• slidebg1

O silêncio dos homens | Documentário completo

Pelo que o meu pai nos criou, ele sempre dizia...

Se não fizesse o que ele mandava fazer, o cacete rolava.

A gente não tinha a liberdade de sentar com ele assim, "pai, eu quero conversar com o senhor", a gente não teve isso.

Quando ele sentava pra conversar já era com a tabica na mão.

Reunia os meninos, os meus irmãos, para que um batesse no outro.

"Você hoje vai cortar uma tabica pra bater em quem errou".

Então tudo isso veio numa sequência que me oprimiu até quando eu escutei a minha esposa dizer "estou grávida".

Pronto, eu vou querer para o meu filho, coisas boas.

Não vou querer o que o meu pai fez comigo.

Eu já fui muito agressivo com as mulheres que eu amei, muito agressivo comigo.

O tanto que eu já me tranquei, o tanto que eu fui violento com amigos, com pessoas que eu trabalhava.

Eu achava que o meu jeito era OK, só que eu não aceitava a minha namorada dirigir, eu tinha que dirigir mesmo que eu estivesse bêbado.

Eu não aceitava quando a minha palavra não era respeitada como eu achava que tinha que ser no ambiente do trabalho.

Então eu tinha uma série de teorias e crenças sobre o que eu achava que um homem tinha que ser. É muito comum a gente ouvir, ou sentir, que a gente precisa, como homens negros, no meu caso ainda que de pele clara, ser melhor do que os outros pra chegar em algum lugar.

Se você não for 10 vezes melhor do que o menino branco que tá na sua sala, você não vai chegar nem perto do lugar que ele vai chegar.

Então durante muito tempo eu tentei mirar numa construção do que seria ser um homem cada vez melhor, pra depois entender que o meu aspiracional naquela hora era virar um homem branco.

Era tentar ser um homem que eu nunca ia chegar a ser.

Pra ser macho tem que ser viril, tem que ser competidor.

Homem mesmo tem que estar na roça, tem que cuidar do gado, tem que ir pro arado.

O homem sai pra trabalhar e traz o sustento da casa e a mulher fica em casa lavando louça, cuidando dos filhos, limpando a casa.

Deus mandou assim, Deus disse que homem é isso, mulher é isso, que família é isso.

Ou você está fazendo a vontade de Deus ou você está no pecado.

Esses estereótipos, de que eu não preciso de ajuda, homem não chora, que aparentemente são expressões de força, de potência, na verdade são grandes expressões de covardia, de medo, de temor.

De ser, explícita e publicamente, fraco e vulnerável.

Quebrar o silêncio, a respeito de sua própria fraqueza e vulnerabilidade é uma forma de humanizar-se.

Os homens, eles desde pequeno, eles tem que forjar uma identidade masculina que é essa imagem que é baseada na força, na não sensibilidade. É como se a parte emocional, a parte afetiva não pudesse vir à tona, né?

E isso cria uma camisa de força dentro do universo masculino.

Como se os homens crescessem muitas vezes com as suas emoções todas trancafiadas.

Isso pra mim explica muito por que que os homens precisam competir o tempo inteiro.

Ou botar a sua vida em risco o tempo todo pela honra, pra provar que é homem, pra não levar um desaforo pra casa.

Então assim, os códigos que nós estamos passando, vivendo na sociedade, eles são extremamente ameaçadores pros homens.

Porque os homens, eles se matam e eles matam aos outros.

Eu acho que ser capaz de identificar poucos sentimentos, não ser capaz de nomear o que se sente, é um dos motivos que levam vários homens a usar a violência com linguagem.

Essa linguagem vai perpassar a relação com ele, mas com outros homens, com mulheres, com filhos.

Talvez não seja a coisa mais urgente, mas talvez seja a coisa que mais atinja várias das coisas urgentes que a gente precisa endereçar.

O que os homens estão escondendo por trás de tantos silêncios?

Pra discutir masculinidades é essencial abrirmos essa caixa.

83% das mortes por homicídios e acidentes no Brasil têm homens como vítimas.

Eles vivem 7 anos a menos que as mulheres e se suicidam quase 4 vezes mais. 17% deles lida com algum nível de dependência alcoólica.

Quando sofrem um abuso sexual, demoram em média 20 anos até contarem isso pra alguém.

Cerca de 30% enfrentam hoje ejaculação precoce ou disfunção erétil.

Homens são 95% da população prisional no Brasil, sendo que a maior parte dos encarcerados são jovens, periféricos e com ausência de figura paterna.

Negros e LGBTs sentem muito mais boa parte disso.

Mesmo diante desse cenário, apenas 3 em cada 10 homens possuem o hábito de conversar sobre os seus maiores medos e dúvidas com os seus amigos.

Os homens sofrem, mas sofrem calados e sozinhos.

Abertura emocional tem a ver com você dizer "cara, eu tô com medo de não ser competente no meu trabalho", "eu tô com medo de perder a minha parceira" ou "meu pai tá muito doente e eu não sei como reagir em relação a ele, eu não sei o que falar e eu tenho um monte de coisas engasgadas aqui que eu não consigo dizer".

Isso é abertura emocional.

E eu não preciso fazer isso chorando ou dizendo que eu sou um coitado.

Quando você escolher falar do que tem dentro, você não vai ser menos homem por isso.

Quando um amigo escolher fazer isso, o seu pai, o seu filho, o seu irmão, não faz pouco disso, pergunta por que que ele tá falando isso, o que que ele sente?

Acho que um problema que pode surgir quando a gente fala do silêncio dos homens, é pensar

"bom, os homens estão o tempo todo falando, se impondo, interrompendo as mulheres em tudo que elas tão falando, eles estão em lugares de poder, como assim os homens estão em silêncio?

O que eu mais ouço é a voz de homem falando". É que tem uma diferença entre falar e se revelar de fato.

Então quando um homem fala verbalmente, ele está ocultando muitas camadas de profundidade emocional que ele tem.

Ele fala pra sustentar uma imagem.

A escola tem um papel muito grande neste contexto de o que eu coloco pra reforçar ou questionar o que é esta masculinidade.

Um exemplo que eu gosto de dar, até por ter sido professora de creche, é que a gente aceita os meninos sujos, com o nariz escorrendo, com uma troca de fralda demorada.

O que com as meninas a gente tem uma tolerância menor.

Mas com os meninos a gente vai deixando.

E com os bebês e meninos negros, a gente deixa eles ainda pro final da fila.

Eles são os últimos a serem cuidados.

E quando essas expressões partem dos meninos, quando os meninos, por exemplo tem essa iniciativa de abraçar, a gente ensina rapidamente eles a dar a mão, bate no ombro, não à toa dos meninos é esperado que eles sejam ativos, dominadores, controladores, em detrimento de uma vida interior cada vez mais sob controle e diminuída.

O sentido de ser de nós estarmos no coletivo, é que o coletivo nos humaniza.

Então eu aprendo a ser um ser humanbo.

Eu posso aprender a ser um ser humano mais afetivo ou menos afetivo mediante as experiências que eu vivencio.

Desde a primeira infância, os meninos crescem praticamente sem ver homens exercendo o cuidado.

Só 2% dos educadores nessa fase são homens.

Assim, é natural acharem que isso não é pra eles e que não aprendam a cuidar de si, dos outros nem do ambiente ao redor.

O desempenho escolar dos meninos vem caindo em vários dos países desenvolvidos e também no brasil.

Eles estão desistindo mais dos estudos, entrando menos na faculdade e conquistando menos diplomas.

Eles parecem estar cada vez mais sozinhos e confusos.

1 em cada 4 homens de até 17 anos afirma se sentir solitário sempre.

E 37% deles nunca conversou com ninguém sobre o que significa ser homem.

Será que estamos oferecendo aos meninos referenciais saudáveis para compreender e expressar sua masculinidade?

Não é todo mundo ser humano?

Todo mundo não tem carne, osso, sentimento?

Quem disse que o cara não pode demonstrar sentimento?

Então é essa cena que a gente vai fazer.

A gente começou o Plano de Menina, especialmente com as meninas, mas a gente descobriu ano passado que era urgente falar com os meninos também.

E as meninas trouxeram essa demanda pra gente.

Os meninos começaram a ficar muito mais violentos na escola por conta das meninas estarem mais informadas, identificarem o racismo, o machismo, assédio.

Antes era porque a gente não tinha informação, que a gente sofria.

Agora a gente também tá sofrendo porque a gente tem informação e tá sendo mais pesado.

Meu deus, que decepção, um filho que prefere vôlei do que futebol.

Cadê aquela camiseta do São Paulo que eu te dei?

Ah, eu não gosto de futebol, não torço pra nenhum time.

Nenhum time mesmo?

Nenhum.

Que decepção, vai já pro seu quarto!

Bom, a gente insistiu tanto para que os meninos tivessem também uma roda de conversa pra justamente ser algo que a gente crescesse juntos.

Pra que tanto as meninas quanto os meninos pudessem entender que não é uma guerra.

A gente precisa crescer junto como sociedade, como grupo mesmo.

E eu vejo hoje, principalmente com o Plano de Menino, que ser homem é muito além de, tipo, gostar de mulheres ou ter um orgão masculino, etc. É muito além disso.

Eu lembro que na nossa primeira oficina tinha um menino que hoje é um dos nossos principais multiplicadores na escola.

Com as oficinas ele vinha pra acompanhar os amigos e ficar tirando sarro, né?

E esse menino quando eu olhei ele tava chorando, ele tava super emocionado, ele foi o menino que mais se emocionou na roda e o tempo todo ele falava que tinha que ser o espelho do pai, né?

E o pai era um homem super abusivo, batia na mãe e no meio da oficina ele descobriu que ele não queria ser.

Que ele não queria ser aquela pessoa.

A gente tem esse feedback da diretoria, das próprias meninas, que os meninos mudaram bastante em relação comportamental.

Aquele assédio, aquela brincadeira boba, eles pararam com isso, começaram a respeitar mais, começaram a defendê-las.

Então eles tem sido esses agentes de transformação, viraram nossos aliados, né?

Então a gente começou uma conscientização ano passado com os meninos e começou a promover as rodas de conversa a falar também sobre sexualidade.

Os meninos tem uma questão muito forte em relação à objetificação da mulher que tá muito ligada à pornografia na internet também, né?

Então essa geração ela tem um acesso muito fácil à corpos, à sexo e tudo isso interfere também na visão que tem do outro, né?

O consumo de pornografia atualmente nos meninos começa na fase de 8 a 9 anos de idade, quer dizer, é uma coisa muito precoce, né?

Então esses meninos vão pras relações com uma ideia muito distorcida do que é uma possibilidade de troca entre duas pessoas, pelo menos.

E também eles vão muito com essa necessidade da performance, né?

Da penetração e de performar e acaba que não dá muito certo na prática.

Sem falar no grande problema que é o vício em consumo de pornografia.

Tentaram recentemente fazer uma pesquisa com jovens, que não consumiam pornografia e jovens que consumiam pornografia.

Não conseguiram realizar a pesquisa porque não encontraram esse grupo de jovens que não consomem pornografia.

Hoje a gente vai entrar um pouco em anatomia avançada.

A ideia é de hoje falar de ritual a dois, de práticas para casal e um pouco de rituais individuais.

O curso que eu dou tem o nome de tudo o que o seu pai não te ensinou, sexo e sexualidade, porque eu fiz uma pesquisa com homens e eu vi que de fato os homens não tem essa figura, ou muitos poucos tem essa figura de um homem mais maduro, um homem mais velho com um emocional mais maduro pra que possa ter uma conversa.

Quando eu penso na figura do meu pai eu tenho dificuldade de lembrar momentos em que se conversava sobre sexo assim.

Uma vez eu me lembro que ele me flagrou me masturbando e foi uma coisa muito vergonhosa pra mim e ele deu um tempo, aí ele voltou, sentou do lado da cama e falou: "filho, normalmente essas coisas que a gente faz em relação ao sexo a gente não pode fazer logo depois que a gente almoça porque pode dar congestão".

Eu parei pra pensar hoje, eu falo assim, acho que foi, sei lá, o máximo que ele conseguiu falar sobre sexualidade naquele momento.

Aí eu lembro que ele me deu uma... tinha um chaveiro que era uma camisinha, que falava

"em caso de emergência quebre o vidro".

Acho que esse foi o momento épico de conversa a respeito de sexo ou masculinidade que eu tive com o meu pai.

O fato de um homem ter companhia física, não quer dizer que ele tenha real intimidade.

E intimidade acontece quando você comunica coisas muito profundas suas.

Fragilidades, medos, receios, dilemas.

Então você pode passar anos do lado de um amigo e nunca ter se aberto efetivamente pra ele.

Simplesmente porque você se mantém numa faixa segura de broderagem e de amizade para coisas do lado de fora e não pra coisas do lado de dentro.

A broderagem tóxica e a broderagem saudável é bem esse antagonismo.

Por exemplo, o cara chega numa festa e conta uma intimidade prum grupo de amigos, que aconteceu com ele, por exemplo.

"Fui transar e eu não tive uma ereção, por exemplo".

O cara vira piada, todo mundo vai sacanear, mas muitos ali passaram por essa mesma situação ou tão passando.

E uma broderagem saudável seria o quê?

"Po cara, isso acontece comigo também, vamos conversar, vamos trocar, o que a gente pode fazer?".

Então é acolher essas situações, mas é preciso que, pra que uma broderagem saudável aconteça, que os homens estejam mais maduros com as suas emoções, com a sua masculinidade, mais tranquilo.

Pra que ele possa acolher aquela dúvida, né?

Se tá todo mundo frágil nesse sentido de "não tô entendendo, não sei o que que eu falo sobre isso", melhor sacanear o cara.

6 em cada 10 homens afirmam lidar hoje com distúrbios emocionais, em algum nível. muitos ainda não diagnosticados, pois evitam buscar ajuda.

Os mais comuns são: ansiedade, depressão, vício em pornografia e insônia.

Mas outros vícios, como álcool, demais drogas, comida, apostas e jogos eletrônicos, são mais presentes do que imaginamos.

Então eu acho que a primeira perguntar que eu queria jogar aqui na roda é: existe ou não existe um movimento de transformação dos homens acontecendo hoje?

Nos últimos 3, 4, 5 anos pra cá, né?

Talvez uma roda como essa não seria possível.

Então... sim, tá acontecendo.

Ainda não é perfeito, ainda não resolveu os problemas, mas se a gente pensar que as mulheres estão organizadas há pelo menos 100 anos e também não resolveram os problemas, então a gente sabe que é uma coisa a vir, mas existe.

Para responder essa e outras perguntas, realizamos uma pesquisa nacional que escutou mais de

40.000 homens e mulheres, de todas as idades, raças, classes e regiões.

Além disso, mapeamos dezenas de iniciativas trabalhando com os homens e as masculinidades, de norte a sul do Brasil.

E fomos pessoalmente conhecer algumas delas.

Homens em Conexão é um trabalho de reunir os grupos de homens, os movimentos de homens que a gente tem no Brasil.

A minha história é como a história de muitos homens assim.

De um modelo de masculino bem machista, com o qual eu não me identificava de maneira alguma.

Com a falta de referência de outras possibilidades de ser homem e esse conflito interno de como pertencer a esse mundo masculino, sendo que eu não me identifico com ele.

Então estar nesses espaços, com esses outros homens, com essa pluralidade de homens, de masculino, essa sensação de pertencimento de *uhhh*, quem eu sou também é bom.

Isso não tem preço, né? É um encontro que eu esperei durante 30, 40 anos, um encontro para discutirmos o que que é, como estamos sendo homem na nossa comunidade, né?

Entre nós e com as mulheres e na nossa sociedade, enfim. É o grupo que eu queria ter conhecido há 30 anos atrás, né?

Eu fico imaginando o que que vão ser os próximos 30 anos dessa garotada.

Então pra mim, esse encontro e esse trabalho com os homens é algo que quase que eu não tenho nem escolha de não fazer.

Ele acontece, ele me chama, ele me nutre nesse nível.

Eu não consigo explicar, mas que é muito nítido toda vez que eu participo.

Eu acho que os homens tem que se entender no seu lugar de privilégio e saber se pensar a partir disso e saber se recolocar.

E como às vezes é hora de recuar, às vezes é hora de ouvir, às vezes é hora de abrir espaço para outras pessoas.

Então assim, isso significa o que no ambiente de trabalho?

Isso significa o que dentro de casa?

Os homens não estão sendo convidados ou se sentindo instigados a refletirem porque caiu uma maçã na cabeça deles e eles entenderam que é hora de mudar.

Não, houve uma mudança na sociedade e isso gerou dificuldades pros homens.

Então essas novas masculinidades, elas estão se produzindo e sendo empurradas pelos movimentos das mulheres.

Esqueçam o papel, circulem à vontade pela sala, contemplando o outro com o olhar.

Não precisa pegar em ninguém, nem agarrar ninguém agora, tá?

Contempla o outro com o olhar, circulem livremente.

Olha, a dinâmica mais forte que eu tenho trabalhado na dimensão, nas aulas, é a dinâmica do beijo.

Eu faço um momento de caminhar na sala e depois eu fecho um círculo e dou o seguinte comando: eu vou fazer um gesto e eu quero que esse gesto circule e ele volte pra mim.

Voltando à roda normal, um círculo, vamos tentar ficar próximo um do outro, como a gente tá aqui.

Eu vou fazer um gesto agora e esse gesto ele vai circular no grupo e ele vai voltar pra mim, tá?

Quando chega nas meninas é tranquilo, mas quando chega na parte que tem lá, um grupo de homens juntos.

Aí começa a resistência.

Alguns colocam a mão no rosto pra dar o cheiro na mão, outro dá o cheiro na cabeça, outro não consegue dar o cheiro.

Em uma dessas turmas passadas, no meio da dinâmica, um rapaz começou a chorar.

Ele foi tomar água e depois que a gente terminou a dinâmica ele voltou pra reflexão da dinâmica.

E eu perguntei pra ele o por quê que, durante a dinâmica, ele tinha se emocionado tanto e ele olhou pra roda, olhou pra mim e disse: "Professor, eu nunca tive coragem de dar um abraço e um cheiro no meu pai.

Porque lá em casa sempre quem foi ensinado a abraçar e beijar era minha irmã com mainha.

E com o meu pai eu não podia fazer isso".

Trabalhar essa equidade aqui dentro do curso e dentro do SERTA é a gente possibilitar esse espaço pra que esses atores, eles percebam algumas dimensões que lá fora muitas vezes eles não conseguem perceber ou não tem a oportunidade de perceber.

Boa noite pessoal! É uma alegria ter vocês aqui pra gente poder conversar sobre assuntos relativos ao universo masculino, sobre o que a gente tem vivido, sobre o que a gente passa, sobre o que a gente já passou.

E muito provavelmente sobre coisas que talvez a gente não tenha falado com ninguém ou não tenha falado claramente ainda com outras pessoas.

A roda de ontem foi excelente, gostei muito e espero que a gente dê continuidade a essa dinâmica, esse conhecimento.

Porque primeiramente a gente se descobre, aquilo que tá, digamos assim, oculto dentro de nós que possa se expandir, se esclarecer.

Aquela roda de ontem foi isso, foi sair da escuridão.

A própria história, ela se concebeu um pouco como se o homem do campo ele fosse um ser intocável, que ele tem que ser aquele exemplo de homem forte, né?

Que é o homem do pesado, que é o homem que não chora, mas quando a gente vivencia essa metodologia aqui de formação, a gente começa a compreender um outro contexto.

O próprio homem, ele começa a se perceber com um outro olhar.

Repensar a masculinidade parte do repensar qual que é o nosso cuidado com o outro.

Eu dei um exemplo num grupo de pais pretos um tempo atrás, que os caras estavam falando, reclamando das suas companheiras e aí eu fiz uma pergunta, lancei uma pergunta.

Falei, escuta, você sabe, a sua filha tem 5 anos, né?

5 anos.

Você sabe quantas calcinhas a sua filha tem na gaveta dela?

Aí o cara me perguntou: "Po, mas o que essa pergunta tem a ver?".

Alguém tem que saber.

Quando eu faço esses questionamentos, eu faço também pra mim.

Porque eu também me vejo nessa posição de "eu não sei quantas calcinhas a minha filha tem lá na gaveta".

Você tá jogando essa carga pra uma outra pessoa.

E aí uma pergunta que eu trago: Por que que ninguém se prepara para a paternidade?

Porque parece que vai vir uma luz divina quando a criança nasce e vai iluminar o nosso ser e a gente *ohhh*.

A partir daquele momento você é um pai.

Só que o amor não é construído de uma hora para outra, uma relação não é construída de uma hora para outra.

Para cuidar de um filho realmente você precisa se conectar num nível emocional e pra isso você precisa entrar em contato com emoções que talvez você como homem nunca se permitiu.

Você se atentar a uma noção de futuro, que te traz uma responsabilidade.

A não somente sair com o menino e sair à rua.

Mas sair e pensar num tempo, numa logística de comida.

Que faz parte do homem a questão do não cuidado.

Homem se cuida menos e pra se cuidar menos é muito difícil você cuidar de alguém.

A maioria dos homens afirma ter o pai como principal referência de masculinidade.

Mas só 1 em cada 10 já conversou com o pai sobre o que significa ser homem.

Em nossa pesquisa, identificamos o quanto os homens concordam terem sido ensinados cada uma das crenças a seguir, durante a infância e adolescência.

Ser bem sucedido profissionalmente.

Não se comportar de modos que pareçam femininos.

Ser fisicamente forte.

Ser o responsável pelo sustento financeiro da família.

Não expressar minhas emoções.

Dar em cima das mulheres sempre que possível.

E somente 2 em cada 10 homens dizem ter tido exemplos práticos de como lidar com as suas emoções

Por que pais e filhos têm tanta dificuldade em conversar sobre as pressões que enfrentam como homens?

Como os pais podem ser mais presentes, abertos e afetuosos?

O curso Gestação e Parto para Homens, esse nome às vezes até gera um estranhamento, né?

Como assim gestação e parto para homens?

Homem não pari.

Mas é pra gerar já esse primeiro questionamento, como assim?

Eu trago aí conhecimentos sobre a fisiologia dessa mulher, as transformações.

Muito o que acontece realmente sobre a mulher, com a mulher, durante a gestação.

Fazer com que esse homem se prepare para o parto.

O principal objetivo é sensibilizar, é trazer conhecimento e é trazer a reciprocidade desse casal.

Acho que os pilares da paternidade mudaram muito.

Antigamente a gente tinha uns pilares que se baseavam em três Ps, se eu puder falar assim.

Papi, papi, você falou pilar.

Pilar, é verdade, pilar tipo... porque é isso, olha, isso é um pilar.

Então é onde tá em cima uma coisa.

Então, antigamente tinham 3 pilares.

O pilar da proteção, da procriação e da provisão.

Então a transformação numa paternidade ativa é deixar pra trás um pouco a questão da simples proteção e passar pro cuidado.

Então já não é um pai que entra e resolve.

Agora a gente tem um pai que cuida, então é um pai que já não está esporadicamente, mas tá presente, já não tem uma atitude passiva, tem um atitude ativa.

Antes de qualquer coisa, se refletir, o que é ser homem?

Quais são as minhas referências paternas?

E pensar, o que é que eu quero replicar? É estudar mesmo, é se dedicar.

Porque sem conhecimento a gente não vai conseguir ser empático.

E aí quer bater foto, né?

Beijando a barriga, pros outros falarem que é paizão, mas o cara não tá nem aí.

E se necessário se impor, não tô achando graça no que você tá falando, brother.

Ah, é pau mandado.

O que você quer dizer com isso?

Porque realmente eu tô indo lá cuidar da minha esposa, do meu filho?

Eu sou pau mandado?

O que que você faria?

Então é questionar também, isso precisa ter coragem.

Se você tem um pai, que tá com você, que te ajuda, presente, você é privilegiado sim.

Eu vejo que não sou só eu, tem muita gente necessitada dessa figura paterna.

E entre nosso bonde, principalmente entre os rappers e uma juventude do passinho e tal.

A gente tem umas piadas assim: "ah boy, você tem pai, então é boy, boy, boy...".

Então quando tem pai é boy.

Tem um dos meninos que ele é muito engraçado, é um menino gay, o Dudu.

Ele sempre faz uma piada quando ele precisa de alguma coisa, quando ele precisa de celular, ele pega meu instagram e fala "galera, meu celular é igual meu pai, não tem.

Tô precisando de um celular e tudo mais".

Eu acho que a gente começa a ter alternativas de mostrar para a criançada o que é ser um homem legal, incentivando homens legais a protagonizarem.

O Lá da Favelinha é um centro cultural independente que é auto-gerido pelos moradores da comunidade.

A gente tem 16 oficinas semanais, todas as oficinas são voluntárias.

A gente tinha um bazar, esse bazar era pra completar a renda do lanche, aí peguei umas peças de bazar, montei os looks com o que eu já tinha e botei a galera pra desfilar na passarela.

Aí nasceu o Favelinha Fashion Week.

Eu percebi que era quase que óbvio isso que ia acontecer, do jovem estudar numa escola pública e tal e ele quando chegasse nos 12, nos 13 anos tinha muito esse espelho do tráfico.

E quando não era o espelho do tráfico e ele queria trabalhar, só nos restava subemprego.

E eu comecei a pensar nisso de poxa, até quando a gente só vai ter que ser diarista, faxineira, motorista.

Se você quiser ser pedreiro, hoje em dia com a minha visão, vai ser o melhor pedreiro, sabe?

Nós vamos fazer de tudo pra você ser o melhor pedreiro, mas que seja o seu sonho, não que você tá ali porque sobrou, porque na verdade você queria ser astronauta.

Se você quiser ser astronauta, vamos ser astronauta.

O Kdu é uma pessoa muito mente aberta, ele é uma pessoa, tipo assim, ele não quer saber se é homem, se é mulher, se é gay...

Ele abraça e cumprimenta e brinca com todo mundo, como se todo mundo fosse o que todo mundo deveria fazer... como se fosse todo mundo igual.

Isso é muito interessante, eu comecei a aprender muito sobre a diversidade e a respeitar opiniões, aceitar jeitos através disso, com essa convivência.

Então não existe essa questão de padrão, de certo e errado.

Aqui na Favelinha a gente tem uma rede de apoio muito forte.

Então eu pego muito pra esse lado de ir além de ser só o brother "ah nóis é amigão aqui e tal" e na hora que você tá sofrendo tipo "ah, sem tempo irmão".

A gente tem que ter tempo pra esse lado, então todo esse convívio faz com que a gente crie essa rede de apoio por onde a gente passa é o reflexo dessa rede, é o reflexo de tipo

"te amo, sou seu brother e não vamos só até a página 2, vamos escrever a história inteira, sabe?

Vamos ler juntos, desenhar juntos, vamos diagramar juntos e juntas".

A categoria existencial do homem, o homem com H maiúsculo, é a categoria do homem branco.

Esse é homem.

Quando se fala da figura do homem, o que se espera do homem, o que se pensa do homem, esse é o homem, o homem ideal.

O homem negro nunca vai ser o homem ideal.

Não é a toa que a célebre frase do Frantz Fanon: "O homem negro não é um homem".

Diz muito sobre a nossa condição, a condição de que antes de tudo você é um negro.

E esse negro vai ser sempre correndo atrás do prejuízo em relação ao que você pode fazer para ocultar esse lugar do ser negro.

E a gente vai tentando se constituir para se aproximar do homem, do branco.

Pra eu me entender eu tive que entender as questões do meu pai e pra eu entender as questões do meu pai era engraçado que meu, você quer destruir a masculinidade do menino negro é você falar que você é igual o pai dele.

Só que não lembrar pelo bom aspecto, lembrar pelo mal aspecto.

Você é igual ao seu pai, vários meninos negros ouvem isso.

Ser um menino negro é estar nesse lugar onde essa ideia de país não quer cuidar desse menino negro, não quer cuidar dessa população negra como um todo, né?

A gente precisa fazer com que os meninos pretos sobrevivam, porque eu tenho filho preto, né?

8 anos de idade, o nome dele é Jorge.

Num determinado momento ele vai chegar em casa a partir daqueles 12, 13 anos que começam os enquadros, ele vai chegar em casa um certo dia chorando e vai falar: "Pai, tomei um enquadro da polícia e foi pesado".

Como não pegaram leve comigo, porque eu era ingênuo.

Quando eu tomei o meu primeiro enquadro da polícia eu cheguei em casa tipo como?

Não sabia o que que era aquilo.

Isso aconteceu.

E ao mesmo tempo eu já tive amigo branco que falou assim pra mim

"cara, eu nunca tomei enquadro".

Eu falei "O quê?".

"Nunca tomei enquadro".

"Como assim, mano?".

Nunca tomou enquadro?

Então a gente acaba ficando familiarizado com uma coisa que não deveria ser comum.

Mas sem dúvida eu acho que tem algumas experiências que são mais pontuais, como exemplo, a primeira batida policial, por exemplo, que eu tomei no dia do meu aniversário.

2004, nunca vou esquecer, uma arma na cabeça, estava saindo de um show, indo pra casa de um amigo que faz aniversário no mesmo dia que eu.

A dor é entender que eu ocupo um lugar que independentemente do quão eu sou, do quão eu estudo, de quão bonito eu sou, de quão bem vestido eu sou, de quão cheiroso eu sou, de quão legal eu sou, isso vem antes de mim.

Isso vem antes de mim.

Então a gente pode cegamente entrar numa lógica de remediar a violência em relação ao homem preto e nunca olhar pros reais motivos que construíram esse ambiente violento que cerca o homem preto, que mata o homem preto a cada 23 minutos.

Não tem como a gente falar de masculinidade preta e não falar de violência.

E aí que a gente vê que o racismo é uma estrutura muito bem preparada, porque ela porque ela faz com que você sofra o racismo e ela cobra que você não seja negro.

Faça o possível para estar no nosso sistema, mas eu vou te derrubar porque você é negro.

Todo esse processo midiático de embranquecimento faz com que a gente não consiga mais reerguer, que a gente tenha muitas dificuldades para reerguer uma noção de povo.

Porque a televisão não vai dizer pra gente quem foi Malcolm X, quem foi Steve Biko.

A gente tem referência de masculinidade, a gente tá num momento em que o homem negro grita de diversas formas pra que a gente consiga enxergar essas referências.

Quando você fala quebrar o silêncio dos homens, quando você fala do silêncio dos homens brancos, quem silenciou o homem branco?

Se o homem negro tem algum silêncio a ser quebrado?

Se você for perguntar isso para um homem negro, com certeza!

Sem falar os corpos que saem de todo o canto. É sério meu mano, essa noite eu vou ficar de canto.

Eu calarei o meu canto, enquanto o meu pranto não absorve o sentimento dessa porra que vem me matando.

Mas ó, eu aprendi a ser falso com quem é falso comigo, tá ligado?

E eu tenho uma vantagem, eles acham que eu não minto e acham que na mentira deles eu acredito ó.

Mas eu, na minha sagrada observação eu sigo convicto, invicto contra os meus demônios que me pedem pra ser cínico.

A transformação do homem preto nas rodas de conversa ela é visível, principalmente quem nunca foi ele começa a entender que o que ele encontra logo de cara é o afeto entre os homens pretos.

Caramba, existe essa parada.

E a gente tá aqui, agora, pra mim, pessoalmente, é urgente pelo moleque preto que vai jogar no Youtube alguma coisa, às vezes nem sobre masculinidade e vai aparecer esse vídeo e tipo, não tem lá um homem preto reproduzindo uma fala da masculinidade branca.

Tem um homem preto que identifica aonde tá pisando, critica o lugar aonde pisa e quer construir lugares de autonomia para esse povo preto.

Acho que viver com medo é quase que um padrão para qualquer pessoa que faça parte de qualquer minoria.

Seja mulher, que não sai na rua sem medo de ser assediada, seja gay que sofre medo de sofrer uma violência, seja um negro que sai na rua e alguém acha que é um assaltante.

As pessoas trans morrem não é por causa de outras pessoas trans, as pessoas trans morrem porque essa norma do ser homem, do ser mulher é que mata a gente.

Essa raiva, esse ódio que mata as pessoas trans.

Que violenta os gays, que violenta as lésbicas, que violenta as mulheres, é isso tudo que violenta a sociedade.

Quando eu me coloco como um homem dentro da sociedade, a sociedade me cobra uma postura de homem.

Me é cobrado "você não pode chorar" e aí é uma coisa muito recorrente entre homens trans que quando começam a assumir os papéis masculinos dentro da sociedade, eles falam: uma coisa que eu notei que eu parei de fazer quando eu cheguei nessa masculinidade foi, eu parei de chorar.

Eu me vejo obrigado a seguir um padrão para ser aceito com homem.

Acho que todo homem, independente de ser hétero, ser gay, ser bi, o primeiro xingamento que ouve na escola, ainda criança é bicha.

Você nem sabe o que que é bicha, mas você aprende que aquilo é ruim.

Quando você se descobre bicha, você vê que você é gay, você quer esconder aquilo, você quer negar aquilo pra você mesmo, porque você aprende que é errado e você aprende numa fase em que todos os seus valores estão sendo formados, né?

Isso é péssimo porque você tem que desaprender muito do que já tava formado ali pra você se aceitar, pra você sair do armário, pra você depois contar pras pessoas e ensinar algumas que aquilo não é errado, então é um esforço muito grande.

Se você perguntar à igreja o que é a relação masculina e feminina, é uma relação hétero, indissolúvel, monogâmica, fiel até a morte, para gerar filhos.

Só que nós vivemos num tempo em que todas essas multiformes, expressões de identidade pessoal e de identidades de relação estão hoje dentro da igreja, querendo ou não, está lá.

E a igreja vai precisar aprender a lidar com isso.

Talvez muita gente enxergue a desconstrução desses valores como se a gente estivesse destruindo a sociedade.

Muita gente que diz que quem tá questionando esses valores quer destruir a família que quer destruir o tradicionalismo.

Não, tem algumas pessoas que não correspondem a isso e também tem o direito de existir.

A igreja precisa entender a novidade do evangelho e é um dos meus lamentos essa igreja violenta, excludente. É que ela ainda não entendeu a graça de Deus, ela ainda está na lei de Deus.

Ela quer controlar o mundo pela legislação.

O melhor exemplo pra isso é quando uma mulher pega ou flagrada em adultério é trazida pra Jesus.

E as pessoas, os religiosos da época dizem: a lei mandar apedrejar uma mulher que adulterou.

Jesus diz: apedreja, tá na lei?

Deu um impasse e Jesus completou: quem não tem pecado atire a primeira pedra.

O que Jesus tá ensinando?

Não se constrói sociedade com lei, a gente constrói sociedade com graça, amor e perdão.

Eu acho que existe uma relação muito forte entre a dor que um homem sente e a dor que ele provoca.

Os crimes de honra são associados à masculinidade, os estupros são relacionados à masculinidade.

71% das mortes, dos feminicídios, melhor, são provocados pelo ex ou pelo atual.

71%.

Então é esse o nível de masculinidades, é esse o nível de dores provocados por uma compreensão errada do que deveria ser um homem.

Todo o silêncio que você vai guardando dentro de você vai formando uma... um turbilhão de emoção e chega uma hora que você explode e talvez essa explosão não seja tão positiva.

Com 28 anos eu engravidei uma mulher e eu tava em abstinência, a gente iniciou uma discussão, eu já tava casado.

E daí, no meio dessa discussão eu acabei agredindo ela fisicamente.

Mas assim, antes dessa agressão física, pô, agressão psicológica era diária, né?

Acho que toda mulher tem uma história de violência pra contar, toda mulher tem várias histórias de violência pra contar.

São violências que aconteceram em casa, são violências que aconteceram no ambiente de trabalho, são violências que acontecem na rede.

Praticamente 60% dos casos eles ocorrem quando a mulher fala que quer o divórcio ou fala que quer romper o namoro, o relacionamento e ele não se conforma.

E infelizmente, a forma dele reagir à isso é com violência. Óbvio que nós vamos falar da mulher, trabalhar com o empoderamento feminino e com toda a parte de proteção e assistência à essa mulher que sofre violência.

Aliás eu dedico os meus dias à isso.

Porém, nós temos que falar do outro lado da violência.

Quem é esse homem que está agredindo essas mulheres?

Por que que ele está agredindo essas mulheres?

Como fazer com que ele não agrida mais?

Porque todos os casos de feminicídio vem numa escalada da violência.

Se você consegue impedir, de alguma forma aquele homem de continuar nesse fluxo, nesse ciclo.

Você consegue evitar a morte de uma mulher.

E aí com pesquisas, conhecendo outros projetos, inspirada em outras experiências eu desenvolvi o Tempo de Despertar.

O Tempo de Despertar é um projeto de grupos reflexivos de homens autores de violência, lá se discute construções sociais, se discutem relações entre homens e mulheres, pra que eles vão se conscientizando, refletindo sobre o que eles pensam ou deixam de pensar e sobre o que que eles podem fazer pra diminuir a violência.

Eu recebi uma intimação, não sabia do que se tratava, fui no fórum pra ver, aí eram essas reuniões.

Eu fiquei completamente revoltado.

Eu falei, pô, eu não tenho que estar aqui, eu não tô mais com a pessoa que eu agredi, eu não uso mais droga, eu não tenho mais problema.

São reuniões a cada 15 dias, os encontros.

Eu fui no primeiro, não gostei, saí de lá super revoltado.

Mas enfim, aí fui no segundo...

No terceiro encontro, no final do encontro, eu tive a oportunidade de expor o meu caso.

Eu fui me abrir com o pessoal da equipe, tal, e daí eu falei pô, tem muita coisa pra mim mudar, sabe?

Tem muita coisa pra mim aprender aqui.

Eu comecei a ir, mas com vontade, sabe?

Como são a cada 15 dias, uma semana sim, uma semana não.

Na semana que não tinha eu comecei a sentir falta do projeto, sabe?

Quando finalizou, finalizou em dezembro.

Eu, em janeiro, já tava procurando eles porque eu queria mais, sabe?

Quantos homens vão ao psicólogo?

Eles vão segurando pra eles aquilo sem nenhum tipo de ajuda e a hora que isso estoura, ela vai estourar ou na violência ou no uso excessivo de droga.

Ou no uso excessivo de álcool.

Tudo isso traz pro homem uma mistura de sentimentos que acabam se revelando em comportamentos agressivos e violentos contra a primeira pessoa que está lá e que ele sabe que por uma construção histórica, cultural e por falta de uma legislação rígida, ele pode agredir, violentar sem que nada aconteça com ele.

Então esse quadro precisa ser mudado, ele precisa se conscientizar que não é isso que resolve o seu problema.

Foram as próprias mulheres vítimas de violência e isso é muito importante falar, que me deram a luz de trabalhar com os agressores.

"Conversa com ele".

"Promotora, por favor, chama ele aqui".

Hoje eu consigo tratar a minha companheira com o respeito que ela merece, sei que eu não vou ser menos homem porque eu tô passando um pano ou porque eu tô lavando uma louça ou porque fui pro fogão, sabe?

Sei que eu tô ajudando ela até por que eu moro na mesma, eu moro ali, não é que eu tô ajudando ela, eu moro ali, a obrigação é minha também, né?

Então, assim, eu sou muito grato ao projeto, né?

Porque eu acho que eu não conseguiria nem tá limpo das drogas ainda se não fosse o projeto mudar o meu comportamento.

Nós conseguimos diminuir a reincidência com os grupos reflexivos desses homens que eram 65% reincidentes pra quanto de reincidência?

2%.

Então é um resultado... quase nenhum desses homens voltou a cometer atos de violência contra a mulher.

Mas do ponto de vista social, subjetivo.

O maior resultado é esse homem voltar pra mim e falar o seguinte: "Doutora Gabriela, eu não cometo mais violência contra a mulher, mas tem uma coisa que isso me ajudou, eu consegui olhar para os meus filhos e falar eu te amo".

"Eu consegui entrar num grupo para tratar do meu alcoolismo, eu tenho mais amigos no trabalho".

Pra mim é o resultado mais expressivo desses grupos reflexivos de homens, mostrando que há essa possibilidade, é efetiva e os homens podem sim despertar para uma nova vida.

Qual a percepção das mulheres sobre o progresso dos homens?

50% das mulheres concordam, em algum nível, que os homens estão agindo de modo menos machista nos últimos anos.

E 65% delas afirmam que os homens que são pais estão participando cada vez mais.

Entretanto, 54% acreditam que eles ainda não entenderam completamente que elas merecem as mesmas oportunidades e direitos.

E somente 28% das mulheres acham que os homens estão assediando menos.

Mas será que eles estão confrontando seus amigos?

6 em cada 10 homens afirmam já ter deixado de lado pelo menos uma atitude machista ou homofóbica apontada por outra pessoa.

E 5 em cada 10 homens de até 17 anos afirmam confrontar seus amigos com frequência.

Ou seja, muitos de nós parecem ter dado um primeiro passo para a mudança, o que é ótimo, mas há muitos outros degraus pela frente.

Ainda hoje a gente percebe questões de gênero como coisas a parte dos homens, assim.

Mas o que eu vejo em movimento é justamente esse reconhecimento de que a gente também precisa, sempre alinhado às mulheres, também olhar pras nossas questões e também perceber que temos grandes responsabilidades.

Eu percebo esse movimento acontecendo assim.

Então quando um homem se percebe machista e ele começa a questionar aquilo, não é uma questão só racional, tem um componente emocional muito forte, tem a ver com ele ficar no escuro, perdido, sem saber o que ele de fato é.

Então até que ele encontre uma nova identidade que seja segura, reconfortante, que traga benefícios pra ele, ele não vai abandonar aquela outra identidade que ele tem muita familiaridade, que ele viveu até aquele momento.

Eu sou machista, vivi e fui criado numa sociedade machista.

Eu vou me educando através de relacionamentos, através de conversas pra ser o mínimo de machista que eu consigo.

Só que quando alguém me falar que eu sou machista, eu não preciso estar com duas pedras na mão e pensando: "Pô, mas eu não sou machista 99% das vezes, você vai falar dessa uma vez que eu fui machista?".

Sim vai falar dessa uma vez que você foi machista, assim como se alguém falar sobre a uma vez que você foi racista, ouça.

Por exemplo, na relação heterossexual, a divisão de tarefas dentro de casa.

Porque isso é uma demonstração de consciência do próprio lugar e de respeito ao outro, ao tempo do outro.

Acho que isso é uma coisa prática, fácil de fazer.

Não tem que ler um livro, não tem que fazer uma imersão, não tem que fazer nada. É tipo, vai lá, enfrenta a louça, é muito simples.

Vai no mercado, vê se na geladeira tá faltando alguma coisa, bota uma roupa pra lavar.

Não pode ser uma responsabilidade das mulheres educarem os homens.

Agora vocês vão ter que ser desse jeito.

Não, pera, você acha que tá dando certo ser assim?

Você acha que faz bem ser assim?

Se você começa a achar que não faz bem ser assim, porque que você não fala com o seu amigo que não é legal aquilo que ele tá fazendo?

Eu acho extremamente importante os homens conversarem entre si por uma razão muito óbvia, nós não aprendemos a conversar.

Falar com outro homem pode ser o início dele se soltar e poder falar com o mundo, interagir melhor com o mundo, de uma outra forma. É pelo desconforto e pelo acolhimento desse desconforto é que pode se gerar essa transformação.

Como fazer isso?

Estar sujeito, estar disponível a esse desconforto.

Muitas vezes diz que se quer transformar, diz que se quer fazer parte desses grupos, mas nunca passa da página 1.

Que é o se ver, o se reconhecer, se responsabilizar em relação às coisas que você faz, você pensa, você decide.

Então, acho que pra criar um grupo desse as pessoas tem que estar dispostas a lidar com o desconforto.

E claro, com a possibilidade de escutar.

Então a gente tem um papel fundamental nesse debate, já que somos nós os protagonistas da violência, somos nós que nos matamos mais, somos nós que violentamos de uma maneira geral, muito mais que do que qualquer outra pessoa.

Olha, eu acho que os grupos de homens se reunindo atualmente é necessário assim, principalmente por ser esse espaço de broderagem saudável.

Quando junta mais de dois e não tá ali pra fazer bullying um com o outro, eles estão ali pra mostrar vulnerabilidade.

Então aí cria um campo, um espaço incrível.

Então assim, é preciso que tenham mais grupos se encontrando, mais espaços.

Eu recebo comunicados de homens de outras cidades, falando: "Pô, como é que eu posso fazer pra conversar, eu não tenho com quem conversar".

Então criar um grupo de homens é uma coisa muito simples.

Passa por ter um incômodo e a disposição.

Eu vou convidar amigos que eu sinto que tem o mesmo incômodo.

A gente vai sentar numa roda e se fazer boas perguntas.

Perguntar quais são os medos, obstáculos e vergonhas que a gente tem.

A gente vai se responder com sinceridade, em primeira pessoa.

A conversa não é teorizando, não é falando dos homens, da sociedade, do Brasil. É eu sinto, eu vivo, eu tenho esse obstáculo, eu tenho essa alegria, esse sonho.

Então eu acho que os benefícios são nas pequenas transformações individuais que depois viram pequenas transformações sociais em grupos de amigos.

E uma vez que você muda o seu comportamento não dá pra voltar atrás, né?

Uma vez que você consegue escutar mais, você aprende a ficar mais calado.

Uma vez que você aprende a sentir mais empatia, você coloca isso em movimento.

E de repente você já é um homem diferente do que você era, não só há 5, 4 anos, mas às vezes diferente do que você era da última vez que você discutiu com alguém semana passada.

Se a gente volta uns 20 anos, a gente vê o surgimento do instituto Noos, instituto Promundo, tem o Benedito Medrado, Jorge Lira, Marcos Nascimento, pessoas incríveis olhando pra isso.

A gente vê o movimento Guerreiros do Coração e o que a gente vê é que nos últimos dois anos teve um boom, em especial nos últimos 12 meses.

Tem iniciativas surgindo pelo Brasil inteiro, de norte a sul.

Iniciativas com cunho mais espiritual, com cunho mais corporal, com cunho mais político, que trabalham com o olhar da raça, da paternidade, tem vários caminhos.

Todos os homens, eu como homem, preciso assumir responsabilidade.

Pelo que eu faço de ruim e destrutivo, comigo mesmo, com outros homens e com as mulheres.

Pra mim esse é o movimento possível, seja qual for a perspectiva.

Quebrar o silêncio e conversar entre nós é um excelente primeiro passo.

Porém, só 1 em cada 10 homens já participou desses grupos.

A boa notícia é que 61% deles afirma ter vontade de se juntar a um.

Cada vez mais iniciativas estão surgindo pelo país, mas o volume total ainda é pequeno.

Precisamos de mais homens dispostos a criar e serem caseiros desses espaços de transformação.

Nosso sonho é que cada um dos municípios do país possa ter pelo menos um grupo.

Esse é um movimento de coragem, coragem pra assumir responsabilidade, coragem para escutar as mulheres, coragem para abrir nossos corações, sermos vulneráveis e nos ajudarmos a construir vidas melhores.

Não é um movimento de homens virtuosos e bonzinhos, muito menos de "novos homens", é um movimento de homens comuns, como eu e você.

Mãos à obra?