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The Cancer Story you Haven’t Heard | Michaela Higgins | TEDxUCD

Tradutor: LUCAS DASAIEVE Revisor: Leonardo Silva

Boa tarde. Eu sou oncologista. Cuido de pacientes com câncer.

Parece que ultimamente só se ouve falar de câncer. Por quê?

Porque 50% de vocês nesta sala vão adquirir câncer.

O câncer vai se tornar parte inevitável da sua vida, se já não for, ou na vida de algum ente querido.

Mas não estou preocupada com vocês. Vocês vão ficar bem.

Simplesmente, por um feliz acaso, vocês moram na Irlanda.

Então, provavelmente vão sobreviver ao câncer.

Quanto gastamos com as Olimpíadas no Rio este ano?

Belos US$ 12 bilhões. Isso é muito dinheiro.

Vamos pensar: o que seria mais caro que as Olimpíadas?

Que tal gerir um programa espacial? Quanto a Nasa gastou em 2015?

Sim, US$ 18 bilhões.

Não, não é grande o bastante.

Estou em busca de algo maior, bem maior.

Que tal a Apple? Vocês a conhecem. Eles fazem iPhones, iPads.

Quanto a Apple lucrou nos EUA em 2015?

Cerca de US$ 93 bilhões.

Some tudo e é isso que temos: o que gastamos cuidando de pacientes com câncer no mundo;

US$ 170 bilhões foram gastos no último ano cuidando de pacientes com câncer, e se essa tendência se mantiver, vamos gastar mais.

Em 2020, estaremos gastando cerca de US$ 150 bilhões por ano para cuidar de pacientes com câncer.

Infelizmente, a maior parte desse dinheiro está sendo gasta nos Estados Unidos, nós da Europa Ocidental estamos contribuindo bastante, e o Japão um pouco, mas a grande maioria desses recursos não está indo para onde a grande maioria das mortes estão ocorrendo. É o que chamam de paradoxo 5/80: somente 5% dos recursos direcionados para oncologia estão sendo gastos em partes do mundo onde 80% dos pacientes estão morrendo.

Por que é tão caro? Para onde todo esse dinheiro está indo?

Indústrias farmacêuticas vão dizer:

"Foi muito caro produzir meu lindo medicamento".

E é verdade: em média, os mais novos medicamentos para câncer levam cerca de dez anos para desenvolver e cerca de US$ 2,6 bilhões para produzir. É muito dinheiro.

Talvez isso justifique eles cobrarem em média US$ 10 mil por mês quando esses medicamentos chegam ao mercado.

Isso é para um paciente, para 30 dias de doses de um medicamento que pode aumentar seus dias de vida algumas semanas, ou talvez alguns meses.

São US$ 10 mil para um mês de tratamento para esse paciente.

"Ainda estamos falando disso? Pensei que tínhamos pílulas mágicas!

A gente não tinha curado o câncer?"

Esse foi o título da revista Time em 2001, que descreve uma droga chamada Imatinibe, ou Glivec, um medicamento muito inteligente.

Ele procura uma anomalia genética distinta apenas nas células cancerígenas de leucemia mieloide crônica, ou LMC, desde então, este e mais alguns medicamentos têm, de fato, o potencial de transformar o prognóstico dessa doença.

A assim chamada pílula mágica é linda pois ela mira apenas nas células doentes, e assim, o restante do seu corpo, suas células saudáveis, não são afetados.

Então, essa pílula mágica mata o câncer e te deixa intacto, sem nenhum efeito colateral, mas, obviamente, é difícil produzir pílulas mágicas, e além de poucas, demoradas.

Embora haja de vez em quando casos fabulosos de sucesso, o prognóstico de cinco anos de vida para um paciente com LMC foi de 31% foi pra 89%, quase da noite pro dia, com a ampla difusão desse medicamento.

Mas receio que a realidade seja um pouco menos incrível.

Sem dúvida estamos progredindo, mas o que estamos vendo são benefícios graduais; e sem sombra de dúvida, avanços e e diferenças significativos no tempo de vida de nossos pacientes. É assim que são os números na Irlanda.

Os cinco anos de vida, levando em conta os diagnósticos de todos os tipos de câncer, era de 45% 15 anos atrás.

Você tinha 45% de chance de viver por mais cinco anos após ser diagnosticado com câncer, na Irlanda, e em 15 anos, conseguimos aos poucos elevar esse número para 60%.

Repito, é bem razoável, e engloba todos os casos de câncer.

E quanto ao que está acontecendo no resto do mundo?

Em geral, é um caso tremendamente bem-sucedido.

Essa é a taxa de mortalidade em menores de cinco anos.

A boa notícia é que estamos controlando o saneamento, estamos fornecendo água potável, aprendemos a controlar e curar doenças infecciosas e diarreicas.

Com isso, nossos bebês não estão morrendo no parto, nossas crianças não estão morrendo de doenças diarréicas, e muitos estão sobrevivendo pois recebem tratamento para malária, tuberculose, HIV.

A taxa de mortalidade em menores de cinco anos caiu quase pela metade desde 1990, e por causa disso, a expectativa de vida está alta.

Enquanto há um aumento em todo o mundo, inclusive em regiões do mundo em desenvolvimento, como a nossa, a diferença de maior magnitude está em regiões como a África.

A barra amarela é a mais baixa.

Como pode ver, alguém nascido em 1960 na África tinha uma expectativa de vida de apenas 40 anos, mas a boa notíca é que a bisneta dessa mesma pessoa provavelmente vai viver cerca de 70 anos.

A má notícia: se você viver tempo bastante você vai adquirir um câncer.

O câncer é uma doença da velhice.

Se você teve água limpa, sobreviveu ao parto e não morreu de tuberculose, você vai viver o bastante para adquirir um câncer.

Isto mostra a disparidade no cuidado com o câncer pelo mundo e o que isso implica.

Não é apenas o câncer que você tem, mas o quanto ele está avançado e incurável quando você o descobre, ou o fato de que talvez você não tenha acesso a um médico, muito menos um medicamento para câncer.

As barras azuis mostram o número de pessoas com câncer.

E você pode ver que, em cima na nossa região, junto com Austrália, Nova Zelândia, EUA, sem dúvidas, muitos de nós temos câncer, mas a barra vermelha é o número de pessoas morrendo de câncer, e a barra vermelha é bem menor que a azul tanto para mulheres quanto para homens.

Mas, conforme você desce esta pirâmide, você vê que, se chega até o sul da Ásia Central ou à África Ocidental, a barra vermelha é quase tão grande quanto a azul, e isso é por causa... É assim que o câncer de mama se apresenta em nossa região.

Frequentemente, detectamos algo que a paciente não consegue sentir.

Ela está fazendo uma mamografia e detectamos um câncer assintomático num estágio em que podemos curar.

Mas é assim que o câncer de mama se apresenta no resto do mundo: no lado esquerdo, há uma mulher com um seio completamente tomado pelo tumor, no lado direito, há uma senhora que já não podemos ajudar.

O seio dela também foi tomado pelo câncer, encolheu e atrofiou.

Seu abdômen está inchado por causa de falência do fígado devido a uma avançada metástase no fígado.

O câncer dela se espalhou e agora ela tem câncer de mama em estágio terminal.

Não apenas a forma como esses cânceres se apresentam, mas qual câncer você adquire depende da região do mundo em que você está morando.

Então, esta não é uma situação em que uma solução vai funcionar em todos os lugares.

O IDH é um sistema de pontuação, chamado Índice de Desenvolvimento Humano, que é usado para classificar países em todo o mundo.

São levados em conta: expectativa de vida educação e PIB de um país.

A Irlanda e os EUA seríamos países de IDH bastante elevado, mas os de baixa renda, como se pode imaginar, teriam IDHs médios e baixos.

Em nossa região, vemos muito câncer de pulmão, mama, próstata, colorretal, mas, conforme você passa para países com IDHs médios e baixos, de repente, você vê cânceres entre as cinco principais causas de morte, e são causados por fatores endêmicos, por vírus.

Você vê câncer de estômago, de fígado, causados por hepatite B e C; e câncer do colo do útero, o câncer mais fatal entre mulheres na Ásia e China, causado pelo vírus do papiloma humano, o HPV, um vírus que pode ser prevenido, transmitido sexualmente.

Mesmo a educação por si só pode impactar as ocorrências do HPV, e são essas as causas de câncer em países de menor IDH.

Vê-se que a grande maioria de cânceres tem causas ambientais ou ligadas ao estilo de vida.

Pense nisso.

Não precisamos do lindo medicamento de US$ 10 mil por mês que aumenta um pouquinho a propabilidade de cura.

O que precisamos é prevenir esses cânceres usando medidas de saúde pública que já conhecemos.

Nem todas são baratas, mas podem ser executadas.

Esses são os cinco principais comportamentos que precisamos mudar.

Parar de fumar, educar as pessoas.

Muitos sequer sabem que as hepatites B e C são doenças transmitidas pelo sexo e pelo sangue.

Focar os grupos que mais precisam: profissionais do sexo, profissionais da saúde expostos ao sangue, usuários de drogas injetáveis.

Foque eles, eduque-os, dê a eles as ferramentas de que precisam para evitar o câncer, para conseguir vacinas.

Há vacinas excelentes disponíveis tanto para a hepatite B como para o HPV, aquele assassino de mulheres, que causa câncer do colo do útero.

Já conversamos hoje sobre como é difícil mudar comportamentos.

Temos que mudar nossa abordagem e cultura em torno do álcool, sim, proibir propagandas de bebidas alcoólicas em esportes, reduzir açúcar nas bebidas de nossos filhos, aumentar o imposto em bebida doce.

Não é fácil fazer isso, mas é assim que se previne o câncer, em vez de intervir tarde demais, e já não se pode curar.

Mal temos condições de curar esses cânceres. Precisamos preveni-los.

Metade dos cânceres que conhecemos e temos hoje poderiam ser prevenidos por coisas que já sabemos fazer.

Não posso deixar de dar uma eslaide extra para o fumo.

A proibição do fumo deu certo.

O número de fumantes adultos na Irlanda caiu de cerca de 30% para 20%. É um caso de sucesso, mas o número de fumantes entre mulheres pobres e jovens, entre 18 e 30 anos, que residem na zona urbana da Irlanda, aumentou seriamente para mais de 50%. É aí que elas desenvolvem o hábito.

Vai ser muito difícil fazê-las parar de fumar se elas começarem aos 18, 19, 20.

Por isso, temos ainda um longo caminho pela frente.

O fumo está relacionado a mais de 15 tipos de câncer, e contribui por si só para a formação de mais de 90% dos casos de câncer de pulmão em homens e 50% em mulheres.

E o câncer de pulmão tem sido o mais comum no mundo desde 1985.

Este é um breve eslaide sobre causas infecciosas do câncer, e é possível ver aqui que as infecções contribuem para cerca de 2 milhões de casos de câncer por ano, e que a disseminação é desproporcional dependendo da região do mundo em que se vive.

Repito, temos sorte: onde vivemos, as infecções contribuem para uma minoria dos casos de câncer, mas você verá a barra maior à esquerda representando vírus como hepatite B e C causando câncer de fígado.

O H. pylori, um pequeno inseto, endêmico em algumas regiões, que causa câncer de estômago.

Ele pode ser curado, completamente erradicado em duas semanas com antibióticos baratos.

E quanto ao vírus do papiloma humano, ou HPV?

Um exemplo fantástico de prevenção em sua melhor forma.

O Executivo de Higiene e Segurança do Reino Unido disponibilizou a vacina do HPV para todas as meninas na primeira série na Irlanda gratuitamente.

Há um período de latência entre quando você pega o vírus e quando o câncer provavelmente comecará a se desenvolver de aproximadamente 30 a 40 anos.

Essas são estimativas do impacto que esses programas terão,

Mas, se forem bem-sucedidos, e a vacinação do HPV executada corretamente, estima-se que os casos de câncer do colo do útero, aquele grande assassino de mulheres no mundo, serão reduzidos pela metade em cerca de 40 anos.

Sem sombra de dúvida, prevenir é melhor que remediar.

A segunda melhor coisa é detectar o câncer cedo.

Noventa por cento dos casos de câncer podem ser curados se descobertos no estágio 1, o primeiro estágio, em que na maioria dos casos, pode-se remover por cirurgia.

E de fato, essas abordagens, se usadas cuidadosamente, se destinadas aos grupos de riscos, e não a toda a população, podem sair bem baratas.

A mamografia dá muito certo na maioria dos casos de câncer de mama.

Temos como examinar câncer do colo do útero.

Caso não tenhamos usado a vacina, ao menos vamos detectar cedo, com o Papanicolau, ou tão somente um exame com ácido acético, uma solução de vinagre.

Você nem precisa ser médico para olhar um colo uterino e identificar se há áreas que não se parecem com o restante do colo uterino.

E então, você tem que direcionar as abordagens.

Em regiões do mundo onde câncer de boca é endêmico, examine a boca, abra-a bem aberta, veja com atenção, mande a pessoa buscar ajuda, garanta a ela acesso ao tratamento.

O câncer colorretal, bastante fatal, também pode ser detectado facilmente através do exame de fezes.

Então, eu já falei sobre a prevenção do câncer, como impedi-lo de ocorrer, e um pouco sobre detectá-lo cedo.

E quanto a tratamento?

Como podemos levar tratamento e garantir acesso a quem vive com poucas condições?

Isso se resume a uma coisa: temos que garantir a uma mulher que nasce no Haiti a mesma chance, a mesma oportunidade de conseguir tratamento e sobreviver que teria uma mulher nascida na Irlanda.

Esta é a Evelyn.

Ela é uma paciente que tratamos no Haiti com quimioterapia barata e tradicional, e veja como funcionou bem.

Você pode ver o antes e depois.

Evelyn representa tanto o êxito e as limitações do nosso programa no Haiti.

Ela reagiu maravilhosamente bem aos tratamentos, mas ela nunca mais voltou à clínica.

Não sei por onde Evelyn anda nem o que aconteceu com ela.

Nunca mais a vimos.

A Partners in Health é uma instituição de caridade criada pelo doutor Paul Farmer para oferecer os benefícios da medicina moderna para aqueles que mais precisam, nas regiões mais rurais e pobres do mundo.

Iniciou no Haiti e agora já se difundiu por mais de 36 países em todo o mundo.

Gostaria de concluir com as palavras de Paul Farmer, que disse que a ideia de que algumas vidas valem menos é a raiz de tudo que está errado com o mundo.

Espero ter mostrado que estamos à beira de uma epidemia global.

O câncer vai ser um problema inevitável.

Precisaremos trabalhar juntos para criar soluções conjuntas e flexíveis para prevenir, detectar e tratar nossos irmãos e irmãs com câncer em todo o mundo.

Mas por enquanto, a dica é bem simples: pare de fumar, se alimente bem, eduque e vacine seus filhos.

Obrigada.

(Aplausos)