• slidebg1

Gordura, pode?

Tem coisa mais linda do que manteiga derretendo no pão quentinho?

(Música)

Dra. Sophie, posso comer pão com manteiga de manhã?

Pode sim!

Perdi a conta das vezes em que vi pacientes arregalar os olhos quando digo que, sim, pode comer manteiga no café da manhã!

E eu começo esse vídeo falando da manteiga porque ela é o exemplo mais icônico quando o assunto é: gordura.

Assim como o ovo, o glúten e o carboidrato, a gordura também já foi vista como a vilã número um da saúde pública…

No universo das dietas, ela ainda é colocada neste lugar, o que faz com que muitas pessoas façam restrições super radicais.

Então, hoje quero falar um pouco de onde vem essa demonização da gordura e vou te explicar por que você não precisa ter tanto medo dela.

E digo mais: com moderação, ela pode ser até benéfica para a sua saúde e para a manutenção do seu peso!

(Música)

Muita gente reclama que os cientististas cada hora falam uma coisa sobre determinado alimento ou nutriente.

Isso faz até certo sentido, mas é porque a nutrição é uma ciência em evolução.

Estamos sempre descobrindo novas coisas e entendendo melhor como nosso corpo reage a determinados alimentos.

Então você, que não é cientista, nem nutricionista, fica com a impressão que uma hora a gordura faz bem, outra hora faz mal.

Mas não é bem isso. O que ocorre é que muitas notícias na área de Nutrição são alarmistas.

Então, alguns estudo acabam sendo divulgados como verdades absolutas.

E foi justamente isso que aconteceu com a gordura.

Ela foi injustiçada!

Tudo começou com um estudo feito nos anos 50, conduzido por Ancel Keys, que associou o consumo da gordura às doenças do coração.

Os resultados acabaram virando uma grande referência, mas depois ficou comprovado que os dados apresentados não levaram em consideração todos os países analisados.

Na França, por exemplo, a gordura sempre fez parte da alimentação e os índices de obesidade e doenças do coração seguem baixos em comparação a outros países. É o tal do "paradoxo francês"!

Alguns dizem que, de propósito, o Ancel Keys não colocou a França no estudo dele.

E a repercussão equivocada deste estudo acabou gerando uma enorme influência na indústria alimentícia, na medicina e principalmente na nossa relação com a gordura.

Passamos a ter medo de cozinhar com banha de porco, como faziam nossas avós.

Trocamos a manteiga pela margarina.

Enfim, fizemos uma série de adaptações para tirar a gordura das nossas vidas.

Isso ficou ainda mais evidente a partir dos anos 70, quando os padrões de beleza se voltaram para o corpo magro.

Aí pronto, a crença estava instaurada!

A gordura saturada virou sinônimo de entupimento das artérias e problemas cardíacos.

Isso refletiu totalmente nas gôndolas dos supermercados.

Passamos a ver muito mais oferta de alimentos light

E os produtos light se tornaram a nova "tábua de salvação" da nossa saúde e a solução para quem queria emagrecer.

Só que tem um porém: a gordura é o que dá sabor para os alimentos.

Quando ela é retirada, é preciso colocar outros componentes para que eles fiquem mais apetitosos.

Aí que entram os xaropes, farinhas refinadas, aromatizantes e açúcar, muito açúcar.

Resumindo: paramos de comer gordura, e passamos a comer muito mais açúcar.

Definitivamente, não foi uma boa troca!

Bom, então não pode comer nem gordura, nem açúcar?

Não, pelo contrário.

Você pode comer as duas coisas com moderação,

Moderação!

E desde que tenha uma alimentação de qualidade e bem variada.

Felizmente, os anos se passaram e inúmeros outros estudos vieram para confrontar estas crenças em torno da gordura.

Um deles, publicado no British Medical Journal, mostrou que a fobia da gordura saturada não passava de um mito.

E que ela não é inimiga da nossa saúde cardiovascular, nem do nosso peso!

Com moderação!

Opa, era a redenção da gordura!

Outro exemplo é um estudo mais recente, divulgado em 2017, feito com mais de 130 mil pessoas, em 18 países diferentes.

Os pesquisadores confirmaram que uma dieta com excesso de carboidrato eleva mais o risco de mortalidade do que uma baseada em um consumo moderado de gordura.

Fico satisfeita ao ver estes resultados, porque posso ajudar meus pacientes a perder este medo da gordura com base em dados científicos!

E é importante também que você entenda a importância da gordura no nosso corpo, para poder aceitá-la na sua alimentação.

Para isso, precisamos voltar um pouquinho no tempo.

Mais precisamente, para o tempo das cavernas!

Os homens das cavernas não tinham esse acesso fácil aos alimentos como temos hoje.

Pra garantir o jantar era preciso fazer um baita esforço e ter sorte na caça.

Ou seja: nem sempre tinha o que comer.

Com isso, o corpo desenvolveu um mecanismo de armazenamento de gordura, que servia como reserva de energia para os momentos de escassez.

E assim sobrevivemos... E evoluímos!

A gordura corporal é importante em várias funções do organismo, como a metabolização de alguns hormônios, na reprodução das nossas células, etc.

Para as mulheres, principalmente, vai refletir na parte hormonal, na fertilidade e na libido.

Também não precisamos temer a gordura vinda dos alimentos, porque ela pode até ajudar a equilibrar a alimentação e ajudar a comer menos, porque ela aumenta a sensação de prazer e a saciedade.

Então, reduzir drasticamente a sua ingestão acaba despertando os instintos mais primitivos, vai afetar seu humor e mudar sua relação com a comida.

Claro que isso não significa que você deve comer gordura em quantidades exageradas.

Como sempre: o segredo é moderação.

(Música)

Se você está perdido e não sabe a quantidade de gordura que pode consumir por dia, seria interessante procurar um nutricionista para que ele possa te orientar.

Mas posso te dar 3 dicas básicas:

Dica número 1: não adianta tirar a gordura da alimentação e compensar comendo um monte de pão, cereais ou alimentos industrializados light.

Tenha uma alimentação variada, com uma quantidade moderada de todos os grupos alimentares.

Dica número 2: coloque mais comida de verdade na sua vida.

Existem diversas fontes boas de gordura, como as castanhas, amêndoas, carnes de boi, frango e peixe, sementes de girassol, linhaça, chia, azeite, abacate, leite e derivados.

Dê preferência às fontes mais naturais de gordura, como manteiga e azeite!

E finalmente, vamos para a dica número 3.

Sempre que possível, tente comer comida caseira.

Quando você cozinha, pode administrar melhor a quantidade de gordura que vai nas preparações.

O poder está nas suas mãos!

Bom, espero ter te ajudado a desfazer essa má impressão da gordura.

Em excesso, ela realmente pode ser prejudicial à saúde.

Mas se tiver uma alimentação diversificada, pode comer seu pãozinho com manteiga tranquilo, com prazer e sem culpa!

Bon appétit!

(Música)