeza, calculo que seja respeitado.

Muitas vezes, só uma percentagem desse produto é que é transgénico.

Normalmente é uma percentagem pequena, a soja desse produto é transgénica, o milho desse produto é transgénico; sim, podemos estar a falar de cinco a dez por cento, calculo.

Mas mesmo assim se não querem consumir esse produto não têm de ter de o consumir.

Quais os objectivos do IMP? Que tipo de iniciativas relativamente ao tema biológicos/transgénicos têm?

Não temos feito muito para ser franco.

A nossa área é mais da divulgação do estilo da macrobiótica mas também de áreas como o Shiatsu, o Feng Shui, a Culinária.

A nossa área é mais no sentido de ajudar as pessoas a melhorar a sua qualidade de vida.

Nas nossas aulas, falamos claramente que não utilizamos produtos transgénicos e que repudiamos o uso de produtos transgénicos e o que fazemos é claramente a favor de uma agricultura biológica e não de uma agricultura transgénica, mas não organizamos, por exemplo, debates ou seminários nessas áreas.

Normalmente, o que fazemos é apoiarmos as organizações que trabalham especificamente nessas áreas ou, por exemplo, às vezes sou convidado para um debate.

No dia-a-dia da casa, não vendemos produtos de origem transgénica, não os anunciamos, não falamos bem deles, pelo contrário.