Tempo é Músculo | Episódio 4
Bem-vindos!
Pode entrar.
Meu nome é Enrique Rodríguez
Tenho 48 anos.
E sou arquiteto e designer industrial de profissão.
Eu sempre tive uma paixão pelo papel.
Desde criança.
E eu estudei arquitetura na Católica do Chile e lá comecei a fazer alguns cursos extensivos, que é o curso complementar, de papel japonês.
Aí eu assumi que é essa a minha paixão e, a partir do ano 2000, comecei profissionalmente a trabalhar com papel como elemento presente na minha obra de artista e de designer industrial.
Quase na hora, né, então vou acabar de me arrumar.
Pra dançar, eu gosto de bastante pulseira, e colar, anel e brinco.
Meu nome é Célia Dias e eu tenho 65 anos.
Vou fazer 66 em novembro.
E eu sou professora universitária do Curso de
Turismo da Escola de Comunicações e Artes, da USP, há 35 anos.
Então, assim, já arrumei cabelo, perfume, acho que tá tudo certo.
Vamos dançar!
Eu conheci a dança em 2001, quando eu comecei a dar aula na Anhembi Morumbi, no mestrado de Hospitalidade.
E eu achei bonito porque eles falaram que na dança a gente dá as mãos dessa forma, né: junta e caem os polegares pra direita. sendo que aqui a gente recebe a energia e aqui a gente doa.
E eu achei tão bonito, simbólico, assim, nesse ritual aí comecei a usar com os alunos.
E aí eu comecei a dançar mais, porque eu fui pra usp e vi um cartaz assim: danças circulares, grátis, na Psicologia.
Ai que legal! Vou dançar!
Aí comecei a dançar.
Sempre gostei muito de esportes aeróbicos.
Então no Chile, como o Chile é um país de montanhas, desde a época da faculdade eu comecei a praticar montanhismo, quase que profissionalmente.
Também, desde que me conheço por gente, que eu estou em cima de uma bicicleta.
Sempre usei a bicicleta como meio de transporte, como meio de diversão, né.
Já fiz tracking pela Patagônia
Terra del Fuego,
Israel.
No dia 14 de dezembro, eu viajei de São Paulo a Londres, e essa viagem culminaria no Butão, com o objetivo de escalar os Himalaias.
Aí eu tive o primeiro infarto no dia 15 de dezembro, em Londres, sem eu perceber, né.
Mas meu objetivo era chegar ao Butão e conseguir escalar a montanha mais alta do Butão para chegar no cume.
Eu tinha dançado de manhã na quarta-feira. Era uma quarta-feira.
E nós vamos 12 pessoas, pra ilustrar o trabalho de uma moça, cujo TCC é denominado alguma coisa assim:
"A dança circular como modo alternativo de cura".
Então nós dançamos uma música bem rapidinha e depois convidamos toda audiência, inclusive a que estava apresentando, pra dançar uma bem levinha.
Aí fomos tirar uma foto.
Quando eu sentei pra tirar a foto, ah, me deu uma dor no peito, como uma pedra, ou uma bola de ferro, assim.
Aí uma amiga me trouxe pra casa, não quis ir pro hospital, porque achava que não era nada.
Eu falava: "ah, acho que é porque eu comi sopa quente, ou o sutiã tá apertado".
Cada vez que eu começava a subir, começava essa pressão no peito, e era uma coisa que eu não conseguia entender.
Teve um minuto que eu pensei e achava até que era uma coisa emocional.
Aí eu procurei uma farmácia para tomar Omeprazol.
Porque eu achei que eu precisava forrar o estômago ou fazer alguma coisa com o estômago.
Eu já sentia a mão adormecer, já sentia os sintomas aqui, na mandíbula, que são próprios do infarto agudo.
Aí eu não cheguei no cume.
Senti que ia morrer, parecia que ia explodir.
Aí eu fui deitar, quando eu deitei...
A minha sensação é que aquela bola de ferro tinha se dissolvido e virou um cabide de ferro.
E eu não podia respirar e eu fiquei muito preocupada.
Liguei pra minha irmã, minha irmã é enfermeira, ela falou "o que você está sentindo?"
Eu falei "agora eu tô enjoada e eu tô com dor no peito". Ela falou "você tá infartando!"
"Pode ir pro Incor ou pras Clínicas".
Aí já subi direto pra sala e ele falou "nós vamos dar uma anestesia local"
Aí só na virilha, ele já enfiou um cabinho, assim...
Aí senti um calor, falei, "senti um calor no coração".
Ele falou: "é porque chegou lá".
Então eu fiz 2 stents e uma bexiguinha.
Quando cheguei em São Paulo, fui direto para o HCor.
E já fiquei internado no mesmo dia e, depois de dois dias, já fiz a cirurgia.
Foram cinco pontes de safena.
Sempre fiz esporte, nunca fumei, sempre tive uma alimentação super sadia.
Segundo o que temos analisado com médicos, a carga genética com o estresse é muito forte.
Meu pai faleceu de infarto aos 71 anos, É possível que tenha eu feito um teste ergométrico um mês antes de viajar
No teste ergométrico, aparentemente, não tinha aparecido nada.
Quando eu vou no cardiologista é assim:
Fuma? Não.
Tem diabetes? Não. Faz exercício? Sim.
Atividade todo dia. Eu não tenho carro, ando só a pé.
Subo escada, sempre tive casa com escada, né.
Mas, assim, tem outros fatores de risco, né, infelizmente.
Que a gente não tá sabendo, né.
Depois da cirurgia, que é uma cirurgia invasiva, uma cirurgia delicada, que mexe muito com a pessoa, não é, eu descobri que eu tinha dois caminhos: ou eu tratava isso só com antidepressivos e tratava isso como uma depressão, ou tratava isso como uma possibilidade de reavaliar minha vida por completo.
Eu mudei um pouco, mas confesso que como eu fui me sentindo bem, eu acho que eu não faço muito direito, não.
Eu gosto de torresmo!
E de bacon!
Mas não como muito...
Doce eu não ligo, mas isso e cerveja e vinho, eu gosto.
Aí eu decidi me doar.
Eu precisava me doar aos outros e que essa era a missão que me tinha sido dada.
Então eu iniciei um projeto que se chama
"Universidade do Papel" e iniciei um trabalho em Paraisópolis junto ao hospital Albert Einstein.
Aí eu decidi abrir meu espaço de trabalho, para criar essas vivências artísticas.
Então, na verdade, eu sou um conector e multiplicador da arte como elemento transformador.
Bem-vindos, meu nome é Enrique Rodriguez, eu sou criador do projeto Universidade de Papel
Eu escolhi vocês como uma forma especial de vocês poderem dividir comigo tudo isso que eu tenho vivido, não é?
Que tem sido super intenso.
E eu estou aqui só como um exemplo, não é.
Um simples exemplo de que com a arte, nós podemos, sim, transformar e nos transformarmos.
Nós temos um slogan, né, que é "tudo que vem do coração, transforma"
E de alguma forma, inconsciente e conscientemente, eu me identifiquei com isso e hoje eu uso muito essa... levo isso no peito, mesmo.
Não é uma coisa de marketing, nem de slogan, mais uma sutileza, não é, de estar sempre presente com essa missão.
Eu acho que eu tô mais calma, um pouco.
Até porque eu estou na Universidade o tempo todo e não estou com 5 empregos, né?
Eu posso, agora, eu tenho um salário na
Universidade.
E é uma coisa legal que eu estou namorando, então é bem bom, isso.
Eu brinco que eu sou adicta, no bom sentido, de dança.
Porque eu falo onde tem dança, hoje.
Tem dança de segunda, de terça, de quarta, de domingo.
Todos os dias, quase, tem dança.
E eu faço muita dança.
Têm muitos festivais, né. No mundo todo tem muitos festivais e eu vou.
Agora eu vou pra Ribeirão, sexta-feira, ficar três dias dançando.
Então é muito agradável. É muito positivo, isso.
Pode entrar, vocês dois! Vem! Vem!
A experiência de um infarto dá um sinal de alerta, o risco real de morrer leva muitas pessoas a adotar hábitos saudáveis e abandonar comportamentos que comprometem a saúde, como fizeram Célia e Enrique.
Mas você não precisa passar pela experiência de um hospital antes de tomar essa atitude. É uma questão de disciplina e força de vontade.
Uma questão de se manter vivo.
