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Quatro Projeções (Websérie) - Episódio 2: Planos Psicológicos.

Uau.

- Uau. - Caralho!

Foda.

O mais foda é o tanto de diálogo que não serve pra nada.

Pois é.

O Tarantino ele é muito bom nesses diálogos inúteis, que tipo não adiantam de nada, não servem pra nada.

- Demais. - Eu discordo.

Como assim?

Você não acha que esses diálogos são incríveis?

- Com isso eu concordo. - Não, peraí, peraí, peraí. Você discorda de quê então? Não entendi.

Que os diálogos são inúteis.

Tá, tá, não! Entendi...

Tá, os diálogos servem pra dar um clima pro filme.

- É verdade, faz sentido isso. - Não só isso.

Você vai dizer que aquela primeira cena, por exemplo...

... aqueles diálogos servem pra alguma coisa?

Qual é a primeira cena mesmo?

Velho, cê acabou de ver o filme.

Abel cê tá precisando tomar chá de ginkgo biloba.

Eu já lembrei, ô idiota! É eles lá na cafeteria, falando de Like a Virgin da Madonna, tá vendo?

Essa cena é sensacional.

Primeiro por que eles são bandidos

E no dia-a-dia são gente como a gente.

Pega qualquer filme de ação!

Vocês não vão encontrar um com diálogos iguais a esse: Profundo, verdadeiro, sincero.

Eles tão falando sobre uma música da Madonna.

- É sensacional. - Real!

O Tarantino faz bastante disso, né?

Tipo no Pulp Fiction, aquele diálogo do Burger King na França!

- Royale with Cheese! - Royale with Cheese!

Tá vendo? Eu lembro das coisas. Não preciso de chá de ginkgo beroba.

Biloba.

Não é só isso.

Cada uma das coisas que eles falam tem uma importância profunda na história inteira.

Pega, por exemplo, o Mr. Pink.

O Mr. Pink é contra dar gorjeta, vocês lembram?

Ele não dá gorjeta nunca. Ele é contra.

E mesmo assim, com todo mundo na mesa sendo a favor de dar gorjeta...

... ele se nega, ele se mantém firme nas suas convicções.

Isso mostra que ele é um cara que quer convencer todo mundo de que ele sempre tá certo.

Caralho!

E daí, gente? Não tô entendendo nada, não.

E daí que ele é o único que percebe que tem um infiltrado entre eles, cara.

E ele passa o rolê inteiro tentando convencer todo mundo disso, do começo ao fim.

Ele passa o filme todo do começo ao fim fazendo isso.

Você pega o Mr. Orange.

Quando o Joe Cabot chega e pergunta:

“Quem foi que não deu gorjeta?"

Quê que ele faz? Ele não espera dois segundos, ele deda “Foi o Pink”.

E é ele o rato!

Exatamente! Porquê que ele faz isso?

Porque ele é um cara que joga com as regras, ele segue uma hierarquia.

Ele é o policial, ele é o infiltrado.

Caralho!

A persona desses personagens é demonstrada a cada minuto, sobretudo nessa cena.

A gente entende os personagens verticalmente.

Valeu! Desculpa gênio! Desculpa gênio! A gente vai ter que estudar gente.

A gente vai ter que estudar todo dia agora porque senão a gente não consegue acompanhar o Rubens Ewald Neto.

Eu tenho gostado desse negócio de cinema.

- Tenho estudado um pouquinho. - Ele pesquisava tudo. O Nino era um expert, nossa!

Era fissurado em cinema.

Ele teve essa fase meio que no começo do grupo.

A gente se sentia meio bobo em falar alguma coisa sobre filmes porque ele era muito foda.

- Sério? - É.

Sério? Mas ele não parece que tipo se acha.

Ainda mais depois de tudo que aconteceu.

Auto-estima dele não é boa. Isso é fato. É.

Mas ele não se acha, não.

Ele só...

Ele só gosta, curte, assistir cinema e pesquisar essas coisas.

Ele é muito tímido. É mais com a gente que ele e assim mais aberto, sabe?

E onde você conheceu o Nino?

Ele é tão diferente e cês são mó brothers.

A gente é sim!

Ah faz muito tempo.

Sua mãe fez só pra mim.

- Nino, uma colher só você é muito egoísta. - É meu.

- A mãe dele fez pra mim. - Dá um pouquinho, tá mó bom. É a única vantagem de ser seu vizinho, o brigadeiro da sua mãe.

Puta que pariu, que cena maravilhosa.

Que néctar dos Deuses.

Não! O Glauber Rocha usa muito essa coisa da metáfora da água... Ênio.

Eu fiz um presente de dia das mães pra sua mãe.

Cês tão com pressa pra acabar logo aqui pra ir na festa da Patrícia, né?

Não sei que graça vocês vêm de ir nessas festas. Um monte de gente bêbada.

Perguntando quem ficou com quem, quem deixou de ficar com quem.

A gente podendo tá aqui fazendo outra coisa junto, mais divertido.

Eu nunca vou perdoar a minha mãe.

Ela não deixou nem um bilhete.

Eu não tô afim da Camila, cara. Acho ela um tédio.

Gente, cês não tão priorizando isso aqui

Nosso grupo. A gente marca e vocês remarcam toda vez.

Vocês conhecem o Billy Wilder?

Vocês deviam ver o filme dele é redondinho. É como ele diria: “Maravilhoso”

Gente, "Elefante" é foda, "Milk" é sensacional.

Mas a porra do Inquietos é uma merda.

A menina só existe no filme pra fazer com que ele cumpra o objetivo dele.

Não dá mais pra ter filme assim.

Ah não sei, acho que falta alí, sei lá! Uma boca torta.

Um nariz mais pontiagudo.

Um pouco sem sal, podia ter um charme a mais.

Cancelar semana que vem de novo, gente?

Abel...

Minha mãe morreu.

Ela...

Ela se matou.

E quando eu to aqui, sou eu, você, o Enio e o Alê.

E eu consigo sair dessa realidade.

Eu consigo por duas horas que sejam, esquecer de tudo isso.

Mesmo que seja só por duas horas.

Ele gosta de western?

Eu não imagino o Nino curtindo western.

- É que o pai dele gosta. - Ah é?

Ah, tipo time de futebol, sabe?

Vai passando de pai pra filho.

O pai dele ama um Sergio Leone e Nino meio que pegou por osmose.

- Cê curte? - Western?

Curto.

Muito?

Igual.

Tá.

Me fala dos outros.

E o Alê?

O Alê é uma figura.

Ele é muito engraçado.

Alô, tô falando, to falando. Presta atenção, presta atenção em mim.

Agora! Vai, vai, vai...

Pega eles, Rambo! Pega eles!

Não inventa, Ênio!

Não inventa, Abel!

Não inventa, Nino!

Nossa, que roupinha hoje, hein Abel?

Pegou da sua mãe?

Ah claro! O filme é bom sim.

Como se o E.T. que é gênio ninja da tecnologia fosse embora do planeta por causa de água.

Ah, gente. Pelamor de Deus

Isso, vai! Vai! Mata os nazi tudo, Indiana fucking Johnes!

Cala a boca.

My name is Alê. Alê Bond.

Esse filme é uma metáfora da vida no automático.

Levantar, trabalhar, dormir, levantar, trabalhar, dormir.

Casamento, filhos. Cabou.

Bum. Aplausos, por favor.

E é Alê de Alexandro?

- É - Nossa!

Tem pai e mãe que não perdoam, né?

Meu nome é Ênio! Sabia? Vamo parar de falar de nome?

E Abel? Abel é show, hein?

- Caralho, Abel, mano! - Pára.

E o Abel?

Ah, o Abel tem um coração bom.

O Paul Walker morreu? É que meu tipo de humor é muito específico.

Por exemplo, agora por dentro, tô rindo muito agora.

Paul Walker, Paul Walker? O Paul Walker “Velozes e Furiosos”? Esse Paul Walker?

Eu gosto de comédia romântica, uai.

Cês tudo choraram em Cidade dos Anjos não choraram? Cê não chorou?

Ele era tão novo.

Eu não tenho culpa se tenho senso estilo e inteligência.

Tem gente que só tem um ou outro, eu tenho os dois.

Hashtag culpado.

Quanto anos ele tinha?

A gente podia ver uns filminhos mais água com açúcar, né?

Só tá drama, drama, drama com D maiúsculo. Já deu.

O olho dele era de um azul tão azul. Sabe era um azul...

Cansei.

Mas cê nem falou de você ainda.

De mim? Eu não tenho nada pra falar sobre mim.

Lógico que tem.

Helena, você me conhece. Você sabe dos meus gostos.

- Sei? - Sabe.

Sei mais sobre seus amigos do que sei sobre você.

Mas eu não sei o que você curte, não sei o que você gosta.

Besta! Eu sou um livro aberto pra você.

Então tá.

Não quer falar não fala.

Fala de você, então.

Bom, eu...

Eu sei que eu não suporto papinho de aparências em festa escrota.

Tipo o Nino

E que eu adoro o brigadeiro da sua mãe, delícia, tipo o Nino.

E que eu gosto pra caralho de filme de ação igual o Alê.

Desses que o protagonista pula de um prédio pra um Helicóptero, sabe?

Ou desses que o cara escapa vivo de uma explosão.

E...

Eu também hipnotizada pelos olhos azuis do Paul Walker

E chorei duas semanas seguidas quando soube que ele morreu.

Você presta atenção em tudo mesmo, Hein? Ouviu tudo

E você, não?

Eu ouvi, ouço, mas não do jeito que você faz prestando atenção em todos os detalhes

Eu gosto mesmo, de especificidade.

Coisas genéricas me dão tédio.

Também acho.

Me dá mais detalhes sobre você.

Voçê tem essa pintinha aqui no seu pescoço, que eu adoro.

Mas eu quero mais.

Quero ler aqui, ó...

Vamo devagar... Devagar.

Eu vou preparar uma comida pra gente, tá com fome?

Mas a gente acabou de comer. Ênio.